Arquivo mensal: setembro 2013

Eu a queria mais que tudo no mundo (parte 1)

Nos primeiros dois meses era só admiração, como se eu tivesse conversando com algum famoso cuja carreira me inspirasse ou alguém da música cujos discos eu cansei de ouvir e, de repente, estava falando comigo sobre como foi o dia, sobre amenidades e contando tudo sobre o mundo da fama, sobre o lado de lá, sobre como as coisas realmente funcionam. Eu era fã dela! Mas como não era famosa, nem prestigiada, nem ninguém muito mais importante que a maioria dos que vivem no mundo, comecei a perceber que a vida, até em seus movimentos mais simples, pode ser incrivelmente interessante. Ela era incrível e interessante, o tempo todo.

Depois de um tempo a intimidade cresceu e eu já não achava a vida dela coisa de outro mundo. Era incrível, mas era possível. Era uma coisa que eu não vivia, mas conseguia acompanhar como quem assiste a um filme baseado em fatos reais, ou quem lê um livro biográfico um pouco suspeito. Era muita emoção, muita mudança, muita novidade o tempo todo. Foi mais ou menos nessa época que eu comecei a pensar que talvez eu estivesse cagando para o quão legal era a rotina dela. Eu queria mesmo era saber dela, que atitudes tomaria, aonde iria, o que faria e foda-se se tinha ido viajar, se estava trabalhando muito, se estava desempregada, se estava de pé ou sentada. Foda-se, eu queria saber o que ela pensava, quais eram seus medos, seus planos e seus desejos. De repente passei a desejar ser um de seus desejos.

Aí a gente passou a falar menos de coisas externas e as conversas se tornaram cada vez mais íntimas. Não falávamos de trabalho, falávamos de sonhos. Não falávamos de amigos, falávamos de segredos. Não falávamos de cidades, falávamos de restaurantes. Não falávamos de amor, falávamos de sexo. Trouxemos toda a universalidade pra dentro de uma caixinha de fósforos e ficávamos cavucando nossos sentimentos a fundo, cheios de perguntas e histórias complexas enquanto os dias passavam como eram e como sempre foram. A vida já não parecia tão impressionante. A dela ou a minha, tanto fazia. O mundo real foi substituído por suposições e achismos absurdos que preenchiam todo o tempo que a gente passava conversando.

Depois que chegamos a esse ponto, meio sem querer, ela começou a se interessar pela minha vida. Porque não tinha muitos eventos, nem muito dinheiro, nem muito glamour, mas exatamente por isso era tão intensa. Ela se interessava por sentimentos como a sensação de liberdade em caminhar à noite, de madrugada, vendo gente pelada correndo pelas ruas. Ela se interessava pelas vezes em que segurei a respiração mais tempo do que o saudável e fiquei vendo cores trocadas e formas imaginárias enquanto voltava a respirar. Ela queria saber de onde eu tirava ideias pra escrever, pra desenhar, pra fotografar, pra  fazer músicas, pra ser eu. Ela queria se jogar dentro da minha vida e, de repente, ela desejava fazer parte de mim, nem que fosse por algumas horas, só por alguns instantes.

“Quer ir pra minha casa?” ela me perguntou, uma vez, quando estávamos tomando café e conversando sobre como é que faz pra lidar com a morte de alguém que você nunca conheceu, mas sempre quis conhecer. O assunto, naquele momento, pareceu uma justificativa honesta para não perder a chance. A gente podia morrer, do nada, e viveríamos nessa eterna dúvida. “Quero!” respondi, sorrindo nervosamente. Depois disso o medo tomou conta de mim, assim como dela também, porque a conversa começou a ficar estranha até dar lugar a um silêncio incômodo e agudo. “A gente precisa encher a cara!”, ela disse e eu concordei, afastando a xícara e buscando ao redor um lugar onde pudéssemos comprar garrafas, doses, coisas alcoólicas em geral.

Encontramos um bar e levamos uma garrafa de pinga vagabunda. Na metade do caminho abrimos a tampa para cheirar e nunca mais paramos de beber. Virávamos doses puras que faziam o estômago querer devolver tudo a todo momento. Era noite, fazia frio, não tinha ninguém na rua e a gente gargalhava alto de nervoso e de bebedeira. Nos beijamos cheios de erotismo dentro do elevador e, pensando agora, nosso beijo parecia mais um conjunto de lambidas mútuas que erravam – e muito – o alvo. Lambendo os rostos um do outro, deslizando as mãos por tudo quando é lugar, até atingir o andar. Quando ela girou a chave do apartamento eu vi a janela enorme para a cidade noturna me hipnotizando. Fiquei um tempo indeterminado perdido no horizonte até me virar e dar de cara com ela completamente nua, de pé sobre a mesa de centro, me olhando e sorrindo: “eu quero que você me admire antes de qualquer coisa”, e me mandou sentar no sofá.

Dali pra frente eu comecei a viver uma das noites mais sexualmente intensas da minha vida…

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Na última vez eu tentei ficar explicando como tudo funcionava – ou como eu achava que funcionava – o que deveria ser dito, as possíveis variações das mesmas frases, o efeito de cada uma, o desfecho e a história toda. Não adiantou nada. E não adiantaria mesmo, de qualquer jeito, porque conselho é aquele tipo de coisa que a gente só pega quando realmente não faz a menor ideia do que fazer. Se a gente tem uma vaga noção das coisas, do futuro e do que pode acontecer com ele, tomamos nossas decisões sozinhos. Então os conselhos são só piedade, são só a música do elevador que preenche o vazio entre o momento da dúvida e o momento da ação derradeira.

Dessa vez eu economizei nas palavras. Apaguei as luzes do apartamento e fiquei caminhando atrás dela, alguns passos atrasado, vendo a movimentação no quarto, a troca de roupa desajeitada, a análise do próprio rosto no espelho e as feições amigáveis frente ao computador. Fiz de conta que era a sombra do abajour na sala, o escuro por debaixo da mesa com as cadeiras guardadas sob o tampo, o bicho papão que se esconde no box do banheiro quando a luz está apagada. Um fantasma ali assistindo a dúvida sobre a calcinha. E eu ri. Mulheres têm essa coisa com a calcinha certa para o momento certo, o cara certo, o dia da semana certo.

Quando ele chegou eu me sentei confortavelmente na poltrona na sala, cruzei as pernas com o tornozelo esquerdo apoiado sobre o joelho direito e fiquei esperando. Ninguém sabe o que é que vai acontecer quando um ex amoroso aparece de surpresa, quase na virada da noite em madrugada, na casa de uma moça que estava pronta para dormir. Homem um pouco inteligente sabe que isso causa um efeito enlouquecedor em qualquer mulher, por isso aparece de noite, de supetão, sempre que possível. Dá certo, muito certo!

Eu não tinha dado conselho algum. Ao menos nenhum inteligente. No lugar disso disse apenas para fechar os olhos. “Se ficar na dúvida, não diga nada, só feche os olhos, ok?” e ri, comigo mesmo, sobre a falsa eficácia daquilo. Meu papel de anjo da guarda fora deixado de lado. Fingi ser espectador, apanhei meu controle da vida real, sintonizei o canal da casa dela e fiquei vendo o mundo existir do jeito que sempre foi. Pouca conversa fiada, muita indireta, muita direta, muita ambiguidade, um beijo, dois, três, dez, uma mão por baixo da blusa, uma blusa a menos, uma roupa toda a menos, uma noite a mais. Quando a gente transa assim, sem querer, sem planejar, ganhamos uma noite de vida. A gente não sabe, mas quando dormimos o calendário volta, a gente não sabe, mas está vivendo um dia a mais, ganhando uma bola extra no pimball da existência. Sexo espontâneo é, literalmente, um meio de ganhar a vida, ou alguns dias de vida, no caso.

Se ela gostou? Não sei. A trilha sonora do sexo bem feito é sempre mais ou menos igual, mas o verdadeiro prazer é psicológico e ninguém sabe realmente o que os outros pensam. A ideia era parecer que gostou. Teve um momento de tensão sobre se ele iria embora, se ele iria ficar, como seria se ficasse, se era uma boa ideia, se ela se incomodaria e no fim ele saiu pela mesma porta que entrou. A calcinha? Ninguém nem lembra qual foi a calcinha que ela escolheu, mas ficou bem marcada a cara que ela fez quando abriu a porta. Tipo uma foto. Um registro eterno de um segundo ínfimo.

“O que você tinha para me contar?”, perguntou ela, tensa e trêmula. “Vim atrás do infinito”, respondeu ele, de forma banal. Ninguém espera uma resposta assim. Quando se pergunta para um ex o que ele quer, espera-se ouvir que ele quer voltar, que ele estava com saudades, que ele quer transar, que ele veio só buscar a escova de dentes. Mas não. Ele tinha vindo atrás de um infinito que ela não fazia a menor ideia de onde estava. Então, como se não houvesse pra onde correr, fechou os olhos e assim ficou, até que ele, sozinho, mergulhasse para dentro da boca dela, garganta abaixo, numa jornada sem volta atrás de um infinito que sempre acaba uns 25, 30 minutos depois.

Se ela gostou? Já disse. Não sei. Mas ganhou um dia. Ofereceu o famoso “infinito particular” para alguém inesperado e acordou ontem, cheia de dúvidas, com a cabeça a mil, mas feliz. Quem é que não fica feliz quando transa? E tudo isso por causa de um par de olhos fechados que não faziam a menor ideia do que fazer. Se conselho fosse bom, não seria de graça, mas nem tudo na vida custa dinheiro!

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A personagem base

“Não existem muitos de você no mundo”, ela me disse, e eu lembro disso como se lembrasse de algo que ouvi dois segundos atrás. Me sentia estranho por lembrar, mas lembrava mesmo assim. Eu lembrava dela em todos os detalhes, do tom de voz, da maneira como conversava falando lentamente e de como conduzia raciocínios complexos de maneira simples e direta, com poucas palavras, sem metáforas ou grandes explicações. Eu me lembro de pensar que era preciso ser inteligente para manter um diálogo sobre os assuntos que ela iniciava.

Ela não existia. Nunca existiu. Passei muito tempo construindo seu rosto, sua pele muito branca, cheia de marcas que a vida foi deixando ao longo do tempo. Uma vida que ela não teve, uma porção de memórias criadas, desenhadas com cuidado, tecidas umas nas outras, essas memórias, tentando criar alguém, uma personalidade, uma pessoa com quem eu teria o maior prazer de beber alguma coisa, falar sobre temas complicados e discutir até quase beirar a agressão. Eu pensava suas roupas, sua casa, suas características mais marcantes, como tiques com os olhos, sobre ser sozinha, ou sobre o tipo de gesto que fazia quando estava feliz ou triste.

Eu a criei para textos assim, como este, que precisam de uma protagonista que eu não conheço, alguém cuja existência eu não poderia suportar. É uma criação fantasiada de perfeição, personagem recorrente, que muda a cor do cabelo, dos olhos e os gostos pessoais, mas que não muda de rosto, nem de corpo, nem de vida. Criar personagens tem disso, dessa fixação, admiração por uma ficção tão repetitiva que às vezes se confunde com a realidade. Devo ter criado mais uns 8 irmãos e irmãs para ela, sempre que necessário, sempre que o tom é outro, sempre que falar de gente de carne e osso me parece chato, cansativo ou perigoso.

Uma das principais vantagens de ser “pai” de criaturas assim é que elas dizem o que eu quero ouvir, fazem o que eu quero que façam, pensam o que eu quero que pensem e morrem quando eu mando morrer. Escrever ficção é como ser Deus, só que sem ferir ninguém. Mato meus personagens de amor, de ódio, de bala perdida e de azeitona presa na garganta. Não importa, não existem, não deixaram filhos, família, amigos. E se deixaram, são inventados também. São pedaços de mim que eu mesmo não manifesto durante a vida. São retratos de famílias que eu nunca fiz parte, cartas de amor que eu nunca escrevi, nem recebi, festas para as quais eu nunca fui convidado.

Cada pessoa que eu conheço doa, mesmo que involuntariamente, um pouco de si para personagens como ela. Personagens sólidos que eu faço questão de cultivar. “Ela” é minha mulher padrão, a moça que sempre está na primeira opção de protagonista branca e magra de qualquer história que eu venha a escrever. Assim com existe um homem padrão, uma moça negra padrão, uma criança padrão e um espírito padrão. Mas ela é a mais velha, a primogênita, veio da minha pré-adolescência. Ela é a mulher traída, a mulher infiel, a assassina e a vítima. É a mãe dedicada, a namorada psicótica, a amiga confidente e o rosto mais atraente de todas as festas. Ela é a melhor trepada, ou a maior decepção sexual da vida de qualquer homem. Ela é a massa de baunilha que vira todo tipo de bolo, é a folha branca, é a gênesis de qualquer criação.

E esses dias, quando ouvi que “não existem muitos ‘de mim’ no mundo”, tive certeza de que isso já está indo longe demais. Alter ego. Sombra. Musa. O nome e o rótulo todo mundo pode escolher, mas o fato é que quando seus personagens começam a parecer gente de verdade é hora de se agarrar à realidade mais do que tudo. Que tipo de gente doente cria pessoas para elogiarem a si mesmas? Que tipo de megalomaníaco contrata capachos para ouvir sobre qualidades planejadas? Tenho estado muito pouco inspirado quanto à criação de novos personagens. Preciso abrir mão das criações antigas e dar espaço para outra gente imaginária. Ela está tentando sair dessa tela e pular pro lado de cá, pra fora da minha cabeça, querendo entrar pro time das pessoas que morrem de verdade. Não vai rolar…

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