Arquivo mensal: agosto 2013

São as prostitutas que a sua manicure atende

São as prostitutas que a sua manicure caríssima atende. Você não sabia, nem imaginava, mas as moças são garotas de programa, sentadas na cadeira ao lado, conversando com você sobre aquela loja que está liquidando tudo pra entrar a coleção de verão e estão vendendo blusinhas a 19 reais, quando, na verdade, costumam custar 80! A sua manicure sabe de onde vem o dinheiro que paga a francesinha, a craquelada, a neon com disco ball ou a renda com strass. A dona do salão, claro, também sabe. Algumas clientes também já sacaram, mas tudo bem, não fazer julgamentos é a melhor maneira de gostar de alguém logo de cara.

São os bicheiros que tomam cerveja na padaria onde você toma café. E eles são bicheiros mesmo, daqueles que tiveram o último emprego formal aos 30 anos de idade, descarregando caminhão de batata de madrugada, na Ceagesp e depois descobriram que o dinheiro não está nas plantinhas, mas nos bichinhos. No coelho, no macaco, no burro. Quem diria, o burro é um dos que mais rende! O chapeiro sabe que são bicheiros. A balconista sabe que são bicheiros. O dono da padoca também. Os três fazem jogos semanais! Todo mundo fazendo a “fézinha”, esperando o dia da fartura.

São aquelas adolescentes que espiam a sua janela com binóculos durante a noite e assistem às suas transas com os carinhas que você fica de vez em quando. Nascidas em berço religioso extremista que vivem da curiosidade do mundo e presas atrás de uma porção de valores retorcidos. Elas queriam ser você, viver como você, gemer como você, gozar como você, ter a liberdade que você tem. Elas sabem que estão fazendo algo que “Deus” não aprova. As mães sabem disso. Os seus vizinhos sabem delas ali. Os caras que moram no apartamento do lado ganham uns trocados só pra ligarem pra elas e avisar que você chegou. Você não sabe, mas é a celebridade máxima dessas meninas!

São os traficantes de lança perfume que moram no apartamento de cima. Você divide o elevador, deseja bom dia, boa tarde, boa noite, sabe que os rapazes moram sozinhos, que pagam o condomínio em dia e que o trabalho deles é que banca as festas, as roupas e a faculdade. Porque naquela idade era óbvio que estavam na faculdade! As garrafas de benzina, os sacos de estopa a granel, os vasilhames coloridos comprados na 25 de Março e a atividade intensa durante a noite, com ventiladores ligados, janelas abertas e luzes apagadas não incomodam ninguém, pra que se preocupar? Mas o porteiro sabe o que eles fazem. O zelador também sabe. O síndico, inclusive, comprou litros e litros pro aniversário da sobrinha que fez 18 anos, mês passado.

São as senhorinhas que vendem maconha nos bingos da igreja. Elas fazem vista grossa, mas também precisam de dinheiro assim como eu e você. Os netinhos plantam, cultivam e elas têm um público confiável e fiel. Senhores e senhoras de idade interessados em alguma coisa que alivie as dores nas pernas, as tremedeiras de frio e a ansiedade pela hora da missa do dia seguinte. O padre já está sabendo, mas finge que é para o bem, que Deus inventou a santa erva e, por isso, não deve intervir na obra divina. Os policiais do bairro também sabem, mas cobram a caixinha e deixam a galera da melhor idade relaxar em paz. É a biqueira mais movimentada da cidade e, mesmo assim, nenhum nóia aparece por lá.

São os vendedores de gabarito que ficam conversando perto do bebedouro no seu andar, na faculdade. Aqueles caras estranhos que deviam ter se formado há uns 20 anos, mas continuam indo pra faculdade, ao menos sempre que tem prova, sempre de mochila nas costas, com olhares evasivos e sempre encostados em algum lugar. Você passa, pede licença, bebe água, sai e eles ficam olhando, esperando um sinal, querendo mesmo saber se você está com sede ou está perigando pegar mais uma DP. Os professores sabem quem eles são. Os representantes de classe também. O pessoal do Centro Acadêmico, inclusive, financia alguns deles. Todo mundo é “de casa” ali naquele bebedouro do seu andar.

São essas pessoas que você precisa conhecer, conversar e tentar aprender um pouco mais sobre a vida. Mas não, você continua com os mesmos passeios, os mesmos barzinhos caretas, a mesma vidinha empacotada enquanto o mundão lá fora está cheio de gente louca pra conhecer você. São as mocinhas de boa família que se acham sabidas demais, que fazem faculdade ou que estão comprando o primeiro carro, que eles estão loucos para conversar. Quer uma dica? Comece pelas prostitutas que fazem a unha com você… elas têm muito a ensinar.

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Mas isso não é nada!

Esses dias atrás começou o meu curso de roteiro. Estou estudando roteiro de televisão numa escola bacanuda pra ver se eu melhoro minha qualidade de escrita aqui e se finalmente saio da literatura e me jogo, também, na dramaturgia televisiva. E no meu curso de roteiro, na minha sala, tem uma menina diferente das outras meninas. Ela mata as pessoas. Mas é coisa de boa, sem preconceito, cada um com seus passa-tempos e suas máscaras, não é? Mas enfim, ela é assassina, não é nada demais, não se prenda a isso.

O fato é que no primeiro dia de aula ela quis fazer uma pergunta para o professor. E ela levantou a mão, como qualquer pessoa civilizada faria. Ele viu que ela queria falar, fez um sinal de que daria espaço para perguntas e ela abaixou o braço e esperou educadamente. Uma outra moça, sentada mais no canto, perto da porta, comentou alguma coisa com o professor e fez uma pergunta, e o professor engatou no assunto dela e foi embora e a menina não perguntou o que queria, porque furaram a fila dela. Normal, isso acontece as vezes e, se você for insistente, consegue fazer sua pergunta minutos depois.

Mas ela não. Assim que o professor virou para escrever na lousa ela se levantou num pulo certeiro e cravou uma faca que eu não sei de onde veio, no meio da nuca da menina. A coitada nem gritou… o rio de sangue correu pela boca e pescoço, sem espirrar, enquanto ela caia molenga no chão, no meio das carteiras e ficou lá, lavando o chão de sangue, deixando formar uma piscina vermelho escuro no centro da sala. Depois de fazer suas anotações o professor virou, viu a cena e ficou confuso. “Quem matou essa garota?” ele perguntou, tentando entender, e a coleguinha assassina explicou que tinha matado porque ela furou a fila na ordem da pergunta. “Humm, entendi, ok… vamos continuar?” e a aula seguiu. Não foi nada demais, não é?

Essa semana foi a segunda aula. Estávamos todos lá, claro, todos menos uma, e o assunto seguiu. Dessa vez foi uma aula mais densa, com menos discussão e ninguém furou a fila de ninguém. Porém, na hora do intervalo eu fui conversar com essa moça sobre qualquer coisa, eu achava que podíamos ser amigos, fazíamos comentários parecidos sobre séries de tv durante a aula e tínhamos gostos meio iguais. Mas antes de chegar perto e comentar alguma coisa ela virou para mim e disse furiosa: “eu odeio esse pessoal que sai pra fumar e depois, quando volta pra sala, contamina o ar de todo mundo com essas roupas fedidas” e eu só concordei com a cabeça e saí andando.

No fim da aula o curso que começou com 28 alunos tinha apenas 21. Uma moça era a da aula anterior, que morrera com uma facada na nuca. Os outros seis eram os fumantes, que ela fez questão de esfaquear perto da lanchonete da escola. Cortou a garganta de três com um golpe só, depois conseguiu esfaquear um outro nas costas, quando tentava correr e por fim sobraram duas meninas que correram para o banheiro. Ela arrombou a porta e deu vários golpes no rosto das duas. Dizem que ficou até difícil reconhecer depois.

Mas ninguém ligou muito, não somos amigos ainda, é só a segunda aula, ninguém nem sentiu falta do pessoal que morreu. Ter uma assassina na sala de aula tem dessas coisas, fatalmente alguém vai morrer. É coisa normal, isso não tem nada demais. Eu meio que desisti de ser amigo dela, não por medo, mas porque acho que é meio difícil discutir com alguém que mata as pessoas. O assunto acaba ficando meio repetitivo, a solução é sempre dar facadas e eu acho isso chato pra caralho, odeio gente sem criatividade. Mas é coisa banal, só queria contar porque estava sem ideia pra inventar alguma coisa nova, então me rendi a relatar fatos verídicos. Relaxa, isso não é nada…

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Sobre o sumo alheio

Se quiser saber meu gosto, que saiba, e me prove do jeito mais puro que existe, sem temperos, sem recipientes, sem guardanapos, embalagens, palitos ou talheres. Chupe-me como fruta, sorva-me como seiva, coma-me como carne. Assim saberá meu gosto, saberá da minha parte mais sincera e imutável, da minha essência e do meu verdadeiro ser. Te ofereço minhas pétalas abertas, minha casca já amolecida, minha baba pingando do alto como um fruto implorando pra ser colhido. São terrenas essas nossas relações de curiosidade.

Depois disso a gente troca de pele como cobras, como cães que trocam de pelo, como lagartas que trocam de corpo. Natural da natureza, essa coisa de trocar-se de lugar. Trocar coisas, experiências, memórias, casas, identidades, segredos, salivas, sussurros, medos e unhas. É de trocas justas que são feitos os verdadeiros amores carnais, os que se preocupam mais com o gozo do que com o futuro. De beijo em beijo o horizonte constrói a colcha da vida, a gente não precisa planejar nada, querer nada, projetar nada. O projeto já está feito, é só viver de acordo com ele. É arquitetônico esse nosso olhar a dois.

No escuro, quando tudo some, a gente brilha como vaga-lumes em tempo de cio, cortejando, acenando, piscando como estrelas perdidas no céu de universos do quarto frio. Cadê penteadeira? Onde foram todos os criados mudos? E os falantes? Cadê mancebo? Cadê baú? Cadê mosquiteiro e vela acesa? Some-se tudo, apaga-se tudo e fica eu e você brilhando de corpo todo a voar pequenos e infinitos pelo espaço aberto na escuridão. Voltas e voltas no além para nos encontrarmos bem no meio, onde havia a cama e aí, de inseto, recobrávamos nosso belo corpo de carnes. Carnívoro esse nosso viver.

O encontro era como uma grande explosão, que iluminava a vida e o caminho, que fazia o sentido voltar à tona e tudo perder o valor ao redor. Era muito de nós dois confundir amor com tesão, paixão com orgasmo e beijo com carinho. Misturava-se o tipo de gemido agudo de dor com aqueles momentos de quase morte quando se goza sem medida. Fazia-se da pele do outro um punhado de terra macia e cravava-se as unhas até arrancar o sangue, como se fosse o arar de terras férteis pro plantio do amor no fundo. Muito orgânicas essas nossas carícias.

De repente, no fim do texto, da vida e do caminho, só o oceano de Neil Gaiman, a sanfona e o gibão do Gilberto Gil, as fotografias recortadas em jornais de folhas amiúdes, de Zé Ramalho e a minha eterna deficiência de não conseguir me manter no mesmo tempo verbal do começo ao fim, deixando a gramática se perder no fluxo de consciência. Mas posso traduzir no fim de tudo: trata-se de um quarteto de parágrafos que fala sobre a importância do sabor do outro, de se saber saborear o sumo alheio, de se valorizar os desejos da carne, os devaneios da mente e a certeza da incerteza. Era mais ou menos sobre isso que estas linhas estavam conversando…

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A moça que comia homens (parte 1)

(não dê muita importância nem desenvolva grandes expectativas com o final, ok?)

Eu lembro quando alguém me contou que ela comia os caras. Na minha primeira ideia automática pensei na tradução simples dessa frase: uma mulher dominadora na cama, que impõe suas vontades e coisas do gênero. Mas depois comecei a pensar sobre canibalismo mesmo, sobre mulheres assassinas, serial killers, gente psicopata e tudo mais. Um pouco depois me lembrei daquela deusa (ou semi-deusa) que engolia os homens pela vagina, passava o corpo todo e eles eram digeridos dentro dela, depois de terem relações sexuais. Não cheguei a conclusão nenhuma.

Ela estava sempre por ali, tomando alguma coisa no café do outro lado da rua, comprando revistas estranhas, lendo livros em línguas difíceis e sorrindo para todo mundo. Era uma moça loira que não passava de um metro e meio de simpatia, roupas bonitas e hábitos bizarros. Quando ela se levantava o garçom aparecia com a conta, quando ela pisava na calçada perto da rua o semáforo dos carros se fechava quase instantaneamente, quando vinha para cá sempre tinha alguém saindo e ela nunca precisava abrir a porta. Quando se sentava eu, babaca e babão, já estava lá para anotar o pedido. Ah sim, aqui é um restaurante de comida americana.

Eu ficava impressionado como continuava se mantendo magra, proporcional e bonita comendo aqui todo dia. Eu já sabia o que ela queria, era sempre a mesma coisa, mas eu fazia questão de chegar perto para sentir seu perfume, para ouvir sua voz e para tê-la prestando atenção em mim ao menos por alguns segundos. “Um cheesebacon, batata e uma Coca-Cola? Ok!” e saía, me sentindo o cara mais sortudo do mundo. Entrava na cozinha parecendo um idiota cantando a música que estivesse tocando no salão em alto e bom som. “I hear your heart beat to the beat of the drums / Oh what a shame that you came here with someone”, eu e a Ke$ha cantávamos alegres sobre o fim da vida sem fazer a menor ideia do que estávamos falando.

O cara da chapa olhava pra mim e julgava a minha euforia com apenas uma frase: “a mina taí, né?” e eu o corrigia com algo como, “a mina mais gata dessa porra de cidade está aqui, sim!” e depois eu voltava para o balcão e ficava vigiando de longe. Ela nunca estava com ninguém, nunca atendia o celular, nunca falava com alguém na internet ou coisa assim. Era o tipo de gente que se dá muito bem com a própria companhia, talento que hoje em dia quase ninguém tem. Dia após dia, de segunda a sexta-feira, ela estava aqui, comendo a mesma coisa, bebendo a mesma coisa, usando o mesmo perfume, se vestindo sempre muito bem e eu continuava me derretendo por ela.

“Plin”, saiu o lanche. Pensei que era uma boa chance de falar com ela, ao menos falar sobre o livro que ela estava lendo, que eu não sabia qual era, ou elogiar o cabelo, ou só dizer que a comida chegou. Fiquei travado quando percebi que a euforia da música do salão tinha se tornado num reggae/black do Damian Marley e isso não me daria ideias pra falar nada. Entreguei o prato, ela agradeceu, abri a lata e antes de terminar de completar o copo ela me mandou sentar. Não foi um pedido, não foi um convite, ela simplesmente disse “Senta aí!” e me sorriu com cara de boneca.

“Hoje eu vou estar em casa às 9h da noite esperando você. Vá sozinho, não conte a ninguém onde você vai. O endereço é o seguinte…” e escreveu uma rua, um número e um bairro na palma da minha mão, com uma caneta muito macia, quase um pincel. Eu sorri assustado, ela sorriu de volta, colocou o livro de lado e atacou o lanche. Antes de sair olhei a capa da obra e não consegui ler nada, eram símbolos que eu não conhecia, não eram letras comuns. Árabe não era. Japonês também não. Talvez russo ou algum outro país que desenhe as próprias grafias.

Fiquei eufórico e confuso. Não sabia se era um jantar, se era um encontro, se eu deveria ir muito bem arrumado, se não tinha nada a ver com o que eu estava pensando e no fim das contas eu já não conseguia pensar em nada. Quando acabou de comer, levantou calma, passou por mim sem me olhar e antes de sair, de lá da porta, me olhou com um olhar tentador e sorriu, só para garantir que se lembrava do convite que havia feito para mim. O dia passou arrastado, o tempo em casa passou voando e às 20h57 eu estava apertando o botão com o número do apartamento.

Era um prédio antigo, sem porteiro, sem portão, daqueles que você toca o interfone direto de onde está indo. A porta se abriu sozinha, eu entrei e apertei o número do andar no elevador. Cheguei ao hall, duas portas. Fui na direção da certa e antes de tocar a campainha, ela surgiu. Abriu a porta vestida de preto, em roupas comuns, mas muito bonitas e, ao seu lado, havia uma outra dela, igual a ela, idêntica, mas com uma roupa diferente. As duas disseram ao mesmo tempo: “estávamos esperando por você!” e me sorriram.

Eram duas, iguais, a mesma pessoa, e eu não conseguia achar um espaço na minha cabeça que pudesse comportar e digerir o que eu estava vendo. Entrei, sentei-me no sofá como ela me indicou, respondi que não queria beber nada, quando ela me perguntou e então, como se fosse normal, uma terceira dela apareceu, com outra roupa, sorrindo para mim e dizendo “que bom que você chegou”, passando da sala para a cozinha. Eu comecei a me sentir mal…

[continua…]

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A festa

Da rua já dava para ver a sala toda acesa, com as cortinas amareladas na luz da lâmpada quente e umas sombras zanzando, um pessoal segurando coisas e tudo mais. Festa em casa. Abri o portãozinho da rua, daqueles baixinhos que só servem de enfeite, porque qualquer criança de menos de 1 ano de idade já seria capaz de abrir ou pular por cima sem muita dificuldade. Abri a porta e a primeira coisa que vi foi o panetone de 5 kg na mesa da sala, com uma vela de macumba fincada bem no meio, quase como uma estaca, e um senhorzinho de uns 250 anos sentado logo atrás daquele conjunto bizarro, esperando momento de acenderem o pavio.

Todos me olharam com uma cara estranha, como se eu tivesse chegado bem no meio de alguma coisa muito importante, mas logo voltaram a se concentrar na mesa de docinhos, quitutes e o puta panetone gigante no centro. A vela era vermelha da metade para baixo, preta da metade para cima e eu, por pura falta de vocabulário, paciência e conhecimento, repeti para mim mesmo, mentalmente: “isso é uma vela de macumba enfiada num panetone de Itu”, e saí da sala. Não fazia a menor ideia de quem era aquele senhor muito muito muito velho, mas meu avô não era, esse já morreu.

Cheguei na cozinha e tive aquela estranha sensação de estar sendo confundido com alguém, ou de ser reconhecido por alguém que te “carregou no colo” e agora não pode acreditar que você já tem pelos na cara, debaixo do braço, no saco, e ganha dinheiro trabalhando em algum lugar honesto. Uma mulher de cabelos pretos cacheados, tipo permanente dos anos 80, bem gordinha, daquelas que, segundo o médico, deveriam pesar 50 kg, mas estão beirando os 90 kg, me abraçou bem forte. Tinha aqueles braços de moças polenteiras, que ficam com os bíceps parecendo rochas e os tríceps parecendo uma rede de descanso pendurada em pilastras próximas demais.

Reencontrar parentes que você não lembrava ou não sabia que tinha é sempre um momento esquisito. Era sexta-feira, eu tinha acabado de chegar do trabalho e, de repente, estava rolando um aniversário suspeito com um monte de parentes desconhecidos e eu pude fazer toda essa análise do cenário enquanto era apertado pela moça gordinha. Na boa, cadê a minha mãe nessa porra? A gorda disse que eu cresci, disse que eu estava bonito, disse que não me via há muito tempo e depois chamou o marido, que me deu um aperto de mão mais forte do que o necessário, balançou meu braço mais forte do que o necessário e me disse que tinha me carregado no colo, mas que eu não ia lembrar. O casal, ela muito gorda, ele quase um palito de tão magro, estavam nitidamente alcoolizados e as outras pessoas na cozinha me olhavam com certo ar de vergonha e constrangimento.

Eu estava varado. Entrei no trabalho às 14h da quinta-feira e saí às 19h da sexta. Não estava raciocinando bem, não entendia o evento e nem conhecia as pessoas. De repente percebi que no rádio tocava o CD novo do Lulu Santos, só com versões do Roberto e do Erasmo e, por um segundo, senti uma nostalgia mórbida entrar por dentro do meu nariz. A casa tinha cheiro de leite de rosas. Subi as escadas e ao tentar entrar no meu quarto a porta estava trancada. Bati grosseiramente com a lateral do punho fechada e ouvi duas vozes femininas dizendo que já estavam quase prontas. Ótimo, minha mãe deve ter dado meu quarto pra alguém se fantasiar de gente bonita. O quarto dela também estava trancado, mas eu não precisei ser muito inteligente ou bater na porta para sacar o que estava rolando. Sexo!

Eu conhecia o som das molas da cama da minha mãe, já tinha transado naquela cama inúmeras vezes durante as viagens dela e, definitivamente, alguém estava mandando ver. Torci para não ser ela, mas a voz era realmente diferente. O cara dizia coisas como “quem é o pai? Fala pra mim quem é o pai aqui?” e a mulher respondia com a voz falhada e muito aguda, “é vocêêêêêêêíííííííííííííííí” como uma chaleira com a água já fervida. Vish. Saí dali sem questionar muita coisa. Quando desci as escadas todo mundo estava cantando parabéns. Mas era uma versão gringa. Não sabia se estava ouvindo direito, mas parecia alguma coisa europeia, um parabéns em russo, ou polonês, ou húngaro, mas no ritmo do parabéns brasileiro. Estava realmente complicado para mim.

O vovô agora usava óculos de sol e batia palmas e eu previa que a mão dele cairia a qualquer momento, mas não aconteceu. Quando ele finalmente soprou a vela, ao invés de a chama apagar, fez-se uma labareda colossal dentro da sala, como aquelas dos malabaristas de fogo, que foi ovacionada com muitos assovios, palmas e gritos, seguidos de um coral que batia palmas ritmadas gritando “dra-gão, dra-gão, dra-gão” e eu já não podia acreditar que aquilo estava acontecendo. Cadê minha mãe nessa porra? Fui procurá-la no quintal do fundo e tinha uma galera um pouco mais velha que eu tomando cerveja e comendo frango, um frango assado, estranhamente equilibrado num prato sobre uma baqueta de madeira muito bamba. Eles comiam com a mão e o tempo todos as garrafas pareciam escorregar. Um rapaz com fiapos de frango preso na barba me perguntou, ainda de boca cheia: “quer frango, brother?” e eu apenas saí.

Atravessei a cozinha onde o casal gordinho bebia shots de álcool Zulu 46% num copo de requeijão, passei pela sala onde agora todos dançavam em casais as músicas românticas do Roberto Carlos na voz carioca do Lulu Santos, e cheguei de volta até a frente da casa, onde o silêncio da rua parecia quase um milagre. De repente vi minha mãe, do outro lado da rua, no portão, conversando com uma amiga. Ela estava na nossa casa o tempo todo, mas eu não.

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Acumulação

Deu uma acumulada, é verdade, mas o principal problema não é esse, é que eu sempre prometo que vou tirar o atraso e ele só aumenta. Acumulou coisa de antes, teve coisa inacabada, coisas que eu deixei pra depois porque achei chato demais, outras que eu simplesmente abandonei antes mesmo de começar, porque não achei que era o momento. Tô falando dos livros. Meu quarto tá cheio de livros acumulados, que geralmente não estariam aqui, mas agora estão, porque a vida mesmo deu uma acumulada. E acumulou a porra toda, meio que num motim de faltas de fluidez.

Não sou capaz de ler mais de um livro por vez, só consigo assimilar uma história depois de ter terminado a outra, mas no momento tem umas cinco obras, com temas e levadas muito diferentes, inacabadas, espalhadas por esse meu palácio de 45m² que eu chamo de quarto. É muito metro pra muita coisa acumulada. As revistas, coitadas, estão embolorando a gosto do vapor do banheiro, ficando enrugadas e velhas mesmo antes de serem lidas. Tem revista de arte, misturada com revista de surf, misturada com revista de comportamento, misturada com revista de mulher pelada que não se assume como tal, misturada com revista de moda e tudo, tudo mesmo, misturado com roupas.

As roupas curtem mais o meu quarto do que eu mesmo. Esses dias minha camisa de flanela estava agarrada ao meu violão num coito selvagem que eu preferi não separar até hoje. Deu aquela acumulada, né! As roupas sujas estão misturadas com as limpas e eu já estou prevendo que vou ter que lavar tudo de novo porque já não sei o que foi que eu usei ou não. Perdi um pouco a noção das coisas com horários, das organizações básicas e da limpeza mínima. O vidro do box, da metade para baixo, está branco e embaçado, mesmo quando seco. É que já caiu tanto sabão que formou uma crosta que não derrete mais na água.

Desde que a Ilda pediu demissão e a gente ficou sem empregada, passei a tentar manter o quarto minimamente habitável para receber visitas e minha então namorada. Hoje não recebo ninguém, não vem ninguém, e quem vem, não passa do portão, lá fora, na rua, então a coisa foi ficando meio calamitosa. Tem moedas misturadas com cartões, misturadas com canetas coloridas, misturadas com folhas com desenhos de coração e outras com desenhos menos figurativos e importantes. As coisas foram se acumulando umas sobre as outras e agora a preguiça me domina porque, afinal, ninguém mais vem aqui.

Caras como eu, desse mesmo tipo, com essa merma energia e essas mesmas convicções, odeiam gente que caga regra. Caras como eu não conseguem viver do padrão e das normas sociais. Mas acima disso, caras como eu não conseguem viver muito tempo sozinhos. Começam a acumular coisas. Acumular saudades e objetos, embalagens vazias e roupas que ainda precisam ser lavadas. Caras como eu não lavam os tênis até que a sujeira comece a comer o tecido e não deixam a cama arrumada por nada nesse mundo.

Caras como eu, desse mesmo signo, dessa mesma aura, desse mesmo orixá, dessa mesma santa padroeira, desse mesmo ordenhado, dessa mesma região, não conseguem se cuidar. São muito bons em cuidar dos outros, manter as pessoas comendo, indo ao médico, tomando as vitaminas corretas e dormindo um número razoável de horas. Mas eu mesmo não consigo nada disso. Subi na balança de calça, jeans, tênis e camiseta, com o celular no bolso, e deu 95 kg. Antes, pelado, dava 97,5kg. Aposto que essa perda incrível foi só músculos, porque parei de ir correr, parei de ir pra academia, parei de pedalar e parei de comer. Acumulei paradas, acumulei livros pra ler, acumulei revistas velhas e acumulei roupas pra lavar. Só não acumulei convicções, opiniões e certezas. Essas a gente tem que renovar o tempo todo.

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Doládelá

Eu dei uma sumida de dois dias – e sumir é coisa séria, pode acreditar. Troquei essas linhas de letras firmes e sempre direcionadas da esquerda pra direita pelas faixas intermitentes da estrada, farol alto na contra mão é falta de respeito, estrelas pra cima, olhos de gato para baixo, e meus olhos fechados para ver além. Fui pra outro lugar, um lugar que fica doládelá da estrada, no fim das placas de quilometragem, lá depois de onde as coisas perdem a pressa, onde o ritmo é outro, o cheiro é outro, a temperatura é outra e as pessoas, definitivamente, são bem diferentes.

Fui pra um lugar onde o relógio funciona em dissonância com o sol e a lua. “De manhã” é meio dia, toma-se café da manhã às 13h, almoço só depois das 18h, jantar lá pras 23h30 e dormir, dormir mesmo, é só às 6h da manhã. Nesse lugar as conversas são intuitivas, como se as palavras não precisassem ser ditas até o fim: “péguess negócií pra mim, pfavô”. Lá é sempre hora de festejar, sempre hora de beber, sempre hora de se juntar com alguém, ir para algum lugar, fazer alguma coisa. Mesmo que pontualidade não seja muito importante, os compromissos e a presença física sempre são.

Tem coisas curiosas – pra não dizer hilárias – doladelá. Por exemplo, as caçambas de entulho. Em qualquer lugar do mundo elas são amarelas, para se destacarem e não serem atingidas por ninguém. Mas lá não, lá algumas são vermelhas, outras já mais velhas, marrons, e ninguém liga se elas vão ficar perigosamente invisíveis durante a noite. Não importa, o que importa é estarem bonitas. Até porque, no trânsito, ninguém corre, todo mundo tem tempo de sobra pra chegar nos lugares, afinal, o relógio é só detalhe. Lá o motoqueiro almoça, come bem, depois abre uma lata de cerveja e sai pilotando pela cidade, guiando em marcha lenta, bebendo cerveja e apreciando a paisagem que se apresenta de frente ao guidão. Está tudo bem, não tem problema beber e dirigir moto. Lá não tem problema.

Come-se ridiculamente bem doladelá. É possível comer o que der vontade, beber o quanto quiser e voltar para casa com dinheiro para o pão do dia seguinte. Tudo é muito gostoso, muito bem feito e muito barato. Além disso, se você não quiser sair para comer, pode ficar tranquilo, todo nativo sabe cozinhar. E cozinhar bem! Na terra da culinária farta, o restaurante árabe é self-service e oferece, ao lado do tabule e do kibe cru, uma porção de kani e uma travessa bem servida de frango à parmegiana, seguida de uma mesa com feijão tropeiro e mandioca frita. Tudo bem, sério!

Um único limão faz um copo de suco de meio litro. Dois limões, dos que eles usam lá, fazem uma limonada pra cinco brothers. É tudo farto. As mulheres são fartas de beleza, de ousadia e de vaidade. A maioria não é muito farta de roupa e os vestidos curtíssimos são empregados até nas tarefas mais banais, como ir ao mercado ou atravessar a cidade para visitar o médico. Sempre bem arrumadas, sempre bonitas, sempre atentas. Doladelá ainda tem gente preocupada em manter praças bonitas, ainda tem o coreto, ainda tem anúncio no encosto dos bancos de descanso nas calçadas e a praça de frente à igreja continua sendo um dos lugares mais agitados da cidade.

Lá não tem zona azul, não tem parkimetro e são raros os estacionamentos. Carro para onde der pra parar, desde que não seja na frente do portão de ninguém. Mas se não tiver carro, não tem problema, de bicicleta ou a pé é possível ir para todos os lugares. Todos mesmo, da maior festa da cidade à casa do namoradinho novo. É daqueles lugares que o moleque, no começo da adolescência, sobe no morro – porque toda cidade assim tem um morro – assiste o por do sol puro, sem nuvens nem faixa de poluição, e depois aponta a mão aberta em direção à cidade toda iluminada, espalmada no horizonte, e tem a certeza de que “a cidade toda cabe numa mão só” e depois ri de si mesmo. Só existem 10 edifícios, nenhum com mais de 20 andares e o aeroporto só recebe monomotores e aviões de pulverização.

Doladelá aquela tristeza e preguiça que a gente sente depois do almoço chama-se “banzo”. O que aqui a gente chama de perseguida, xana, xota, prexeca ou qualquer outra variação, lá chama-se apenas “tico”. A soda, que vem em garrafinhas de vidro com a simpática alcunha de “Sodinha”, na verdade, é feita de abacaxi, não de limão, como espera-se que uma soda seja. Nesse lugar de coisas muito novas e, ao mesmo tempo, tão tradicionais, a felicidade se esconde nas coisas simples e pequenas. E eu voltei, porque como disse Projota, “não há lugar melhor no mundo que o nosso lugar”, mas trouxe um pouco de lá comigo. A gente sempre traz, né…

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Valorize a depilação da sua mulher!

Todo mundo tem preferências, gosta mais de uma coisa do que de outra e isso é natural do ser humano. Tem gente que prefere a cor azul, mas nem por isso só tem roupa azul no armário. Tem gente que prefere macarrão alho e óleo, mas não deixa de almoçar se tiver macarronada ao molho branco na mesa. Preferências, fim. Se alguém vier falar comigo de depilação, e partes íntimas femininas, de gente que tira a roupa e se diverte e tudo mais, vou ter minhas preferências. Não importa se for floresta amazônica, jardim botânico ou Serra Pelada, vai estar sempre bom, nunca vou abandonar mulher nenhuma, nem deixar na mão, por causa de um detalhe assim. Mas se for pra escolher uma só… Serra Pelada.

E eu sempre reconheci o cuidado e a preocupação que as moças com quem eu fiquei tiveram, ao aparecerem da maneira como eu preferia. Se tivessem vindo com a depilação de dois meses atrás a ação seria a mesma, mas você entendeu o que eu quis dizer. Eu reconhecia a atitude! Acho que a maioria dos homens faz o mesmo (espero que sim, brothers!), mas a gente, por alguma ignorância eletiva, ou até mesmo por sermos leigos no assunto, não consegue dimensionar exatamente qual é o tamanho do esforço de uma mulher que enfrenta a cera pra agradar o moço com quem vai ficar.

Já li mil vezes que isso é ditadura machista, que homem que só gosta de mulher “lisa” é filho da puta e bla bla bla como sempre. O fato é que eu não obrigo ninguém, não nego ninguém e este não é um texto sobre “mulheres, depilem-se”, ok? Na verdade, é bem o contrário. A gente, homem, quando se depara com a visão que mais nos agrada – seja ela qual for – não temos muita noção do trabalho e do sofrimento envolvido ali. Eu sei que dói. A gente sabe que dói. As mulheres dizem que dói, e dói muito, e a gente não duvida. O problema é que a gente, na verdade, não sabe de nada!

Daí eu fui tentar ter uma vaga noção… (puts!) Quem me conhece sabe que eu sou um daqueles caras que não teve a evolução dos genes bem definida e meu corpo esta mais pra primata do que pra humano desenvolvido. Tenho pelos. Muitos. Em todo canto do meu corpo. Herança de família de algum ancestral que quis me sacanear nessa vida. Até que aceito bem minha natureza “selvagem”, mas pelos nas costas é uma parada que eu nunca curti, nunca vou curtir e, querendo ou não, sempre tive. Tinha!

Claro que uma virilha é infinitamente mais sensível do que a pele grossa e esticada das costas, mas é sempre bom lembrar que homem suporta cerca de nove vezes MENOS dor do que as mulheres. Então acho que ao menos tentei chegar perto. Regiane, a moça que me atendeu, disse que a primeira vez sempre doía mais e eu estava disposto a suportar a famosa dor da cera. (Puta que pariu, que sacanagem a gente faz com as mulheres, cara!) Logo na primeira puxada tive plena consciência, lúcida e clara, de que a dor que eu acaba de sentir superava a dor da tatuagem que eu tenho no ombro. E olha que agulha é uma coisa que me provoca quase fobia.

A cera ia quente tomando conta das minhas costas e a única coisa que eu pensava é que aquilo não teria fim. Comecei a suar frio, a cera não grudava, tinha que repetir o processo todo de novo, fui ficando agoniado, as costas começaram a arder, sentia uma queimação que beirava aqueles ardores de quando a gente rala o cotovelo caindo de bicicleta e meia hora depois eu estava botando a camiseta de novo, aliviado e nitidamente abatido. Se eu pudesse dizer uma coisa para as mulheres, depois de ter passado por isso, diria o seguinte: “ôh moça, ignora as nossas preferências, não precisa passar por isso todo mês não… sério!”

Regiane ria de mim e repetia baixinho “homem é muito mole” e eu me agarrava à maca torcendo muito para que aquilo acabasse. Mexeu comigo, sério! Eu não imaginava que pudesse ser tão dolorido. Saí da sala rindo, com ela rindo de mim e eu rindo de mim mesmo, com as costas meio tortas como se tivesse acabado de sair de alguma massagem muito profunda. Sentia um ardor semelhante à aqueles tapões que a gente levava na escola, só que bem mais intenso. No fim, fiz um trato com a minha querida esteticista/carrasca: voltaria em um mês para tirar todos os pelos do peito.

Ela gargalhou junto com a recepcionista, depois veio até mim, colocou a mão no meu ombro e com um certo ar de deboche, mas falando a verdade, me alertou: “não vou mentir, Daniel. Se você vier fazer o peito, você vai chorar!” e eu ri, aterrorizado, mas disposto a cumprir meu trato. Depois disso cheguei a duas conclusões. Sobre as mulheres: estão de parabéns pela paciência e resistência. Sobre os homens: fera, depile seu saco com cera antes de reclamar dos pelos da sua mulher… dica de brother!

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