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Boa noite, povo!

Batendo palmas e dançando dentro de um vestido de tecido simples, estampado de flores azuis e amarelas, ela entrou na sala e roubou a atenção de todos. Havia uma luz intensa e nítida ao seu redor, como se algum spot de luz houvesse iluminado a personagem principal de uma peça que acabava de começar. Era ela a personagem. Só que não havia teatro, nem spots, nem mágica. “Em algum lugar, em uma dobra do tempo muito longe daqui, existe uma estrela com o seu nome e ela brilha em contagem regressiva até o dia em que você tomará seu lugar”. Foi o que ela me disse.

Dançava como se estivéssemos em um grande baile, uma festa animadíssima, mas a música que tocava só ela ouvia, a energia da pista de dança só era sentida por suas pernas e os pés, que deslizavam com habilidade, exibiam uma lista de passos decorados que ninguém mais sabia executar. Era uma bronca, essa dança dela! Quem mais estava na sala comigo? Sem perceber, comecei a perder a noção do entorno, como se aos poucos, conforme evoluía no dançar, ela me separasse do resto para dar um recado particular.

Em dado momento passei a me questionar se ela era uma só ou se havia alguma chance de serem duas, doze, duzentas ou número maior. Sentia a presença de muita gente na sala, todos sabendo dançar um ritmo que nunca fora apresentado a mim. As cores do vestido e a leveza do tecido desenhavam cenários surreais, como se fossem mapas de destinos que eu deveria visitar em algum momento entre esse evento inusitado e o fim dos meus dias. Que tipo de medo é o sentimento de não querer saber uma novidade que estão prestes a nos contar? Eu não sabia se queria saber, mas tinha certeza de que aquelas mulheres, aquela mulher, queria ou queriam me dizer algo.

Veio ao meu encontro, me abraçou com braços fortes, me puxou de encontro ao seu peito quente e acolhedor e entrou para dentro dos meus olhos. Eu via o que ela queria me mostrar. Mesmo que fosse de fora, me sentia um observador participante de cenas que nunca ocorreram na minha vida conhecida. Mesas enormes com comidas que nunca provei estavam tomadas de pessoas enormes e importantes vestidas de forma exuberante. Por algum motivo eu sabia que eram importantes. Líderes de alguma coisa? Sábios? Gente que ainda não tinha involuído de alguma forma? Senti uma extrema vontade de sorrir.

“Boa noite, povo!”, eu disse em saudação, sem palavras, porque nesse banquete as conversas se davam de outro jeito. Alguém sem rosto tocou minha testa e então me separei do corpo. Me vi parado olhando para a enorme mesa, a dançarina do vestido florido logo atrás de mim, em uma postura muito semelhante à minha e a cena acontecia sem minha interferência. Ouvi uma música, como um grande coral muito bem ensaiado e senti meu corpo pesar uma tonelada. Desmanchei no chão e senti minha cabeça se chocar contra algo duro e frio. Quando recobrei a consciência ainda eram 10h da manhã e tinha um dia inteiro para viver. O tampo da mesa do trabalho tinha a marca da minha testa. Eu sabia que não tinha sido um sonho e senti vontade de perguntar a mim mesmo onde eu estive. “Você deu um pulo em casa, mas já voltou”, respondi a mim mesmo.

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Me responde

Fodeu, mas a gente dá um jeito, tudo bem. Depois a gente vê isso, a gente pensa no que vai fazer, se vai viajar pra algum lugar ou tirar férias. A gente pode até ir para a casa daquela sua tia que mora no interior e tem aquela pousada. Depois a gente pode alugar um carro e entregar lá pra Minas, longe, outra cidade, outros ares, vai ser bom pra nós.

A gente pode passar uns dias perto de Vermelho Velho e depois ir para o deserto, ou para a floresta, você escolhe, pode escolher. Depois talvez a gente construa uma cabana, passe uns meses, podemos comer fruta, treinar aquela coisa de só comer vegetais crus, sabe? Nada de carne, nada de cozinha, nada de complicado. Vamos ser naturais, que tal, o que você acha, heim?

A gente pode deixar a poeira baixar, ver o Ano Novo sem fogos dessa vez, ficar juntos na chuva e no sol, sentir o vento dobrar as árvores e chamar o mundo todo, aquele conhecido e ao alcance dos nossos olhos, de lar. Nosso lar vai ser o mundo todo, rei e rainha da nossa própria parte do mundo. Vamos decretar que todo fim de tarde vai ser roxo, laranja e rosa, com as árvores desenhadas de sombra ao fundo e tudo bem no resto do planeta.

Depois, se a gente ver que tá virando bicho, pode tentar voltar para a cidade, morar de frente pro mar, tomar banho de sal todo dia, limpar a alma, lavar o corpo e tomar o dia e a noite como relógio. Viver sem calendário, sem regra, sem lei, pelados, bonitos e saudáveis, do jeito que a gente sempre sonhou. Você sempre sonhou isso, não sonhou? Eu sei que sonhou. Então, a gente pode viver tudo isso. A gente tem todo o tempo do mundo, vamos vomitar tempos, criar tempos com as mãos e a vida nunca vai acabar.

Quando a gente decidir ser eterno tudo vai ficar bem. Não vai ter mais motivo pra fugir, nem se esconder, nem sentir medo, nem envelhecer, porque ficar velho é morrer um pouco a cada dia e quem é eterno é imortal. As mesmas cores dentro dos olhos, os mesmos sabores de fruta, os cheiros da pele limpa com água de rio e a vida perfeita. Vai ser lindo, calma, vai ficar tudo bem, mas agora me responde de novo: você tem certeza que tá grávida? Me responde…

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Trem da madrugada

Era noite, eu já estava viajando há doze anos e o trem acabava de partir. Tem um grande erro na nossa cabeça quando imaginamos viagens de trem sem nunca ter efetivamente viajado sobre trilhos: as cabines. A gente vê nos filmes aqueles trens com cabines e portinhas fechadas, mas a verdade é que hoje esses trens são minoria. O comum é viajar em vagões com cadeiras um pouco mais confortáveis do que as de trens normais, mas só um pouco, e sem divisórias entre passageiros. O trem moderno é como um avião grudado no chão. Eu lembro que a ferrovia seguia por cima de uma ponte muito alta e lá em baixo passava um rio. Ao redor do rio as casinhas acesas, alguns barcos, a vida acontecendo e eu assistindo.

O ser humano, seja quem for, se transforma em um diretor de cinema fazendo um vídeo-clipe da própria vida no momento em que dá de cara com uma janela, movimento, o próprio reflexo lá fora e alguma música. Meu ipod estava carregado e preparado para as próximas seis horas de viagem, eu imaginava um filme viral mostrando a minha viagem com muitos ângulos difíceis e modernos. Na verdade, tirando a música e a imaginação, somos só nós fitando a noite sem ter mais nada pra dizer. Ninguém viajava ao meu lado, nem à minha frente, de modo que apoiei as pernas na cadeira vazia e tentei relaxar. Viajar sozinho nos traz uma sensação estranha de extrema liberdade e e claustrofobia, como se, de repente, essa liberdade tivesse nos feito achar o mundo pequeno demais para todos os planos que ainda temos a cumprir.

As luzes apagaram, acho que já passava das onze da noite e tive a estranha sensação de estar vivendo algo importante. Via como se o trem fosse uma linha longa e preta cortando a própria escuridão. Eu fazia parte daquilo e estar sentado naquele vagão quase vazio me fazia sentir responsável por alguma coisa, como se fosse necessário explicar a beleza do escuro viajando por dentro do breu, cheio de gente dormindo, jantando e sonhando dentro dele. Esse escuro, sólido e barulhento, me levava para uma cidade onde as coisas estavam ficando complicadas. Ao menos para mim. Eu achava, naquele momento, que era uma grande coisa estar num trem apagado viajando durante a noite, mas na verdade era uma banalidade sem fim. Todos os dias três locomotivas diferentes levando centenas de passageiros em seus vagões faziam o mesmo trajeto noturno. Eu estava tentando romantizar a coisa mais simples do planeta: andar de trem.

Só que fazia isso porque realmente queria que fosse algo épico. Queria chegar do outro lado transformado, como quem renasce ou surge sabendo mais coisas do que sabia antes de partir. Um dia saí para pedalar, estava inspirado, tinha acabado de assistir Forrest Gump e queria ver o que tinha além dos lugares onde eu costumava ir. Depois voltei para casa e desejei crescer rápido para poder viajar, ter a vista que eu quisesse e ver o mundo como ele é do outro lado. Dei um beijo na minha mãe, acenei para o meu pai e saí para trabalhar. Eu tinha pedido demissão dois dias antes. Apanhei a mala na garagem, escondida debaixo de uma toalha velha e fui para a casa da minha namorada. Fizemos sexo, ficamos deitados a tarde toda e eu disse que ia voltar para casa. Nos beijamos sem amor e eu fui para a rodoviária. Peguei um ônibus, outro, peguei carona, corri algum tempo, aliviei o peso da mala, troquei por uma mochila, morei em alguns lugares, passei a viver com outras pessoas, conheci uma moça que me deu dinheiro pelo simples motivo de ter me achado simpático, vi alguns países, conheci algumas línguas, tive a chance de morrer uma centena de vezes e depois entrei naquele trem para voltar para casa. Era noite, eu estava com medo, o vagão estava escuro e eu não tinha mais para onde ir.

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Hotéis são o fim da juventude

Eu acho que me lembro a primeira vez que viajei com amigos, sozinho, sem pais ou responsáveis, de carro pelas estradas por aí. Nem foi uma grande aventura, eu e mais dois amigos fomos para a casa de uns primos de um deles em Mogi Guaçu. A grande transformação foi muito mais interna do que externa. Até hoje eu tenho memórias daqueles dois dias que a gente passou lá. Dormimos na casa de um primo que estava sozinho em casa, um no chão o outro na cama o outro na sala. Na ida a gente não se preocupou em onde ia dormir, como ia dormir, o que ia fazer ou coisas do tipo: a gente só queria chegar! Chegar significava cumprir uma missão, cruzar uma barreira, ser, enfim, grande. E fomos enormes, vivendo nossas próprias aventuras, olhando uns para as caras dos outros, os três, sem saber o que seria depois dali. Tem fotos memoráveis dessa viagem.

Eu tinha 18 anos quando isso aconteceu. Depois dessa vieram outras, uns perrengues sem fim, uma casa que não existia num feriado de Carnaval, uma outra que tinha um quarto para cada 5 pessoas, outra em que não tinha nem quarto e tudo era uma grande sala junto com outra grande sala entregue aos escorpiões e aranhas que se escondiam no meio das roupas. Sempre faltava água. Quase sempre faltava luz. Quase sempre eu passava mal de tanto beber. Quase sempre era perfeito. A gente queria bagunça, gastava mais dinheiro em bebida do que em comida e chegou ao cúmulo de em um ano novo nós passarmos dois dias comendo milho, apenas milho, direto de dentro da lata, porque só tinha isso pra comer. Isso era ótimo, rendia história pra contar!

Nessa do milho eu já tinha uns 22 anos. Está entre as melhores e mais marcantes viagens que eu fiz na vida. Depois disso passou um tempo e eu comecei a namorar. Minha namorada e os amigos, na época, adoravam acampar. Eu achava que era um regresso, mas não. No camping, por mais que a barraca pareça uma coisa precária, é uma espécie de quarto privativo: você tem mais privacidade numa barraca do que numa sala em que você divide um colchão de casal com outros dois casal mais fedidos que você, mais bêbados que você e durante dias e dias. Acampei com eles a primeira vez num lugar péssimo de Maresias. Era feriado de 7 de setembro, estava tudo lotado, chovendo, sem nenhuma estrutura e passamos 4 dias acordando com lama na porta da barraca, tomando banho frio, comendo salgadinho e bebendo cerveja quente e no fim um amigo nosso pulou de uma pedra, caiu errado no mar e arrebentou o ombro. A gente fala dessa viagem até hoje!

Depois a gente evoluiu pra um camping maior. E logo depois a gente alugou uma casa com uns outros amigos. Nessa um casal teve que dormir na sala e outro dormiu em camas de solteiro. Mas ok, tinha piscina, tinha um conforto inédito. Depois alugamos uma casa maior, dentro de um condomínio, com guarda-sol e cadeiras exclusivas na rua da praia. Depois fizemos o mesmo novamente. Depois alugamos uma casa com quatro andares para 10 pessoas! Era tão grande que escolhemos não usar um dos andares para não dar muito trabalho para a caseira arrumar depois. Em seguida alugamos outra casa, maior ainda, com 5 quartos, um absurdo inimaginável anos antes. Sala de estar, sala de jantar, sala de tv, duas lareiras, cozinha colonial, quadra de tênis… Quadra de tênis, caralho!!! Quem é que precisa dessa porra toda?

Voltando para casa desse feriado, minha namorada e eu conversamos sobre como esse processo evolutivo pareceu natural e, ao mesmo tempo, o quão perto estamos de chegar no último estágio: hotéis. Porque é o fim, você sabe, né? Quando você desiste de alugar uma casa para ficar em um hotel acaba, mesmo sem querer, assinando o atestado de fim de juventude. Você vai dormir num quarto longe dos seus amigos. Vai no banheiro longe dos seus amigos. Não tem uma bagunça da cozinha para dividir com eles. Não pode ligar o som e fazer todos ouvirem a mesma música. Não pode fazer barulho e acordar todo mundo antes do horário previsto. Você simplesmente se hospeda, envelhece e morre. Que medo. Que merda. Ainda bem que antes do hotel vem o albergue, que salva muita gente desse fim triste. Amém!

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E se a gente saísse numa aventura?

E se a gente não voltasse mais pra casa? E se a gente pegasse seu carro e fosse dirigindo pra longe, pra qualquer lugar, passar uns dias, até o dinheiro acabar, até alguém achar que a gente não tem o direito de ficar longe tanto tempo? E se a gente vivesse de luares estrelados, noites congelantes, música mixadas pelo Saux, sexo no banco de trás, comida congelada e motéis de beira de estrada? E se a gente pudesse ficar horas e horas abraçados, trocando calor e frio, suando um sobre o outro e sentindo as gotas escorrendo pela pele, trocando cheiros e texturas, respirando e comendo sal durante um sem número de horas?

E se depois disso pudéssemos voltar no tempo, viver no tempo em que o inverno era frio, o verão era calor, os carros faziam barulho de motor e as pessoas eram magras comendo óleo e tomando refrigerante com mais açúcar que água? E se você, de repente, tivesse permanente no cabelo, usasse um lenço no pescoço, tivesse calças brilhantes e lingeries sem bojo ou armação, de tecido cintilante e macio? E se a gente se perdesse no meio da pista como n’Os Embalos de Sábado à Noite, fazendo passinhos, ditando moda, sendo mais incríveis do que qualquer casal?

E se, então, a gente não fugisse no seu carro, mas pegasse um ônibus para ir ver o mar? E se a gente comprasse passagens para o turno da noite e cruzasse o estado num Cometa velho, com bancos de couro macios e barulhentos, desejando um mar mais ao sul, mais frio, de areia mais fofa e úmida? E se a gente fosse para o Rio Grande do Sul, de cabelos oxigenados, roupas simples, pedindo emprego em fazendas cheias de vacas leiteiras e finais de tarde cinematográficos por detrás das montanhas? E se a gente vivesse numa cabana, comendo, bebendo vinho, transando debaixo de cobertores peludos e pesados, gastando mais tempo no pós-coito do que nas preliminares?

Mas e se a gente simplesmente sair por aí, vivendo de excessos, de balada em balada, bebedeira em bebedeira, de ressaca em ressaca, até o corpo pedir arrego? A gente podia viver três dias sem dormir, indo a todas as festas, visitando amigos, usando drogas, bebendo em larga escala e pulando de táxi em táxi, metrô em metrô, balcão em balcão, não podia? E se a gente comprar umas roupas bonitas e tentar entrar de bico nas festas de gente famosa, sair na Caras, na Quem, no Ego, na TiTiTi, no TV Fama, ser entrevistado pelo Pânico! e depois rir de todos eles com nosso olhar alucinado de cocaína e vodca?

Ou então, quem sabe, você poderia ficar. E se você decidisse simplesmente não ir embora? E se você ficasse essa noite, sem excessos, sem contos de fada, sem odisseias hollywoodianas, nem maratonas sexuais, nem campeonatos etílicos ou de entorpecentes. Só uma noite tranquila juntos, ouvindo o som dos carros lá embaixo, ouvindo o som metálico das estrelas e sentindo a briza fresca da noite entrar pela janela do quarto e escapar pela porta da sacada, na sala. A gente pode tomar qualquer coisa, até água, pode comer qualquer coisa, até bolacha sem recheio, pode ficar só juntos, sem falar, sem planejar nada, só trocando ondas, pensamentos e sentindo um a presença do outro. Isso, sem dúvida, seria minha maior aventura com você!

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Você tinha que ter vindo!

“Você tinha que ter vindo”, ela disse. Falou comigo ontem! Mas disse como quem diz que vai se atrasar dez minutos, ou como se fosse um recado de alguém desimportante que ligou. Fiquei pensativo quando ela me falou. A Ana é o tipo de garota que não fala coisas por educação ou para fazer social. Se ela disse que eu deveria ter ido, talvez daqui a pouco eu comece a me arrepender por não ter ido. Mas não, as coisas não são assim, a gente não tinha que ter ido. Eu não tinha que ter ido, você também não, o Zé também não. Concorda?

Mas ela disse uma porção de coisas depois. Disse que tava fazendo um calor do cacete, que vivia pelada o dia todo no meio dos pescadores, andando com a bunda branca fritando no sol quente e dando bom dia pras lavadeiras. Disse que tinha comido um peixe que tinha a carne azulada e o gosto era parecido com salmão, só que ao contrário. Me disse que conheceu um carinha chamado Sagu e eu dei risada, porque dá pra fazer um monte de piadas com esse nome. Ela disse que ele vive levando ela pra ver as coisas de cima das pedras, que fala do tempo, que diz se vai chover e se vai anoitecer, e quando, e como, e diz que vai ser melhor no dia seguinte. Doideira esses nativos que adotam gente de fora que chega sem saber nada.

“Tem uma cobra amarrada num galho dentro do meu quarto”, ela disse. Mas disse como quem diz que tem uma formiga andando sobre a mesa, ou que o cachorro tá dormindo no sofá da sala. Disse como se fosse qualquer coisa. Era um galho de goiabeira que cresceu pra dentro da casa e mandaram refazer a parede com o tronco dentro. O tronco entra no canto e sai no teto. E nesse pedaço de tronco que tem no quarto diz ela que tem uma cobra amarelada que fica enrolada o dia todo. Ela disse que não tem medo e, pensando bem, não me lembro da Ana ter tido medo de alguma coisa na vida. Mas agora acontece que Ana anda pelada, toma sol sem protetor e dorme com uma cobra amarrada no teto.

Ela disse que precisava ir. “A gente se fala daqui uns dias!” ela disse, mas disse como quem realmente ia falar depois de uns dias, depois de umas horas, que ia entrar no Face, mandar um e-mail, ligar pra cá. Disse que ia conhecer um lugar chamado Pedra do Pulo, que ficava na ponta da praia onde ela estava. Ela disse que o pico da pedra ficava acima das nuvens e que, pra chegar lá tinha que caminhar duas horas em uma trilha. Disse que tinha uns duzentos metros de altura e que as pessoas pulavam de lá, no mar, de cabeça, de braços abertos gritando “auêêêê” e a voz ia sumindo dos ouvidos de quem estava lá em cima e aparecendo nos ouvidos de quem estava lá na água. Eu temi pela Ana, mas ela sempre foi desses bichos livres, criados fora da gaiola longe do bando fazendo o que bem queria.

Mas eu fiquei pensando muito. “Você tinha que ter vindo”, ela disse, e eu fiquei confuso, meio com medo, tentando entender o motivo de ela ter dito isso. A gente tinha que ter ido? Você acha que a gente tinha que ter ido, cara? Eu, você e o Zé, a gente tinha que ter ido pra lá com a Ana, andar pelado com ela, dormir no quarto dela, pular da pedra que ela pula? Será, cara? Não sei não, acho que ela falou por falar, da boca pra fora, você não acha? Vou perguntar pra ela da próxima vez que a gente se falar.

– A Ana morreu, cara… a gente não tinha que ter ido!

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Sensual e fictício

A porta fechada que era pra fingir que o mundo tinha parado de existir e tudo o que restava era aquele quarto. Os corpos tremendo de frio e tesão, cheios de pontas de dedos muito frias e narizes que pareciam bicos de gelo. No escuro, quase nada visível, quase nada pra ver e calma, uma extrema calma que descia dos cantos das paredes e lambia os pés da cama, as costuras e as franjas da cortina, os beiços do tapete e as nossas canelas.

De costas, apoiada na parede como quem acaba de ser pega pela polícia, me oferecia uma nuca lisa e comprida para eu beijar, lamber, morder e arranhar. Minha mão sumia por dentro dos cabelos, que se agarravam nos meus dedos e não largavam mais. Foi o primeiro começo de um par de pares de dias da gente se alisando como se tivéssemos mais intimidade que qualquer outra dupla no mundo, nos olhando sem roupas e sem defeitos, isentos de perfeição por opção e felizes com a nossa curiosidade.

Dias sentindo sua respiração quente ao redor da minha orelha, sua voz falhada e oscilante brotando do meio da escuridão e um calor concentrado que passava de mim pra você e depois voltava de novo, num ciclo de aquecimento natural quase imbatível. De dia ainda era escuro e a noite era 24h a dentro, mergulhada em todo tipo de troca de experiências e sensações. Eu passava meus dedos pelo seu rosto, desenhando o contorno da tua boca como um batom de festa, sentindo a ponta da tua língua surgindo por entre os dentes para fazer meu tato salgado receber as boas vindas do teu paladar voraz.

Beijos no olho, carinhos detrás da orelha, dedos entrelaçados debaixo de um sem número de cobertas, pelados e muito quentes, nos aproveitando um do outro para pura sobrevivência. Era tão sensual que chegava a doer ter que dormir. Fechava os olhos fora de controle desejando mais uma dúzia de noites muito bem gastas transando ao som de Los Hermanos, pedindo comida pelo telefone, bebendo vinho barato e usando a boca para beijar e lamber, mas quase nunca para falar.

Era tão erótico, tão intenso e, ao mesmo tempo, tão suave, que beirava a loucura, daquele tipo de sentimento que faz a gente pensar sobre largar o emprego, vender o apartamento e o carro, deixar o cachorro com a mãe e se mudar, de mala e cuia, de vez pra outro lugar. Tão bom, mas tão bom, mas tão bom, que não existia e, enquanto eu passava os dias desenhando uma fantasia cheia de delicadeza e sentimento, a vida real corria a passos largos acabando com toda a minha imaginação.

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Cia. Marítima Do Lado De Lá

Tinha um navio que levava as pessoas pro lado de lá, mas ninguém podia comprar passagens para ele. Era preciso ser sorteado. E mesmo que muitos dissessem que eram armados, os sorteios eram sempre aleatórios e baseados apenas nas infinitas probabilidades. Era o maior navio do mundo, ficava há um dia de barco da costa continental. Era grande demais para se aproximar dos portos, então ficava boiando nas águas profundas esperando os novos passageiros. Eu e você poderíamos estar lá.

A pessoa era sorteada e avisada imediatamente por alguém da Cia. Marítima Do Lado De Lá. Vinha, sempre, uma mulher, vestida de marinheira antiga, tipo aquelas pin-ups dos anos de guerra americana. Ela aparecia sorridente, entregava a passagem e você deveria largar tudo e ir. Não havia tempo para avisar familiares, amigos, chefes, ninguém. Era hora de viajar! E você e eu iríamos, se fossemos chamados. As pessoas que recebiam a visita da marinheira eram encaminhadas para um transporte, que podia ser um ônibus, aqui no Brasil, ou um rickshaw em países orientais. Não importa, o que importa é que todos eram transportados até o porto.

Lá eram todos colocados em galpões de estocagem. Milhares e milhares de pessoas vestidas como foram encontradas pela marinheira, alguns até mesmo pelados, enfileirados e prensados para o espaço render. Depois que chegavam todos, o que às vezes podia demorar dias, as portas se abriam. A multidão era reorganizada e centenas de barcos menores eram lotados com essas pessoas. Esses barcos iam saindo em direção ao horizonte, cortando as ondas no sentido perpendicular às suas extensões, balançavam horrores e alguns passageiros caiam na água. Uns eram atropelados, algumas raras vezes conseguiam nadar até a costa e voltar às suas vidas normais ou, como era mais comum, eram apanhados pelos “pescadores” dos barcos que vinham depois.

Pescadores eram homens que ficava com metade do corpo para fora do barco, presos por amarras ao casco, e seguravam cordas e redes como as de laçar bois e caçar cachorros do mato. Eles resgatavam as pessoas e as puxavam para dentro de seus barcos. Pescadores competentes podiam ganhar até dez mil libras esterlinas por pessoa resgatada. Não importava o país de onde estavam saindo, os pescadores eram sempre os mesmos e o pagamento sempre era promovido pela coroa britânica, coisa que ninguém explica muito bem como acontece. Sabia-se apenas que esses homens eram muito ricos, muito velhos e jamais largavam o mar.

Depois de cruzar um bom pedaço do oceano, anoitecia, todos dormiam e acordavam com a luz do dia nascendo e, no horizonte, bem à frente, podiam ver o enorme casco dourado do navio. “Nyumba-Kaya” era o nome da embarcação. Era maior que tudo já visto no mar. Podia ser mais alto que a maioria das plataformas de petróleo e, com certeza, era o maior corpo em movimento de todos os oceanos da Terra. Por dentro, dizem, é todo branco, e por fora, com seu casco de ouro quente e brilhante, não havia marcas de soldas, rebites ou parafusos. Era como se fosse uma única peça concebida de uma vez só.

Quando chegavam todos os barcos ao redor do navio o silêncio se instalava. Os pescadores e comandantes das embarcações menores se recolhiam para dentro de seus cascos, fechavam as portas e os sorteados ficavam esperando serem chamados. Então o navio tocava uma buzina muito grave, quase como o som do silencio. Ao mesmo tempo, por suas gigantescas chaminés expelia uma densa e intensa fumaça vermelha, como se fosse sangue em forma de vapor. O sol intensificava o reflexo do casco, todos ficavam maravilhados com o brilho amarelado do navio, olhavam fixamente e iam ficando cegos, queimando as retinas, fritando os olhos enquanto ensurdeciam com a vibração grave demais do toque de partida.

Tudo ficava branco, silencioso e imóvel por alguns segundos e depois estava tudo bem. Restavam apenas incontáveis barcos vazios ao redor de um espaço oco no mar, há muitas horas de distância da costa e nada mais ao redor. Os marinheiros e pescadores saiam, olhavam-se, davam gritos e apitavam suas buzinas comemorando mais uma entrega bem sucedida e, depois de realizarem um banquete de comemoração, rumavam para outro país, outro continente, outro lugar qualquer, onde novos sorteados teriam o privilégio de partir para o lado de lá. Um dia seremos eu e você.

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O corpo da Sensação

Cheguei, cansado, com as malas mais pesadas do que no dia da partida, e atirei tudo ao chão. Sacolas, malas, presentes, fotografias e câmeras, fiquei só comigo, que já peso bastante. Não fiz questão de desfazer as malas para ser prático, mas para libertar os ares que a gente traz de outros lugares. As nossas roupas, nossos objetos, nossas solas de sapatos, trazem coisas de outros lugares. A gente não vê, mas esses ares se agarram a tudo que não é liso e viajam, vêm conosco, mudam completamente o nosso lugar de estar com sua presença invisível, mas inegável. Viajam nos pelos do corpo, também, esses novos ares.

Sentado no tapete, no centro, com as muitas roupas espalhadas ao redor, plásticos, papéis e panos, todos em círculo, comigo no centro, sentado, olhando, deixando que tudo saia de onde tem que sair e se instale onde tem que se instalar. Nunca se deve “bater” ou “limpar” roupas que chegaram de viagem, é uma perda irreparável de espíritos. Sentado ali vi acontecer o que há muito se tornou ritual para mim, mas que pouca gente aproveita: o nascimento de uma nova e colorida Sensação. Ineditismo em forma de corpo.

As pessoas voltam de viagem e a maior preocupação que têm com as roupas é em quando elas voltarão a ficar limpas. Ignorantes seres, somos nós, não? Demorei muito a aprender que, fazendo isso, perdia muito do que poderia me formar como pessoa. Hoje não mais. Hoje sei do surgimento da Sensação. E escrevo em letra maiúscula porque essa sensação é um Ser, é uma coisa, pra não dizer uma pessoa. É um corpo que se materializa de vapores, pequenos grãos de terra, poeira, cheiros e cores. Vai se formando todo colorido, se arredondando e rodopiando no ar, preenchendo um espaço vazio com alguma coisa quase vazia de matéria, mas cheia de significado. É uma Sensação, substantivo feminino, uma moça, um corpo de mulher.

E eu sentado ali, no meio das roupas todas espalhadas, vendo aquele corpo transparente se formar na minha frente e ansioso pelo final. Amarelo, azul, cor de laranja, lilás, preto, branco, cor de rosa, fúcsia, verdes e um monte de outras cores que eu ainda não sei o nome, rodando e crescendo. Estava diante de mim a minha Sensação. A do dia, a da semana, não importa. E ela me abraçou quente, pintando minha camiseta de outras manchas, e sentou-se em frente, na mesma posição. Eu toquei o meio de seu peito, onde deveria haver um coração, e ela fez o mesmo comigo. Nesse momento tudo escureceu de repente, como se apagassem a luz. É o que geralmente acontece.

Fica tudo escuro, preto, na verdade, com os contornos das coisas desenhado em neon e prateados, em torno de espirais coloridas e espécies de bastões, que ficam pelo ar, desenhando formas geométricas de simetria perfeita. Dura alguns minutos e depois, lentamente, as cores vão correndo para dentro das gavetas, dos cantos do quarto, por debaixo da cama e pra dentro dos bolsos das roupas. A mulher de pó e lembranças vai se dissipando, já não imita seus movimentos e vem te abraçar, num gesto de respeito e entrega tão intenso que é possível abraçar de volta e sentir um corpo ali, quente, que tem textura, que tem massa e conteúdo.

E foi o que aconteceu. Fiquei no centro do tapete abraçado a uma Sensação que nasceu depois da minha chegada, fruto das minhas memórias e experiências. Ficamos ali, grudados, trocando calores, por um tempo que não pude precisar e depois desapareceu. No chão, das cores que deveriam ser, todas as roupas sujas. Agora sim, estavam somente sujas. Não dá para confundir sujeira com registros de experiências. Quem vem à minha casa sem avisar encontra meu quarto todo cheio de roupas jogadas, e sapatos pelos cantos e cobertores e lençóis sem formato. É que eu não desperdiço as Sensações que adquiro por aí, pelos dias. Trago todas para casa e as abraço, como quem pede a um amigo que não vá embora. Eu não perco absolutamente nada do que eu vivo.

Você também não deveria perder, veio tudo com você, nos teus cabelos, nos teus pelos e nas tuas roupas…

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Fuga: sucesso!

Fugiu porque era a hora, o momento estava ali, a oportunidade se tornou lei e então foi. E diz-se que fugiu porque é mais fácil entender, mas na verdade, só foi, porque não estava sendo procurado por ninguém, se não pela própria vida. Largou a rotina no meio, na quebra do tempo e foi, porque tinha pra onde ir, porque já sabia o destino e então seguiu na direção. Fugiu de si mesmo, talvez, mas diria para todo mundo que estava “indo ali” e voltava logo. Se voltasse, seria logo. Se voltasse. Mas não disse nada porque não precisou.

A pia ainda com louça do dia anterior, a tv ligada e a janela do banheiro aberta. Ficou tudo ali, como estava. A porta trancada por fora, os paços sumindo ao longe e tudo bem. Deixa pra lá, ninguém liga, ninguém paga as contas, não tem que explicar merda alguma. Um metrô, uma mochila, um livro e uma passagem pro ônibus que sai jajá. Ainda é quarta-feira. Uma quarta-feira em fuga, diriam, mas para ele não. Era só uma quarta-feira, daquelas que o coração não acelera, das que ninguém gargalha nem chora. Um dia de nada, pra ir pro nada sem falar nada pra ninguém.

As luzes na rodoviária, as luzes na cidade, as luzes dos cabelos das moças do guichê e as luzes do mundo que mudavam o rumo da história que lia. No livro estava escrito assim: “Eram azuis, eu acho, mas sob o efeito da luz foram escurecendo, verdes, castanhos, pretos. Quando ficaram bem pretos, saí à rua” e interrompeu a leitura para embarcar. As horas estavam ali, no relógio do teto e o tempo não mente para viajantes, um depende do outro o tempo todo. Se não fossem as viagens, para que haveríamos de contar o tempo, não é mesmo?

Poltrona da janela, 40 lugares, 13 passageiros, umas 6 horas de viagem. Depois de sair da cidade a estrada escurece o interior do coletivo ao ponto de apenas os carros no sentido contrário conseguirem iluminar os contornos das várias poltronas vazias. O livro já não era tão necessário, ouviu música para fermentar ideias e, só porque podia, repetiu inúmeras vezes apenas uma única faixa. Ouvia Dd Stewart no sugestivo título de Silly Boy,  com distorção na voz cantando sensualidades e desenhando linhas neon na escuridão da estrada roubando estrelas a cada curva. Viagens.

Três da manhã, desperto de um sono torto e dolorido, os primeiros passos no horizonte, no “B”, depois da linha que saia do ponto “A”. Um endereço num pedaço de papel, um táxi, “R$ 28,50, moço”, um telefonema, “Juro, não é mentira nem piada, avisa que você me conhece e me deixa entrar, eu viajei pra caralho, rs” e o portão moveu-se. Era quinta-feira, mas a madrugada não tem dia. Toda madrugada é o mesmo dia. Todo dia, durante a madrugada, é o ontem e o amanhã, porque o hoje, entre meia-noite e cinco da manhã, não existe. Era alguma coisa entre 3h e 4h da manhã, uma quinta-feira estava vindo, o frio já estava lá e a porta se abriu. Ele nitidamente calmo e contente, ela confusa e sonolenta: “Oi… o que você tá fazendo aqui?”, ela perguntou, com bom humor duvidoso.

A resposta não veio. Mas veio o braço dele ao redor da cintura dela, um beijo inesperado que não encontrou nenhuma resistência e ela, já mole do recém interrompido sono, se deixou acalmar no corpo frio de quem vinha de fora. Era a primeira vez que se beijavam, a primeira vez que falavam assim, na mesma língua. A porta algum espírito fechou, a mochila ficou no chão, o quarto se descolou da casa e a sala tornou-se o mundo. A luz apagou porque tinha que apagar, o telefone ligou, sozinho, para o trabalho e avisou, fingindo voz de doente, que não iria hoje. No escuro bem escuro, deitados no sofá, beijando tão lentamente que pareciam ler um braile alheio, na língua do outro, numa história sem pressa de acabar, evoluindo pra sexo, sono, beijos, sexo, sono, beijos, num ciclo lento, erótico e sensual. Fuga bem sucedida!

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