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As coisas que pulsam

(esse texto é um exercício fantasiado de texto, ok?)

Em pé, descalça com os pés no chão de madeira, o horizonte das luzes no fundo escuro do céu é o limite. Os cabelos muitos pretos, muito compridos e vivos como cobras, sobrevoam os ombros, as costas e vão para trás a cada nova rajada de vento que entra pela janela. Ela ali, procurando com os olhos uma das luzinhas que faça alguma diferença. Mas não faz. São todas iguais. Sempre iguais. Assim como o vento, os cabelos e os cigarros. E fuma, para ter certeza de que este é exatamente idêntico ao anterior.

É o vigésimo nono, alto pra caralho e, por isso, olhar para o horizonte é um exercício de caça constante. Não se vê a forma das coisas exatamente quando se está nessa altura. Então são só luzes se movendo, construindo um cenário estático tão dinâmico que fica difícil de descrever. Afinal, você nunca percebeu que as luzes dos postes pulsam como as estrelas no céu? Deveria ter percebido isso há alguns anos, no mínimo. Quando você nasceu a iluminação de rua já pulsava firme, amarela, em lâmpadas de mercúrio.

As coisas pulsam para se mostrarem vivas, porque o morto não pulsa, porque não respira, porque não sangra, porque nada é. E se é, só pode ser morto mesmo. A ponta alaranjada do cigarro, que a gente estupidamente chama de brasa, mas não é, pulsa porque, vivo que é, o tabagismo precisa sugar a vida de quem o fuma. As estrelas, clássicas, pulsam porque vivem, simples assim. O coração pulsa porque quer nos manter vivos e os pulmões pulsam porque quer nos manter fumando. Vamos nessa linha de raciocínio e fica difícil aceitar que as luzes da cidade não pulsam. Pulsam porque querem nos cegar, se fosse para ver, de verdade, viveríamos no escuro, com as pupilas dilatadas, vendo os contornos granulados de tudo e todos.

Mas não. Era só uma janela na altura das coxas, num prédio bem alto e com mobílias antigas, com um corpo seco, um rosto quase feio de tão magro, e uma camiseta parecida com uma camisola, sobre um corpo que não vestia mais nada, nem perfume, por baixo. Era um cômodo vazio, só com janelas, paredes e chão, sem móveis nem lâmpada, nem quadros nem outra serventia além da que lhe cabia: ter a melhor vista da cidade. No canto, porém, tinha um cara, um outro rapaz muito magro, tão magro quanto a própria magreza pode ser. Ele fumava com o cigarro no canto da boca e dedilhava um violão com tanta delicadeza que os sons e as notas musicas tinham de se atirar, sozinhas, para fora do instrumento, em direção ao além, pois ele não parecia querer propagar sua música para ninguém.

E a cena era essa, com ela peladássa, com os bicos dos peitos quase rasgando a camiseta(sola), os cabelos malucos voando, ondulados, sem parar por todo o cômodo, com ele sentado no canto, tocando para si mesmo, ouvindo notas que ninguém mais ouvia, e tudo pulsando. O cigarro de ambos, o coração de ambos, o pulmão de ambos, a cidade de ambos, as estrelas de ambos, a vida de ambos, até que chegou a hora de parar. E desligaram a chave, apertaram o botão vermelho, digitaram o código de segurança, ou qualquer outra coisa apocalíptica, e tudo se apagou. A Lua tava com sono, foi dormir cedo, as estrelas foram embora também, os cigarros queimaram até o filtro e a cidade ficou sem energia.

Foi nessa escuridão que tanto ele, quanto ela, perceberam, pela primeira vez, que não estavam sozinhos ali. É que as vezes a gente vê tanta coisa, a vida e as luzes pulsam tanto, que a gente fica cego para o que realmente importa e está perto, fisicamente falando. Foi desse jeito, e por isso, que acabou a cena toda.

Fim, um beijo pra você, leitor(a)!

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Domingo

Era dezembro, um calor do caralho e eu me lembro de tudo, porque determinados momentos nunca somem. Sempre me incomodei com altas temperaturas e, por isso, no verão acordo cedo, que é o momento em que meu corpo já não aguenta mais cozinhar na cama. Nesse dia a cama não era minha, mas o horário era o mesmo de sempre. Acordei e tentei sair do quarto quase incógnito. Me movimentava bem lentamente, tentando fazer o mínimo de barulho, olhando para ela e torcendo para que não acordasse. Mulheres com sono leve são o pesadelo de amantes insones.

A casa faz silêncio durante as manhãs de sol, né? Já reparou? Quando você acorda primeiro e caminha pelos cômodos é como se tudo fosse mais silencioso do que em qualquer outra parte do dia. Nem de madrugada é tão agradável, porque é o horário que os móveis têm para conversar, então me sinto atrapalhando ou interrompendo alguma coisa importante. Mas de manhã é tudo branco, lindo, macio e calmo. E lá estava eu, de bermuda e camiseta, naquela casa cheia de ausência e carente de atenção.

O domingo começou com sol, pão francês do dia anterior, leite puro e um pedacinho de chocolate meio amargo que estava escondido na porta da geladeira. Suspeitei que fosse o “chocolate de emergência”, aquele que as mulheres precisam num momento de desespero antes de matarem alguém ou explodirem a própria cabeça. Voltei pro quarto pisando macio, ela permanecia na mesma posição, mergulhada em um milhão de sonhos por segundo.

Pelo meio do lençol embolado com o cobertor um pedaço de corpo aparecia para ver o amanhecer. Um pedacinho das costas, a parte do fim da coluna, onde o corpo faz uma curva negativa antes de subir de novo pra formar uma das bundas mais lindas que eu já vi. Mas isso eu não dizia para ela, era como se fosse uma opinião que eu precisasse guardar para que não perdesse o valor. Além da cama enfeitada com aquele corpo quente e adormecido, o quarto me reservava uma cadeira sem braços colocada no canto, ao lado da porta, com o meu violão apoiado na parede.

Sentei como quem está prestes a assinar um contrato importante, botei o violão no colo e me transportei para algum lugar no ar entre mim e a cama. Tocava Adriana Calcanhoto com uma devoção que não era minha, num estilo que não era meu, com um olhar que não cabia no meu rosto. Ela se mexeu, retorceu e, quase como quem ouve um chamado do além, abriu os olhos com segurança, sem fechá-los depois, em vigília, em atenção, até relaxar e perceber que a voz era minha, que o violão era meu e que ainda era domingo.

Virou-se com o rosto para cima, olhou para mim pelo meio das pálpebras inchadas e sorriu, me fazendo sorri de volta. “Você é foda…”, me lançou, com voz de quem se espreguiça por completo ao mesmo tempo em que boceja. Depois sentou-se na cama, arrumando os cabelos e deixando os peitos aparecendo sem nenhum pudor. Essa falta de vergonha da própria imagem sem roupas diante de um homem só tem um significado: total devoção.

Ficou me olhando, sorrindo, enquanto eu cantava que perdia as chaves de casa, que estava dividido em mil pedaços de cacos e me questionava onde “ela” estaria agora. Para minha calma e felicidade, estava bem diante de mim, nua, descabelada, sonolenta e apaixonada. De repente, no meio da música, entre a segunda estrofe e o refrão, saltou da cama e me tirou o violão. Arremessou o instrumento sobre o colchão, sentou-se no meu colo, de frente para mim e me beijou com uma boca com cheiro de morte e solidão.

Ficamos ali, agarrados, sentindo o sol subir, iluminar e esquentar tudo ao redor, enquanto a gente se gostava com calma, com atenção, sentindo a respiração do nariz do outro, tateando o corpo sem a menor pressa. Ela segurava a minha cabeça, me beijava com certeza, com determinação, com paixão inignorável. Na minha mente, além da textura perfeita daquela pele, da pressão daqueles peitos contra o meu peito, da força daquelas coxas ao redor da minha cintura, eu ouvia com todos os timbres e notas, a mesma música, a mesma que eu tocava antes, soando com a minha própria voz no meio do silêncio, pairando no inconsciente coletivo daquele quarto particular naquele domingo de um calor inexplicavelmente agradável.

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