Arquivo mensal: junho 2012

Gabriela

Hoje tomei uma decisão importante. Vindo para o trabalho, ouvi duas mulheres no metrô conversando sobre a nova série da Globo, a pornográfica releitura de “Gabriela”. Foi exatamente no intervalo de duas músicas, aqueles segundos de silêncio que o mundo lança seus sons por dentro dos fones para nos fazer perceber que ainda existe vida fora do nosso mundinho musical e particular. Ga-bri-e-la. A palavra é boa, tem vários sons que dão prazer à língua, fazem bagunça na boca e começa e termina com notas abertas, alegres e expansivas. Ótima palavra, ótimo nome.

Pensei sobre isso durante um tempo e, logo depois, decidi o que, até agora, parece imutável para a eternidade: se for menina, vai se chamar Gabriela! Não que eu esteja pretendendo ter filhos agora, mas é importante ter uma referência para o dia em que isso se concretizar. Não sei se terei crianças pela casa, nem sei se, caso eu tenha, serão filhos biológicos ou adotivos, se serão meus mesmo ou enteados. Não sei, mas sei que se eu puder escolher e se for menina, será esse o nome. É um bom nome! Como desde que nasci já sabia que se o próximo Braz no mundo fosse homem se chamaria André, sempre me perguntei o que escolheria para o caso de nascer uma dama, no lugar de um varão.

Tenho excelentes referências de mulheres que se chamam assim. Excelentes mesmo! Primeiro porque é um nome de origem italiana e as mulheres vindas do país da bota são, por natureza, intensas, falantes, alegres e fortes. Quem é que não gosta de mulher decidida, engraçada e, às vezes, até meio brava? São gente que ocupa a mente das pessoas com facilidade e escalam de cargo em cargo com tranquilidade e destreza sem precisarem de nada além da própria personalidade. São gente honesta, meio desmiolada, de olhares intensos e de histórias pra contar. Nunca conheci uma Gabriela que não tivesse um caso hilário ou surpreendente para me impressionar.

Só namoradas, com esse nome, tive duas. A Tombolato é bem dessas que são expansivas e enchem o ambiente em que está. É daquelas moças que dão risada de gente caindo na rua, de piadas sem sentido, de coincidências sem valor e que tem o coração do tamanho do mundo. Estava sempre disposta a uma aventura nova, correr perigos possíveis e aprender um pouco mais. Um pouco depois dela veio a Rinaldi, que era completamente diferente e parecida ao mesmo tempo. Essa me impressionava pelo número de coisas que sabia, de projetos que iniciava e de conhecimentos que adquiria em qualquer lugar. Sabia tudo de música, arte, cinema, teatro e vivia desenhando pra alguém, escrevendo pra algum lugar, tocando em alguma banda de amigo, viajando pra algum lugar maluco e sempre tinha mil histórias pra contar. Metade devia ser mentira, não é possível, mas a parcela verdadeira valia muito a pena.

Ainda no caminho da arte, uma vez, lendo a Revista Void (uma das coisas mais legais que o Brasil já produziu no quintal de casa) me deparei com uma foto do skatista Tony Alva e seu olhar honesto me fitando sem escrúpulos. A foto era tão incrível que fiquei alucinado pela pessoa que havia feito aquele retrato. Foi aí que descobri, lá de Porto Alegre, a incrível Gabriela Mo. Fotógrafa filha de fotógrafo e dotada de um talento excepcional, a Mo é o tipo de gente que eu curto acompanhar só pra aprender um pouco mais, pra ter ideias e me inspirar. É o tipo de mulher que, mais cedo ou mais tarde, vai fazer algo muito grande e seu nome não vai sumir nunca mais.

Tem a Guerra. Essa veio casada com o sobrenome. Bravinha por natureza, da até dó do Renato, meu amigo e namorado dela. Essa é um tipo diferente de Gabriela: é das que faz piada de humor negro. Desde que me conheceu pessoalmente nunca mais me chamou de Braz. Pra ela eu sou “índio” e fim, sem margens para discussão. É do tipo de gente que você senta para perguntar como está e, quando vê, já se passaram 6h de conversa e mil histórias de idas e vindas da vida e de gente ao redor. É agradável estar perto dela! Dessas que falam muito tem também a Domingues, que eu até hoje, mesmo não sendo mais da família, ainda chamo de Prima. Essa também fala mais que a boca, ri alto, conta piada suja, é brava igual o diabo e nada no mundo a faz desistir das coisas que quer. E, logo-logo, vai botar mais uma pessoinha no mundo. É um dos tipos de Gabriela que eu mais gosto: as raçudas!

Também tem a Perandin, que eu conheci anos atrás e que, no meio de toda a discrição do mundo, ainda é uma legítima defensora do próprio nome. Tem uma expressão séria, é reservada, tem um olhar de desconfiança em tempo integral mas que, no primeiro minuto de conversa, se revela muito mais sonolento do que vigilante. É do tipo de gente que se mete em encrenca porque não se preocupa com as coisas e vive um dia exatamente após o outro. É um tipo raro! No extremo oposto, tem a minha priminha de 9 anos, a Ana Gabriela. Não é uma “Gabi” pura, mais ainda assim, tem o nome e as características que vêm de brinde com ele. Corre muito, quebra muitas coisas, pergunta muitas perguntas, fala muitas palavras e pensa muitos pensamentos. Além de ser a “Braz” mais nova, é uma mini-Gabriela daquelas que vai abraçar o mundo num sorriso só.

Falando em Gabrielas misturadas, tem a Maria Gabriela Leite, uma florzinha fumante (ou ex, nunca se sabe) cheia de calma e bom humor. Ela é tão Gabriela que namora com um Gabriel e, possivelmente (eu acredito muito) vai acabar casando com ele. Cheia de espiritualidade, positividade, empatia e delicadeza, a Gabi é o tipo de menina impossível de não gostar e, geralmente, isso acontece já no primeiro contato. É o tipo de pessoa do bem que está cada vez mais difícil de encontrar. Bem no caminho oposto do lado zen, tem a Ferrareis, mas que eu me reservo ao direito de chamar só de “Ferra”, porque é mais ou menos assim que as coisas acontecem ao redor dela. A menina é uma mistura de gente maluca com gente feliz e no meio desse jogo de personalidades ela ainda arranja tempo pra ser malandra, esperta além da conta e fiel… aos amigos! Tem um incrível instinto de sobrevivência, justiça e estilo. É o tipo de Gabriela que eu gosto de conhecer, mas não fico muito perto: é com elas que eu mais gosto de brigar!

Falando em malandragem, tem duas que eu conheci no mesmo dia, na mesma mesa, com o mesmo nome, inseparáveis, mas com objetivos e gênios bem diferentes. São tão diferentes que apesar do mesmo nome, uma tem um “L” a mais que a outra. Uma é a Duarte, uma baixinha cheia de vontade da vida e uma porção de nocautes e ressurreições para contabilizar num currículo de só 19 anos. Junto dela conheci a Luz, uma das minhas preferidas. Assim como o sobrenome, ela ilumina qualquer coisa ou lugar onde chega. Com um sorriso que quase não cabe na cara, chora e ri com a mesma facilidade que troca de roupa. É daquelas meninas que dá vontade de sentar e conversar sobre qualquer coisa só pela certeza de que, cedo ou tarde, tudo vai terminar em uma piada idiota e uma gargalhada infinita e estridente.

São muitas, de muitos tipos, muitas cores e muitos jeitos. Não me lembro de conhecer uma Gabriela que nunca me ensinou nada ou que nunca me agregou uma história interessante. Claro que nessa lista estão as mais próximas, mas conheço tantas outras, como a Ferigato, a Tessarolli, a Vieira Maria, a Ávila Paes ou a Pallazzini. Mas o que importa é que todas são incríveis, mesmo. Sendo assim, no trajeto do metrô até a redação, tive tempo de lembrar de todas elas, das histórias que me contaram, que viveram comigo e que me fizeram contar. Por isso, se alguém me perguntar, a resposta já está pronta. Se for menino vai ser André, se for menina, Gabriela!

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Chuva, pó e a metáfora da vida

Três milhões e meio de gotas de chuva batendo contra o vidro do carro. Eu ouvia todas elas, sem perder nenhuma, como se fossem tambores inaudíveis aos ouvidos comuns, ou simplesmente batidas de um coração que não tem corpo. Era escuro o universo dentro do carro, das vistas que passavam pelas janelas molhadas pelos muitos pingos vindos do céu. Era noite, tinha calma e euforia e, de repente, tudo pareceu perfeito até mesmo para uma mentira bem contada. Estava bom demais pra ser verdade, mas ninguém precisou me beliscar: eu não duvidava da realidade daquilo tudo.

Uma mão gelada e outra quente, como se fosse obrigatório viver contradições do que é bom e ruim o tempo todo. Do lado de fora as ruas encharcadas, pessoas mal humoradas, vidas ruins, memórias vazias e uma porção de fumantes tristes aninhados sob toldos, guarda-chuvas e soleiras tentando alimentar seus vícios. Deprimente a noite fria com chuva em uma cidade grande. Dentro do carro só alegria, risadas sinceras, olhares cúmplices e uma porção de mini revoluções psicológicas acontecendo. É engraçado como às vezes, sem nem perceber, a gente perde uns medos bestas que não sabe nem de onde vieram, né?

As gotinhas grudadas no vidro, o tempo cristalizado do outro lado do mundo e eu, quase sempre calado, conversava comigo mesmo aos berros mentais, tentando entender o que estava acontecendo. Era o milagre da calma física, quando a gente não quer nem falar, nem ver, nem ouvir, nem entender: só se sente o que é de se sentir. E se não for de sentir a gente inventa! Inventa sentimentos, inventa impressões, inventa um universo inteiro só para que a nossa emoção não fique orfã de um lugar para chamar de seu. Eu quero mais é que meus sentimentos sem nome, sem forma e sem cor, fiquem em um lugar adequado, confortável e justo, pra que quando precisarem voltar, que voltem felizes, como eu os quero.

Mas entre o que é sentimento e o que é cena de filme, o meio todo é bem real e importante. Importante para mim que tenho que entender que nem tudo nessa vida é feito a moldes de fábrica ou peças de projetos pré-organizados e previsíveis. Eu quero dar de presente, se é que isso é possível, uma vida nova para os meus sentimentos. E é nessa noite, nessa escuridão pintada de amarelo, púrpura e verde, com luzes, eletricidade, raios e samba, que tudo vai mudar. No infinito particular das expressões trocadas em olhares, toques e gestos está escondido o mundo de verdade.

As gotinhas grudadas no vidro, eu grudado no banco, os pneus grudados no chão e o resto todo flutuando. Lá fora tudo era gás hélio e anti-matéria, fazendo as coisas levitarem, descolarem do chão, que também voava e depois, com o choque entre uns e outros, explodirem e virarem pó. As árvores de pó, pedras de pó, pessoas de pó, um mundo de pó para que a gente precisasse juntar, guardar numa urna e jogar na curva do rio, igual fazem com os cadáveres queimados. O cadáver do mundo antigo está se espalhando e se misturando no meio da chuva, na escuridão da noite urbana e eu, minhas mil ideias e todas as incertezas do mundo estamos de malas prontas, no banco do passageiro, seguindo dentro desse carro em qualquer direção, pra qualquer lugar, pra qualquer país.

Repetira palavras a noite inteira. Repetiria expressões a noite inteira. Repetiria repetições a noite inteira, mas na verdade eram só gotas, milhares delas, milhões aos montes, violentas e suicidas, se jogando de cabeça no vidro da frente enquanto a gente, só de bobeira, não prestava atenção em nada disso, contando uma piada ou fazendo uma graça e rindo da existência toda. A metáfora da vida é, justamente, estar vivo!

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Café da manhã

Um gosto forte de bile debaixo da língua, os lábios secos com a pele grudando um ao outro, uma dor de cabeça por trás dos olhos que não parecia ter tamanho mensurável e uma irritante luz de sol, forte e determinada, mirando meu rosto acabado. “Bom dia”, disse para mim mesmo, olhando para meu corpo estirado no colchão, meio coberto por um lençol fino, meio descoberto e desajeitado. Não era das melhores manhãs, mas era um novo dia e isso já era bom demais, apesar de todos os incômodos que me cercavam. Era Rabat, no Marrocos, era a Favela da Rocinha, no Rio, ou era no meu santuário, lá na casa das Cidades do Futuro. Não importava, eu estava existindo em algum lugar.

O corpo se levantou sozinho, contrariando as vontades que me faziam continuar deitado. Os sete ou dez paços entre a cama e o banheiro pareceram uma cruzada eterna em que eu me via cortando desertos de carpete e colinas de roupa usada para alcançar a porta. Tudo era cansativo demais, lento demais, foda demais. Eu estava morrendo de viver naquele estado. O chão frio nos pés descalços era o primeiro sinal de que alguma coisa estava voltando ao normal. Azulejos brancos, a porta do box, o registro do chuveiro e uma cachoeira quente e abençoada sobre os ombros. Se existissem dragões, acredito que eles se pareceriam com versões maximizadas de chuveiros como o meu.

Vinte, trinta, quarenta, oitenta, cento e vinte milhões… mais minutos do que gotas. Respirava água, bebia água, comia água e ia alimentando a alma com um monte de faltas de memórias, fotografias não tiradas, odores não sentidos e bebidas não engolidas. Eu era um conjunto de coisas que não eram e entendi que no fundo, bem lá no centro do corpo, a gente não é nada mesmo. Um monte de quadradinhos coloridos, memoriazinhas, fagulhinhas, pontinhos, pozinhos, migalhinhas elétricas e explosões incomensuráveis e fatais. Somos um universo imenso para coisas que a gente nem vê, nem imagina que existe, nem sonha. Somos um segredo milenar.

De volta ao quarto, tudo que parecia ser necessário era alimento, ar e calma. Vesti coisas sem cor, sem tamanho e sem forma, pensei coisas sem cor, sem tamanho e sem forma, caminhei pela casa sem cor, sem tamanho e sem forma e cheguei à cozinha, que tinha cor, tamanho, forma e cheiro. Um cheiro bom e enebriante de coisa doce, um bolo, uma bebida quente talvez, não sabia dizer. Sentei-me à mesa, comi alguma coisa amarelada e porosa, um pedaço, uma fatia, uma porção. Engoli, bebi alguma coisa que tinha semelhança com leite e café, mas com gosto de chá e canela. Estava tudo mais ou menos fora do lugar, e eu, como sempre, não pertencia à cena.

Ao fundo, bem longe, ouvi um barulho de porta se abrindo, dobradiças girando e passos macios no assoalho de madeira. Como um morcego cego que se guia pelo sons e desenha o ambiente pelos retornos, fui visualizando tudo. Eu via os quadros na parede do corredor, e agora tinha um corredor, tinha luz, tinha piso e tinha cores nas coisas. Senti vontade de sorrir, como se fosse uma conclusão, como se fosse a satisfação por ter visto coisas que estavam longe de mim, mas decidi sorrir só porque a dor de cabeça e a tontura estavam indo embora pela minha garganta junto com as coisas que eu engolia e bebia.

Os passos vieram pela porta da cozinha, que agora tinha cor, forma e tamanho e uma mão macia e suave tocou meu ombro. Um perfume de mulher tomou conta do lugar, invadiu meu nariz e desenhou minha vida como um ser que é fato e real. Agora, com esse cheiro, essa mão e esse sentimento de conforto e segurança eu era alguém completo, com 1,75m de altura, calçando 42, usando camisetas tamanho M e tendo uma barba que pinica. Comia uma fatia de pão de forma com manteiga, tomava uma xícara de chai e estava sentado numa mesa grande demais para o pouco que eu usava de seu tampo. Do outro lado, na cadeira oposta, a causadora da minha existência. Uma figura morena, de cabelos compridos, sorriso fácil e expressões serenas. E a ressaca acabou ali, na mesa do café da manhã dizendo, pela segunda vez: “bom dia.”

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Vivendo numa re-vida

Acordei sentindo um cagaço infinito de todas as coisas que eu não domino. Não estou acostumado a não ter o controle das situações, das pessoas, das opiniões, de tudo. Eu sempre controlo tudo ao meu redor, mas hoje acordei com medo de todo o resto, o resto que tomou vida e começou a agir por conta própria, o resto que saiu do trilho, que foi ser independente. Eu gelei da base da espinha até o fim da nuca num medo tão real quanto a própria vida.

No escuro das 6h da manhã é difícil se apegar a alguma coisa que pareça segura de verdade. Meu velho porto seguro, meu norte, meu farol, já não me guarda mais. Nem me guarda, nem me guia, nem me vela. Meu antigo porto seguro se afundou na minha própria loucura e, de repente, me vi sem rumo. Nesses momentos em que o sono mistura a realidade com um pedacinho de alucinação eu prefiro deitar de novo, fechar os olhos e tentar me lembrar do último dia real que tive, para tentar achar onde foi que eu parei e de onde é que eu preciso começar.

Quando fechei os olhos me veio instantaneamente um rosto castanho, de cabelos castanhos, de olhos castanhos com um sorriso sincero e olhos atentos. Existem certas memórias que não precisam ser caçadas para virem à tona, elas permanecem na superfície e, geralmente, são boas. Essa era uma lembrança boa. Foi como um quebra cabeça que se monta sozinho. Primeiro os pedaços do rosto, depois o olhar atento a tudo que eu dizia, depois a voz firme em alguns momentos, macia e sonolenta em outros e depois todo o impressionante resto.

Na escuridão ela parecia uma estrela fora do céu, meio que desertora, rebelde e imediatista. Era como uma estrela que tinha escapado da galera toda só pra vir ficar comigo no escuro, sem se preocupar com onde deveria estar, com quem deveria falar ou que tipo de atitudes deveria tomar. Aos poucos fui lembrando dos assuntos, dos nomes, das cores e dos lugares onde eu tinha ido, com ou sem ela e, quase sem querer, me lembrei de como as coincidências parecem forjadas quando tudo termina bem demais.

Com o passar dos minutos, no meio da escuridão, tudo pareceu uma viagem no tempo e eu senti o gosto da bebida na boca de novo, o cheiro dos lugares, o som das músicas e a chance de viver um dia a mais numa vida que vai a galopes velozes. Um dia a mais é sempre um privilégio, um dia a mais com uma surpresa agradável do lado é o ensaio de um milagre ou de uma brincadeira de muito bom gosto. Eu olhava para ela tentando lembrar da conversa que estávamos tendo e ela me olhava de volta com uma expressão de quem está esperando uma novidade. Era mesmo uma re-vida, uma segunda chance de viver o mesmo dia novamente.

Uns olhos felinos, espertos, meio egípcios, me olhando com um interesse incomum nos dias de hoje. Ela se interessava muito em me ouvir e eu me interessava muito em ouvi-la também. E a cada meia hora de conversa descobríamos absurdos um do outro que não foram ditos na vida real, ou na primeira vez que vivemos aquele dia. Às vezes ela parecia uma mulher responsável, cheia de grandes coisas para cuidar, fazer e dar um jeito de prosperarem e, de repente, era uma menina jogando o jogo da vida.

E nessa re-vida ela me mostrou os segredos mais honestos e plenos que poderiam existir. Me falou tudo o que eu tinha medo de ouvir, só que de um jeito tão natural e simples que pareceu, simplesmente, uma novidade boa entrando pelos ouvidos. No escuro, lá no meio da minha escuridão particular, ela apareceu macia e castanha, com uma pele quase da cor da minha, com uma altura quase igual à minha, com instintos felinos e intensos quase iguais aos meus. No fundo do fundo do fundo do fundo do poço eu encontrei uma versão minha, só que feminina.

Entendi onde estava, onde a vida deveria continuar e me dei o direito de não tirá-la da cabeça por nenhum minuto do resto do dia. Às vezes é complicado explicar esse tipo de coisa mas, ao mesmo tempo, é fácil entender. Você controla sua vida, faz planos pro futuro, entende tudo o que o mundo tem pra te oferecer e traça uma meta. De repente a vida se mostra maior que qualquer expectativa e te joga no meio de um monte de gente desconhecida, em ambientes hostis, em situações desconfortáveis e, entre todos os obstáculos, te dá um brinde para não parecer que o mundo ficou amargo demais. O meu brinde, meu presente da vida, tinha gosto de calmaria, bom humor e delicadeza extrema.

Faz parte da experiência toda não ter a menor ideia do que vai acontecer. Não saber o que é que vem amanhã, nem o que foi que aconteceu ontem para que o hoje tivesse essas cores faz parte, mas de uma hora pra outra ficou tudo castanho, tudo meio moreno, tudo meio perfumado e ninguém sabe ao certo o que aconteceu. Na escuridão, no meio do mais profundo breu, encontrar alguém que, assim com você, está procurando uma luz, é sempre reconfortante. Nessa re-vida de aprender mais sobre o que eu não vi ou fiz do que sobre o que eu vivi, fico me perguntando quando é que tudo acaba.

Não acaba. Eu simplesmente abro os olhos e volto pro mundo real, pra vida verdadeira, pro dia de branco. Esse tipo de sonho tem curta duração, mas eu nunca me incomodo com reprises. Nunca!

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Ensaio 1

174º dia: Fum’o teu cigarro e vai dormir! Não quero você aqui fora colecionando esse monte de ideia absurda. Já sei que a cidade noturna te inspira, que esse vento te comove, que essa liberdade do parapeito baixo te deixa maluca, mas hoje não. Hoje, se for pra ficar maluca, vai ser lá na cama, do meu lado, comigo e ninguém mais. Eu sou teu dono, mulher. Não esquec’isso! Se eu que boto o dinheiro den’dicasa, se eu que ban’quessa porra tod’aqui, você tem mais é que ficar pianinho mesmo. Entra já, foda-se!

182º dia: Cobr’essas pernas! Mulher minha não é vitrine nem anúncio luminoso pra chamar a atenção de marmanjo na rua. Qué mostr’as pernas? Mostra pra mim, lá dentro, no quarto. E aproveita pra cozinhar a janta. Eu tô com fome, tenho certeza que você também não comeu. Mexe esse cu e faz alguma coisa de útil. Tá achando que eu casei com você por causa dessa carinha linda que cê tem? Eu quero uma mulher den’di casa, não uma modelo pra desfilar pra lá e pra cá.

195º dia: Vem deitar! Hoje eu quero um carinho gostoso, vem me fazer um carinho aqui, vem. Não tô pedindo, tô mandando. Você não tem que querer, não tem que escolher porra nenhuma. Vem, faz e cal’essa boca que eu já não tô com paciência pra ouvir merda. Não casei pra ficar escutando desaforo de vadia nenhuma! Vem tira a roupa, deita que eu tô com vontade. Foda-se você, vai ser agora!

203º dia: Ele me batia, me maltratava, me xingava e eu não era feliz. Minha vizinha que me passou a arma, num dia que ele estava fora e ela me entregou. Era do marido dela que morreu há um bom tempo. Foi fácil. Ele entrou, perguntou se eu tinha feito a janta e depois veio pra cima de mim. Eu não sabia atirar então tive que esperar ele chegar perto, bem pertinho, que era pra não errar nada. Fui apertando o botão: uma, duas, três, quatro balas. Eu não sabia quantas tinha, então quando o corpo dele já estava no chão eu continuei apertando, mirando na cara. Seis tiros, quatro na barriga, dois na cabeça.

217º dia: Agora tá tudo bem.

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Eu não seria seu namorado

Pra ser seu namorado o cara teria que, no mínimo, te comer uma vez por dia, todo dia. Sei lá, é o que eu penso, minha opinião. Acho que você, com esse seu gosto tão apurado pra sexo, esse teu paladar afiado pra saber quem é melhor que quem, quem tem o melhor formato, o melhor gosto, o melhor cheiro, o melhor desempenho, merece uma atenção integral. Esse brother, esse santo da putaria, seria um cara de sorte aos olhos da maioria, mas eu, particularmente, não sei se ele conseguiria dar conta. Você é ilimitada, infinita, insaciável. É como um saco sem fundo que coleciona orgasmos das estrelas, gritos que acordam cidades, suores e fluidos que correm em rios. É uma mulher impossível!

Esse cara teria que estudar sexo. Sério! Teria que ter um manual de posições sempre atualizado, malhar firme na academia para nunca decepcionar, estar sempre com o melhor físico, a melhor inspiração e teria que, invariavelmente, te achar a mulher mais gostosa do mundo. Tudo bem que você teria muitos meios para fazer com que ele quisesse repetir o prato dia após dia, mas acho que nem o melhor sexo do mundo resiste à monotonia visual. É a lei da culinária e da vida sexual muito ativa: se você não gosta do que vê no prato, não come com prazer.

Ele também não poderia ter medo de algumas coisas, como transar em lugares perigosos, públicos ou desconhecidos. Você, com o seu instinto ninfomaníaco severo, não vai ter paciência de transar só na cama, ou só no motel, ou só no carro. Sei que pra você muro de rua deserta é sexy, sei que você gosta de piscina, mar, rio, pracinha, cinema, banco de ônibus, banheiro de balada e cantinhos escuros em qualquer lugar. Esse cara vai ter que saber as mágicas de trepar com você lendo o jornal, tomando uma cerveja, falando ao telefone ou qualquer outro teatrinho pra disfarçar que, na verdade, vocês estão em pleno ato.

Pra namorar com você, por mais triste e passivo que seja, esse cara tem que saber ser corno. Por que é ingenuidade demais pensar que você, que não se contenta nem com sexo diário, ia se contentar com a mesma rola a vida toda. Quem te conhece sabe, e bem, que você não tem dom para monogamia. Vai precisar acreditar que estava um trânsito infinito de volta às aulas e, por isso, você chegou tarde (e sem calcinha) e vai ter que fazer vista grossa pras marcas de mão na sua bunda e pros arranhados no seu pescoço. Talvez ele até ganhasse a carta de alforria dessa escravidão sexual que você criou, mas ele também teria que ter estômago para saber que essa “melancia” ele não está comendo sozinho.

Pro cara ser seu namorado, no meio desse monte de sexo, gozo e euforia, ele tem que segurar a tua vida complicada. No meio da deprê das suas responsabilidades, do lance dos seus pais, dos problemas da sua casa, com a sua mãe, teus traumas, teus problemas do passado, teu ex-namorado inconformado, tudo que faz parte dos problemas do mundo que você organiza e, mesmo assim, ainda comparecer todo dia. Esse cara, basicamente, tem que ser multi uso. É um vibrador nas horas que o corpo se sente sozinho. É um telefone quando o corpo se sente ameaçado. É um cobertor quando o corpo sente frio. É um sparring quando o corpo sente ódio.

Na verdade, pra ser seu namorado o cara tem que ser foda. Foda em todos os sentidos! Rola grande, paciência maior ainda, puta pique físico, cheio de energia pra dar e vender, uma enorme habilidade pra administrar compromissos de acordo com o seu ciclo menstrual, ondas de calor e picos de tesão incontroláveis. Tem que ser um cara que tenha certo dinheiro para bancar fantasias absurdas como transar em banheiros de avião, finais de semana sexuais em iates, fodinhas em praias desertas ou mesmo para resolver tretas complexas como por exemplo “fodeu tudo lá em casa, você tem como me emprestar uma grana?” porque isso pode acontecer. Eu faria tudo isso, só que tenho humildade pra assumir que não tenho toda essa intensidade e que não aguentaria levar isso pra vida inteira. Se eu fosse seu namorado eu… Sei lá, eu não seria seu namorado!

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