Arquivo mensal: dezembro 2011

O melhor homem do mundo

Se eu não quiser te comer vou ser considerado o melhor homem do mundo? Você vive me dizendo que eu sou diferente, que a gente tem uma relação bem diferente do que você teve com seus outros namorados e casinhos. Toda vez que ouço isso fico me perguntando se eu que sou muito mole ou se eles é que eram objetivos demais. De qualquer maneira, é comigo que você está agora, então deve ter alguma coisa aqui que eles não tinham.

Às vezes, quando a gente conversa e você deixa escapar alguns detalhes dos seus relacionamentos anteriores, sinto que estou diante de uma mulher que, em outras épocas, jamais estaria comigo. Não que eu me menospreze, mas jamais transaria com você na sacristia, nem no carro enquanto estamos na fila do lava-rápido, nem no telhado do seu vizinho, nem dentro de uma geladeira de cerveja desligada, nem dentro do banheiro do ônibus e nem na maioria dos outros lugares que você, naturalmente, me conta que fez sexos animais e inesquecíveis.

Você deve ser ninfomaníaca, acho. Esse teu sorrisinho alegre e meigo, essas duas pérolas pintadas de verde-água no meio do rosto, esse cabelo perfeito de um jeito que mata metade das mulheres de inveja e essa sua mania de ser toda menininha, esconde um monte de coisa séria a seu respeito. Uma delas, por exemplo, é que você já teve mais namorados do que eu beijei de bocas na minha vida inteira. Incluindo época de micaretas.

Diante de uma mulher tão experiente, malandra e vivida como você, posso até parecer um grande juvenil, mas alguma coisa que eu faço – que eu ainda não descobri o que é – faz com que você me respeite e goste mais de mim do que da maioria desses outros. Fico maravilhado quando as suas amigas me dizem que você mudou, que hoje não pega ninguém na balada, que está mais fiel do que nunca e, principalmente, quando você me liga pra ir até aí, ver um filme ou só ficar com você, e quando abre a porta, está de pijama, e não pelada e recém saída do banho, como disse que fez uma vez.

Começo a pensar, então, que o fato de eu te tratar como uma mulher que tem que ser conquistada, uma mulher difícil e crítica, como a maioria delas, te encanta. Em algum momento dessa sua enorme sede de prazer e sexo, acho que aceitou o fato de ser fácil. E quando eu, um cara que já sabia disso, começa a te tratar como uma mulher respeitosa e direita, talvez o seu lado ‘mulher romântica adormecida’ tenha sido acordado. Sendo assim, acho que o segredo é te tratar como você merece, não como você espera ser tratada.

Não vou mentir e dizer que nunca olhei pra sua bunda, ou pra dentro do seu decote. Na verdade eu olho sempre! Olho porque seu corpo é espetacular, me deixa até um pouco inebriado, atônito, fora de órbita, quando você me abraça só por abraçar, só para sentir um outro corpo colado no seu, e eu, reto como uma parede, sinto todas as tuas curvas se acomodando em mim. Mas isso não é tudo!

Te acho mais inteligente que a maioria, gosto da maneira como é livre e se dá, para ser aprisionada, quando se faz necessário. Gosto do jeito que me olha, que me ouve e que se interessa em entender tudo o que eu digo e você não faz ideia do que seja. Esse encanto todo que você vê em mim, na minha opinião, vem do fato de eu não ter pensado em sexo logo depois do primeiro beijo. Talvez você tenha ficado até decepcionada quando te deixei em casa e fui embora.

O fato é que, quando tudo estiver sólido, seguro e confiável, vou te levar pra uma cama confortável, em um quarto calmo, com alguma coisa interessante tocando e vai ser o melhor sexo da sua vida. Tenho a impressão de que você fez tanta coisa em lugares perigosos que esqueceu o quão pode ser intenso e íntimo o sexo onde não é preciso se preocupar com nada, nem com a hora, nem com possíveis pessoas olhando, nem com o barulho que se faz. Você vai poder transar olhando para mim, ou para a puta que pariu, não importa, vai poder fazer o que quiser.

E depois de tudo, mesmo que pareça lorota, eu sei que você vai continuar me vendo da mesma maneira. O mesmo brilho vai continuar, a mesma vontade de estar junto vai estar presente e nada vai mudar. Vai ser o sexo mais comum de todos, mas o mais inovador. A novidade de um sexo tranquilo, coisa que você nunca teve, vai te ganhar de cara. A novidade te conquista, já percebi isso, e é por isso que eu sou o melhor homem do mundo: porque ainda não fiz o que todo mundo fez. Ainda bem!

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Eu não confio em você

Digo isso tudo porque não acredito em você. Quer dizer, acredito, mas não confio. É, acho que é isso, não confio em você, mas não é por mal. Não confio porque é assim que eu sou, porque é minha defesa, é meu jeito de me ferir menos, de levantar mais rápido, de ser forte. Não confio em você e também não confio nos outros, nem nos que dizem confiar em mim. Eu não confio em ninguém.

Mas nosso caso não é uma questão de confiança, acima de tudo. Mesmo que confiasse, um pouco, talvez, ainda assim, diria o mesmo. Não confio em ninguém, mas se fosse dar minha vida na mão de alguém, ou dividir minha existência entre muitas pessoas, ainda assim, não daria nenhum pedaço a você. Nenhuma lasca ínfima sequer. Não confio em quem me amedronta e não dou o braço para dizer que isso acontece.

Mas com você acontece o tempo todo. Acontece porque toda conversa começa com uma espécie de domínio da minha opinião e voz sobre a sua, que assume uma postura estranha de ingenuidade, de inferioridade falsa. Quase sempre, quando eu te olho, você ri e me responde a resposta mais simples de todas, me dá só a verdade, sem rodeios, sem discussão e eu fico sem saber o que pensar. Ninguém pode ser tão simples assim como você é!

Mas aí, quando eu estou montada em você, comendo todas as suas opiniões com as minhas vontades, minhas birras e a minha sutil falta de educação proposital, você se abre em uma enormidade assustadora. E faz isso sem pudor, sem aviso, sem nada. Quando percebo estou diante de alguém gigante que surgiu de uma semente que eu nem vi plantarem. É como se enquanto eu falasse você fosse um lagartinho, um tritão, um calanguinho sem cor. Mas quando, por algum motivo, decide falar, se transforma em dragão e abre as asas, rasga as paredes, derruba tudo ao redor, faz-se espaçoso e gigante para calar a minha boca ainda sorrindo, bebendo goles curtos de um copo de vidro sentado do outro lado da mesa. Eu morro de ódio disso.

Não tenho estrutura psicológica para aguentar alguém assim na minha vida. Não posso ter quem não controlo, nem gente que, se der na telha, me desdobra e ainda tem a cara de pau de dizer que está tudo bem. Eu não dou o braço a torcer. Nunca disse nada disso antes, eu sei, mas mesmo que eu seja muito firme na queda, acho que em alguns momentos, nos mais intensos, você percebeu que eu estava me borrando de medo. Não é um medo comum, daqueles que a gente tem vontade de fugir correndo e não olhar pra trás. Teu medo, esse que você me causa,  me adoça a boca como se fosse uma hipnose.

Meu medo é exatamente desse tipo doce de ameaça que você me oferece. Nunca me obrigou a nada, nunca foi rude, nem grosso, nem sequer levantou a voz para mim. Qualidades que eu nunca quis reconhecer, mas poucos homens me trataram tão bem como você me trata. Mas eu sei que você sempre se esforçou para entrar dentro de mim, fosse no coração, em outras épocas, ou na mente, como agora. Meu medo vem dessa busca que você iniciou por uma brecha na minha armadura. Vai que um dia você acha, como eu vou fazer?

É por isso tudo que não confio em você. Não posso dar-me, nem inteira, nem em partes, para alguém que me deixa ganhar umas, pra me deixar confiante demais e reagir de repente, sem aviso prévio, para me pegar desprevenida e nunca mais perder de novo. Ainda tenho meu orgulho. Não quero um dia te contar de uma desilusão amorosa besta, ou de uma decepção em casa, ou de uma briga no trabalho, e, no meio do meu discurso cheio de razão, você crescer pra cima de mim e me convencer de que eu estou errada.

Odeio a sensação de que, a qualquer momento, vão me quebrar no meio, me fazer perder a fala, a ideia, o fluxo de consciência. E é nessa repulsa que mora meu maior dilema. Sinto que, quando conversamos, a todo momento você vai fazer sua metamorfose mental e passar da lagartixa a dragão e eu vou ficar com cara de idiota, frágil, vulnerável, aberta em todos os sentidos para qualquer coisa que você me disser. Mas, ao mesmo tempo, a cada vez que abro minha boca para dizer uma novidade e dou de cara com o seu rosto interessado, com a sua testa franzida fazendo associações e comparações silenciosas durante a história, percebo que só vale a pena contar para você.

Nenhuma história é tão legal chegando aos ouvidos dos outros. Eles só me julgam, ou não dizem nada, porque só conhecem os meus defeitos e só sabem me ver assim. Você me conhece, e conhece meu mundo, e mistura com o seu e, de repente, vê tudo de um jeito novo. Contar para você é melhor, a sua reação é melhor, a sua curiosidade e interesse são mais sinceros. Sinto que ninguém mais está tão afim de ouvir o que eu tenho para dizer quanto você, quando a gente conversa.

Te vejo como um tipo de engolidor de verdades, como um tamanduá que suga o conteúdo de dentro dos buracos mais escuros. Você me vem com essa língua infinita, enfia na minha orelha, lambe meu cérebro com calma, me fecha os olhos, me deixa levitar, me domina com calma, essa sua calma filha da puta que não acaba nunca e me rouba todas as verdades que eu não queria contar. Você é um ladrão dos meus sentimentos e das minhas verdades. Aí eu digo que é brincadeira, ou que você não entendeu nada e mudo tudo, mas no fundo já sei que você entendeu a realidade toda.

É por isso que não confio em você. Não confio em quem me rouba, nem em quem me domina, nem em quem me engana, nem em quem me induz, nem em quem me manipula, nem em quem me cerca, nem em quem me ganha, nem em quem me prende, nem em quem me larga ao léu, nem em gente assim como você, que é tanta coisa que começa a ficar sem adjetivo e passa a puxar substantivos abstratos para se definir, como tamanduás, dragões, gigantes, calangos, ladrões, mágicos, hipnotizadores e larápios. Você é um monte de coisa que eu não estou acostumada a ver e é por isso que não confio. Meu medo de você e de tudo que você é está acima de qualquer mudança: minha confiança você nunca terá.

Você vai? Então eu vou!

Eu vou porque você vai estar lá. Se não fosse por isso eu ia dizer que estava cansado, que acordei cedo, que tenho coisa pra fazer, que tenho trabalho atrasado, que estou com visita em casa ou qualquer outra mentirinha besta. Mas você vai e, sendo assim, é claro que eu vou. E como sei que a nossa relação é mais impessoal do que o contato da moça que vende bilhetes de metrô comigo, vou ficar na minha, esperando a chance de alguma chance aparecer.

Vou apanhar minha cerveja, ficar com meus amigos, olhar pros lados como quem está vendo algum conhecido, bebericar devagar e esperar ali, meio rodeando, meio fingindo que não estou nem aí. Mas mesmo de longe, mesmo com gente indo e vindo pra todo lado, eu vou reparar no teu vestido, nas flores que ele tem, na maneira harmoniosa que o roxo combina com o vermelho, que combina com o rosa, que combina com o amarelo, que combina com o azul, que combina com essa psicodelia que cobre teu corpinho juvenil.

Vou ficar pilhado se você conversar com algum cara por muito tempo, vou ficar feliz se você me notar, vou ficar sem ação se vier falar comigo, vou ficar com você a noite inteira se necessário. Teu sorrisinho de criança vai me quebrar no meio, você dançando de olhos fechados vai me tirar do centro e no fim de tudo a verdade é que tudo de você me tira de algum lugar e me joga pra bem longe. Mas eu quero ficar, sempre vou querer ficar, se você estiver.

E se no fim da noite o sol vier antes de alguma coisa acontecer, tudo bem, paciência, às vezes é assim. Eu, petrificado pra qualquer assanhamento que vá além de um “oi”zinho com um abraço mais apertado, vou ver você ir embora, entrar no carro e cair no mundo com teu passinho black, teu vestido de todas as cores, teu risinho inocente e a pele da cor que tem que ter. Tem vezes que a malandragem vem e domina, tem vezes que ela vai fumar um cigarro lá fora e demora demais pra voltar, e é bem quando você resolve aparecer.

Mas eu vou, mesmo assim eu vou. Se você vai estar lá, mesmo que seja só pra olhar, só pra sorrir quando o olhar se cruzar, só pra te oferecer o perfume do meu pescoço no abraço de “tchau”, já vale. É hoje, vai ser hoje! Tem festa, vai estar todo mundo e vamos, eu e minha cerveja, tentar lançar o melhor olhar de sinceridade e sentimento, porque da boca não vai sair nada bom. Mas eu vou!

Importância

E eu disse: é claro que eu me importo com você.

E ela disse: eu não penso assim.

E eu disse: o problema é seu se você não confia em mim. eu me importo, e muito.

E ela disse: duvido.

E eu disse: não dá para te provar, eu só me importo.

E ela disse: você deve dizer isso para todas.

E eu disse: que merda, você não confia em mim nunca!

E ela disse: você não me dá muitos motivos para confiar…

E eu disse: então vá se foder!

E ela disse: ok… – e saiu.

Foi a última vez que a gente se falou. Eu sempre dava dessas, de perder a cabeça, de não saber o que falar e deixar escapar justo a pior merda possível. Eu sempre dava dessas! Me espantei quando ela não voltou duas horas depois, nem no dia seguinte, nem no outro, nem na semana seguinte e nem nunca mais. Quando comecei a pensar besteira, achando que talvez houvesse se machucado, batido o carro, sido sequestrada, coisa do gênero, chegou um cara fedendo a suor com um boné azul na cabeça e uma calça jeans velha toda chapiscada de tinta dizendo que era o carregador que levaria as coisas da “Dona Luciana”. Porra, por essa eu não esperava.

O fedorento ficou na sala, de pé, olhando pras coisas com cara de paisagem, enquanto eu pegava a montanha de coisas que ela tinha deixado aqui. A gente nem namorava, mas acho que tinha mais roupa dela do que minha dentro do guarda roupa. Acho, na verdade, que a gente não namorava porque ninguém pediu ninguém em namoro, porque lembro dela ir até o banco pagar minhas contas e eu botava absorvente no meu carrinho de compras mesmo quando estava sozinho. Lembro que aprendi que tinha que pegar um pacotinho do normal e um do noturno, porque uma vez comprei só o para dormir e levei uma baita bronca. “Você não tem noção de como isso é enorme, não dá pra andar por aí com isso no meio das pernas. É como se você saísse com uma metade de pão de forma dentro da cueca”, ela disse, puta da vida, enquanto eu ria de rolar no chão.

Encontrei umas peças de roupa que ela nunca tinha usado, outras que eu dei de presente e nunca foram levadas para casa. Depois de um tempo a minha casa começou a virar dela também, e logo depois a gente já conversava com os nossos amigos dizendo “lá em casa” como se fôssemos os donos, não só eu. Virou uma coisa meio sem nome, sem tamanho, que só existia porque a gente alimentava, dava água e levava pra passear, mas ninguém sabia quanto ia durar, nem de que tamanho ficaria caso durasse para sempre. Juntei todas as roupas na cama e não sabia como entregar. Para não ter que jogar num saco de lixo e passar uma imagem de “foda-se, toma tuas roupas” enrolei no cobertor da própria cama, dei um nó e fiquei alguns segundos olhando aquele embrulhão, tipo saco do papai-noel, só que retirante, e percebi uma calcinha para fora. Uma pequenininha, das brancas com bolinhas rosas que ela usava para dormir. “Essa vai ficar aqui!” disse para mim, pegando o microscópico pedaço de pano e enfiando no bolso.

“Toma aqui, isso é tudo…” disse para o cara fedendo a sovaco. Fiquei olhando ele apanhar o embrulho tosco sem o menor cuidado e imaginei a maneira como aquilo chegaria até ela. Pedi para o cara esperar, apanhei um papel na mesa do computador e escrevi com a letra mais torta do mundo. “Lu, eu sei que a gente já não se fala faz muito tempo, mas não acho que tenha que ser assim. Espero que a gente ainda possa conversar, tomar um café, você vem aqui em casa, a gente se fala, sei lá. Um beijo”, e não assinei. Não assinei porque não precisava, ninguém mais estava envolvido na coisa toda e, sem assinar, dava ideia de que o bilhete ainda não tinha acabado. Entreguei na mão do cara, avisei para entregar tudo junto e fechei a porta. Foi uma merda o silêncio que ficou com aquele “tuuuuuuuu” que dá no ouvido quando, de repente, todos os barulhos somem. Liguei para uma amiga, daquelas amigas mesmo, que você não pegaria nem se fosse a última mulher do mundo, e contei o que tinha acontecido. Mulheres têm talento para entenderem o sofrimento e a dúvida alheia. Ela só me respondeu: “espera, tô indo praí.”

A gente comeu pizza, tomou cerveja, conversou sobre tudo e depois de todo o teatrinho e o fingimento veio o assunto que motivou nosso encontro. Eu falei tudo, falei até em amor, em casamento, em filho. Parecia uma bixinha que tinha levado tapa na cara de um policial de mal humor. Ela riu, ficou séria, ficou brava, ficou com dó, ficou tudo, assim como eu também fiquei. Fiquei com vontade de ligar, com vontade de atravessar a cidade com flores, ou talvez um bolo de chocolate comprado na padaria que ela gostava de ir. Fiquei com vontade de tudo, mas no meio da vontade de morrer com a vontade de matar uns dez, minha amiga me perguntou sobre o começo da briga toda.

E ela disse: mas você se importava mesmo?

E eu disse: muito.

E ela disse: muito quanto?

E eu disse: muito a ponto de ficar nesse estado deplorável por que ela foi embora.

E ela disse: você já se importou assim com alguém?

E eu disse: eu me importo com todas as mulheres que encostaram a boca delas na minha.

E ela disse: então acho que você perdeu tempo dando atenção para muita gente errada antes de se importar com quem era importante.

E eu disse: … puta merda.

Histórico

Não faz muito sentido eu chegar de mansinho falar uma porção ou duas de coisas legais pra você, sorrir calmo e esperar que você vá se apaixonar por mim. Existe tanta coisa rolando sem eu saber, tanto sentimento escondido. É mais fácil virar seu psicólogo do que seu amor. Ao menos acho que com psicólogos você ainda não se decepcionou, em compensação, com caras que surgem assim como eu surgi, incontáveis vezes de noites encharcando o travesseiro.

Meninas como você me fazem perceber que não existe fórmula da conquista. Na verdade, a própria palavra “conquista” já é meio forte demais. Afinal, quem conquista toma para si, mas você não é um objeto que tem donos. Sendo assim, decidi te olhar, assim de longe, só para entender o que é que eu estou fazendo com você, com a sua vida, com o seu amor e a sua paz de espírito. Quero causar o menor estrago possível, considerando as chances de eu fazer uma merda sem querer.

Esse teu jeito displicente de deixar a porta da tua vida aberta pra quem quiser entrar me deixa um pouco perturbado. Fico imaginando quantos outros não tentaram o que eu estou tentando. Quantos deles não fizeram a coisa errada, a escolha errada, tudo errado. Não é muito inteligente querer entender uma mulher sem saber alguma coisa sobre o passado que a formou. E esse é o segredo do milênio que esses teus olhos impressionantes me trouxeram.

Não dá para negar o histórico. É fundamental lembrar que, quando conhecemos alguém, ela já conheceu centenas de outras pessoas antes e, muito provavelmente, enquanto estreita laços com a gente, faz o mesmo com mais quatro ou cinco fulanos novos como nós. A novidade de gente na nossa vida é sedutora e mente quem diz que gerencia um amor de cada vez. Todo mundo tem um amor antigo mal resolvido, uma história que poderia ficar séria se os dois fossem mais corajosos, um outro rolo com o selo de “quando um não quer, dois não namoram” e por aí vai.

Quando você chega na vida de alguém existe tanta gente mais importante antes que chega a ser desmotivador se pensar friamente. É preciso muito mais do que coragem para se acotovelar no meio dessa multidão de gente que já ganhou a confiança que você ainda está buscando. Nós nunca aparecemos na vida de alguém como primeira opção, nem quando nos dizem que somos. Não somos, nem em sonho, a melhor opção de alguém, porque entramos lá atrás na fila de prioridades.

Talvez sejamos os mais engraçados, ou os mais interessantes naquele momento, mas escala de importância é uma coisa que quem gerencia é a vida, não o indivíduo que vive. É leviano pensar que o que passou, passou, e não volta mais. Cansei de ver amiga minha quebrar a cara porque a ex-namorada de algum carinha resolveu surgir do bueiro e elas passaram de peguetes a ouvintes de histórias de amor que não deram certo.

Não desconsidere o histórico, não descarte a possibilidade de você ser mais interessante do que desejável e, quando essa coisa nova que você tiver não for mais tão incrível, teu novo investimento te colocar na geladeira. Considere-se com sorte, mas não o melhor, nem o mais desejado. Tudo muda toda hora e outras pessoas podem aparecer, assim como você surgiu do nada também. Os sentimentos que alguém guarda para si em relação a pessoas que nós nem conhecemos é muito mais destrutivo para nós do que para eles.

Mas por desencargo de consciência, não vou descartar o sorriso, o bom papo, as coisas bonitas no ouvido e os comentários sinceros sobre a roupa, o brinco, o cabelo e o perfume. Existem coisas que, se ditas na hora certa, podem mudar um cenário de meses em minutos e, por uma mulher como você, até vale a pena esperar a fila andar, ou tentar ser brasileiro e furar todo mundo para ficar mais lá na frente, lá na grade, lá no gargalo assistindo o show que é a sua vida.

Julia Kent (efeito retrógrado)

Vem com todo esse lesbianismo para cima de mim, me catequizar sobre o feminismo correto e os direitos do amor livre pelo mundo. Vem com a sua coxinhice sobre o que o amor é, ou deveria ser, e me conta de casos incríveis que duraram uma tarde, ou um filme, ou uma música, ou um banho e nada mais. Vem tentar me fazer entender… Vem, vem pra perto de mim, tranca essa merda dessa porta, tira a roupa toda e toca uma música que eu nunca ouvi. Arco, celo, cordas, graves, sentidos aguçados e uma história inteira sem dizer uma vogal sequer. Abre as pernas, senta na cadeira mais vagabunda que estiver por perto, fecha os olhos e usa esses teus dedos tão habilidosos em outras situações para me levar a outro lugar. Não me enrola, não me faz te bater, te engolir, te secar de dentro pra fora: me dá tudo o que eu tenho direito!

Cadê teu intelecto? Onde está todo aquele ouro negro que ninguém conseguia arrancar, ou sequer conseguiam ver? Onde está a tua essência, tua falta de discernimento e teu senso de justiça diante das atitudes mais banais e simples da vida. Onde tá a paz da tua casa, mulher? Cresce, porra! Você conhece tão pouco da vida e tanto sobre o universo que às vezes, só às vezes, penso que você não deveria viver entre nós, mas entre elas. Elas, as estrelas, se parecem muito mais com você do que eu, ou tua mãe, ou tuas irmãs ou teus amores.

Foge desse planeta, dessa galáxia, dessa dimensão. Vai embora, leva tudo o que for importante e deixa tudo o que for peso morto. Leva essa tua música que “mexe com sentimentos muito profundos”, leva toda tua paixão por sardas, cabelos alaranjados, peitos redondos e bocas delicadas. Leva teu lesbianismo a sociedades heterossexuais, fode todo o esquema dos caras, faz a bagunça que for, mas se afasta daqui, porque já não te serve, não te favorece, não te oferece nada. Foge com o teu amor maior do mundo para um lugar onde entendam teu desejo, saibam valorizar tua atenção e onde, acima de tudo, existam mulheres que entendam teu amor feminino. Só tem criança querendo comer você!

Esse nosso mundo não foi feito para lésbicas como você, especiais como você, inteligentes como você, brancas e limpas como você. Tua história é um moleskine vazio que os outros estão usando para anotar telefones e recadinhos ao invés de escrever poemas e cartas de amor. Esse comportamento leviano do mundo em relação a algo tão especial, a algo tão incrível como você, me faz perceber que realmente perdemos muito mais chances incríveis do que propostas medianas. Costumamos aceitar convites medíocres e sentir medo de grandes convocações.

É por isso que eu ordeno que venha me mostrar tudo o que existe aí. Vem de corpo e alma, mais alma do que corpo, porque somos chave e fechadura heterogêneos e nosso encaixe nunca existiu, nem vai existir. Mas quero saber que ao menos eu, ao menos um, ao menos alguém viu tudo o que há para ver. E mesmo que pareça errado, pretensioso ou até arrogante, no fundo sabemos que o bagaço da laranja tem mais suco do que jamais foi extraído da fruta toda. Você está só a fruta, só o sumo fácil, o suco virgem, o sabor recente, enquanto ninguém está prestando atenção às tuas sementes, ao teu interior, às tuas cascas, tuas carnes e teu ventre.

Abre essas pernas, bota no meio o celo feminino que você mesma batizou e toca tua última música, seu último suspiro de matéria antes de virar um pó que ninguém vai conseguir parar de cheirar. Uma poeira cósmica aqui, na atmosfera, na camada mais suja e baixa de todas que cobrem o planeta, de tudo que existe de ar para sustentar gente como a gente de pé. Vem me mostrar o teu melhor, se rasgar no meio, no arranhão da unha e me mostrar as moelas, os miolos, as entranhas e os miúdos de um corpo que espera por atenção especial. Ele merece!

Mas antes de tudo, antes de começar toda a via sacra de provar da sua própria existência, do seu sabor, faz silêncio, fecha os olhos, respira calma e pensa sobre tudo o que existe, tudo o que vai existir e tudo o que se quer. Eu não te quero assim, rasa, branda, vazia e supérflua. Foda-se a tua inocência, teu amor cor-de-rosa, teu poliamor mais falso que nota de três, teu meigo olhar e a sua doce voz mascarados. Não é você, porra! Eu vim para estuprar todos os teus traços mais doces porque exijo a presença da intensidade que você me nega e nega ao mundo por achar que não existe ou por preguiça de mostrar. Explode!

Rasga a blusa, mostra os peitos, esses mesmos que Deus te deu, mostra o coração e mostra a alma. O efeito retrocedeu. O feitiço se virou contra você, que de feiticeira nunca teve nada, mas mesmo assim, enfeitiçou meio mundo sem querer. Eu não fiquei no balaio, não fui pego na peneira, não parei na malha fina e nem vou parar. Acredito muito mais no que você esconde do que no que você me conta e sei que, acima de tudo o que existe em você, sua melhor essência vem quando as luzes se apagam, quando os olhos se fecham e as sinfonias estouram tímpanos sem parar. Me deixa fora dessa sopa sem sal e me chama quando o banquete estiver servido. Já perdi a fome.

Só porque é meu aniversário

Eu ia te querer de qualquer jeito, não importa. Tento esconder, mas na verdade te quero todo dia, com chuva ou com sol, com grana no bolso ou duro e fodido. Só que hoje eu quero mais! Hoje eu quero a sua melhor risada diante de algo ridículo e bobo, quero seus olhos brilhando pra alguma coisa nova, sua atenção para um filme novo, uma obra prima de algum artista que a gente não conhece e quero, principalmente, sua mão agarrada na minha, com os dedos entrelaçados, se roçando, suando no calor, se amarrando e agarrando uns nos outros, tipo uma mini-suruba das mãos enquanto a gente banca o casal bonitinho.

Quero ver a cidade do alto abraçado à sua cintura, sentindo o vento na cara, vento até demais, a julgar pelo comportamento agressivo dos teus cabelos. Mas não importa. Eu vou apertar os olhos para enxergar até onde a vista alcança e aproveitar o melhor perfume do mundo vindo do seu pescoço, me acariciando os sentidos e me fazendo acreditar que um dia disso seria melhor que a eternidade sem nunca ter sentido coisa igual. Eu me abalaria pelo seu perfume até num dia de chuva, ou de frio extremo, de bode com o tédio e sem nada incrível acontecendo da janela. Me abalaria de qualquer jeito, só que hoje é mais forte.

Quero achar graça da sua boca suja de molho de tomate e da sua falta de habilidade para comer macarrão. Quero ouvir os seus comentários interessados na decoração do restaurante, na sua braveza egoísta reclamando do comportamento do garçom e do seu instinto infantil de sempre querer a sobremesa e fazer questão de dizer “nossa, vou até abrir o botão da calça porque comi de mais, meu deus”, mesmo sendo magra do corpo perfeito. Eu acharia graça de você em qualquer situação, até mesmo sem a decoração, sem o molho de tomate, sem o macarrão e sem a barriga cheia. Acharia graça de qualquer jeito, mas hoje acho mais.

De noite, depois do dia perfeito, quero ler teu braile liso nesses milhares de centímetros de pele que cobrem esse corpinho lindo que você tem. Quero te ler de olhos fechados, com as cortinas abertas pra rua e o relógio sem a menor vontade de acelerar. Sinto que com você meu corpo desobedece, é como se quando você chegasse perto ele soubesse quem realmente manda e parasse de me obedecer. Quando a gente fica junto é como se eu ficasse inerte recebendo estímulos e realizando tarefas que meu corpo acha prudente realizar, mas que eu não escolhi. Eu me rendo a você de qualquer jeito, em qualquer momento, mas hoje serei voyeur do meu próprio prazer.

Eu te quero todo dia, mesmo que não tenha nada para te dizer, ou nada para oferecer além do tédio a dois. Não sinto vontade de ver ninguém assim como sinto de ver você, mesmo que seja em foto, para imaginar teu som, aonde você estava, o que estava fazendo, onde estava indo. Te quero quando estou com problemas, para poder contar com essa sua mente brilhante e criativa. Te quero quando estou feliz e preciso dividir com alguém que vai saber usar o máximo da minha alegria. Te quero porque você é linda, gostosa, perfeita e porque, mesmo que negue, nós dois sabemos que você é a outra metade do meu quebra-cabeças. Mas hoje eu te quero de presente, de bandeja, de corpo e alma, te quero completa e exclusiva. Te quero assim só porque é meu aniversário e o mundo não tem nada melhor para me dar do que o seu calor perto de mim.

 

“Nós somos uma música do Legião Urbana. Estamos ‘suspensos, perdidos no Espaço’, até tudo se acertar de novo.” Ela.

Complexo

Vai saber quando é que você vai parar com essa mania de comer unhas, ou de cutucar as espinhas que nascem, ou de tentar cortar a própria franja depois do banho. Quando você vai parar de estragar a menina perfeita por quem me apaixonei? Não ligo pro seu peso, você nunca engorda demais, nem emagrece violentamente. Tanto faz se ganhou dois quilos, ou perdeu três, se estiver usando as mesmas roupas. Eu gosto tanto das roupas que você usa. É como se fossem feitas para você, para o teu corpo, mesmo com mais ou menos quilos.

Vai saber quando é que você vai largar essa ideia idiota de colocar silicone. Esse teu peitinho é tão na medida para mim, para o meu abraço, para a minha mão, minha boca, meu olhar. Quer aumentar o quê? Não precisa mexer, nem tirar, nem pôr. Gosto quando você está magra e seca, linda na medida, com os peitos do tamanho que você não gostaria que fossem, mas que me ganham mesmo assim. Gosto também quando você está na TPM, estressada pra caralho, e me usa só pra sexo e pra carregar as compras. Tira a roupa, puta da vida e os peitos inchados parecem até de outra mulher, mas, mesmo assim, ainda ficam perfeitos em você.

Vai saber quando é que você vai parar de falar da sua bunda. Eu AMO a sua bunda, meu deus! E foda-se se tem celulite, se tem umas estriazinhas do lado da cintura, são tão poucas, tão discretas, tão delicadas que até parecem enfeite. E, afinal, que mulher não tem isso? Nunca vi uma bunda lisa de verdade, nem mesmo das modelos que vira e mexe eu encontro nos estúdios da vida. Elas são lindas, mas não são perfeitas. Você, para mim, é bem melhor, porque além de ser tão linda quanto, tem meu número, meu molde, minha manha, então é perfeita. Ao menos para mim!

Vai saber até quando você vai reclamar do seu cabelo. É lindo o seu cabelo, até preso num coque vagaba seguro por um lápis amarelo nº2. Acho lindo como muda de cor no sol, como balança com qualquer ventinho, como ganha vida própria quando a janela do carro está aberta, ou como é facilmente moldável a qualquer situação, de pool party a casamento da filha do governador. Seu cabelo é a sereia dos meus dedos, que se enrolam e se perdem quando a gente também já está enrolado e perdido. Eu gosto de puxar o seu cabelo quando a gente está junto porque sinto como se uma parte da sua selvageria passasse para mim nesses momentos.

Na verdade eu não sei quando nada disso vai acontecer. Vai saber se vai acontecer um dia, se você vai entender que é linda como é, que não precisa mudar, nem mesmo melhorar o que já é bom, porque com isso eu teria ciumes demais. É perfeita para mim porque é o que eu gosto, sem ligar para padrões, nem rótulos, nem propagandas e seriados de TV. Gosto de você com todos os defeitinhos, com todas as manias horríveis e irritantes. Gosto até desse seu complexo de inferioridade sutil, que sabe que não é tudo isso, mas gosta de forçar a barra para ouvir um elogio gratuito no fim de tudo. Gosto de tudo, tudo que vem de você!

O cheiro do ferro

O cheiro de ferro não me sai da cabeça. Sinto como se fosse agora, o metal quente passando perto de mim e uma tonelada de outros minerais misturados numa composição enorme e violenta se encarregando de carregar para longe o que eu mais gostaria de ter por perto. Sempre me impressionou a violência com que os ferros do trem se apresentam para os passageiros na estação. São sempre quentes, barulhentos, escuros e sujos, como se fossem mais perigosos e agressivos do que simples peças de uma máquina.

Só que naquele dia o trem me parecia assustadoramente diferente. Não era a violência do ferro, nem a temperatura dos metais debaixo da máquina e da carcaça metálica. Era o objetivo que tinha, a viagem que faria e a carga que carregaria que me deixavam fora de mim. No trem cujo sol e o atrito esquentavam e derretiam os ferros, nada era mais importante do que a passageira que, em instantes, embarcaria para dentro das portas automáticas e não voltaria mais. Aquele trem carregava o meu amor.

O sinal sonoro, a movimentação descoordenada das pessoas, o empurra-empurra entre quem sai e quem entra e, em menos de um minuto, o fim do mundo se formava no céu sobre mim. Ela não olhou para trás, nem virou o olho de canto pela janela para ver se eu ainda estava lá. Eu ainda estava lá! Mas ela não ligava mais, não importava saber, porque era a última viagem, a última porta se fechando, o último ferro quente e a última composição. Era o vagão mais filho da puta da cidade, era o vagão que levava quem não ia mais voltar.

Como se não pudesse ser mais cinematográfico, assim que o trem começou a se distanciar uma chuva descomunal desabou sobre tudo e os ferros quentes soltavam fumaças de vapor d’água quando atingidos pelos pingos. Quem olhava de onde eu estava via o trem ganhando velocidade envolvido por uma saia branca de névoa, água, vapor e ferros quentes resfriando. Era como se fosse voar, como se fosse sumir, como se fosse o fim.

Mais dolorido que perder alguém é assistir a partida. A imagem das costas que se distanciam, os movimentos que ficam imortalizados, a cena que muda de cor, de tamanho, de forma, mas nunca de contexto, e o mundo que parece se encolher no segundo final antes de cair a ficha que já acabou, fim, próxima página em branco. Acima de tudo, daquele dia guardei os cheiros. O teu perfume misturado com mais dez, o cheiro de chuva com o vento que bagunçava o teu cabelo, que até naquela situação deprimente eu continuava achando lindo, mas principalmente, o cheiro do ferro.

O ferro quente que chegou rangendo, apitando, gritando agudo para te receber. Nunca vou esquecer daquele dia, nem de você, nem da chuva, nem da saia de fumaça, nem dos sons, nem da cor da tua roupa, nem do teu descaso, nem das suas costas sumindo na multidão, nem da janela escura com o seu contorno passando, indo embora, nem da cor do céu escuro que dava ar de noite às 4h da tarde e nem do cheiro do ferro. Tem coisas que marcam pra sempre e o ácido amargo do ferro que te levou embora pra nunca mais foi o que ficou de você, da sua partida e do fim do mundo, para mim, para sempre e para nunca mais.

Idealizada

Para falar a verdade você nem existe, eu sei, mas me conforta pensar que eu posso criar todas as qualidades que você não tem e apagar todos os defeitos que você desenvolveu. Me conforta redesenhar seu corpo da maneira como eu gostaria que fosse, mesmo sem nunca ter visto o original. A certeza de que você vem fantasiada de perfeição me faz gostar ainda mais dessa falta de conhecimento, dessa alienação que não vai ter fim. Não há como conhecer alguém que não existe!

Na verdade existe, aqui dentro, nos meus sonhos, ou nas minhas viagens psicológicas durante insônias, tédios e procrastinações. Na vida real, que você nem tem, porque não é ninguém, não sei como seria nosso encontro, mas na minha imaginação você só faz entradas cinematográficas. Vem sempre que está tocando uma música boa, ou quando estou segurando um copo agradável, e de repente, não importa o ambiente, quando você surge tudo vira um apartamento antigo, apertadinho e aconchegante.

Fico com os olhos petrificados, perdidos em algum ponto desfocado do horizonte, vendo, na verdade, outra cena, sentindo outros cheiros e ouvindo outros sons. Eu ouço o ranger da madeira do chão, porque, por algum motivo, você só aparece em pisos de madeira antiga, arrancando a roupa, ou já sem ela, caminhando na minha direção, sorrindo, esperando que eu faça alguma coisa, qualquer coisa, para dar certeza de que você está agindo certo.

Não sei como seria se você tivesse carne, ossos, pelos, uma cor definida de olho, um perfume cativo e um timbre de voz real. Mas nos meus sonhos você é a violência que eu venero. Vem forte, me abraça e, mesmo que por alguns segundos de alucinação, minha noite imaginária se transforma no mundo tátil e firme que meus olhos querem ver. Tuas carnes, tuas manias e preferências misturadas com qualquer nova criação minha parecem a fórmula mágica do sucesso. Dá sempre certo quando sou eu com você e ninguém mais.

Eu reconheço a tua voz, o teu toque, a maneira como você beija e sei, só de imaginar, o seu peso, porque já senti teu corpo mais de mil vezes pesando sobre o meu. Você é um caso sério de imaginação alucinógena, porque quando aparece, já foi, já me rendi, já estou perdido confundindo o que é fantasia e o que é real. E eu gosto tanto de você, de ficar com você, das marcas invisíveis que você espalha pelas minhas costas, pelos ombros, das mordidas que você crava na minha perna, dos gritos e gemidos e de toda a invenção mágica que envolve você que até te dei um nome.

Nome, sim! Nome porque você pode não existir, pode ser inconstante, com cabelo curto hoje, comprido amanhã, mas eu sei bem como você se chama. Sei porque minhas noites no apartamento antigo, da cidade fria lá fora, com neblina e lua cheia, são sempre com a mesma mulher. Sei teu nome porque digo ele seguidas vezes quando você me descontrola, ou quando preciso usar só o diminutivo, quase sussurrando, falando no teu ouvido, para você mudar de estratégia e me desmoronar numa nova manobra.

Sei bem teu nome, sei até teu gosto, sei tudo sobre você. Sei das tuas preferências, das tuas taras e até dos medos que você tem de realizar as novas vontades que surgem todo dia. Sei da tua sede de gente como eu, ou completamente o oposto, mas sempre com intensidade suficiente para te render, dominar, engolir e devolver destruída. Teu nome me inspira confiança e medo, porque sei que precisarei ser preciso, perfeito, intenso do começo ao fim, sem falhar, sem vacilar, sem decepcionar, porque você espera isso de mim. Minha própria criação cobrando do criador!

Sei teu nome, sei teu telefone, tenho seu e-mail, tenho sua atenção e talvez tenha, até, um pouco do seu desejo. Mas não tenho distância para calcular quanto falta para te tocar, nem experiência para saber o quanto falta para te prender, nem sabedoria para saber como é que tudo isso acontece. Sendo assim, me mantenho de longe, vendo você, que não existe, caminhar sem roupa no chão de madeira velha, esperando para me fazer desejar a eternidade e a morte de mãos dadas. Ainda tenho curiosidade de você, mesmo já sabendo tudo o que é preciso saber, principalmente que você não existe.