Arquivo mensal: junho 2013

Estaca 0,1

Ela me olhava quando eu não estava olhando. E quando me via atento ao caminho, olhando para frente, pensava em quanto me queria para si. Mas eu me virava e ela disfarçava, fingia estar olhando depois de mim, pela janela, lá fora, e eu fingia não perceber a mentira. O carro quentinho, mas a chuva e o frio batendo cartão do lado de fora e o destino era qualquer lugar. Era pretexto, só pra ficar junto, só para poder olhar para mim.

Tinha aqueles vícios de gente que não consegue aceitar que gosta de alguém, tipo ter fantasias sexuais e, quando se dá conta de com quem está fantasiando, mudar o personagem sem mudar o desejo. Me falava sobre outros caras, me pedia para dar opinião, aparecia nas festas acompanhada e eu, sempre ali, fingia que não me afetava vê-la com alguém. Talvez eu a quisesse tanto quanto ela me queria, mas de um outro jeito.

Ouvi esses dias, vendo um filme babaca na televisão, que é possível amar duas pessoas ao mesmo tempo, mas que é impossível estar apaixonado por mais do que uma pessoa por vez. É assim que a gente escolhe quem vai ficar com a gente, e quem vai caçar outro coração pra habitar. Mas ela negava isso. Eu negava isso. E nesses dias em que a gente “tinha” que se ver para falar de alguma coisa, para planejar alguma coisa, a gente fingia que ninguém queria ninguém.

Às vezes ela aparecia no telefone me falando que estava sozinha, perdida, me pedindo para buscá-la em algum lugar, na casa de alguém, na festa em algum lugar. Eu sempre ia. Não porque me preocupava, mas porque era uma chance de aproveitar seu estado fragilizado e me colocar ou pouquinho mais pra dentro, só para ganhar espaço, para ser a primeira opção na alegria e na tristeza. Eu a queria tanto, mas tanto, que nem sabia disso.

Um dia não ligou, simplesmente apareceu. O porteiro deixou subir sem avisar, era quase 2h da manhã, eu estava sozinho, vendo qualquer coisa na televisão, sem vontade de ir para lugar nenhum. A campainha soou no apartamento escuro e eu dei um pulo que case me custou a vida. Fui até a porta sem ter a menor ideia de quem poderia ser, mas torcendo para encontrá-la do outro lado da porta. E quando a luz do corredor tocou meu rosto, os lábios dela tocaram os meus. E foi ficando, de vez, curtindo aquelas magias estranhas que envolvem os primeiros beijos em alguém.

Pediu para ficar, me convidou para ir para a minha própria cama, fez questão de ficar em cima de mim enquanto tirava a roupa e enquanto fazia isso ficou me olhando o tempo todo, sem desviar nem um segundo, descontando todas as vezes que me olhava sem que eu pudesse saber. Quando já não faltava quase nada para tirar, atirou-se ao meu lado na cama, olhou para mim com o canto do olho, como fazia sempre e me disse que era minha, daquela noite em diante, para fazer o que eu quisesse, “por toda a eternidade”.

De repente o frio do quarto não era mais páreo para sua presença e o calor que emanava poderia abrir fogo em todas as coisas ao redor. As luzes se apagaram como mágica e as costas dela se fizeram de cama para mim. Era uma daquelas transas que definem o destino da vida de duas pessoas dali em diante. E ela, covarde e burra, decidiu dizer que estava bêbada, que não sabia o que tinha feito, quando acordou pelada na minha cama, no dia seguinte. Estava decidida a lançar todo o progresso fora por causa de uma dúvida, ou um punhado de medos infantis.

Tem gente que prefere o jogo à vitória, e voltamos à estaca “0,1”, que é quase igual à estaca zero, com a diferença de que você já começou aquilo antes e, mesmo sem ter tido sucesso, está prestes a começar novamente.

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Os verbos e o tempo deles

– atenção passageiros, não entrem em pânico! Isto é apenas um exercício.

Eu queria sair de casa com um maço de cigarros no bolso, um dinheiro no banco, algum lugar pra ir e, depois disso, não ter mais planos fixos. Eu sairia fumando um atrás do outro, caminhando ao encontro dos meus amigos, os mesmos de antes, os velhos amigos, e a gente ia passar algum tempo conversando, falando sobre a vida, lembrando das mesmas coisas boas, as memórias que voltam sem nunca cansar. A gente ia rir disso, daquilo, lembrar de coisas que não acontecem mais e depois decidiríamos ir a uma festa. Sempre tem uma festa!

O vento gelado entrando pela janela iria me trazer um sentimento de nostalgia macio e confortável. Seria como um daqueles alarmes sutis que a vida às vezes soa para nós, avisando que é hora de olhar a cena de fora, se colocar em terceira pessoa e perceber quanta sorte temos de viver determinados instantes com certas pessoas. Iria estar tocando The XX, dois carros, nove pessoas, amigos e amigos dos amigos, gente de sempre, gente a conhecer, numa noite dessas de começo de inverno, todo mundo fumando, gastando a juventude em larga escala a cada baforada. Tudo bem, ainda temos tempo.

Luzes de postes, faróis na outra pista estão vindo, letreiros, promoções, avisos… “Gasolina 2,899”. A gente entra na conveniência, é um Shell. Alguns ficam do lado de fora rindo, falando no telefone, fumando os últimos cigarros, enquanto eu e os outros estamos comprando coisas. Doze latas de cerveja, uma garrafa de vinho, quatro Marlboros Light e um Trident preto. Saio sorridente e sou atingido na cara por uma rajada de vento frio contrastante com o calor de dentro da loja. Distribuo as latas, fico com uma, acendo um cigarro e trago com força, sopro para cima desenhando uma coluna de fumaça no céu escuro. São quase onze da noite, eu quero tudo ao mesmo tempo e antes que alguém possa me impedir, beijo a garota que está ao meu lado. Eu não a conheço.

Enquanto minha língua dançava dentro da boca dela, ao fundo, ouvia uivos e gritos, como se um beijo assim, no meio da noite, fosse coisa nova. Não era, ou não deveria ser. Depois disso voltamos para os carros. Agora eu tinha alguém para me abraçar e não fumava mais. Ocupava a boca com beijos e carícias, ansioso pela festa, pela bagunça e por partilhar isso com alguém. Eu via a cidade noturna, segurava a mão dela, olhava seus cabelos balançando com o vento e pensava sobre como a vida era boa. A vida é boa!

Luzes roxas e verdes. Uma pista redonda, muita gente, cerveja por quatro reais no bar e consumação mínima de vinte e cinto pra cada homem, dez para as meninas. O paraíso em forma de balada. Beijos, olhares, sensações e gostos, muitos deles. Eu, ela, uma garrafa para cada um e o mundo todo ao redor. Dez beijos, treze apertões na cintura, duas mordidas na nuca e uma lambida na orelha. Placares, palavras, promessas e uma vontade incontrolável e crescente, em ambos. Duas horas, um sem número de apertos, arranhões, mordidas e lambidas. “Time to go!”

O táxi levou vinte minutos para chegar, e foram os minutos mais lentos da vida. O caminho até o hotel parecia longo, mesmo sendo há alguns quarteirões de distância. Levaria segundos no nosso mundo, dias no deles. O celular avisaria os amigos onde a gente estava, ninguém precisava estar preocupado. Foi intenso, simbólico e memorável. Drogas, álcool e uma porção de vontades estranhas, tipo aqueles desejos de rasgar a pessoa e entrar dentro, morar dentro, virar um só. Eu não fazia a menor ideia de quanto tempo ficamos agarrados, mas isso não era nem um pouco importante. O dia clareou. Acordei. Estou no meu quarto, uma mina com 24 anos nas costas, na madrugada de uma segunda-feira, tremendo, congelado, enquanto você ficava sem saber direito quanto tempos verbais tem nesse texto e pensando que, até agora, o protagonista, sem motivo, deveria ser um homem. Mas não era. Não iria ser!

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Vou publicar um livro!

“Minha ‘xana’ tem gosto de Pepsi-Cola”, disse Lana Del Rey, no primeiro verso de “Cola”, uma música do seu último EP. E ela disse isso porque queria dizer, porque teve vontade, porque achava que ia ser bacana começar uma música que fala sobre jovens garotas fazendo sexo com homens bem mais velhos, casados, que vivem o sonho de fugir com uma moçoila safadinha para transar e viver uma vida de excessos que ficou para trás com a juventude que já acabou. Ela teve a ideia, ou alguém teve a ideia e mostrou pra ela, que achou “super” e decidiu gravar a música – que é ótima, by the way – sem medo de ser feliz.

Tem vezes que encontrar uma ideia divertida e que nos passe um pouco de crédito é tudo que precisamos para dar um passo que pode mudar todos os outros que virão a seguir. Tipo decidir ligar o foda-se e contar pra geral o sabor que a sua vagina tem! Foi seguindo esse raciocínio, juntando com um monte de desejos e outras coisas que muita gente me diz, me sugere e me apresenta, que eu decidi publicar um livro virtual. Eu sei… Não parece tão transgressor quanto falar sobre sexo de mocinhas sub-18 fedendo a refrigerante com caras pós 50 fedendo a cana, mas acredite, pra quem vai dedicar, horas, muitas horas, dias, semanas e massa cinzenta pra escrever, é uma aventura arriscada pra caralho.

Uns chamam de livros virtuais, outros chama de ePubs e eu gosto mais de chamar de eBook. É uma obra igual à que você compra de papel, mas foi feita para ser lida em eReaders, tablets, celulares e computadores. Claro que não é todo mundo que tem um aparelho de leitura digital, nem todo mundo tem saco de ler alguma coisa que não seja no papel, mas acredite, isso vai mudar. Eu acredito!

Desde a expansão da Amazon com seu gracioso Kindle (o eReader mais famoso do mundo) sendo arremessado na cara de leitores do mundo todo, vi que era uma fagulha para a mudança que jamais retornaria. Assim como as revistas estão fechando e investindo em sites mais legais, assim como os jornais agora cobram por conteúdos online, os livros, meio tardiamente, mas com cerca exclusividade quanto à plataforma, também chegaram ao mundo digital. E foi pra ficar!

Os eBooks não são o futuro, de modo algum. Seria até meio babaca dizer isso. Os eBooks são o presente, quase chegando no passado recente, porque quem não lê na internet, daqui há um curto tempo, vai começar a perceber que está caro comprar o papel, além de ser meio complexo de guardá-los, caso você leia muito. Vou dar um exemplo: meu livro, no formato digital, pode ser vendido a preços baixíssimos, tipo, R$ 8 em uma obra com 160 páginas. Porém, seria muito difícil ficar abaixo dos R$ 35 se exatamente o mesmo livro fosse vendido em papel. Entendeu meu objetivo?

Por isso, minha primeira empreitada literária será com um eBook, devidamente disponível em sites legais, honestos, como os da Libraria Saraiva e a loja de livros da Amazon.com. Quero ser lido, e isso é o que importa! O projeto já está em produção, será uma história longa, estilo romance, que é um formato que venho treinando e aperfeiçoando, porque não está dentro da minha zona de conforto, mas será bom. Garanto, com todas as minhas forças, que será bom. Afinal, meu pau não tem gosto de Pepsi-Cola, mas eu também estou apostando que fazer isso será divertido e interessante, que vai ser uma obra “super” e eu vou escrevê-la sem medo de ser feliz, independentemente da opinião de quem quer que seja. Sendo assim, será bom! Aguardem…

e obrigado a você, que ficou animado(a) com isso!

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O ritual do cappuccino

Nunca fui muito apegado a café. Sempre considerei o grão uma daquelas coisas que tem o cheiro muitas vezes melhor que o gosto, como a pipoca doce industrializada, o churrasco de cupim e algodão doce. Mesmo assim, cresci numa família de pessoas que tomam café, como a maioria das que existem no Brasil. Minhas avós – paterna e materna – sempre foram apreciadoras de café, assim como minha tia, que fumante desde cedo, tomou gosto pelo café tão rápido quanto pelo cigarro. Minha mãe toma, no mínimo, duas xícaras de café com leite por dia, todo dia, há mais ou menos uns 20 anos. E acho que foi por causa da minha mãe que descobri que, mesmo não gostando do café preto, com leite ele desceria muito mais fácil.

Meu avô paterno também preferia café com leite, e meus amigos da rua costumavam tomar isso no café da manhã, ao invés de leite com qualquer outra coisa. Eu sempre gostei muito do leite. Tomava leite puro a qualquer hora do dia e até causei uma certa tensão familiar quando perceberam que meu vício em leite estava custando caro para as finanças da casa da minha avó, onde eu passava a maior parte dos dias. Sendo assim, seria natural perceber que com leite, qualquer café de merda seria muito mais agradável ao paladar. Ao menos ao meu.

O tempo foi passando, fui desenvolvendo um estômago hereditariamente frágil, descobri que tudo me dava azia e isso, de uma vez por todas, destruiu a presença do café puro na minha vida. Ele retornou, tímido e sem muita perspectiva de permanência, nos meus últimos meses trabalhando na redação onde passei os últimos três anos da minha carreira de jornalista esportivo. O sono era muito, o tempo era pouco, a energia era nula e o café resolvia os três problemas. Eu sabia muito bem como controlar um pico de glicose e administrava doses cavalares do pó branco em copos de até 300 ml de café, quatro vezes ao dia, durante as semanas de fechamento das edições.

O tempo passou, eu pedi demissão, parei de tomar café e comecei a namorar com a Juliana em Junho, que é o comecinho do inverno. A gente costumava ir à padaria, tomar coisas quentes e a minha paixão por bebidas derivadas de café que podem me ser não-letais começou a voltar. De lá para cá, sempre que faz frio a nossa bebida padrão é o cappuccino, que agrada gregos, troianos e brasileiros. Chocolate, leite e café, em dosagens misteriosas de um estabelecimento para o outro, mas sempre agradáveis. Acabei me tornando um viciado em terminar noites frias em padarias, com ela, tomando cappuccinos. Muitas vezes nem estou com frio e me contento em vê-la tomando a mistura padrão, enquanto estrago tudo tomando água, suco ou qualquer outra coisa gelada.

Pois bem. Acontece que hoje, um dia que tirei para ficar em casa trabalhando em coisas atrasadas e trabalhosas, senti vontade de tomar um cappuccino. Tem uma padaria aqui na esquina da rua onde geralmente tomo café, almoço e, algumas vezes, janto. Sou um frequentador diário da Panificadora Caiubí. Acontece que a minha vontade me gerou um questionamento: mas vou sem Juliana? Minha namorada gosta de fazer coisas pra caralho quando eu estou ocupado. É como se, quanto mais ocupado eu estou, mais ocupada ela estivesse de estar. Marcou unha, mão e pé, cabelo, foi buscar um casal de amigos no aeroporto, ficou até além do horário trabalhando na escola, foi para a academia e depois de lá é muito provável que invente outra coisa para fazer.

A resposta para minha pergunta, diante disso, teve de ser “sim, vou sem Juliana”, e no segundo seguinte minha vontade havia passado. Acontece que mais do que uma bebida, um sabor ou ritual, o cappuccino se tornou uma combinação complexa de sabores e sensações que precisam se completar para gerarem prazer. Tomar aquela merda sem Juliana seria o mesmo que comer macarrão sem queijo ralado: é bom, mas não traz prazer. Eu não ia me sentir feliz, nem teria meu desejo saciado, se tomasse meu cappuccino sozinho, então não fui. Acontece que a gente, ao longo da vida, cria hábitos e tem vontades que vão muito além do aroma e do paladar: criamos rituais afetivos e estes, se não forem realizados à risca, não surtem o efeito desejado.

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Aquela mulher!

Eu admirava aquela mulher. Entrava louca na empresa, toda vestida de amarelo, e gritava baixarias para quem quisesse ouvir. Mandava a secretária calar a boca com um simples “vai chupar rola, piranha” e seguia caminhando para dentro dos corredores. Quando passava na frente da sala de reuniões gargalhava alto, abria a porta e dava de frente com uma porção de homens alinhados e vestidos, regularmente, de preto. “E aí seus broxas?” gritava. Alguns riam, outros se sentiam ofendidos escondidos por trás de seus rostos impassíveis. Era a verdadeira dona, a que goza do poder sem limites, a que faz o que quer e paga para ver que vai se opor.

Eu invejava aquela mulher. Usava só uma cor, sempre amarelo, reluzindo nas paredes brancas de todo o andar, com saltos altos, rugas, maquiagem demais e um cabelo amarelo claramente tingido. Era ela, sem dúvidas. Não se escondia, não fazia pose, não queria ser algo que agradaria os demais. Era original do dedão do pé ao último fio de cabelo pintado. Apertava o peitão das meninas que voltavam de férias com silicone e as chamava de “rainha da espanhola”, acariciava os estagiários com rostos mais bonitos e avisava que “se bobear eu ainda sento nessa sua pica fedendo a leite Ninho, seu moleque” e depois saia rindo. Era uma espécie de Dercy Gonçalves dos negócios imobiliários.

Eu respeitava aquela mulher. Depois de fazer seu show de entrada, sentava em sua mesa e fazia ligações em alto e bom som. Fechava contratos mais rápido que qualquer um, tinha grandes ideias, fazia leitura dinâmica em dez jornais de quatro línguas diferentes. Depois ligava para a secretária, que segundo os fofoqueiros, ganhava mais que o vice-presidente da empresa, e a insultava com carinho. “Ei, sua putinha arreganhada, pede pra Neuza do café me trazer uns dez cappuccinos que hoje eu tô de foder!” e a menina, uma morena de pele caramelada que falava baixo e caminhava com as pernas juntas, sorria e providenciava o que era pedido. Dizia-se que o salário alto era para evitar que botasse a chefe no pau, mas alguns diziam que era só faxada e que as duas se davam muito bem, apesar do gênio da velha.

Eu me espelhava naquela mulher. Ela pegava táxi e pagava com boquete, só porque era imoral e proibido. A sociedade não gostava de mulheres de mais de 60 que ainda se sentiam atraentes. Morava em uma cobertura enorme e fazia orgias com garotos de programa sub-20. Chamava outras amigas endinheiradas e, como ela mesma dizia algumas vezes, botavam “as aranhas pra levar vara” durante um final de semana inteiro. Dobrava advogados, juízes, políticos, médicos, artistas, figurões da televisão, concorrentes e qualquer outra figura de poder que se colocasse em seu caminho. Principalmente se fossem homens. Era incisiva, rápida, eficaz e infalível. A verdadeira mulher de sucesso, exemplo para todas as outras moças do escritório e uma ameaça para todos os homens, inclusive eu e meus colegas de setor.

Eu gostava muito daquela mulher. Sonhava com o dia em que poderia conversar com ela sobre negócios, aprender um pouco, absorver sua energia, decifrar sua acidez precisa e me tornar um cara melhor. Mas um dia, por obra do acaso, pegamos o elevador juntos e ao perceber que eu ia para o mesmo andar, me questionou sobre qual o meu setor. “Contábil”, respondi, sorrindo muito e, provavelmente, fazendo cara de babaca. Ela então segurou meu queixo com força, olhou para o meu rosto bem de perto, depois virou minha cabeça de lado, para me olhar de perfil, puxou um catarro acumulado lá no fundo da garganta e escarrou na minha bochecha direita. “Faça essa barba. Sua cara está parecendo o saco de um velho babão!”, gritou, em seguida a porta abriu e ela saiu gritando e insultando outras pessoas. Desde então eu tenho ódio daquela mulher!

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Os objetos de alguém

Não gosto de incentivar o consumo, nem a riqueza, nem a acumulação, mas não posso ignorar o fato de que objetos são importantes e necessários. Os objetos de uma pessoa dizem muito sobre ela, inclusive, que ela tem objetos demais, em alguns casos. Você consegue saber, mais ou menos, como é uma pessoa pelas músicas que ela ouve, ou pelos lugares que ela vai, mas fica muito mais fácil se você souber como ela se veste e o que ela carrega dentro da bolsa, da mochila, dos bolsos, enfim. Os objetos das pessoas dizem coisas sobre seus donos.

Mais do que significar estilos, preferências e opiniões, os objetos de alguém presenciam coisas muito íntimas que talvez ninguém mais saiba. As escolhas mais importantes, os planos mais intensos e as ideias mais brilhantes, acredito eu, surgem sempre em momentos de solidão. Num quarto, numa sala, numa mesa, dentro de um carro. São situações que acreditamos estar completamente solitários, mas que sempre estão sendo assistidas por dezenas, às vezes cetenas, de objetos. E se pudéssemos conversar com eles, obter informações, saberíamos mais sobre as pessoas do que elas mesmas.

Imagine quanta coisa não sabem os óculos da presidente Dilma. Quantas reuniões a portas fechadas eles já não assistiram? Quantos documentos confidenciais eles já não leram? Os objetos pessoais de alguém, muitas vezes, valem mais do que eles mesmos. Imagine quantas histórias os carros de Formula 1 não poderiam contar sobre seus pilotos, sobre as corridas, sobre as equipes, os mecânicos e até mesmo sobre as organizações e o grande circo da corrida? Imagina quanta coisa o capacete do Schumacher já não viu, ouviu e viveu? Pense em quantas noitadas inacreditáveis o isqueiro do Keith Richards já não curtiu. Pense em quantos quartos de hotel ele já não iluminou com sua chama, quantas orgias, quantas overdoses, quantas ameaças e quantos palcos ele já não viu?

E não precisa sem só gente mega famosa assim não. Esse texto, na verdade, nasceu de uma reflexão minha sobre alguns amigos e pessoas que conheço. Gente que é tão voraz na vivência com certos artigos que seriam capazes de deixar a história das próprias vidas na boca de um único objeto. Comecei, de fato, me perguntando “quanta história os tênis de gente como a Paula Narvaez poderia contar”. Quantas chuvas a bicicleta de gente como a Isa Garaventa já não tomaram? Quanta mulher pelada os óculos da Amanda Palma já não viram? Quanta festa os sapatos de pessoas como Flávia Carvalho e Tassy Sasso já não curtiram? Penso em quanta mágica os pincéis da Dani Fialho não fizeram, quanto coração partido o violão do Fe Barscevicius já não musicou e quanto absurdo e desilusão meu teclado já não decifrou?

Os objetos de alguém são o novo “diga-me com quem tu andas e te direi quem és”. Vem conversar com o meu quadro da Marilyn Monroe aqui no meu quarto e você vai ver a quantidade de coisas que ninguém sabia sobre mim. Vai trocar uma ideia com o carro do Boca Gatolim e você vai saber mais do que qualquer um sobre o que é a verdadeira vida noturna universitária. Converse com a câmera de um fotógrafo, com o computador de um designer, com o instrumento de um músico, com as calcinhas de uma prostituta, com os pincéis de uma maquiadora, com as luvas de um pugilista e dispense a conversa com qualquer uma dessas pessoas. Não será mais necessário.

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A vontade de te ver…

Daí ela colou o nariz no vidro e gritou pra mim, sem som, que me amava. Li nos lábios um berro aterrorizante de “EU TE AMO PRA CARAAAALHO!” antes de sumir lá longe, na janela, enquanto o ônibus seguia, nem tão rápido, nem tão lento, rumo ao futuro que não ia durar nada. Era um silêncio que fedia a podre e foi a primeira vez na vida que um som me pareceu ter cheiro. O motorista não olhava para trás, nós todos uns moleques de no máximo 17, todos com o cu na mão, tremendo os dentes nas bocas bem fechadas. Vai saber o que é que tem no outro lado da ponte.

O rádio chiava horrível uma música sertaneja que me fazia desejar morrer, mas algum anjo em rota de fuga deve ter passado por ali, perdido, e fez com que alguém, que do meu banco perto do fundo eu não pude identificar, mudasse a sintonia e caísse, como que por milagre, em uma daquelas estações que foram feitas pra gentes da nossa idade, fodidas ou não. Tava tocando a última  música do Charlie Brown, aquela que foi lançada depois da morte do Chorão.

O refrão dizia “a vontade de te ver já é maior que tudo” e eu lembrava incansável do rosto vermelho dela grudada no vidro do segundo andar, com a cara toda molhada e as unhas arranhando a janela que nunca se quebraria pra me deixar alcançá-la novamente. Todo mundo tinha alguém pra lembrar. Todo mundo olhava para frente como se não houvesse vista melhor do que a nuca raspada de um outro cara da mesma idade. Tem vezes, nesses momentos que a solidão fica sólida e tátil, que não ver nada é a melhor maneira de enxergar além.

O caminho era feito de um asfalto muito cagado, toda hora a gente dava pulos, com os pés presos em umas correntes folgadas e barulhentas no chão. Ônibus da polícia parece os que a gente pegava pra ir pra escola, ou pro trabalho, mas não tem aquelas barras pra se segurar, nem a porta de trás, nem janelas livres. É tudo gradeado, mais velho do que deveria e feito para que, se por acaso alguma coisa faça a porra toda capotar, nenhum de nós tivesse a menor chance de sobrevivência. Não ia mudar muito morrer no ônibus ou fora dele.

Nesses anos difíceis era melhor morrer cedo, vivendo intensamente, do que durar muito, passando os dias se lamentando pela merda que era estar vivo. Todo mundo ali tinha o mesmo sentimento que eu, chorava por dentro como eu e, no fim, era certo que todo mundo já sabia que ia dar nisso. É complicado nascer vivendo a infância de um jeito e, na adolescência, quando o mundo deveria abrir as pernas para nós, encontrar novas leis, novos códigos e ter que aceitar sem falar nada. A gente nem disse nada, na verdade, mas ninguém aceitou porra alguma.

“A verdade de te ver já é maior que tudo” eu pensava, enquanto lembrava do grito mudo dela, do outro lado da janela, lá longe, gritando um palavrão pra explicar que amor maior não existia e que palavra melhor não podia ser escolhida. “Eu-te-amo-pra”, e tomou ar antes de gritar “caralhoooo”, o mesmo ar que me faltava agora que o ônibus havia chegado. Cento e dezessete dias esperando um final que, honestamente, eu desejaria que estivesse mais adiantado.

Passaram semanas, muitas delas, aos pares, se arrastando fodidas de doenças horríveis, e eu só pensava em duas coisas: quando isso vai acabar? Como será que ela está? Eu jamais teria a resposta para a segunda pergunta e tinha, em meses, semanas, dias, horas, minutos e segundos a resposta da primeira. Alguns caras iam primeiro, afinal, era tanto moleque preso e condenado que eles não davam conta de executar todo mundo. Sim, caso você não tenha percebido, estávamos presos, condenados e íamos morrer dentro de algum tempo determinado por alguma pessoa que, com certeza, estava cagando para como nós nos sentíamos durante a espera.

Comia-se pouco, dormia-se pouco, falava-se pouco e, por conta dessa inatividade, o tempo dava-se o luxo de não passar. O tempo, lá, era uma palavra feminina. Era uma puta safada, meio gorda, decadente, que caminhava com um salto alto vagabundo pelos corredores conversando com os meninos mais fracos, desejando boa noite em pleno meio-dia e pedindo para que eles escrevessem cartas. Tempo, grande merda. Eu queria aquela piranha correndo a todo vapor, atravessando o corredor lotada, bruxa cheia de neura, para quem sabe ter minha paz. Mas o tempo não passava rápido porque estava ocupado demais incentivando a punheta da molecada carente.

Um dia, quando eu já estava quase vegetando, chegou minha vez. Levantei, fui até a porta, alguns deram tapinhas nas minhas costas, outros tocaram minhas canelas, porque já estavam deitados a tempo demais para terem força para levantar. Caminhei o pavilhão todo, junto com uns mil caras, todos em fila. Eu estava mais pra frente, mas não estava nem entre os cem primeiros. A fila ia andando lenta e os caras da frente sumiam de cinquenta em cinquenta. Chegou a minha vez.

Era uma sala com paredes de metal e todo mundo estava descalço, magro e perturbado. Fecharam as portas e uma voz no auto-falante deu o fim à nossa espera. “Vocês foram condenados à morte. O crime: Amar antes da maioridade.” e a gente sabia que depois disso saía o gás, a gente respirava, tossia, caia no chão e depois era enterrado em uma vala comum. Era proibido ser jovem e gostar de alguém. Novos tempos, novas regras, novos políticos e novos absurdos. Todo mundo na sala estava morrendo por amar demais. Só nos restava aceitar e ir, sei lá pra onde, definitivamente.

Mas um anjo, talvez o mesmo que nos visitou durante a viagem de ônibus, decidiu que para morrer era preciso uma trilha sonora. Isso não era para nós, mas para eles, que não tinham coragem de nos ouvir gritar e morrer, ficava difícil dormir à noite para eles.”Essa canção é a preferida da minha filha. Que Deus os abençoe no céu!” e quando o gás saiu, bem mais abundante do que eu imaginava nos meus dias presos enquanto a porra do refrão berrava nas quatro paredes de metal.

A gente sorriu, mesmo sabendo que era o fim, porque a vontade de vê-las já era maior que tudo e, de alguma maneira, naquele momento eu sentia que estava mais perto do que nunca. “Eu também te amo pra caralho…” e depois disse puxei todo o ar pela boca, aí não deu pra dizer mais nada.

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Um ano de coisas boas

Não é difícil encontrar gente escrevendo sobre o que é que faz da vida essa experiência tão intensa que todos nós sentimos diariamente. Tem gente que acha que a vida é feita de vontades e realizações, outros dizem que a vida é feita da satisfação em buscar e adquirir conhecimento. Outros dizem que o bom da vida é juntar dinheiro, comprar coisas, viajar o mundo, desfrutar de luxo e fartura. Sinceramente? Acho que a vida de cada um é feita de alguma coisa e essa coisa, na verdade, é tão pessoal que muitas vezes nem pode ser explicada ou partilhada.

Mesmo assim, colocando alguns extras e tirando alguns outros pontos, tem algumas sensações ou ocasiões que, na minha opinião, fazem parte da vida de todo mundo. Mas não são simplesmente parte. Trabalhar, comer, pagar contas e dormir são coisas que fazem parte da vida de todo mundo, mesmo assim, não são essas situações que constroem o valor da vida. Acho que determinados acontecimentos, simples ações banais que carregam em si uma enorme carga emocional e sensível, são o verdadeiro recheio desse hamburguer delícia que chamamos de “nossa vida”.

Acho que entre um pico de alegria, como ver nascer um filho, conseguir uma promoção bacana no trabalho ou ganhar na loteria, e um pico de tristeza, como a morte de alguém especial, a perda do emprego dos sonhos ou um período financeiro delicado, o que compõe a vida são pequenos prazeres. Momentos de alívio e alegria, curtos, quase invisíveis, mas que dão liga aos dias e fazem a dura jornada de “estar vivo” valer a pena e, muitas vezes, parecer divertida. E quando digo pequenos prazeres e alívios, quero dizer exatamente isso, na forma mais simples que se pode dizer.

A vida é feita de pequenas alegrias, como cagar no próprio banheiro e limpar a bunda com um papel higiênico macio. A vida é feita de momentos em que você enfia a mão nos bolos e encontra uma nota de R$20, que não é uma fortuna, mas que já muda o destino do almoço. A vida é feita de encontrar amigos na rua, sem querer e ter tempo suficiente para falar um pouco, dar abraços e marcar de se ver no fim de semana. A vida é feita de vezes que você diz “vamos marcar de se ver” e isso realmente acontece. A vida é feita de ter sensibilidade e calma para acompanhar o descer do sol alaranjado dessa época de frio, seja no meio do mar, no meio do mato ou no meio dos prédios.

São coisas simples, cotidianas, que a gente adora, mas não se dá conta disso racionalmente. A vida é, acima de tudo, estar bem consigo mesmo e ter tempo para perceber-se em paz. Dormir na sexta-feira sabendo que sábado não é preciso acordar com nenhum despertador. É ir viajar sabendo que tem dinheiro para despesas extras, que dá para ficar uns dois dias a mais se der vontade e saber que a meteorologia está jogando a favor dos seus planos. A vida é assistir os programas de fofoca e culinária na TV aberta, de tarde, e realmente aprender alguma coisa que você possa cozinhar e adquirir alguma informação útil que possa lhe render algumas risadas na mesa do bar com seus amigos. Ah, sim! A vida é a mesa do bar com os seus amigos, mesmo que você não esteja mais bebendo.

Para mim, além de todos esses detalhes bonitinhos e agradáveis que compõem a vida, uma coisa é fundamental: ter alguém. E nesse momento estou falando de mim, Daniel Ferreira Braz, o autor. Estou cercado, atolado, soterrado de amigos, até a tampa, que gostam de cair na bagunça, de ter mil mulheres, ou de ter mil noites solitárias achando que amanhã conseguirão uma mulher. Eu tenho meus momentos, mas no geral sou do tipo de homem que precisa de uma mulher só, mas muito presente, segura de si, que bate o pé, afirma o ponto de vista que tem e não se abate pela minha pouca sanidade e pela minha quase nula constância de pensamento. Sou do tipo de cara que gosta mesmo de comprar presentes fora de época, que elogia a roupa, que comenta da unha, que quer abrir a garrafa de água ou a tampa da maionese, ignorando qualquer conceito feminista, positivo ou negativo, que algumas pessoas possam ver em atos assim.

Hoje, dia 6 de junho de 2013, faz um ano que eu tenho alguém pra contar minhas ideias malucas. A vida é feita disso também, ao menos a minha. Ter pra quem dizer dos planos que eu fiz, dos sonhos que eu tenho, das vontades que me dão e dos desejos que eu quero dividir. A vida, essa a dois, juntinho, para mim, é ir ao cinema na hora do almoço e escolher qualquer coisa, só pelo prazer de ter uma surpresa, seja ela boa ou ruim. A vida com ela é saber que, se tiver frio, a gente tem um ao outro pra se esquentar, ver um filme, comer alguma coisa com muita gordura trans e açúcar, ficar junto, dormir, acordar, comer mais e ver o dia passar. Se tiver calor, temos companhia para ir à piscina, à praia, ao parque. Se estiver nublado temos um ao outro para caçar o que fazer, jogar baralho, chamar amigos, tornar o dia mais bonito. A minha vida é feita de dizer que estou dolorido da academia e ganhar massagem, é feita de dez minutos de indecisão e ideias repetidas quando alguém pergunta “onde vamos comer?”, é a certeza de que se for pra ir até a casa do caralho, a única coisa que ela vai dizer é que precisa passar no posto para abastecer. São coisas simples, mas importantes, que preencheram esses doze meses que passaram desde que eu a conheci.

Continuo apreciando a mesa do bar com os meus amigos. Continuo achando sublime cagar no meu próprio banheiro e limpar a bunda com um papel de folhas triplas. Continuo sabendo olhar o pôr-do-sol, nem que seja de dentro da janela do meu quarto. Continuo gostando de ver televisão sozinho, também adoro achar dinheiro em bolsos de roupas, também gosto de tudo que todo mundo gosta. A diferença é que eu sei que a minha vida também foi recheada de um monte de momentos de pequenos prazeres e alívios, só que vividos a dois, e isso não tem preço. Por isso, se eu puder te dar uma dica com tudo isso, é apenas o seguinte: saiba reconhecer quando uma pessoa realmente especial aparece na sua vida. Às vezes é o recheio mais sensacional que o seu hamburguer pode ter e você, desatento, acaba repetindo o velho x-burguer mirrado e frio de todo dia.

Obrigado por tudo Juh. Você é o melhor recheio que a minha vida poderia ter tido nesses doze meses. Eu amo você!

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Visita

Era noite, passava das onze, e alguém bateu palmas no portão. Imaginei ser alguém pedindo fora de hora, ou algum dono de um carro pouco competente pedindo um “empurrãozinho” e, por isso, levando em consideração a hora e o frio, ignorei. Mas depois de outras palmas ela gritou meu nome, e meu coração pulou pra fora da boca agitado, como um cachorro vira-latas hiperativo, foi pulando pela casa manchando tudo, parou na ponta e ficou balançando o átrio direito e batendo para mim. Tive que abrir.

“O portão está aberto”, e ela veio, caminhando encolhida, na minha direção. Abri caminho na porta e ela entrou direto, foi até o sofá, sentou-se e me olhou fixamente. Fechei a porta, sentei no outro sofá, do lado, fiquei olhando para o chão e um silêncio ensurdecedor tomou conta do ambiente por alguns minutos. Depois ela espirrou, eu disse “saúde” e junto com o “obrigada”, vieram uma porção de outras palavras, uma encavalada na outra, de uma vez. “Obrigadadesculpaaparecertãotardemaseuprecisavatefalarumascoisas” e depois respirou.

Fiz cara de quem estava prestando atenção e ela começou a dizer, em lista, uma porção de motivos pelos quais ela era mais mulher que as outras mulheres. Dias antes ela tinha aparecido com uma lista semelhante, mas era sobre o quanto ela gostava mais de mim do que as outras. Dessa vez a lista tinha um apelo sexual bem definido, explícito, e beirava a baixaria gratuita. “Porque eu chupo até o fim”, “porque eu gosto de fazer anal”, “porque eu mando bem por cima ou por baixo” eram alguns dos itens da listinha gente fina que ela montou.

Eu estava bem constrangido e assustado no final, mas ainda assim tentei parecer calmo e falar naturalmente. Depois de falar mais algumas coisas sobre não entender a minha posição, não sacar o que é que eu estava esperando, silenciou, me dando espaço para falar. “O que é que você quer?”, perguntei tentando ser o mais gentil possível, com uma voz baixa, calma e lenta. “Quero ser sua mulher!” ela respondeu, firme e rapidamente, quase como uma competição de perguntas e respostas. Expliquei que não era assim que as coisas funcionavam, que não é aparecendo na casa de alguém tarde da noite numa quarta-feira que se conquista um coração.

Ela pediu desculpas pelo horário, mas reafirmou que poderia me fazer o homem mais feliz do mundo. A gente não tinha ficado, nem se beijado, nem se tocado muito. Nosso contato mais íntimo tinha sido um abraço de despedida depois de um encontro com amigos. Mas ela achava que eu não tinha coragem de assumir um suposto amor escondido, só pelo fato de ela ser ex-namorada de um ex-colega de trabalho. “Você diz que não, mas eu sei que você escreve seus textos para mim”, disparou, no meio do silêncio, como o estouro de uma bomba. “Os textos sobre sexo, os que descrevem mulheres gozando, suando, gemendo e arranhando a suas costas, são todos para mim. A mulher que te chupa nos textos sou eu, que dá pra você nas orgias que você escreve sou eu, eu sei que sou eu, você escreve para mim o que não tem coragem de realizar”, e dito isso, levantou-se e começou a tirar a roupa, sem aviso prévio.

Estava vestida com um casaco de frio, bota, um vestido abaixo dos joelhos, uma meia calça e um cachecol. Antes que eu pudesse dizer algo o casaco e o vestido já tinham ido para a casa do caralho em algum lugar da sala e eu, diante de tamanha loucura, fiquei petrificado. Agora era ela de botas, meia calça preta escondendo uma calcinha preta discreta por baixo e um sutiã de uma cor próxima do roxo, mas que eu não consigo descrever muito bem. Desabotoou o sutiã e reparei inevitavelmente na firmeza e consistência do par de peitos que se apresentavam para mim. Não eram muito grandes, mas miraculosamente desafiavam as leis da gravidade apontando para o horizonte sem darem sinais de cansaço.

Quando ela ameaçou vir na minha direção para montar sobre o meu colo levantei rapidamente. Caminhei para trás amedrontado pensando em como fugir daquilo, enquanto ela falava sacanagens, invocava algum ser feroz e violento dentro de mim para comê-la “todinha, de todos os jeitos possíveis” e eu só pensava em como parar aquilo. Dei as costas e fui para a cozinha. Acendi a luz, apanhei uma leiteira bem grande e comecei a encher de água da torneira. Um chá, talvez, acalmasse aquela descontrolada. O reflexo dela atrás de mim, completamente nua, apareceu no vidro do vitrô por sobre a pia e meu reflexo imediato foi apanhar a leiteira e jogar a água sobre ela.

Foi uma cena um pouco ridícula, aquele aguaceiro batendo direto no peito dela, fazendo um som engraçado e depois se esparramando pelo chão. Ela deu um grito, depois achou que eu estava provocando e veio para cima de mim. Grudou a boca na minha enquanto puxava minhas mãos em direção à sua cintura e sua bunda. No meio do desespero empurrei-a com certa violência e ela se afastou. “O que foi? Porra, você não me acha gostosa? Você não me acha bonita? Impossível, todos os caras me desejam!” e antes que pudesse retomar seu ataque eu gritei, talvez bem mais alto que o necessário. “Puta que pariu, você é burra ou o quê? Você ainda não percebeu que eu sou gay? Gay, tipo, totalmente gay, sem dúvidas, sem recaídas, sem fugir da linha. Gay mesmo, de namorar com homem e tal! Você não percebe?”

Ela se ajoelhou, chorou e ali ficou, enquanto eu, mais uma vez, não fazia a menor ideia do que fazer…

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