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O que a gente fez da nossa vida?

O que a gente fez da nossa vida? Porra, essa pergunta exige uma introdução breve. Eu morava num lugar onde a água só chegava três dias na semana e nunca eram os mesmos. Era uma agonia eterna de ter que abrir a torneira para ver se era dia de água ou não. Parecia que nunca era. A gente comia bolacha água e sal, ficava de cócoras equilibrado sobre os calcanhares e olhava o movimento da rua de cima do muro. Seis moleques, todos magros até o osso, agachados igual urubus, mastigando bolachas secas e murchas com a boca aberta e olhando o movimento da rua. Naquela época ninguém tinha direito de ter nome, então a gente era só a gente, estava bom assim.

Depois passou o tempo e eu virei eu mesmo, com esse nome que você me conhece. A vida foi generosa comigo, não posso negar. Estudei, enquadrei o diploma na parede do quarto, viajei para a praia, frequentei casas e apartamentos maiores que uma quadra de futebol de salão e as coisas meio que deram certo para mim. Engordei gradativamente, em ritmo constante, e hoje exibo uma senhora barriga, uma barba de gente de pouco asseio e um linguajar chulo o suficiente para me levarem a sério sem precisarem me levar a sério. Deu certo, essa coisa do futuro.

Outro se mudou para o Piauí e virou Maicon. A última vez que a gente teve notícia parece que estava preso. O Maicon era envolvido com roubo de carro, desmanche de carro, falsificação de documento de carro, clonagem de carro, corrida de carro. Coisa de carro, entende? Ele vivia falando do som dos motores dos ônibus que passavam na rua quando a gente ficava trepado sobre o muro do terreno baldio. Dizia que quando fosse “grande”, seja lá o que isso significava, já que era o maior de nós, ia ter um caminhão enorme e viajaria para o nordeste. A mãe dizia que o pai tinha fugido para o nordeste e ele tinha o sonho de pegar a estrada e ir atrás do pai. “Oi, pai. Eu sou o Maicon, seu filho”, ele queria dizer. Ele sonhava em matar o pai.

O outro morreu cedo, não teve tempo de ter nome nenhum. A gente ainda era adolescente quando explodiu um rojão na cara dele. Também, burro que só! Acendeu o rojão pra comemorar um jogo do Brasil na Copa de 98. Acendeu o pavio falhou e ele ficou fazendo papel de ridículo na nossa frente. Moleque de rua é uma raça que não perdoa, é uma forma de parecer estar numa situação menos pior, essa coisa de tirar sarro da desgraça alheia. Enfim, o rojão falhou, ele olhou por dentro do tubo e então a explosão aconteceu rápido demais para qualquer um de nós entender. A cabeça dele parecia uma melancia que caiu do caminhão e a gente ficou sem comer melancia por muitos anos.

Um sumiu, eu simplesmente não faço a menor ideia do que aconteceu com ele e ninguém com quem eu conversei sabe. Então sumiu.

O outro virou advogado. Deu mais certo na vida do que todos nós. A mãe trabalhava como faxineira em um escritório e o filho começou lá como mensageiro, depois ganhou uma bolsa de estudos para estudar Direito, fez a lição de casa, ficou longe do crime, das drogas, dos caras animados demais e hoje tem uma carreira sólida, casa grande, mulher bonita, filhos saudáveis e se chama Jardel. Esse é um cara que cresceu na vida, era pobre e ficou rico, era quase nada e conquistou o que, naquela época, a gente achava que era tudo. Parabéns pra ele. A gente nunca mais se falou.

O último decidiu que não estava feliz como estava e fez uma cirurgia. Se transformou em mulher, uma mulher muito gata por sinal. Luara! Ficou com voz fina, aproveitou as pernas longas, não exagerou no silicone e se jogou na carreira de modelo. Estava ganhando dinheiro, mas não gostava do cabelo cacheado. Durante um processo químico controverso acabou ficando cego dos dois olhos para ter um cabelo loiro, lambido e controlado. É uma das modelos cegas mais bem pagas da indústria e não se arrepende de nada. Estou casado com Luara há dois anos!

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Eu vou mudar a sua vida!

A porta abre e ele vem na minha direção com o olhar voraz de uma serpente. Se esgueira pelos cantos, atravessa o corredor ladeando os batentes de porta e a moldura da janela e não para mais. Quando chega ao quarto eu já estou no chão, mole, entregue, com as meias pinicando e o cabelo sem formato. Nunca conheci um homem que me fizesse sentir dessa maneira, uma intensidade absurda, a vontade de gritar antes do primeiro beijo, a tremedeira sem controle, os arrepios que duram meses. Troquei meu medo da morte pelo medo que sinto quando ele chega. É uma sensação tão animal, tão primitiva e tão clara que nunca fui capaz de saber o que me amedronta. O medo que sinto dele já nasceu comigo, ou talvez antes de mim.

Às vezes, quando eu desperto durante a madrugada enquanto ele dorme, abro a porta do quarto e vou para fora ver o céu. Sempre que a gente transa eu fico com vontade de ver o céu, olhar as estrelas, a lua, respirar o vento frio da noite. Até hoje, com ele, tenho orgasmos em forma de galáxias e sinto como se minha alma estivesse mordendo alguém. Almas são capazes disso? A vida parece pequena perto de toda a intensidade que ele me traz. Meus poros se abrem a ponto de fazer minha pele arder e eu suo ofegante do começo ao fim, me sentindo esgotada e vazia durante horas. Ele leva embora algo de dentro mim. Algo profundo, sem nome e insubstituível. Sinto a existência se dobrando quando acaba.

Quanto tempo dura um sonho acordado? Me espanta a força física, a resistência, a determinação, não há cansaço capaz de fazê-lo parar, súplica suficiente que o detenha. Eu bebo água, olho para o relógio no criado mudo e volto, porque quando ele está aqui minha vida não pertence mais a mim. Eu não sou minha caso ele esteja por perto. Eu mudaria de nome para tê-lo todos os dias. Derrubaria minha árvore genealógica e usaria sua madeira para construir um castelo para nossos sonhos. No fim, quando ele coloca a roupa e anuncia a partida, tenho vontade de morrer. Meus antepassados se grudam a mim e me seguram nesse mundo numa tentativa de não me perder dentro dos meus próprios desejos. Na última vez ele deixou o dinheiro no mesmo cinzeiro de sempre, me beijou e, segurando meu rosto muito próximo do seu, penetrando meu olhar com seus olhos de morte, me disse que mudaria minha vida.

“Eu vou mudar a sua vida!”, ele disse. É o sonho de todas as meninas aqui da boate, mas eu tirei a sorte grande. Eu acho…

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Isso os filmes não contam

Ficava com os pés juntos, os dedos contraídos, sentada no canto da sala enquanto a televisão muda passava as cenas sem parar. Passava horas assim, separada do mundo, fazendo parte de alguma outra realidade, longe daqueles sofás, do tapete e dos ácaros que o tapete adotou como seus. Vivia no além mar das ideias abstratas sobre coisas sem nome. Gostava de pensar que ficar ali, agarrada a si mesma, lhe dava poderes de passar a história do filme da própria vida para frente e para trás. Fechava os olhos e se imaginava formada na faculdade, logo depois com a barriga enorme e tendo filhos e mais filhos como uma coelha muito fértil. Imaginava que mulheres, para serem felizes, deveriam parir aos montes, um filho atrás do outro, e pensava que as mães que botavam gêmeos no mundo eram pessoas de sorte. Achava que ter filhos era a realização do que se conhecia por felicidade, ou algo bem próximo disso.

Imaginava que, no passado, tinha sido mais esperta, aprendido as coisas mais rápido, perdido menos tempo fazendo lições de casa inúteis e tinha conseguido convencer os pais a comprarem um cachorro. Se hoje não tinha um cachorro era óbvio que o motivo estava ligado a algum fracasso no passado. Na curta vida de apenas dez anos ela já conseguia encontrar muitos pontos a serem mudados, mas passava a maior parte do tempo desenhando e montando o que seria o melhor futuro que uma pessoa poderia ter. Um belo marido, uma casa grande, os filhos aos montes e muitos cachorros, um de cada raça e tamanho. Teria também um avião, porque já tinha aprendido que aeroportos são muito chatos e seria necessário ter uma maneira mais prática de visitar a Disney quando chegassem as férias. Um avião cor-de-rosa resolveria tudo.

Seus desejos eram simples, pareciam inevitáveis que se realizassem e tudo o que era necessário era crescer. Esperar o tempo levar o tempo que precisa para que as coisas cresçam, tomem forma e se configurem em um conjunto de realizações de vida que nós mesmos planejamos. Nossa vida, para ela, era como um bolo que simplesmente precisava crescer e mais nada. Só ser bolo já bastava. Queria coisas de criança fantasiando vida de adulto. Sem limites de custos, dinheiro, distâncias, dificuldades e riscos. Queria o avião, o carro, o marido, as crianças, os cachorros, a grama verde, a casa enorme, a piscina em forma de coração, a cozinha com um armário só para doces, uma cama elástica no meio da sala, um esconderijo secreto por detrás de uma estante de livros e uma porção de dias felizes e ensolarados para poder curtir tudo isso. Bastava uma vida perfeita. Já estava bom se fosse assim, perfeita.

Era com esse tipo de fantasia que ela sonhava nas horas que passava agarrada às próprias pernas no canto da sala. Mas o mundo real sempre cobrava sua parcela de atenção. Então se levantava e se sentia incomodada com a falta de amigos, com a estranheza do mundo e com a sensação de não pertencimento que sentia ao confrontar a vida da qual fazia parte. Uma garota de dez anos que entorta colheres com o olhar nos momentos de medo, quebra vidros quando chora, abre chama com as mãos quando se zanga e ouve o pensamento alheio em situações de vergonha tem muito mais sonhos e desejos que uma criança comum. Os filmes, os quadrinhos e os desenhos sempre mostram gente assim vivendo uma vida de heroísmo, saindo na rua como intocáveis, esbanjando seus poderes contra a polícia, contra monstros, contra o mal. Quanta besteira. Só mostravam coisas absurdas, totalmente desconexas com a realidade de quem tinha aquelas habilidades. Os filmes não mostravam, acima de tudo, o quão frustrante era para uma garota assim tentar dar o primeiro beijo em um colega da escola. Essa parte os filmes não contam.

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“Ser o que se pode é a felicidade”

“Ser o que se pode é a felicidade”, escreveu Valter Hugo Mãe, um português malandro que escreve sem usar diálogos, sem usar travessões e sem usar pontos de interrogação. O que ele usa é sentimento e delicadeza, isso sim. Hoje no metrô eu li essa frase no livro O filho de mil homens escrito por ele e publicado pela absurda COSACNAIFY. Na verdade eu não li a frase. Tropecei nela na página 77, saí catando cavaco, quase caí de cara no chão da vida e quando me recompus senti alegria. Uma alegria simples, quentinha, que nasce no peito e se espalha para o resto dos dedos. Fiquei lendo a frase durante algum tempo. O Valter sabia que tinha escrito um milagre e por isso fez questão de botar essa anã de oito palavras numa linha separada do texto. Talvez ao escrever isso ele tenha descoberto, por epifania, o que é a felicidade, ou talvez já esteja careca de saber – ele realmente é careca – e colocou o dizer ali, separado, só para não correr o risco de não ser lido com a devida atenção.

Olhei pela janela do metrô com o livro ainda aberto e fiquei repetindo mentalmente que ser o que se pode é a felicidade. Ser o que se pode é a felicidade? É. Deve de ser, eu acho. Ao menos para mim é, depois de hoje vai passar a ser. Ser. Quero ser o que posso ser, só pra ser feliz. As portas do vagão se abriram, eu saí e no momento em que pisei na plataforma uma rajada de vento forte me tomou por completo. Era como o anúncio de que sim, eu tinha aprendido uma coisa de valor real. A gente vive angustiado e passa a vida na angustia de acabar com a angustia de estar angustiado em viver assim. A gente não quer nada a não ser paz, mas não sabemos disso. Queremos ser mais bonitos. Alguém quer ter certeza de que nunca será rejeitado por alguém. Alguém quer ter certeza de que é desejado por alguém. Alguém quer ter poder sobre alguém. Por que a gente quer isso?

Eu quero ser o melhor que eu puder ser, mas sem deixar de ser eu. É difícil, eu sei, também vivo no mesmo planeta que você, que está lendo isso tudo. Mas ser o que se pode ser é não se cobrar além das próprias limitações. Ser o que se pode elimina a chance de fracasso: você é e ponto, sem “mas” ou “poréns”. Ser o que se pode está além de aceitação. Tem a ver com reconhecimento, com auto-meritocracia. É se olhar no espelho e pensar “você é o que você pode ser?” e se a resposta for “sim”, acabou. Tá lindo, és feliz! Se a resposta for “não” a próxima pergunta deveria ser algo como “o que falta para você ser o que você é?” e depois caminhar atrás desse pedaço que falta. Ser o que se pode trata-se de ser completo, por inteiro. É como aquele poema do Fernando Pessoa, “sê por inteiro” e fim. Se V. Hugo Mãe se propusesse a completar o poema talvez a única coisa que ele escreveria seria apenas um “então és feliz” no fim.

“Ser o que se pode é a felicidade” é a frase. Escrever sobre ela tem a ver com o fato de eu ter passado uma semana sem escrever nada pensando sobre todas as regras e conceitos que aprendi no curso de escrita que fiz semana passada. Escrever sobre ela tem a ver com a fala da Marianna, minha amiga e revisora, que disse que eu me caguei ao fazer esse curso porque fiquei encanado tentando atender a regras que não são para o tipo de texto que eu faço. Não sei cumprir regras quando o assunto é viver. Escrever sobre ela tem a ver com as minhas expectativas em relação ao profissional que eu sou e quero ser, em relação ao amigo que eu sou e quero ser, em relação ao namorado que eu sou e quero ser. Escrever e dividir essa frase é quase a execução de uma obrigação, porque não é justo guardar só para mim um segredo tão valioso e simples. Quero ser o que posso para ser feliz. Sê inteiro com o que você pode ser. Isso é a felicidade, eu acho.

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Escolhas, só escolhas!

Você pode escolher as coisas. É ótimo ter opções, ter liberdade de escolha, mas muitas vezes a gente se esquece disso e decide por impulso, pressionado por alguém ou simplesmente escolhe qualquer coisa porque não prestou atenção no potencial da situação. A gente pode escolher beber dois litros de água por dia, ou pode beber dois litros de cerveja. Uma escolha vai te hidratar e te deixar neutro. A outra vai te deixar animado e eufórico, mas desidratado e confuso. Escolhas, cara!

A gente pode escolher viver a vida toda juntando dinheiro, tentando ser rico e levando uma boa vida. Ou a gente pode gastar todo dinheiro que a gente ganha sendo feliz aos poucos, em pílulas, mas com gente boa e bonita, gente que nos faz bem. Uma escolha vai te tornar uma pessoa estressada com muito dinheiro para comprar uma cama gigante, dormir confortavelmente e usufruir de algum luxo enquanto não estiver trabalhando. A outra vai te tornar uma pessoa de condições financeiras instáveis, vai ter mês que a corda vai apertar legal, você talvez não tenha uma cama tão gigante, nem viva com luxo, mas vai ter histórias para contar, gente boa pra ouvir e uma sensação estranha de estar caminhando para alguma coisa melhor num futuro promissor. São escolhas!

A gente pode escolher chamar as moças de princesas e vadias, chamar os rapazes de gatinhos e galinhas, podemos tentar fazer sexo como os filmes pornôs, podemos viver tentando aparentar sermos sexualmente muito bem resolvidos, tentando mostrar pro mundo que a gente transa bem, e muito, e goza sempre, e muito, e que fio terra é coisa de viado, e que dar o cu é coisa de mulher vagabunda, e que ter pau grande é a única maneira de comer alguém e que ter peitos lindos é a única maneira de ser desejada. Ou então a gente pode escolher só transar, fazer o que dá vontade, conhecer gente nova, coisas novas, posições novas, sensações novas, outras maneiras de gozar, misturar as maneiras velhas com as novas, entender um pouco mais sobre Kama Sutra, sobre vibradores, sobre óleos, géis, massagens, beijos, carinhos, texturas e figuras e sermos felizes sexualmente sem dizer nada a ninguém, sem julgar nem ser julgado por ninguém, só relaxando e gozando em looping infinito. São escolhas!

A gente pode escolher fazer uma faculdade foda de entrar, foda de sair, mas que vai gerir um lindo, gorducho e fofuxo diploma que vai te garantir um emprego em uma empresa que pague bem, que tenha escritórios modernos pintados de branco com uma porção de gente sabida das coisas fazendo o dinheiro girar enquanto dorme pouco, enche o rabo de café, vive com dor nas costas, vive doente, mas tá ganhando bem, tá enchendo o pai de orgulho e tá fazendo valer os anos de árduas noites em claro estudando. Ou você pode descobrir o que te faz feliz, pensar um pouco mais sobre isso, vestir uma camiseta, uma roupa confortável, sentar no sofá e começar a bolar o plano sobre de que maneira ganhar dinheiro com isso. Você pode pensar em atividades que te interessem e talvez nem sejam tão rentáveis, mas que vão te permitir viver, respirar, namorar, ter amigos, construir uma carreira e, quem sabe, até ganhar alguma grana. São escolhas!

A gente pode escolher ir andando, ir de bike, ir de ônibus ou ir de carro. Ou então foda-se, a gente nem vai e decide fazer outras coisas. São escolhas. A gente pode decidir dar só uma lembrancinha, ou dar flores, ou dar flores e um urso, ou dar uma roupa bacana, ou dar todo o seu salário numa loja e realmente impressionar. Ou então foda-se, a gente pode fazer um jantar, comprar um vinho que alguém te jurou que não tem gosto de inferno e fazer um amorzinho gostoso no fim da noite. São escolhas! A gente pode viajar para o interior, ou pode ir pra praia, ou vai pro meio da Amazônia, ou se joga pra Buenos Aires, ou vai pra Disney, ou vai pro Rajastão. Ou então foda-se, a gente pega umas cervejas, umas comidinhas delícias feitas na casa dos amigos e vai pro parque jogar baralho, tocar violão e ver o sol abaixando atrás dos prédios. São escolhas!

Então, sabendo disso, sabendo que você tem escolha, que você pode realmente decidir sobre a sua vida, pelo amor de tudo que é mais sagrado para você: não culpe os outros pelo que não deu certo. Combinado? A gente é foda, brother… a gente vai conseguir e vai ser feliz em larga escala!

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Que se abra!

(Estou enferrujado, esse é só para aquecer e voltar…)

Saiu de casa cedinho, não devia ser nem 6h da manhã, numa quinta-feira sonolenta, fria, nublada, úmida, nem um pouco atraente a quem quer que fosse. Os cachorros vadios não estavam lá. Os gatos selvagens deviam estar dormindo debaixo de alguma garagem, algum telhado quente, junto com morcegos, aranhas e pombas, porque não tinha nenhum ser vivo na rua. Nem bicho, nem gente. Chinelos Havaianas tamanho 36, canelas calejadas, pernas finas e lisas, peladas, que terminavam dentro de um vestido de mangas de cor crua, cor de nada. Cabelos presos em formato de bola por trás de um cocar indígena de penas fartas e tramas bem costuradas, a pele arrepiada pelo frio, uma vela acesa em uma mão, um galho grosso de árvore na outra. Tinha 16 anos, a menina, na época. Ontem.

Caminhou pela rua até o fim, até onde o asfalto ganhava formato de gota, num círculo de casas com os portões voltados para o centro. “Rua sem saída”, dizia a placa amarela na esquina a poucos metros dali. A vela, durante os passos no escuro, servia como uma lanterna das antigas, mostrando o pouco de chão que se apresentava nos próximos metros. Quando chegou no centro do fim da rua perdeu algum tempo, indefinido, olhando para longe, como se pudesse ver além da escuridão, dos postes queimados, dos muros das casas, das fronteiras da cidade, do mundo inteiro e do tempo que a vida tem pra viver. Viu além e colocou a vela acesa no chão. O fogo não se abalou.

O galho grosso era segurado, agora, com as duas mãos, à frente do corpo, em uma posição horizontal na altura do peito, com sua extensão perpendicularmente alinhada com o centro da chama da vela. Fechou os olhos, mesmo que o escuro já a tivesse privado de qualquer paisagem, e começou a dizer coisas. “Pelo homem que assistiu à reunião. Pelo tipo de gente que anda com as mãos no chão e os pés no céu. Pelo animal que tinha tempo demais para gastar e preferiu morrer. Pelas flores pretas do jardim do além. Pelas árvores que nascem com raízes azuis.” Seguia recitando uma espécie de agradecimento. Uma lista enorme de nomes decorados que mereciam uma menção durante seu ritual.

Era uma garota de 16 anos, na madrugada de um dia frio e úmido, no ano de 2013, no início de outubro, com uma vela acesa colocada sobre o asfalto no fim da rua de sua casa, segurando um cajado de madeira falando sobre criaturas, acontecimento e pessoas que não cabem no espaço da fenda da porta do mundo real. Não eram reais, para nós, mas eram alguma coisa e isso bastava para fazerem parte daquilo. Enquanto falava, a chama da vela crescia, cada vez mais alta, fina como uma linha luminosa levantando na escuridão. De repente sua voz adquiriu ares de fúria, como se desse broncas ou acertasse contas com alguém. “Pelos que são de ontem. Pelos que viram o que não vi. Pelos que são o que são. Pelos que vieram para ir. Pelo que foram para mais além de ontem. Pelo ontem que nunca será hoje, nem amanhã, nem eternidade.” E seguia falando, cada vez mais rápido, mais ríspida, mais alto, com a chama mais perto do cajado.

No exato momento em que o fogo em formato de linha tocou a madeira, ela segurou a cabeça do cajado com a mão direita, num movimento rápido e preciso, girando o galho sobre sua cabeça algumas vezes para, no fim, segurá-lo com as duas mãos e bater com a ponta no chão, com força, esmagando a vela em sua totalidade, sem errar, sem cair para fora, sem espaço para imprecisões: “QUE SE ABRA!”, berrou com toda força que sua garganta e seus pulmões puderam imprimir. O cajado tocou no chão, as calçadas se afastaram, os carros estacionados saltaram para o alto em um ballet descoordenado de destruição,  com barulho de metais retorcendo, vidros quebrando e a rua se abrindo ao meio em um buraco visceral como um corte de faca cega.

Era o inferno lá  no fundo, com luzes alaranjadas e líquidas dançando por todo lado, enquanto o bairro todo se retorcia numa onda sísmica que não ia parar. E foi se alastrando, levando o resto da cidade, abrindo cada vez mais, levando lagoas, mares, montanhas e paisagens inteiras. Árvores, fotografias e histórias, tudo sumindo no terremoto mais ráp0ido que já existiu. No fim uma onda se encontrou com a outra, do outro lado do mundo, se chocaram com força e velocidade equivalentes e assim como a física mandou que fosse, voltaram pelo mesmo caminho que foram. Tudo foi voltando ao lugar, as destruições se arrumando, os vidros quebrados se juntando em poeira no ar até formarem janelas, casas, prédios, rios inteiros e no fim, fechando a cratera aberta no meio da rua como se nada houvesse acontecido.

Ela olhou ao redor e não viu nada nem ninguém. “É, funciona”, disse curiosa, antes de caminhar com os chinelos úmidos, o cajado com a ponta suja de parafina branca e os cabelos soltos deitados nas costas até arrastaram no chão por trás dos calcanhares, surgindo da cabeça adornada pelas penas de pássaros que já não existem mais, presos num cocar de índio do futuro que não pertencem à nossa história. Ninguém viu. Ninguém ouviu, Ninguém soube. Mas só de estar escrito, já é real.

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Sobre o sumo alheio

Se quiser saber meu gosto, que saiba, e me prove do jeito mais puro que existe, sem temperos, sem recipientes, sem guardanapos, embalagens, palitos ou talheres. Chupe-me como fruta, sorva-me como seiva, coma-me como carne. Assim saberá meu gosto, saberá da minha parte mais sincera e imutável, da minha essência e do meu verdadeiro ser. Te ofereço minhas pétalas abertas, minha casca já amolecida, minha baba pingando do alto como um fruto implorando pra ser colhido. São terrenas essas nossas relações de curiosidade.

Depois disso a gente troca de pele como cobras, como cães que trocam de pelo, como lagartas que trocam de corpo. Natural da natureza, essa coisa de trocar-se de lugar. Trocar coisas, experiências, memórias, casas, identidades, segredos, salivas, sussurros, medos e unhas. É de trocas justas que são feitos os verdadeiros amores carnais, os que se preocupam mais com o gozo do que com o futuro. De beijo em beijo o horizonte constrói a colcha da vida, a gente não precisa planejar nada, querer nada, projetar nada. O projeto já está feito, é só viver de acordo com ele. É arquitetônico esse nosso olhar a dois.

No escuro, quando tudo some, a gente brilha como vaga-lumes em tempo de cio, cortejando, acenando, piscando como estrelas perdidas no céu de universos do quarto frio. Cadê penteadeira? Onde foram todos os criados mudos? E os falantes? Cadê mancebo? Cadê baú? Cadê mosquiteiro e vela acesa? Some-se tudo, apaga-se tudo e fica eu e você brilhando de corpo todo a voar pequenos e infinitos pelo espaço aberto na escuridão. Voltas e voltas no além para nos encontrarmos bem no meio, onde havia a cama e aí, de inseto, recobrávamos nosso belo corpo de carnes. Carnívoro esse nosso viver.

O encontro era como uma grande explosão, que iluminava a vida e o caminho, que fazia o sentido voltar à tona e tudo perder o valor ao redor. Era muito de nós dois confundir amor com tesão, paixão com orgasmo e beijo com carinho. Misturava-se o tipo de gemido agudo de dor com aqueles momentos de quase morte quando se goza sem medida. Fazia-se da pele do outro um punhado de terra macia e cravava-se as unhas até arrancar o sangue, como se fosse o arar de terras férteis pro plantio do amor no fundo. Muito orgânicas essas nossas carícias.

De repente, no fim do texto, da vida e do caminho, só o oceano de Neil Gaiman, a sanfona e o gibão do Gilberto Gil, as fotografias recortadas em jornais de folhas amiúdes, de Zé Ramalho e a minha eterna deficiência de não conseguir me manter no mesmo tempo verbal do começo ao fim, deixando a gramática se perder no fluxo de consciência. Mas posso traduzir no fim de tudo: trata-se de um quarteto de parágrafos que fala sobre a importância do sabor do outro, de se saber saborear o sumo alheio, de se valorizar os desejos da carne, os devaneios da mente e a certeza da incerteza. Era mais ou menos sobre isso que estas linhas estavam conversando…

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Ninguém, nem nada

Esperava uma recepção calorosa, cheia de sorrisos, abraços apertados e conversas interessadas. Mas não, porque a volta pra casa é sempre solitária pra quem é sozinho. Não se tem alguém para encontrar em casa, não se tem para quem contar o dia, não se tem para quem pedir o último gole, ou levar um doce como desculpa por ter chegado tarde demais. Não teve recepção nem do cachorro, porque este não existia. Ninguém, nem nada.

O lado ruim de beber, isentando qualquer preocupação com a saúde, é que beber nos faz falar demais, mas a ressaca nos cala a boca como uma morte de aluguel. Simplesmente paramos de falar quando estamos sob efeito da intoxicação alcoólica e, acredite ou não, tudo o que uma pessoa sozinha quer, num momento de desespero, é falar. Mas falar com quem? Falar pra quem? Falar o quê? Não existe um ser humano que consiga responder a estas perguntas. Ninguém, nem nada.

Drum n Bass. Nada de rock. Nada de eletrônicos supertecnológicos cheios de grunhidos. Nada de rap, nem americano, nem canadense, nem inglês. Nem brasileiro. Nada de MPB, nada de coisas figurativas, casinha de sapê, o barquinho, a garota no calçadão da praia. Só um grave, muitos beats, ritmo acelerado e uma porção de paradas bruscas para respirar. Faltava o ar, mas não podia morrer assim. Ninguém ia ficar sabendo e o corpo ia ficar ali, de bobeira, mofando sobre o tapete, sem nenhum choro, nenhum grito de horror, nenhuma pessoa assustada chegando de repente e surpreendendo o presunto ali, estirado. Ninguém, nem nada.

Estava nas paredes. Sempre estão, há anos. Frases e mais frases escritas com pincel atômico e cobertas com tinta salmão, que é pra acalmar o clima do quarto. Estão escritas, todas, debaixo do piso de madeira colado e brilhoso por causa do sinteco. Tá por dentro do travesseiro, atrás dos pontos firmes do edredon, agarradas na sujeira escondida debaixo das teclas deste teclado. As frases estão sempre aqui, sendo ecoadas, repetidas, esquecidas e lembradas. Mas quem escreveu? Quando escreveu? Foram escritas para quem? Não sei, não conheço quem sabe. Ninguém, nem nada.

É aquela falta de amor de Claritromicina. Não o remédio, as pílulas e tal. Mas sim a escritora, que fala do Rio, que fala do povo que chega sem avisar, que vai entrando e depois some como veio, sem querer, sem lembrar. São as constantes faltas de memórias. Mas não aquelas da cabeça, daquelas que a gente lembra mais tarde. Tô falando de coisa séria, tipo as memórias do Sr. Cubas, que tem o mesmo nome que eu, mas se escreve meio diferente, que via borboleta preta, que pensava na morte enquanto ainda estava vivo e depois resolveu pensar na vida quando já estava morto. Ou então, quem sabe, esteja faltando tudo isso. Esteja faltando o veio de ouro, esteja faltando pirâmides e coisas cheias de mistério, enigmas do milênio, todo dia um novo. Talvez esteja faltando utopia, ou memórias utópicas. Mas não há, não existem, porque memórias utópicas são memórias de ninguém. Nem nada.

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Sensual e fictício

A porta fechada que era pra fingir que o mundo tinha parado de existir e tudo o que restava era aquele quarto. Os corpos tremendo de frio e tesão, cheios de pontas de dedos muito frias e narizes que pareciam bicos de gelo. No escuro, quase nada visível, quase nada pra ver e calma, uma extrema calma que descia dos cantos das paredes e lambia os pés da cama, as costuras e as franjas da cortina, os beiços do tapete e as nossas canelas.

De costas, apoiada na parede como quem acaba de ser pega pela polícia, me oferecia uma nuca lisa e comprida para eu beijar, lamber, morder e arranhar. Minha mão sumia por dentro dos cabelos, que se agarravam nos meus dedos e não largavam mais. Foi o primeiro começo de um par de pares de dias da gente se alisando como se tivéssemos mais intimidade que qualquer outra dupla no mundo, nos olhando sem roupas e sem defeitos, isentos de perfeição por opção e felizes com a nossa curiosidade.

Dias sentindo sua respiração quente ao redor da minha orelha, sua voz falhada e oscilante brotando do meio da escuridão e um calor concentrado que passava de mim pra você e depois voltava de novo, num ciclo de aquecimento natural quase imbatível. De dia ainda era escuro e a noite era 24h a dentro, mergulhada em todo tipo de troca de experiências e sensações. Eu passava meus dedos pelo seu rosto, desenhando o contorno da tua boca como um batom de festa, sentindo a ponta da tua língua surgindo por entre os dentes para fazer meu tato salgado receber as boas vindas do teu paladar voraz.

Beijos no olho, carinhos detrás da orelha, dedos entrelaçados debaixo de um sem número de cobertas, pelados e muito quentes, nos aproveitando um do outro para pura sobrevivência. Era tão sensual que chegava a doer ter que dormir. Fechava os olhos fora de controle desejando mais uma dúzia de noites muito bem gastas transando ao som de Los Hermanos, pedindo comida pelo telefone, bebendo vinho barato e usando a boca para beijar e lamber, mas quase nunca para falar.

Era tão erótico, tão intenso e, ao mesmo tempo, tão suave, que beirava a loucura, daquele tipo de sentimento que faz a gente pensar sobre largar o emprego, vender o apartamento e o carro, deixar o cachorro com a mãe e se mudar, de mala e cuia, de vez pra outro lugar. Tão bom, mas tão bom, mas tão bom, que não existia e, enquanto eu passava os dias desenhando uma fantasia cheia de delicadeza e sentimento, a vida real corria a passos largos acabando com toda a minha imaginação.

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