Arquivo mensal: março 2014

VOCÊ PRECISA CONHECER (PT.3) – A JULIANA (MÁXIMA) PERES

– Essa é uma série de 5 posts que fala sobre pessoas desse mundo. Tudo é factual.

 

A Juliana é a braveza em pessoa. A prova disso é que, só de ouvir que é brava, já se irrita. Juliana é brava de sangue, porque a mãe também é brava, e a vó também e por aí vai. Juliana também tem dois diplomas, um de pedagogia e o outro de educação física e, impressionantemente, ganha dinheiro nas duas profissões sem misturá-las. Juliana é professora, coordenadora e minha namorada. E isso é um máximo! Ser namorado da Ju é um exercício diário de auto-descobrimento, de paciência, de sensibilidade e de amor. Acima de tudo amor. Porque brava como é, se não fosse amor, o que mais nos manteria tão juntos? Sei lá, um monte de coisas, na verdade! Mas tudo bem, você entendeu…

Conheci a Juliana numa festa estranha com gente esquisita num lugar podre. Bem podre! E ela não gostou de mim logo de cara, ficou brava, gritou pro amigo dela que eu a estava incomodando, e olha que eu nem tinha chegado perto. A minha presença a incomodava e isso me bastava para entender que manter a distância e curtir a festa era o melhor plano que eu podia ter. Algumas horas depois a gente estava voltando pra casa, eu dirigindo o carro dela, e ela segurando a minha mão, e foi desse dia pra frente, porque tinha que ser. E foi! Eu nunca tinha visto a Juliana, mas ela sabia quem eu era. Eu não estava nem um pouco interessado em ter uma namorada, ela menos ainda, e acho que foi por isso que deu certo. Quando não tem expectativas tudo o que vem é lucro.

E eu tenho lucrado em larga escala nesses quase 2 anos em que a gente divide a hora do almoço, da janta, do café da manhã, as noites de sono, os amigos, os planos, a conta e troca experiências. A gente nem mora junto e já se vê tanto e troca tanto que fica cada vez mais evidente que coisas não planejadas são o nosso melhor padrão. Outra coisa que me prende profundamente à Juliana é a nossa crescente evolução mental, espiritual e daí pra frente. Metade do que eu sei, vejo, sinto e falo hoje em dia veio de muita reflexão sobre crenças em comum ou opostas que nós tínhamos e temos até hoje. Esse é um dos poucos pontos convergentes nos nossos gênios, já que quase tudo na vida em relação a gostos e preferências são divergentes entre nós dois. Ela é o peso do outro lado da balança que equilibra a minha vida, minha euforia, minhas viagens mentais e meus absurdos.

A gente não ouve as mesmas músicas, não gosta das mesmas coisas, não tem as mesmas opiniões, não concorda com muita coisa e talvez por sermos tão diferentes é que a gente continua junto. Aprende-se mais quando estamos heterogêneos, você sabe. Mas no meio da nossa diferença as qualidades sempre se sobressaem mais que os defeitos e eu ainda fico fascinado com a inteligência com que ela me explica coisas complexas, como resolve problemas, como é prestativa, como é caridosa, como é esforçada, como é consciente e racional, como é divertida, como é especial, não só para mim, mas para todos os meus amigos e os dela também, que agora a gente só chama de nossos. São nossos amigos, nossa vida, nossas experiências. Se tem uma coisa que você pode ter certeza sobre a Juliana é que ela tem algo para te ensinar que você nunca pensou em aprender. É mágico! Ela é mágica e é por isso que eu me sinto com tanta sorte.

Hoje é aniversário da Dna. Máxima, apelido carinhoso que o povo deu pra ela por causa do temperamento suuuper calmo e maleável que ela tem. Dê parabéns pra ela, porque ela merece e saia com a gente qualquer dia desses… a Ju é uma figura única, você precisa conhecer!

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VOCÊ PRECISA CONHECER (PT.2) – O BRUNO (BOCA) GATOLIM

– Essa é uma série de 5 posts que fala sobre pessoas desse mundo. Tudo é factual.

 

Eu odiava o Boca. E digo Boca porque quem chama ele de Bruno, além dos pais, não merece respeito. Eu odiava o Boca porque ele era do outro rolê, ele andava com os outros caras e a gente não gostava dos outros caras. A gente ia no mesmo bar, todo mundo, mas não se misturava porque achava que o certo era ficar amigo dos mesmos amigos pra sempre. Que merda a gente tem na cabeça quando é adolescente, né? Depois ele começou a aparecer de chapéu, aí foi o fim. A gente não gostava dos caras, não gostava do Boca e gostava menos ainda do chapéu malandro dele. Só que um dia ele ficou amigo de umas amigas minhas e depois o inevitável aconteceu: ele veio parar no meio do nosso rolê.

Viajamos juntos, ficamos muito amigos, vivemos coisas importantes e depois vieram, junto com ele, os outros caras. Veio todo mundo, misturando as meninas, misturando os carros, misturando as bebidas e a gente era um absurdo. Éramos “nós”, do nosso lado, misturados com “eles”, do lado do Boca, nas mesmas festas, nos mesmos domingos de churrasco, nas mesmas aventuras e tudo foi ficando bom demais. A festa era ter a gente na festa! Ele é a prova de que aquele cara que você acha um grande filho da puta hoje pode acabar sendo seu brother de fé daqui uns dias. Foi o que aconteceu com a gente!

Não é difícil gostar dele, é mais difícil querer gostar, porque no Brasil a gente é ensinado a odiar político e o Sr. Bruno Gatolim é vereador. Quer dizer, não é, mas poderia ser. Quando a gente era mais novo e conhecer as pessoas era sinal de status, todo mundo conhecia o Boca e ele se lembrava de todo mundo que tinha conhecido por aí. A gente encontrava algum conhecido dele em qualquer bar, qualquer festa, qualquer padaria, qualquer lugar. É uma figura emblemática, porque desde que a gente se conhece ele se veste do mesmo jeito, dirige o mesmo carro, tem a mesma altura e gosta das mesmas coisas. Por sinal o carro é uma marca registrada. Um Corsa perua que só ele, da nossa idade, tem. Carro de mãe, cê sabe!

O mais importante sobre ser amigo do Boca é que ele é um cara confiável e leal. São pessoas assim, que valorizam amizades antigas, que valem a pena. Não só eu, mas todos os caras que o conhecem reconhecem seu talento em ser um bom amigo, boa companhia. Tem seus 5 minutos de piti extremo, nas vezes que quer sair no meio do rolê, quando não quer ir nos lugares onde está todo mundo, quando não quer dar o braço a torcer que ir para a festa de X seria melhor do que ir no bar de Y, mas isso tem diminuído. Sempre mais animado que ontem, sempre mais feliz que semana passada, sempre mais afim de sair do que mês passado. É bom viver a boa vida com o Boca… você precisa conhecer!

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VOCÊ PRECISA CONHECER (pt.1) – Os irmãos Barscevicius

– Essa é uma série de 5 posts que fala sobre pessoas desse mundo. Tudo é factual.

 

A gente já é amigo há um tempo. Não me lembro direito quem eu conheci primeiro, mas nossa amizade sempre seguiu em ondas e picos. Alguns meses acabo, sem querer, saindo mais com um, outros meses saio mais com o outro, mas a constante é que ter os dois juntos no mesmo lugar é difícil. Se você perguntar eles vão dizer que não, que isso é viagem, mas todo mundo sabe que eles quase nunca saem juntos. Na verdade eles não estão juntos em quase nenhum momento. Várias vezes, para falar com os dois, tive que ligar em números de celular diferentes porque um não sabia se o outro estava em casa. Eles moram no mesmo apartamento e o quarto dos dois é separado por um corredor de no máximo dois metros de comprimento. Puta que pariu.

Um é o Guilherme. O outro, mais velho, é o Fernando. Mas eu nunca sei as idades nem a diferença de idade de um pro outro. Deve ser coisa de um ano, dois, no máximo. Nós temos muitos amigos em comum, muitos mesmo, mas de uns tempos pra cá a distância cresceu tanto que conseguimos não fazer a menor ideia de quem são as pessoas que estão andando com um ou com o outro. Um deles é meu sócio, o outro já foi meu parceiro de banda, já briguei com ambos, já vivi momentos ímpares com ambos e já me enfiei em conversas eternas com ambos a ponto de saber que quase nada neles é igual. Nem a aparência é igual de um pro outro. Gênios completamente diferentes, hábitos, gostos, opiniões, tudo diferente. Nunca conheci irmãos tão heterogêneos.

O Fernando é mais loiro. A cada seis meses o cabelo dele tem um formato diferente e não sei se existe uma lógica para as mudanças. É um dos caras mais talentosos e pacientes no que diz respeito a aprender e dominar instrumentos de corda. É um dos violonistas mais criativos com quem eu já toquei e até hoje temos músicas que só ele sabe tocar. Se eu pudesse enumerar três hábitos característicos que o definem eu citaria o violão em primeiro lugar! Em segundo vêm os livros. O carro dele vive cheio de livros, sempre ciência, teorias, físicos, pensadores, a puta que pariu a quatro e talvez por isso ele tenha jeito de sabe tudo. Ele é o sabe tudo. E discutir com ele é tão chato e inútil quanto ensinar uma pomba a passar roupa. Além dos estudos e da música, sem dúvida, a maneira imbecil de dirigir é o terceiro hábito mais marcante no Fernando. Quando a minha vida está parecendo monótona de mais eu marco algum programa com o Fê pra sentir medo de morrer. Ir daqui até a praia ou daqui até a esquina tem sempre a mesma chance de morte quando ele tá no volante. E ele adora isso! Uma figura…

O Guilherme é o menos loiro, o mais novo. Ele escolhe como vai cortar o cabelo de acordo com a namorada que ele tem. Teve uma época, uns anos atrás, em que ele namorava uma menina péssima que, além de não gostar de nós, não gostava que ele tivesse cara de gente. O Guilherme andava por aí com um cabelo comprido de mendigo que dava até dó. Hoje tá bem melhor, tanto no nível de simpatia da namorada quanto no nível de higiene capilar. Ele é o entusiasmo em pessoa. É meu sócio porque não poderia ser outra pessoa, e foi meu parceiro em muitos outros momentos especiais. Não posso dizer que é o melhor violonista que eu conheço, mas tem sempre violão no porta malas do carro dele. Também não posso dizer que é o cara que mais lê, mesmo tendo títulos impressionantes no quarto. O Gui bebe igual uma esponja. Esse talvez seja o principal hábito característico dele: o cara não tem limites no copo. Ele também já tentou ser guitarrista, baterista, produtor de música eletrônica e, só por coincidência, também dirige igual um animal, apesar de o risco de morte ser um pouco menor.

Eu gosto desses caras num nível avançado, e já faz tempo. É bom tê-los como amigos, mesmo que raramente eu possa usufruir da minha amizade com os dois nas mesmas ocasiões. Tenho aprendido muito sobre paciência, irmandade, respeito e cooperação nesses anos em que a gente divide mesas de bar, banco de carro e acordes de violão. Os irmãos Barscevicius são incríveis… você precisa conhecer!

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Pequenas Alegrias Coletivas

Tenho o costume de saber valorizar os momentos e seus significados na minha vida, mas nem sempre conto para as pessoas que estão dividindo essas cenas comigo o quão feliz eu estou por estar ali. São coisas simples, tão simples que beiram o bobo, o banal, mas são dessas coisas que são feitos os dias bons. São detalhes açucarados, coisas sem importância pra quase ninguém, mas eu guardo e estimo esses momentos como se tivessem peso de ouro. São o que eu chamo de “PAC”, Pequenas Alegrias Coletivas. Eu sou um cara meio coletivo, gosto das coisas com os outros. Valorizo meus momentos e minhas criações solitárias, mas em geral gosto de estar com alguém, ou muitas pessoas, fazendo qualquer coisa. Trabalho em equipe!

Esses momentos geralmente não são compostos por muitas pessoas. Na verdade, quase todos são compostos por apenas mais uma pessoa, mas são bons. Por exemplo, quando eu encontro o Boca no trem e a gente não fala sobre nada. Fala sobre os amigos que sumiram, os amigos que reapareceram, sobre festas, sobre coisas que fizemos. Conversas banais, mas que têm um valor inestimável, mudam o meu dia. É como quando eu encontrava a Ana no metrô. A gente conversava sobre tudo, sempre ríamos altíssimo, todo mundo ficava prestando atenção nos nossos assuntos, eram sempre histórias engraçadas, lembranças filhas da puta da vida de alguém. Eu me divertia muito falando sobre nada com ela, assim como valorizo muito minhas conversas sobre nada com o Boca.

Muita gente me diz pra mudar pra São Paulo, morar mais perto do trabalho, mas um dos grandes motivos que me fazem continuar em Santo André é justamente a necessidade de pegar trem e metrô. Pode parecer contraditório, mas eu adoro esse trajeto. E as conversas são mais um motivo para continuar gostando. Curto muito quando encontro, bem raramente, o Fernando, e a gente vai conversando sobre fotografia, sobre trabalho, sobre viagens e quando vê a estação já chegou. Ele é um grande amigo, alguém que eu gostaria de encontrar mais, mas é isso que faz dessas conversas breves e esporádicas momentos tão valiosos. Gosto quando encontro a Natália e a gente vem conversando sobre azulejo com pintura hidráulica, restaurações de igreja, coisas bonitas construídas pelo mundo e tudo que a minha curiosidade em arquitetura possa me fazer perguntar e ela, pacientemente como sempre, responder.

Mas minha alegria não se restringe só ao metrô. Gosto quando tem reunião de negócios com meus amigos. É fantástico ter como sócios seus amigos, trabalhar parece festa. E gosto quando as reuniões são na casa da Laila, com narguile, cerveja e grandes ideias. Depois pego carona com o Gui ouvindo músicas em alta velocidade com o vento frio da noite se jogando pela janela. Gosto de andar de carro falando sobre um futuro bacana que a gente está projetando para o nosso negócio e isso realmente vale muito para mim. Gosto das conversas sobre teoria da conspiração na hora do almoço aqui no trabalho. Sinto prazer e saber que a gente não sabe de nada, que o depois da vida é tão X quando o antes dela e que existem outras pessoas tão interessadas quanto eu em saber o que é que tem quando chega o outro lado de lá. Me faz feliz.

Gosto quando a Juliana vem me buscar no trabalho. Parece que só de saber que ela está chegando metade do meu cansaço já vai embora. Temos criado rituais de valor em torno de coisas que a gente gosta de fazer e isso faz com que cada vez mais sejam memoráveis os nossos programas. Mas acho que a minha grande pequena alegria é quando a gente não faz nada, simplesmente nada e fica em casa juntos só pra ficar, só pra ver se alguém tem uma ideia melhor, mas nunca tem. Não é preciso um grande script para ser feliz com ela. Transportei isso para os meus dias e hoje vivo colecionando grandes alegrias em momentos em que as outras pessoas estão simplesmente vivendo, sem nada de muito mais significativo que isso.

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A frieza é que me dá medo

Tenho medo de muita coisa nesse mundo, assim como muita gente também tem. “Não tenho medo de nada”, que grande mentira. Quem não tem medo de nada não faz a menor ideia do que é um diagnóstico de câncer, uma arma apontada pra cabeça, uma aranha armadeira sobre a pia do banheiro, um sequestrador sentado no sofá da sala ou um aviso de tubarão quando seu filho tá brincando no mar. Não sabe do que fala. Estamos cansados de saber que o medo é o que nos permite discernir sobre perigos e, assim, continuarmos vivos. Mas existem medos que não são tão fáceis de explicar. Um dos meus medos mais intensos e inexplicáveis é a frieza dos humanos em alguns momentos decisivos. Tenho medo da frieza das pessoas em alguns momentos.

Tenho medo da frieza do preso que confessa o assassinato sem baixar o olhar. Ele sabe que fez algo que não deveria ter feito, sabe que é irreversível, sabe que uma pessoa deixou de existir antes da hora por sua culpa, sabe que existe uma família em luto, sabe que existem amigos desconsolados, sabe que existe uma responsabilidade eterna e, mesmo assim, não se abala. Olha o juiz e confessa que matou. Olha o interrogador e diz que matou. Olha pro repórter e diz que matou. Passa por entre as pessoas e não abaixa a cabeça, não tenta esconder o rosto, não fica com a voz embargada, os olhos vermelhos, a pele branca. Simplesmente assume e pronto. Tenho medo.

Tenho medo da frieza de quem caminha pelo escuro incerto sem ponderar ou temer. Gente que levanta rápido quando acaba a força e vai pela casa, entre os móveis adormecidos e os obstáculos mortais, atrás de uma vela, de um quadro de luz, de uma lanterna, de um telefone, da putaquepariu. Gente que não tem medo de pisar no vidro, de ser esfaqueada por trás, de ser surpreendida por algum tipo de extraterrestre, de ser esquecida no breu pra sempre. Essa frieza de assumir o papel do herói, o papel de quem vai “resolver essa porra pra já!” e resolve mesmo. Gente que some na caverna e volta com o urso à tira colo. Tenho medo.

Tenho medo da frieza de quem mente pra polícia na hora do enquadro. Policial, por excelência, não costuma tolerar muita conversa. Se for mentira, tua vida corre perigo, pode apostar. “Tá com droga?” e o peão responde que não, com as meias cheias de cocaína, com umas três pedras de crack escondidas na bunda, uma paranga de maconha enfiada goela abaixo e um frasco de desodorante cheio de lança-perfume dentro da mochila. “Tá armado?” e o maluco responde que não, num ato suicida que faz a lâmina do canivete dentro da cueca esquentar à ponto de fogo, a arma debaixo do banco do carro chega a trepidar, enquanto o facão deita inquieto debaixo do tapete do passageiro. Gente maluca que acredita tanto na própria palavra que mente na hora da morte em busca de viver um pouco mais. E vive. E tenho medo.

Tenho medo da frieza de quem pergunta se está sendo traído e ouve que sim. Gente que tem estômago pra conversar depois de saber que ela dá pra outro, que ele come outra. Gente que não grita, não explode, não quebra tudo, não manda embora, não diz que vai sumir, não odeia, não mal diz, não amaldiçoa, não planeja vingança, não planeja assassinato, não diz que vai atrás do filho da puta, não diz que vai arrebentar a vagabunda. Tenho um medo mortal do frio que salta de para-quedas pelo buraco da íris dos olhos e toma conta da cena toda. Essas cenas com gente fria que descobre que é traída e consegue, só com o olhar, dominar o traidor e fazê-lo se arrepender de existir. Gente que tem fibra, que não perde o controle nunca, que está sempre um passo à frente da loucura sensata. Tenho muito medo!

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Hotéis são o fim da juventude

Eu acho que me lembro a primeira vez que viajei com amigos, sozinho, sem pais ou responsáveis, de carro pelas estradas por aí. Nem foi uma grande aventura, eu e mais dois amigos fomos para a casa de uns primos de um deles em Mogi Guaçu. A grande transformação foi muito mais interna do que externa. Até hoje eu tenho memórias daqueles dois dias que a gente passou lá. Dormimos na casa de um primo que estava sozinho em casa, um no chão o outro na cama o outro na sala. Na ida a gente não se preocupou em onde ia dormir, como ia dormir, o que ia fazer ou coisas do tipo: a gente só queria chegar! Chegar significava cumprir uma missão, cruzar uma barreira, ser, enfim, grande. E fomos enormes, vivendo nossas próprias aventuras, olhando uns para as caras dos outros, os três, sem saber o que seria depois dali. Tem fotos memoráveis dessa viagem.

Eu tinha 18 anos quando isso aconteceu. Depois dessa vieram outras, uns perrengues sem fim, uma casa que não existia num feriado de Carnaval, uma outra que tinha um quarto para cada 5 pessoas, outra em que não tinha nem quarto e tudo era uma grande sala junto com outra grande sala entregue aos escorpiões e aranhas que se escondiam no meio das roupas. Sempre faltava água. Quase sempre faltava luz. Quase sempre eu passava mal de tanto beber. Quase sempre era perfeito. A gente queria bagunça, gastava mais dinheiro em bebida do que em comida e chegou ao cúmulo de em um ano novo nós passarmos dois dias comendo milho, apenas milho, direto de dentro da lata, porque só tinha isso pra comer. Isso era ótimo, rendia história pra contar!

Nessa do milho eu já tinha uns 22 anos. Está entre as melhores e mais marcantes viagens que eu fiz na vida. Depois disso passou um tempo e eu comecei a namorar. Minha namorada e os amigos, na época, adoravam acampar. Eu achava que era um regresso, mas não. No camping, por mais que a barraca pareça uma coisa precária, é uma espécie de quarto privativo: você tem mais privacidade numa barraca do que numa sala em que você divide um colchão de casal com outros dois casal mais fedidos que você, mais bêbados que você e durante dias e dias. Acampei com eles a primeira vez num lugar péssimo de Maresias. Era feriado de 7 de setembro, estava tudo lotado, chovendo, sem nenhuma estrutura e passamos 4 dias acordando com lama na porta da barraca, tomando banho frio, comendo salgadinho e bebendo cerveja quente e no fim um amigo nosso pulou de uma pedra, caiu errado no mar e arrebentou o ombro. A gente fala dessa viagem até hoje!

Depois a gente evoluiu pra um camping maior. E logo depois a gente alugou uma casa com uns outros amigos. Nessa um casal teve que dormir na sala e outro dormiu em camas de solteiro. Mas ok, tinha piscina, tinha um conforto inédito. Depois alugamos uma casa maior, dentro de um condomínio, com guarda-sol e cadeiras exclusivas na rua da praia. Depois fizemos o mesmo novamente. Depois alugamos uma casa com quatro andares para 10 pessoas! Era tão grande que escolhemos não usar um dos andares para não dar muito trabalho para a caseira arrumar depois. Em seguida alugamos outra casa, maior ainda, com 5 quartos, um absurdo inimaginável anos antes. Sala de estar, sala de jantar, sala de tv, duas lareiras, cozinha colonial, quadra de tênis… Quadra de tênis, caralho!!! Quem é que precisa dessa porra toda?

Voltando para casa desse feriado, minha namorada e eu conversamos sobre como esse processo evolutivo pareceu natural e, ao mesmo tempo, o quão perto estamos de chegar no último estágio: hotéis. Porque é o fim, você sabe, né? Quando você desiste de alugar uma casa para ficar em um hotel acaba, mesmo sem querer, assinando o atestado de fim de juventude. Você vai dormir num quarto longe dos seus amigos. Vai no banheiro longe dos seus amigos. Não tem uma bagunça da cozinha para dividir com eles. Não pode ligar o som e fazer todos ouvirem a mesma música. Não pode fazer barulho e acordar todo mundo antes do horário previsto. Você simplesmente se hospeda, envelhece e morre. Que medo. Que merda. Ainda bem que antes do hotel vem o albergue, que salva muita gente desse fim triste. Amém!

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