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Hoje eu não vou voltar para casa, amor

Essa é minha última transmissão. Depois dessa, nada mais será dito, escrito ou pensado por mim. Estou acabando, findando minha participação, recitando as últimas linhas do meu monólogo e as cortinas já estão prestes a fechar. Serei novamente pó de estrela, essa matéria mágica que forma e deforma todos nós. Sei que parece clichê, mas daqui de cima tudo que eu penso em dizer é que a Terra é incrivelmente azul, mesmo com toda a poluição e a porção de decisões erradas que a gente tem tomado com as florestas. É incrivelmente azul, tão próxima, tão segura, mas eu não volto mais. Hoje eu não vou voltar para casa, amor. A seguir está todo o conjunto de coisas que eu consegui pensar em contar, mas como o ar está acabando e o frio é alucinante, pode ser que algo me escape à memória e fique perdido no espaço eternamente… assim como eu.

Número 1! Você tem bafo. Eu sei, deveria ter começado com alguma coisa mais romântica ou importante, mas você vai seguir em frente e seu novo namorado pode merecer uma namorada que não tem cheiro de repolho na boca. Vá ao médico, veja isso e seja feliz, esse cheiro não combina com a sua aparência.

Número 2! Eu nunca quis ficar com a sua amiga Ana. Eu sei que você sempre teve ciumes dela e sempre tentou me fazer ficar longe, mas a verdade é que a Ana nunca me interessou. Claro, ela me interessou como uma pessoa legal, assim como todo mundo que te paga cerveja, fala das suas bandas favoritas e te faz rir, mas foi só.

Número 3! Suas pintinhas no rosto são sexy. Não faça tratamentos, não use ácidos, não vá ao dermatologista com ar de preocupada, porque elas são perfeitas. Não acredite nas pessoas que dizem que é um problema ter pintas escuras e claras juntas. Problema, no seu caso, seria não tê-las assim exatamente como são.

Número 4! Sua mãe dá em cima de mim. Eu sei que você não vai acreditar, mas isso não me importa na atual situação. Quando você ler isso eu já vou estar vazio, mas sua mãe sempre me lançou olhares estranhos. Uma vez, naquele churrasco na casa do seu tio em Limeira, ela passou a mão na minha bunda e me chamou para subir as escadas, mas eu fugi assustado. Cuidado com ela e seus novos parceiros.

Número 5! Você é linda. Eu sei que você sabe que é bonita, não é difícil perceber isso, mas eu precisava dizer do meu jeito. Você é linda quando não tenta ser bonita. Você fica sensual e sexy quando está com os olhos pretos, a boca pintada e o cabelo arrumado, mas linda, daquele jeito simples e perfeito, você só fica quando está normal. Tente permanecer comum e você será bonita para sempre.

Número 6! Acredite no seu trabalho e invista nele. Pode parecer papo de fã só porque sou seu namorado, ou era, mas você precisa saber que é muito boa. Às vezes nem todo mundo vai acreditar em nós, nem todos vão nos dizer que estamos no caminho certo, mas temos de fazer o que nos dá a sensação de trabalho bem feito. Você é boa e isso basta. Eu não gastaria meus últimos momentos de vida dizendo isso se não fosse verdade.

Número 7! A Vanessa, aquela sua amiga, não é boa gente. Não sei como dizer em palavras o que eu sinto, mas tenho certeza de que você não vai perder muito se afastando dela. Eu sei que ela é sua melhor amiga, que você provavelmente vai correr para ela e chorar dias e dias quando souber do que me aconteceu, mas ela não é boa. Quando ela passa a energia das coisas acaba, o cachorro fica triste, as flores ficam meio velhas e eu me sinto mal. Sentia mal.

Número 8! Eu te amei todos os dias, mas meu amor sempre foi mais forte enquanto você estava longe. Nem sempre eu percebi o quanto minha vida dependia da sua, mas toda vez que você sumia ou a gente ficava afastado parecia muito óbvio que você era a mulher da minha vida. Vou morrer sabendo que você é a mulher da minha vida e tenho sorte por isso. Pouca gente tem certeza de que encontrou o verdadeiro amor.

Número 9! Um segredo: quando se está perto da morte é possível ver um pouquinho do lado de lá. Quando é claro e garantido que a morte é inevitável a gente vê, como se fosse uma imagem borrada num filme antigo, o que vem pela frente. Por isso não fique preocupada com o futuro. Faça as coisas agora e esqueça o resto, não vai adiantar nada. Meu próximo turno, ou o lugar para onde eu vou, não tem nada a ver com o que eu achei que aconteceria com a minha vida. Pensar no futuro é perda de tempo.

Número 10! Pra ser clichê vou acabar aqui. Não tinha nada para escrever depois do nono item, então só queria dizer que, nesse momento, tenho mais dois minutos de ar e vou gastá-los cantando aquela música que você gosta e olhando a sua foto. Seu rosto vai ficar indelével, assim como a minha maneira desafinada e infantil de cantar “Eu preciso dizer que te amo”. O espaço vai guardar a gente pra sempre. Te amo.

“Quando a gente conversa, contando casos, besteiras…”

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A vontade de te ver…

Daí ela colou o nariz no vidro e gritou pra mim, sem som, que me amava. Li nos lábios um berro aterrorizante de “EU TE AMO PRA CARAAAALHO!” antes de sumir lá longe, na janela, enquanto o ônibus seguia, nem tão rápido, nem tão lento, rumo ao futuro que não ia durar nada. Era um silêncio que fedia a podre e foi a primeira vez na vida que um som me pareceu ter cheiro. O motorista não olhava para trás, nós todos uns moleques de no máximo 17, todos com o cu na mão, tremendo os dentes nas bocas bem fechadas. Vai saber o que é que tem no outro lado da ponte.

O rádio chiava horrível uma música sertaneja que me fazia desejar morrer, mas algum anjo em rota de fuga deve ter passado por ali, perdido, e fez com que alguém, que do meu banco perto do fundo eu não pude identificar, mudasse a sintonia e caísse, como que por milagre, em uma daquelas estações que foram feitas pra gentes da nossa idade, fodidas ou não. Tava tocando a última  música do Charlie Brown, aquela que foi lançada depois da morte do Chorão.

O refrão dizia “a vontade de te ver já é maior que tudo” e eu lembrava incansável do rosto vermelho dela grudada no vidro do segundo andar, com a cara toda molhada e as unhas arranhando a janela que nunca se quebraria pra me deixar alcançá-la novamente. Todo mundo tinha alguém pra lembrar. Todo mundo olhava para frente como se não houvesse vista melhor do que a nuca raspada de um outro cara da mesma idade. Tem vezes, nesses momentos que a solidão fica sólida e tátil, que não ver nada é a melhor maneira de enxergar além.

O caminho era feito de um asfalto muito cagado, toda hora a gente dava pulos, com os pés presos em umas correntes folgadas e barulhentas no chão. Ônibus da polícia parece os que a gente pegava pra ir pra escola, ou pro trabalho, mas não tem aquelas barras pra se segurar, nem a porta de trás, nem janelas livres. É tudo gradeado, mais velho do que deveria e feito para que, se por acaso alguma coisa faça a porra toda capotar, nenhum de nós tivesse a menor chance de sobrevivência. Não ia mudar muito morrer no ônibus ou fora dele.

Nesses anos difíceis era melhor morrer cedo, vivendo intensamente, do que durar muito, passando os dias se lamentando pela merda que era estar vivo. Todo mundo ali tinha o mesmo sentimento que eu, chorava por dentro como eu e, no fim, era certo que todo mundo já sabia que ia dar nisso. É complicado nascer vivendo a infância de um jeito e, na adolescência, quando o mundo deveria abrir as pernas para nós, encontrar novas leis, novos códigos e ter que aceitar sem falar nada. A gente nem disse nada, na verdade, mas ninguém aceitou porra alguma.

“A verdade de te ver já é maior que tudo” eu pensava, enquanto lembrava do grito mudo dela, do outro lado da janela, lá longe, gritando um palavrão pra explicar que amor maior não existia e que palavra melhor não podia ser escolhida. “Eu-te-amo-pra”, e tomou ar antes de gritar “caralhoooo”, o mesmo ar que me faltava agora que o ônibus havia chegado. Cento e dezessete dias esperando um final que, honestamente, eu desejaria que estivesse mais adiantado.

Passaram semanas, muitas delas, aos pares, se arrastando fodidas de doenças horríveis, e eu só pensava em duas coisas: quando isso vai acabar? Como será que ela está? Eu jamais teria a resposta para a segunda pergunta e tinha, em meses, semanas, dias, horas, minutos e segundos a resposta da primeira. Alguns caras iam primeiro, afinal, era tanto moleque preso e condenado que eles não davam conta de executar todo mundo. Sim, caso você não tenha percebido, estávamos presos, condenados e íamos morrer dentro de algum tempo determinado por alguma pessoa que, com certeza, estava cagando para como nós nos sentíamos durante a espera.

Comia-se pouco, dormia-se pouco, falava-se pouco e, por conta dessa inatividade, o tempo dava-se o luxo de não passar. O tempo, lá, era uma palavra feminina. Era uma puta safada, meio gorda, decadente, que caminhava com um salto alto vagabundo pelos corredores conversando com os meninos mais fracos, desejando boa noite em pleno meio-dia e pedindo para que eles escrevessem cartas. Tempo, grande merda. Eu queria aquela piranha correndo a todo vapor, atravessando o corredor lotada, bruxa cheia de neura, para quem sabe ter minha paz. Mas o tempo não passava rápido porque estava ocupado demais incentivando a punheta da molecada carente.

Um dia, quando eu já estava quase vegetando, chegou minha vez. Levantei, fui até a porta, alguns deram tapinhas nas minhas costas, outros tocaram minhas canelas, porque já estavam deitados a tempo demais para terem força para levantar. Caminhei o pavilhão todo, junto com uns mil caras, todos em fila. Eu estava mais pra frente, mas não estava nem entre os cem primeiros. A fila ia andando lenta e os caras da frente sumiam de cinquenta em cinquenta. Chegou a minha vez.

Era uma sala com paredes de metal e todo mundo estava descalço, magro e perturbado. Fecharam as portas e uma voz no auto-falante deu o fim à nossa espera. “Vocês foram condenados à morte. O crime: Amar antes da maioridade.” e a gente sabia que depois disso saía o gás, a gente respirava, tossia, caia no chão e depois era enterrado em uma vala comum. Era proibido ser jovem e gostar de alguém. Novos tempos, novas regras, novos políticos e novos absurdos. Todo mundo na sala estava morrendo por amar demais. Só nos restava aceitar e ir, sei lá pra onde, definitivamente.

Mas um anjo, talvez o mesmo que nos visitou durante a viagem de ônibus, decidiu que para morrer era preciso uma trilha sonora. Isso não era para nós, mas para eles, que não tinham coragem de nos ouvir gritar e morrer, ficava difícil dormir à noite para eles.”Essa canção é a preferida da minha filha. Que Deus os abençoe no céu!” e quando o gás saiu, bem mais abundante do que eu imaginava nos meus dias presos enquanto a porra do refrão berrava nas quatro paredes de metal.

A gente sorriu, mesmo sabendo que era o fim, porque a vontade de vê-las já era maior que tudo e, de alguma maneira, naquele momento eu sentia que estava mais perto do que nunca. “Eu também te amo pra caralho…” e depois disse puxei todo o ar pela boca, aí não deu pra dizer mais nada.

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Alguém ligou pro seu irmão!

Eu tinha planejado uma infinidade de finais felizes para nós. Tinha pensado de a gente juntar uma grana e ir viajar pelos países da América do Sul, mochilão no quintal de casa, conhecendo de onde é que vieram as nossas cores, as nossas vogais e consoantes, o jeito como cozinhamos e tudo mais. A gente ia se beijar nas cachoeiras, transar no chão de terra e viver com os cabelos e os pelos crescendo em desordem durante uns meses. Mas não vai dar, porque pra isso a gente tinha que começar do jeito certo, e começamos do avesso e alguém avisou o seu irmão e agora acabou tudo antes de começar.

A gente podia simplesmente viver junto numa vida normal, trabalhando de segunda a sexta, encontrando amigos aos finais de semana, bebendo cerveja, dormindo no chão da sala, vendo a juventude ser jovem. A nossa juventude. A gente ia alugar um apartamento surrado em Santa Cecília, centrão de São Paulo, e viveríamos de metrô, comida de rua, discos de música alternativa, janelas abertas, calça jeans sem camiseta e calcinhas de algodão. Ia ser simples, mas bonito, só que não deu. Por que pra isso a gente ia ter que levar uma relação tranquila, que começa conhecendo a família, evolui pra dormir um na casa do outro e assim vai. Só que a gente pulou etapas e alguém avisou o seu irmão, ele tá lá fora gritando por você e acho que a nossa história não vai continuar.

Pensei também de a gente “meter o Marlon Brando nas ideias” e viver um daqueles amores fugazes, cheios de extremos e que, no fim, tá todo mundo saturado e terminam cada um pra um lado. Daqueles que começam com uma conversa de bar e no dia seguinte já estamos no telefone e depois a gente quer se ver todo dia e depois a gente transa sem parar e depois a gente começa a transar bêbado, drogado, testando coisas novas, e depois tem nós dois e mais alguém na nossa cama e depois a gente tem uma relação aberta sem querer e depois a gente se assusta com o que tudo se transformou e se separa com o coração machucado. Mas nem isso vai ser possível. Alguém chamou seu irmão, eu vou ter que fugir daqui e provavelmente a gente nunca vai se ver de novo.

A gente nem conversou direito e já chamaram seu irmão. Ao invés de a gente marcar de se ver amanhã, ou depois, você tirou a roupa e enquanto isso tinha alguém ligando pro seu irmão. E eu, que deveria ter dito que não, que era melhor sairmos outro dia para conversar, fui pra cima com tudo, bem quando seu irmão já estava vindo para cá. E ao invés de a gente fazer silêncio, parecíamos dois animais no cio gritando e urrando como loucos, e acho que foi por isso que chamaram seu irmão. E agora tudo que dava para a gente ser, não vamos ser mais, porque alguém ligou para o seu irmão, ele está lá fora gritando o seu nome e se eu não morrer hoje, quem sabe, um dia, quando você tiver mais que 18, a gente possa se ver de novo.

 

(inspirado por matt corby)

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“Se for pra morrer, que seja trepando”

Pro fim do mundo ela queria só sexo e algumas garrafas de vodca. Se fosse o fim mesmo, se fosse fogo, água, escuridão, oblívio, qualquer aniquilação, não restaria ninguém para usufruir dos estoques de comida, nem de armas, nem de nada. Se viesse mesmo o fim, a galope, a nado, voando, ou num sopro de briza do mar, não haveria estoque suficiente para nada. Então decidiu diferente: “Se for pra morrer, quero que seja trepando!”

Dentro de casa o estoque alimentício era basicamente duas dúzias de garrafas de bebidas alcoólicas, rótulos coloridos, formulações diversas e tamanhos variados. Copos por todo o apartamento, luzes de natal presas com fita crepe na sanca, cortinas amarradas para o alto, janelas escancaradas e a Lua iluminando o que dava, lá do lado de fora. Se fosse acabar, que o fim viesse de vista panorâmica, em um ambiente aconchegante e animado.

O figurino para o fim do mundo deu mais trabalho. Decoração é simples, todo mundo gosta de velas, luzes de natal, tecidos compridos e garrafas com design sensual. Mas a roupa não é tão banal assim. Como é que se escolhe a roupa da morte? Que tecido você escolheria para ir para o caixão com você? E se não houvesse caixão? E se não houvesse nada depois do fim? O traje perfeito para a festa seria o mais simples. “Vestirei brincos, pulseiras, um belo colar e perfume. Apenas!”, definiu.

Na lista de convidados só os melhores e os piores. Medianos não merecem um lugar na última festa. As melhores amigas, as mais fiéis, as mais bonitas, as mais animadas. Os melhores amigos, os mais excêntricos, os mais carinhosos, os mais atenciosos e os mais inteligentes. Os ex-namorados, as amantes dos ex-namorados, os inimigos, as inimizades, as mulheres mais invejosas, os caras mais cafagestes. Todos, os melhores e os piores, juntos para morrerem no mesmo lugar.

Às 23h chegaram todos, juntos, como se fossem uma família só, uma única excursão para o apocalipse. Foram entrando, deixando as roupas pelos cantos, largando sapatos, vestidos, camisas e lingeries por todo lado. A fila que se esticava pelo corredor cumprimentava a anfitriã com um beijo na boca, de língua, apaixonado e sincero. Homens e mulheres, todos a beijaram da maneira mais honesta que podiam, como se fosse um presente em troca do convite. Com o apartamento cheio o lugar tomou cara de festa. Todos nus, bebendo mais do que deveriam, conversando sobre o fim do mundo, sobre o fim de tudo e sobre quem queriam comer ao redor.

De repente as luzes de natal se apagaram, o vento apagou as velas, a música silenciou e a Lua, enorme e azulada, se tornou a única iluminação do lugar. Então ela gritou: “É o fim!” e todos levantaram seus copos e taças, aos gritos, sorrindo largamente e desejando um “Feliz Fim de Mundo” para o resto dos que estavam ali. Sem aviso prévio começaram os beijos, as mãos e grupos e pares se formaram aleatoriamente. Ela caminhava pelos cômodos escolhendo integrantes já ocupados para se dirigirem ao quarto com ela. Afinal, a anfitriã pode escolher com quem quer passar seus últimos minutos de vida.

Ao fechar a porta o quarto continha, além dela, seis rapazes e duas garotas. Eles se entreolharam, fizeram a matemática rápida dos grupos e se atacaram como se iniciassem uma briga. Os ponteiros giravam muito rápido e a cada minuto do tempo normal duas horas corriam no tempo dos relógios. Eram gritos, urros, sussurros e gemidos misturados entre vozes que não se calavam mais. Todas as combinações foram exploradas, todos os descansos ignorados, todos as piores perversões executadas repetidas vezes até atingirem a exaustão.

No tempo normal a experiência já passava de seis horas de duração, sem interrupção, enquanto, no relógio da parede, o mês já tinha mudado. Jogada no chão ao pé da cama, como se fosse um cadáver de olhos abertos, ela tentava se lembrar de como aquilo tudo tinha valido a pena. Mas ainda estava viva, estava pensando, estava vendo a Lua lá fora, estava vendo os outros respirando lentamente ao seu redor e sentia o cheiro do próprio perfume misturado a outros oito odores distintos.

Então tentou se levantar. As pernas moles não respondiam da maneira esperada, os braços já não sustentavam o peso do corpo e uma ardência incômoda fazia com que suas virilhas e tudo que era pele ao redor parecesse pegar fogo. Depois de muitas tentativas ficou de pé e caminhou até a janela. Cambaleante, ela viu o mundo escuro, iluminado por algumas chamas esparsas e uma Lua imensa no céu. Tentou pensar sobre o que estava acontecendo, mas antes que pudesse concluir qualquer coisa, um braço de homem a agarrou pela cintura e a arremessou de volta para cima da cama.

Quando a visão formou o cenário do quarto novamente percebeu que a porta estava aberta e muitos dos outros convidados caminhavam em sua direção. Vários homens e mulheres cercaram a cama olhando seu corpo desfalecido misturado nos lençóis e sorriram. Uma garota quebrou o silêncio e começou a gargalhar. Os outros a seguiram, levantando novos copos com novas bebidas. A mesma garota subiu na cama, abriu lentamente as pernas daquele corpo quase sem ação e concluiu: “o mundo ainda não acabou, querida!” e a orgia tomou forma novamente, mas dessa vez, concentrada em uma única pessoa.

Ela sentia línguas lambendo suas pernas, seus dedos, dentes mordendo suas coxas, seus mamilos, mãos puxando seus cabelos, seus braços, dedos procurando caminhos alternativos e, quando uma voz masculina sussurrou em seu ouvido que aquilo só acabaria quando o mundo acabasse junto ela respondeu com a última força que lhe restava: “Ainda bem que não vai acabar…” e nunca mais houve Sol na janela depois disso.

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A vida é um hotel decadente

Os prédios lá fora caindo, todos, um após o outro, como dominós. As ruas encharcadas de carros, congestionadas até os tubos, pedestres caminhando por cima dos carros, atravessando fora da faixa, fora da rua, fora da hora. O caos instalado do vidro da janela do quarto pra fora. Dentro não. Entre as paredes, o teto e o chão o silêncio estava instaurado sem espaços para concessões. Não era paz, não dá pra chamar um lugar como aquele de “pacífico”, mas era o melhor que se podia ter naquele momento, naquele mundo, com aquela quantidade de dinheiro.

Hotel do inferno é elogio, mas decadência não se mede, a gente constata. O nível, nessas condições, pouco importa. As paredes, avermelhadas, brilhando com o sol impossível do mundo do lado de fora, com a tinta descascando, com manchas de bolor, com marcas de cigarro, com letras escritas com batons alheios anos antes. As paredes eram tudo. Dentro do espaço fechado por elas tudo era diferente. A própria vida pediria para morrer num quarto como aquele.

No banheirinho anexo, mais decadente que a própria decadência, com um cheiro de urina misturado com cigarro quase insuportável, ele se lavava. Lavava-se na pia, com a água fria, molhando a cara magra, seca e cansada, jogando água sobre os ombros, no peito, lavando o pau, o saco, as coxas e, depois, voltava a lavar a cara. Ofegante, moribundo, cansado e fraco, parecia que renascia quando a água tocava a pele, como se bebesse pelos poros, como se a sede fosse da alma. Coisa de corpo doente e mente inapta.

Na cama, no centro do cubículo minúsculo e quente, um corpo feminino perfeito. Magro do jeito que as revistas mandam, branco do jeito que a segregação racial manda, com peitos que os cirurgiões plásticos recomendam, com uma bunda que os programas de auditório exigem, com cabelos da cor que a televisão vende, com olhos da cor que o cinema pede, com um instinto selvagem quase nulo do jeito que o mundo espera que mulheres perfeitas tenham. Era um diamante de carne deitado em lençóis sujos e baratos.

O rosto todo sujo de porra, já secando no vento do ventilador de teto. Ofegante igual a um asmático em pânico, era como se um orgasmo infinito tivesse se instalado ali, dando aquela sensação estranha de morte e euforia que nunca finda. Ele se lavava sem parar, ela gozava sem parar, o ventilador girava incansável e, entre o teto e o chão, uma porção de coisas voando. O cinzeiro pairava quase imóvel há um metro de altura da mesa. As roupas, todas, inclusive meias, relógios, cinto e pulseiras, giravam suavemente no ar em pontos diferentes ao redor da cama.

Ele, bebendo água de todo jeito, vestindo um corpo seco, magro muito além da conta, com um pau maior que o da maioria pendurado no meio das pernas, sentiu que tudo ia se acabar. Fechou a torneira, olhou para a moça perfeita deitada do outro lado da porta e sorriu. Ela sorriu de volta, ainda ofegante e, em segundos, os dois estavam gargalhando. Ele pingando água pelo queixo, nariz e pescoço, misturando saliva, suor e outros fluidos incolores, enquanto ela sentia a vida indo embora pelo meio do peito, rindo histérica, com o corpo pegando fogo.

Tudo foi se acabando lentamente e o som das coisas já não era audível. Depois sumiu o ventilador e os objetos que voavam, junto com o sol, a luz e as texturas. Foi sumindo tudo, uma camada depois da outra, até evaporarem os ossos e ficarem só as impressões, perdidas no escuro infinito de onde era um quarto de hotel, de onde dois adultos fizeram sexo despidos de qualquer preocupação ou preconceito. Sexo ao contrário, daquele que mata tudo ao redor ao invés de gerar vida e perpetuar espécies. Abriu-se um buraco imenso, do tamanho de uma estrela, dentro da boca de cada um e, sem perceber, se engoliram no mesmo momento, para virarem poeira, partículas e sujeira de um outro quarto, numa outra transa, em um outro dia, num hotel tão decadente quanto. Foi a vida se renovando, como acontece a cada segundo.

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