Arquivo mensal: janeiro 2014

Inspiração: isso não é tudo!

E de vez em quando, mesmo que seja uma das perguntas que mais me fazem, eu gosto de contar pros outros algumas verdades mentirosas sobre como é que rola o meu processo criativo. Tem gente que acha que existe alguma mágica ou alguma manha e quando me dizem isso eu fico até feliz. Faz parecer que o que eu escrevo é realmente muito bom, mas honestamente, acho que dos 200 e poucos textos desse blog eu não salvaria nem metade numa Arca de Noé literária. Metade e olhe lá! Mas não, infelizmente não existe uma manha. Se houvesse eu usaria todo dia, principalmente naqueles em que eu não escrevo por pura falta de ideias. Eu quero ter ideias, mas às vezes elas não querem ficar comigo.

Geralmente o que acontece é eu me lembrar de algum acontecimento simples do meu dia, ou de alguns dias anteriores, e tirar disso uma cena ou mesmo uma frase que eu possa usar. Penso coisas enquanto estou jantando com a minha namorada, enquanto estou suando dentro do ônibus matinal e principalmente quando estou tomando banho antes de começar o dia. São ideias aleatórias e desconexas, vêm como um lampejo, um sopro, e se eu não as agarro com força, beirando a brutalidade, elas saem voando para se deitarem na cabeça de outro escritor. Escritor, sim, porque durante muito tempo me neguei a aceitar esse rótulo, mas se o jogador é quem joga, o amolador é quem amola e o educador é quem educa, eu que escrevo só posso ser chamado escritor. Está bom para mim assim.

Mas voltando, além desses flashes, ou dessas lembranças de acontecimentos diários, uma das melhores maneiras de forçar uma ideia a sair é botar uma música pra ela. Ideias são criaturas vaidosas, não se dão para qualquer um ou qualquer coisa. Eu boto uma música bonita, faço com que sintam uma vontade incontrolável de dançar e quando estão aqui fora, rebolando seus quadris fartos em vestidos floridos de pano vagabundo eu as pego. Não tem como ser diferente. Não existe manha, quase todo mundo que escreve faz isso. E outra, você já ouviu a música chamada “Home and Consonance” de um grupo chamado “Tropics”? É impossível não ter uma ideia, papo sério.

Também me inspiro nas pessoas. Gente bonita que eu vejo por aí fazendo coisas bonitas por aí em ambientes bonitos por aí. Esse é o tipo de inspiração menos recorrente, até porque ultimamente tenho visto muito sempre as mesmas pessoas. Escrevia mais baseado nisso quando era solteiro e tinha – quase por obrigação – que ficar olhando pra todas as moças do metrô, todas as moças da rua, todas as moças do mundo. Hoje não, hoje eu geralmente uso esse recurso pra escrever textos sobre homens. Não tenho muitos referenciais masculinos no meu dia a dia e por isso prefiro escolher estranhos: é menos ruim inventar verdades sobre quem você não conhece.

Mas se inspiração fosse sinônimo de boa escrita tinha muita gente assinando best-sellers a torto e a direito. Mas não tem, né. São quase sempre os mesmos figurões e tal. Então, por isso, e por que ter ideias brilhantes são só metade do caminho, semana que vem vou começar e terminar um curso de verão para criação de narradores. De segunda-feira a quinta-feira. Cinco dias de pura criação abstrata. Quero aprender a escrever mais e melhor. Quero saber fazer mais sentimentos com cada vez menos letras. Quero fazer cada vez mais filhos com menos meses. Quero fazer cada vez mais vidas com menos mundos. Aprender a escrever melhor vai me tornar alguém melhor, já que nada da minha existência se separa da minha escrita. Portanto preparem-se: pode ser que tudo o que eu escrevi nesse texto esteja diferente na sexta-feira que vem!

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As plataformas intermediárias do metrô

– esse pode ser meio difícil para você, já aviso –

As pessoas não percebem. E digo que não percebem com a certeza de que realmente não percebem. Eu mesmo não percebia até bem pouco tempo atrás. Passava e não via, não olhava, nem sabia que podia existir algo assim, mas existe. Ou melhor: existem! Tô falando das plataformas intermediárias entre as estações do metrô. E não precisa viajar muito na sua imaginação pensando naquela piração do Harry Potter correndo em direção a uma parede que ficava no meio das plataformas do trem. Tô falando de coisa física, prevista em projeto de engenharia, coisa que não é escondida de ninguém, que está ali o tempo todo, todo dia, toda hora que você viajar no conforto (ou não) do seu metrô diário.

São plataformas utilizadas por funcionários (teoricamente), principalmente os que estão envolvidos com a manutenção, que andam com lanternas na cabeça e caminham livremente pelos trilhos durante o intervalo de horas das 00h às 4h30, quando as catracas reabrem. Algumas plataformas são expostas, você pode vê-las da janela quando o metrô está passando em sua infinita velocidade. Têm seus pilares, suas paredes acinzentadas, lotadas de poeira (a rapazeada da limpeza não vai a esses lugares regularmente) e suas lâmpadas insuficientemente brancas iluminando aqueles pedaços de construção que parecem cenário de algum filme apocalíptico. Raramente vejo, mas assustadoramente já encontrei algumas que têm até bancos, como se em alguma realidade paralela, ou em tempos remotos, algum tipo de trem já parou para buscar passageiros ali.

Além dessas, que são mais raras, existem as que são fechadas. São apenas portas de ferro largadas em vãos quadrados dentro das paredes tubulares dos túneis de metrô. Portas grossas, gordas, obesas, cheias de pinos e rebites, chumbadas com segurança e resistência sem igual, que dão acesso a escadas, salas, câmaras e corredores infinitos e tortuosos que te levam para a superfície, ou para a próxima estação, ou para a estação anterior, dependendo de onde você esteja e do tamanho da sua sorte. São plataformas intermediárias. Lugares feitos para pessoas, mas que não querem receber ninguém. Essas plataformas não são para gente como eu e você. Não são feitas para socorrer passageiros em caso de pane, ou para levar mecânicos e eletricistas a pontos remotos da linha, como dizem. São plataformas para outro tipo de coisa, outro tipo de trabalho.

Vistas da janela, passando rápido, não são mais do que pedaços de alguma coisa que deveria ter sido, mas não foi. Só que lá, fora dos vagões, pisando sobre a poeira densa e oleosa desses lugares você percebe que tudo muda. Não existem paradas intermediárias, mas existem plataformas. Não existem passageiros que embarcam ou desembarcam no meio do caminho, mas existem plataformas para eles. Não existem destinos ou itinerários que derivam dessas plataformas, mas existem lâmpadas para iluminar o caminho dos passageiros dessas plataformas. O fato é que a gente não vê, mas estão circulando trens dentro dos nossos trens, todos os dias. Composições bem maiores que as nossas, muitos metros a mais de comprimento, muito mais velozes, que viajam por dentro de nossos vagões, que atravessam a multidão que se acumula na região das portas e que diminuem a temperatura repentinamente dentro dos trens.

São composições de gentes de outra vida, ou de outra matéria, que precisam, assim como nós, descer e subir escadas para pegar o metrô que as leva para onde têm de ir. O futuro é um lugar exatamente igual ao nosso, mas que não usa exatamente as mesmas estruturas, prédios e caminhos que nós. Essa gente do futuro que tem suas próprias plataformas, seus próprios trens e seus próprios caminhos está apenas dividindo o espaço, mas o usando a seu modo. Estamos em nossos trens, nossos metrôs, indo para o trabalho, para a casa da namorada, para uma festa, para a escola, para onde for, enquanto existem outras pessoas, que a gente não vê porque ainda somos muito ignorantes, utilizando túneis como os nossos, plataformas como as nossas, trens como os nossos, só que vivendo algumas dezenas de anos à frente. Se você parar pra pensar não é tão complicado assim.

Por isso, da próxima vez que você pegar o metrô e perceber as plataformas intermediárias, lembre-se que nada é somente o que a gente vê. Existem muito mais segredos por trás das coisas simples do que nós costumamos pensar. O segredo está em perceber as coisas ao redor. Para onde vão as ruas sem saída? Quem constrói os bustos de estátuas espalhados em praças tomadas pelo mato? O que é que tem por dentro da parte de dentro do esgoto? Por que é que todo prédio velho tem dois andares a mais acima do último andar? Quem é que cuida das casas abandonadas que não foram postas para aluguel ou venda? Basta prestar atenção… esse pessoal do futuro está aqui desde que o presente ainda era passado. Pode acreditar!

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Skinny Love

Ela dançando na sala, as luzes apagadas e o abajour do canto iluminando só os contornos dos móveis. Poucos móveis porque sempre gostei de andar pelos cômodos, gosto de passar pelos lugares e sentir os pés tocando cada pedaço de chão da casa, então não perdi tempo comprando tapetes, aparadores, mesinhas e coisas do gênero, que na verdade só servem para atrapalhar o caminho. Um sofá comprido, pra uns 10 lugares, tomando conta do canto da sala. Na ponta, um abajour de tripé, na parede três linhas de prateleiras com quadros, fotos e livros. No chão um móvel com um aparelho de som e algumas esculturas sem importância. Na parede oposta à do sofá, duas poltronas marrons de tecido macio olhavam para a varanda, enquanto, nas costas delas, duas cadeiras pretas pintadas com tinta fosca olhavam para o centro da sala vazio e reluzente. Ali estava ela.

Dançava com as pernas juntas, balançava a cintura de um lado para o outro, dobrava os joelhos delicadamente e fazia movimentos aéreos com os braços ao redor do corpo, enquanto movia a cabeça em trancos ríspidos fazendo a cabeleira flutuar no ar. Sentado em uma das cadeiras, ocupando uma das mãos com um copo generoso, assistia àquela dança sensualmente hipnotizante como se fosse um evento sobrenatural. Não parecia sensato ou mesmo possível que alguém tivesse aquele corpo. Na sombra amarronzada misturada com o brilho amarelo da luz uma porção de curvas inéditas se apresentava em movimentos curtos, contidos e perturbadores. “Slide, slide, slide … lose yourself to dance”, dizia a música que tocava, e ela deslizava pelo chão de cimento queimado liso, vestindo apenas meias pretas que se seguravam folgadamente às suas coxas.

Os cabelos eram compridos e lisos, vivos, balançando de um lado para o outro, quase com vida própria, e ela sorria – eu ao menos imaginava que sorria, já que não via muito bem seu rosto – enquanto dançava perdidamente pela minha sala. Eu bebia a goles curtos e suaves, sem descolar os olhos e observando as curvas. Mais do que curvas, eu observava a sombra que elas formavam, os contornos e os desenhos que produziam naquele corpo inédito. Essa é a melhor palavra para definir o corpo daquela garota: inédito. Eu nunca vira alguém com um corpo daqueles sem roupa ao vivo. Só em fotos de revistas, coisas de internet e afins, mas na vida real não havia encontrado nada parecido. Depois ela veio roçar as pernas duras em minhas coxas e sentar no meu colo, inesperadamente pesando menos que uma pluma. Eu passava o copo gelado pelo meio de suas costas e sentia sua pele se arrepiar por inteiro, dos pés à cabeça, enquanto ela passava a língua atrás da minha orelha.

No dia seguinte acordei sem me lembrar que estava acompanhado. Apenas ao olhar para o cabelão misturado com o lençol foi que me recordei da dança, dos copos, do sexo, dos gritos, das risadas, da sacada, da mesa da cozinha, das acrobacias e todo o resto. Tinha sido uma noite muito louca, para definir o mínimo. Ela dormia calma, respirando lentamente e eu, agora amparado pela luz do dia, olhava hipnotizado para seu corpo. Uma menina de 20 e poucos anos, um rosto lindo e delicado, um braço rebelde tatuado quase até o cotovelo e um corpo raro, de formas difíceis de encontrar e mais ainda de manter. Tomei banho e quando voltei ela estava se vestindo, deixando claro que as roupas lhe sobravam em muitos dedos por todos os lados do corpo. Ela me sorriu um riso tímido e eu retribuí na mesma medida. Era a garota mais magra que eu já tinha visto na vida.

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Faço o que tenho que fazer!

Essa coisa de escrever pros outros tem muito mais a ver com “fazer o que se tem que fazer” do que “fazer o que se quer fazer”, ao menos para mim. Ao contrário do pessoal da internet que escreve por amor à palavra, que fala sobre a paixão pelos livros e usa palavras bonitas para dizer como escrever os preenche o corpo e a alma, eu escrevo o que tenho de escrever. Tem vezes que não sou lido e isso acontece porque escrevo o que quero. Mas só às vezes. Lendo esses dias um texto da Aline Bei, que é uma moça que escreve textos com estética de poema e que você deve conhecer, percebi que o bom é ser lido. E foda-se, a real é essa. Todo mundo que escreve quer ser lido. Amor à arte é o cacete, não vou escrever eternamente para ninguém ler.

Quem cria uma banda quer ter público, quer fazer show pra uma galera, quer ser ouvido. Quem é ator quer ter platéia, quer ter palco, quer decorar e improvisar textos de conteúdo relevante. Quem fotografa quer ser visto. Quem pinta também. E veja que em nenhum momento falei de dinheiro. Não, dinheiro não se discute, a gente ganha de qualquer maneira, de um modo ou de outro a gente arranja um meio de ganhar dinheiro. Mas não é disso que eu estou falando. Estou falando de gente que admira o seu trabalho, as suas ideias, as coisas que você quer ou precisa dizer para o mundo. Mas para ter essa gente toda olhando pra você é preciso fazer o que se tem que fazer, para depois, quem sabe, fazer o que se quer.

Não escrevo obrigado. Não, quem me conhece sabe que não sou dado a atender a obrigações. Se não quero, não faço, e se faço, é porque é necessário, não porque achei que seria prudente fazer. Escrevo porque me dá prazer. E só. Sem fantasiar muito, sem inventar motivos que façam isso tudo parecer mais valioso do que realmente é. Escrevo porque tenho ideias e quero contar histórias para os outros. Às vezes conto histórias verbalmente, em outros momentos preciso escrever, mas é só. Não escrevo para mudar o mundo. Não escrevo porque sinto uma inquietação descontrolada. Não escrevo porque preciso. Escrevo porque me dá prazer, assim como comer, beber, transar, ouvir música, sentir vento leve na cara e fotografar gente esteticamente atraente.

Mas para ser do jeito que eu gostaria que fosse é preciso abrir mão de algumas coisas. Não posso escrever tanto sobre o mundo do lado de lá porque pessoas religiosas clássicas não gostam de se confrontar com ideias que vão bater de frente com suas crenças. Queria falar e escrever cada vez mais sobre os Orixás, esse povo mágico e mais antigo que a própria contagem do tempo, esse povo e esses caras todos lindos e incríveis que eu tenho conhecido cada dia mais, mas que assustam ignorantes e espantam curiosos. Queria falar mais sobre sonhos e desejos que não são possíveis de serem concretizados. Queria escrever mais sobre assuntos que magoam pessoas que eu quero bem. Queria falar mais sobre pessoas que eu não faço a menor questão de conhecer, mas não. Não compro brigas por nada.

A verdade é que sou cagão, tenho medo e, por isso, mantenho meus pensamentos mais obscuros longe do teclado. Escrever, de uns tempos pra cá, tem sido muito mais colocar o mel na chupeta e dar pros outros chuparem do que qualquer coisa. Escrever tem sido fazer o que se tem que fazer, preencher lacunas, falar sobre coisas que eu poderia falar amanhã, ou depois, ou talvez deixar pra lá. Continuo sentindo um prazer quase sexual em escrever. Não escrevo o que não quero, mas gostaria de conseguir tanta atenção escrevendo sobre coisas mais importantes, a meu ver. Sofro censura de todos os lados. Temo por meus familiares que não querem me ver falando sobre drogas, mesmo que eu não use nada nunca. Temo pela minha namorada que não me quer ler falando sobre outras mulheres, mesmo que sejam fictícias. Temo pelos meus amigos que não querem me ler falando sobre seus segredos com tanta propriedade, mesmo que seja só suposição. Meus universos são regidos por sentimentos e afeições que eu gosto de cultivar. Por isso, hoje, me dei o direito de só avisar, só passar pra dizer, que faço o que tenho que fazer e cumpro meu papel… e que hoje é o fim dessa auto-censura escrota.

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I can feed your dirty mind

E ela me dizia que eu escrevia tudo o que ela queria viver. E ela me dizia que eu escrevia resumos de sua própria vida. E ela dizia que eu traduzia sentimentos que nem ela mesma sabia explicar. E ela dizia um monte de merda desse tipo porque não tinha sobre o que conversar comigo. Nunca tinha. Eu queria falar sobre qualquer coisa, sobre o pessoal da sétima série que estava fazendo uma festa com cerveja e dark room no final de semana, ou sobre aquele filme novo sobre as múmias, mas ela não queria falar nada disso. Eu tinha 13 anos, estava muito interessado em escrever para ler mais tarde, só para tentar traduzir as coisas que eu pensava, mas ela achava que havia sentido naquilo tudo.

Eu escrevia que tinha gente que vivia melhor sozinha, e ela se sentia descrita ali. No outro dia eu escrevia sobre pessoas que amam até a última gota de sangue do parceiro, e ela se dizia descrita naquelas linhas. Tudo o que eu escrevia, não importava o quão contraditórios eram os textos entre si, ela dizia que retratavam seus dias. Era chato. Eu queria ir pra casa, jogar vídeo game, encontrar meus amigos da rua, sentar na calçada e sentir o cheiro de noite se aproximando, mas ela não. Ela queria falar de amor. Mais do que isso, ela queria falar de paixão e tara, que é coisa mais complicada ainda. Queria falar de corpo, mente, alma e intenção, enquanto tudo o que eu queria saber é o que ia ter no jantar e se ia passar filme bacana na Tela Quente.

Tinha vezes que eu escrevia uns duzentos textos no mesmo dia. Eu escrevia sem parar, ficava com os dedos tortos, com as juntas doloridas de tanto quicarem no teclado. Falava sobre a morte, sobre o medo, sobre o mundo do lado de lá, sobre coisas muito profundas, sobre sexo, sobre o que eu achava que era fazer sexo, sobre ouvir música em volumes baixíssimos, sobre estar gostando de alguma garota da minha sala e sobre tudo o que havia depois do tempo. Publicava tudo com erros ortográficos grosseiros, errava vírgulas e pontos (faço isso até hoje) e mesmo assim, com sentimentos contraditórios e uma avalanche de textos, ela fazia questão de ler tudo, gostar de tudo, se identificar com tudo e me dizer isso. Ela dizia, repetidamente, que eu alimentava a mente suja dela.

Eu não ligava muitos para ela. Eu me sentia emocional e fisicamente muito atraído por uma garota da minha sala e estava muito preocupado em conseguir ficar amigo dela, parecer importante para ela e nunca dei muita importância para minha dedicada leitora e admiradora. Mas uma vez eu estava no MSN e ela apareceu. As aulas tinham acabado de voltar das férias do meio do ano. Me disse que queria me contar uma coisa importante. Antes que eu pudesse perguntar o que era ela já estava me explicando que se sentia muito atraída por mim, que tinha certeza de estar apaixonada por mim e que queria me ver, que viria até minha casa e que nós poderíamos conversar sobre alguma maneira de aquilo dar certo. Eu falava com ela usando respostas evasivas e monossilábicas de um adolescente disperso. Isso porque estava vendo desenho na TV, mas no fim das contas ela percebeu que não ia virar nada.

Mesmo assim ela continuou gostando muito do que eu escrevia. Foi a primeira vez que alguém do sexo oposto literalmente se ofereceu para mim. Eu era imaturo num nível infinitamente babaca e não aproveitei, nem por um segundo, a chance que estava tendo. Eu escrevia sobre mulheres de meia idade sendo abandonadas por maridos alcoólatras, escrevia sobre meninas de 10 anos que conseguiam alterar o curso de cachoeiras e sobre homens barbados e deprimidos que passavam a vida encardindo cuecas em frente à televisão, mas não conseguia identificar o verdadeiro milagre ocorrendo diante da minha tela do computador. Eu não sabia o que meus textos significavam, eram quase psicografias. Enfim. O nome dela era Marisa, lembro até hoje. Ela lia todos os meus textos, dizia obscenidades para mim, me mandava fotos eróticas e era a mãe de um dos meus melhores amigos de escola na época. Acontece.

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E se a gente saísse numa aventura?

E se a gente não voltasse mais pra casa? E se a gente pegasse seu carro e fosse dirigindo pra longe, pra qualquer lugar, passar uns dias, até o dinheiro acabar, até alguém achar que a gente não tem o direito de ficar longe tanto tempo? E se a gente vivesse de luares estrelados, noites congelantes, música mixadas pelo Saux, sexo no banco de trás, comida congelada e motéis de beira de estrada? E se a gente pudesse ficar horas e horas abraçados, trocando calor e frio, suando um sobre o outro e sentindo as gotas escorrendo pela pele, trocando cheiros e texturas, respirando e comendo sal durante um sem número de horas?

E se depois disso pudéssemos voltar no tempo, viver no tempo em que o inverno era frio, o verão era calor, os carros faziam barulho de motor e as pessoas eram magras comendo óleo e tomando refrigerante com mais açúcar que água? E se você, de repente, tivesse permanente no cabelo, usasse um lenço no pescoço, tivesse calças brilhantes e lingeries sem bojo ou armação, de tecido cintilante e macio? E se a gente se perdesse no meio da pista como n’Os Embalos de Sábado à Noite, fazendo passinhos, ditando moda, sendo mais incríveis do que qualquer casal?

E se, então, a gente não fugisse no seu carro, mas pegasse um ônibus para ir ver o mar? E se a gente comprasse passagens para o turno da noite e cruzasse o estado num Cometa velho, com bancos de couro macios e barulhentos, desejando um mar mais ao sul, mais frio, de areia mais fofa e úmida? E se a gente fosse para o Rio Grande do Sul, de cabelos oxigenados, roupas simples, pedindo emprego em fazendas cheias de vacas leiteiras e finais de tarde cinematográficos por detrás das montanhas? E se a gente vivesse numa cabana, comendo, bebendo vinho, transando debaixo de cobertores peludos e pesados, gastando mais tempo no pós-coito do que nas preliminares?

Mas e se a gente simplesmente sair por aí, vivendo de excessos, de balada em balada, bebedeira em bebedeira, de ressaca em ressaca, até o corpo pedir arrego? A gente podia viver três dias sem dormir, indo a todas as festas, visitando amigos, usando drogas, bebendo em larga escala e pulando de táxi em táxi, metrô em metrô, balcão em balcão, não podia? E se a gente comprar umas roupas bonitas e tentar entrar de bico nas festas de gente famosa, sair na Caras, na Quem, no Ego, na TiTiTi, no TV Fama, ser entrevistado pelo Pânico! e depois rir de todos eles com nosso olhar alucinado de cocaína e vodca?

Ou então, quem sabe, você poderia ficar. E se você decidisse simplesmente não ir embora? E se você ficasse essa noite, sem excessos, sem contos de fada, sem odisseias hollywoodianas, nem maratonas sexuais, nem campeonatos etílicos ou de entorpecentes. Só uma noite tranquila juntos, ouvindo o som dos carros lá embaixo, ouvindo o som metálico das estrelas e sentindo a briza fresca da noite entrar pela janela do quarto e escapar pela porta da sacada, na sala. A gente pode tomar qualquer coisa, até água, pode comer qualquer coisa, até bolacha sem recheio, pode ficar só juntos, sem falar, sem planejar nada, só trocando ondas, pensamentos e sentindo um a presença do outro. Isso, sem dúvida, seria minha maior aventura com você!

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Sua pior foto de hoje será sua melhor imagem dentro de uns 20 anos!

Estou meio farto de fotografar meus amigos. Eu gosto de fotografá-los, acho-os atraentes, alguns misteriosos, sexys, gente que vale a pena ser eternizada. Ainda mais nessa fase linda que a gente está vivendo, os 25, mais ou menos, quando o rosto começa a envelhecer e as contas vão tomando conta de espaços mentais onde antes existiam festas, frases aéreas e trechos de música moderninha. São lindos meus amigos, juro! Meninas de cabelos bem cuidados, negras, brancas, gordinhas, magrinhas, pálidas e bronzeadas. Os rapazes com pelos no umbigo, com bigodes estranhos, com cabelos sujos, ou então almofadinhas, endividados até os tubos vestindo Tommy e ZARA.

Mas nos últimos tempos tenho percebido uma certa hostilidade cretina por parte dos meus parceiros que me faz querer cada vez mais deixar a câmera em casa. Tenho bem claro na minha mente que uma fotografia não é uma fotinho no Instagram, nem um post bacana no Facebook. Uma fotografia, romantizando um pouco sobre o assunto, é um momento eternizado. É como roubar um centésimo de segundo da vida de alguém para sempre. Uma fotografia nos permite reviver acontecimento banais ou importantíssimos que ficaram perdidos no tempo. Pensando assim fica meio óbvio o motivo pelo qual fotografo pessoas e, principalmente, o valor de uma fotografia, certo?

Porém meus amigos, aqueles que são lindos, atraentes e tudo mais, não querem ser fotografados. Os homens são mais receptivos, às vezes simplesmente dizem que podemos fazer a foto “depois”, ou que não estão muito interessados em serem fotografados naquele momento. Geralmente estão bebendo, sorrindo, fumando, conversando, fazendo coisas cotidianas e banais. As moças são mais ríspidas. Elas não querem sair “tortas” nas fotos, nem gostam que sejam fotografadas de um determinado lado do corpo, nem querem sair falando, ou de boca aberta, ou comendo, ou fazendo qualquer coisa. Sem trato e sem conversa. Mas se alguém me pede uma foto, quando aponto a câmera o que vejo são rostos colados com sorrisos amarelos em poses suspeitas em imagens que nunca vão dizer nada sobre o evento, ou a época, ou mesmo sobre as pessoas fotografadas. São fotos do Instagram, ou feitas para um perfil de Facebook, só que presas dentro da minha câmera. Eu não quero mais isso.

Eles não sabem que uma foto em que estão segurando uma lata de Coca-Cola numa mão e um cigarro na outra, rindo histéricos com os olhos meio apertados, cheios de pés de galinha nas laterais e o cabelo desgrenhado pelo vento noturno faz deles pessoas muito mais bonitas do que as fotos posadas e falsas de que tanto gostam. O que eles gostam de chamar de “fotografia espontânea”, que pra mim simplesmente se chama só “fotografia”, não parece ter valor para quem é fotografado. Eles não entendem que aquilo sim é vida, é um registro real de algo acontecendo. Ação! É isso o que difere as pessoas da vida real de bonecos de cera daqueles museus horripilantes. Por que não sair fazendo alguma coisa nas fotos? Por que sair sorrindo um riso que você nunca dá, fazendo poses que você nunca faz, tapando toda a paisagem de lugares que você nunca mostrou a ninguém e perdendo a chance de contar uma história realmente bacana com apenas uma imagem?

Viram a cara, fazem caretas, tapam o rosto com as mãos, fazem gestos de fuga, dizem “ah não Braz!”, ou “sai com essa câmera daqui” e depois de dois minutos me procuram para tirar uma foto onde eles saem da maneira mais feia possível, só para se sentirem bonitos. Ninguém é obrigado a nada e eu não estou invadindo quartos com casais em pleno coito ou abrindo venezianas de box de banheiro com pessoas se banhando. Não estou pedindo para fotografar a lágrima da viúva durante o funeral, nem tento clicar o corte profundo na perna do surfista que acabou de se chocar contra os corais. Estou tentando fotografar olhares, sorrisos, bocejos, expressões que me façam lembrar de meus amigos como são, mesmo quando eles já não forem mais como eu os vejo. São fotografias que valem mais do que barras de ouro, e você sabe o que dizem sobre as barras de ouro!

Não sou o J.R. Duran, nem o Bob Wolfenson, nem o Mario Testino, mas gosto tanto quanto eles de fotografar pessoas. Tendo amigos lindos como os meus essa vontade só cresce. Mas não é saciada. Meu amigos lindos, sensuais, atraentes e divertidos se sentem feios em fotos onde aparecem como pessoas normais, e não como bonecos do Max Steel ou da Barbie. Eles se sentem feios quando estão sorrindo de verdade, daquele jeito que aparecem os dentes todos e até um pedaço da gengiva. Eles se sentem feios quando o cabelo está frisado, ou esvoaçante e sem controle. Eles se sentem feios quando saem com a boca torta, com os olhos arregalados de surpresa por estarem sendo fotografados, ou com o corpo em alguma posição que não lembre um membro da realeza inglesa. Eles basicamente se sentem feios em fotos onde eles são retratados sendo exatamente quem são.

O que eles não percebem é que dentro de 20 anos as piores fotos que eu tirei deles serão suas melhores poses e ângulos. Quando estiverem mais maduros perceberão o quão lindos eram com suas espinhas, seus dentes tortos, seus cabelos indomáveis e seus sorrisos desmedidos. Meus amigos são criaturas lindas, quase mágicas, que por algum motivo sombrio se sentem feios nos momentos em que os fotografo sendo bonitos. Por isso tenho perdido a vontade de fotografá-los: eles não valorizam a beleza que mostram para o mundo. Em 20 anos eles valorizarão, mas aí já vai ser tarde!