Arquivo mensal: dezembro 2012

“Se for pra morrer, que seja trepando”

Pro fim do mundo ela queria só sexo e algumas garrafas de vodca. Se fosse o fim mesmo, se fosse fogo, água, escuridão, oblívio, qualquer aniquilação, não restaria ninguém para usufruir dos estoques de comida, nem de armas, nem de nada. Se viesse mesmo o fim, a galope, a nado, voando, ou num sopro de briza do mar, não haveria estoque suficiente para nada. Então decidiu diferente: “Se for pra morrer, quero que seja trepando!”

Dentro de casa o estoque alimentício era basicamente duas dúzias de garrafas de bebidas alcoólicas, rótulos coloridos, formulações diversas e tamanhos variados. Copos por todo o apartamento, luzes de natal presas com fita crepe na sanca, cortinas amarradas para o alto, janelas escancaradas e a Lua iluminando o que dava, lá do lado de fora. Se fosse acabar, que o fim viesse de vista panorâmica, em um ambiente aconchegante e animado.

O figurino para o fim do mundo deu mais trabalho. Decoração é simples, todo mundo gosta de velas, luzes de natal, tecidos compridos e garrafas com design sensual. Mas a roupa não é tão banal assim. Como é que se escolhe a roupa da morte? Que tecido você escolheria para ir para o caixão com você? E se não houvesse caixão? E se não houvesse nada depois do fim? O traje perfeito para a festa seria o mais simples. “Vestirei brincos, pulseiras, um belo colar e perfume. Apenas!”, definiu.

Na lista de convidados só os melhores e os piores. Medianos não merecem um lugar na última festa. As melhores amigas, as mais fiéis, as mais bonitas, as mais animadas. Os melhores amigos, os mais excêntricos, os mais carinhosos, os mais atenciosos e os mais inteligentes. Os ex-namorados, as amantes dos ex-namorados, os inimigos, as inimizades, as mulheres mais invejosas, os caras mais cafagestes. Todos, os melhores e os piores, juntos para morrerem no mesmo lugar.

Às 23h chegaram todos, juntos, como se fossem uma família só, uma única excursão para o apocalipse. Foram entrando, deixando as roupas pelos cantos, largando sapatos, vestidos, camisas e lingeries por todo lado. A fila que se esticava pelo corredor cumprimentava a anfitriã com um beijo na boca, de língua, apaixonado e sincero. Homens e mulheres, todos a beijaram da maneira mais honesta que podiam, como se fosse um presente em troca do convite. Com o apartamento cheio o lugar tomou cara de festa. Todos nus, bebendo mais do que deveriam, conversando sobre o fim do mundo, sobre o fim de tudo e sobre quem queriam comer ao redor.

De repente as luzes de natal se apagaram, o vento apagou as velas, a música silenciou e a Lua, enorme e azulada, se tornou a única iluminação do lugar. Então ela gritou: “É o fim!” e todos levantaram seus copos e taças, aos gritos, sorrindo largamente e desejando um “Feliz Fim de Mundo” para o resto dos que estavam ali. Sem aviso prévio começaram os beijos, as mãos e grupos e pares se formaram aleatoriamente. Ela caminhava pelos cômodos escolhendo integrantes já ocupados para se dirigirem ao quarto com ela. Afinal, a anfitriã pode escolher com quem quer passar seus últimos minutos de vida.

Ao fechar a porta o quarto continha, além dela, seis rapazes e duas garotas. Eles se entreolharam, fizeram a matemática rápida dos grupos e se atacaram como se iniciassem uma briga. Os ponteiros giravam muito rápido e a cada minuto do tempo normal duas horas corriam no tempo dos relógios. Eram gritos, urros, sussurros e gemidos misturados entre vozes que não se calavam mais. Todas as combinações foram exploradas, todos os descansos ignorados, todos as piores perversões executadas repetidas vezes até atingirem a exaustão.

No tempo normal a experiência já passava de seis horas de duração, sem interrupção, enquanto, no relógio da parede, o mês já tinha mudado. Jogada no chão ao pé da cama, como se fosse um cadáver de olhos abertos, ela tentava se lembrar de como aquilo tudo tinha valido a pena. Mas ainda estava viva, estava pensando, estava vendo a Lua lá fora, estava vendo os outros respirando lentamente ao seu redor e sentia o cheiro do próprio perfume misturado a outros oito odores distintos.

Então tentou se levantar. As pernas moles não respondiam da maneira esperada, os braços já não sustentavam o peso do corpo e uma ardência incômoda fazia com que suas virilhas e tudo que era pele ao redor parecesse pegar fogo. Depois de muitas tentativas ficou de pé e caminhou até a janela. Cambaleante, ela viu o mundo escuro, iluminado por algumas chamas esparsas e uma Lua imensa no céu. Tentou pensar sobre o que estava acontecendo, mas antes que pudesse concluir qualquer coisa, um braço de homem a agarrou pela cintura e a arremessou de volta para cima da cama.

Quando a visão formou o cenário do quarto novamente percebeu que a porta estava aberta e muitos dos outros convidados caminhavam em sua direção. Vários homens e mulheres cercaram a cama olhando seu corpo desfalecido misturado nos lençóis e sorriram. Uma garota quebrou o silêncio e começou a gargalhar. Os outros a seguiram, levantando novos copos com novas bebidas. A mesma garota subiu na cama, abriu lentamente as pernas daquele corpo quase sem ação e concluiu: “o mundo ainda não acabou, querida!” e a orgia tomou forma novamente, mas dessa vez, concentrada em uma única pessoa.

Ela sentia línguas lambendo suas pernas, seus dedos, dentes mordendo suas coxas, seus mamilos, mãos puxando seus cabelos, seus braços, dedos procurando caminhos alternativos e, quando uma voz masculina sussurrou em seu ouvido que aquilo só acabaria quando o mundo acabasse junto ela respondeu com a última força que lhe restava: “Ainda bem que não vai acabar…” e nunca mais houve Sol na janela depois disso.

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Fila de pretendentes?

Onde estão eles? Onde estão todos os homens que estão loucos por você? Onde se esconderam os caras que prometeram uma vida muito mais feliz do que a que você tem agora? Cadê os príncipes que estão fazendo fila para ocupar a vaga ao seu lado? Cuidado. Às vezes a propaganda errada pode trazer os resultados mais inesperados de todos e mulher insegura é profissional em cometer erros assim, tentando criar situações favoráveis em ambientes hostis. Dá errado!

Não sei se meus amigos são muito gente boas, ou se eu realmente tenho visto uma opinião estranha a respeito dos homens por parte de algumas mulheres, mas não me lembro de ouvir um amigo que disse para a namorada que está cheio de mulher atrás dele, que tem fila de menina querendo ocupar o lugar dela, que é melhor ela se cuidar porque ele gosta dela, mas a concorrência está forte. Homem não faz isso porque o resultado é devastador.

Mas mulher faz. E sorrindo! Diz que o mundo tá cheio de homens, que não param de serem cantadas nas ruas, que vivem recebendo propostas de colegas do trabalho, de amigos da faculdade, de gente que o homem nunca vai conhecer. Péssima estratégia. Onde é que já se viu tentar fomentar amor usando medo? Intimidar um homem fazendo o pensar que o mundo está de olho em sua mulher é a melhor maneira de fazê-lo acreditar que talvez seja hora de ficar mesmo solteiro.

Para as mulheres que vivem numa bolha, aqui vai uma informação valiosa: homens também são assediados na rua, no banco, na faculdade e no trabalho. Mas não usam isso para causar ciumes em você! E sabe o motivo? Porque é ineficaz, porque gera uma neura doentia que mais ajuda do que atrapalha, porque nenhuma mudança motivada por insegurança e medo pode trazer algo bom para nenhum relacionamento.

Ao invés de jogar um mundo de machos pra cima do seu homem, dizendo que se ele não se cuidar vai ser trocado, tente alguma coisa mais civilizada e inteligente, como conversar com ele sobre o começo, sobre quando tudo era mais colorido, sobre quando a vida era mais leve. Geralmente funciona, as pessoas aprendem com os erros, não com as ameaças. Conversas podem mover montanhas, mesmo que sejam informais, ali no sofá da sala, no carro indo comprar os presentes de Natal, na mesa do café da manhã…

Pense, só por um segundo, como você se sentiria se tivesse que ouvir que uma porção de mulheres dão em cima do seu namorado, que não faltam pretendentes, que não é uma, ou duas, mas várias. Pense… Agora diga que você não cogitaria a possibilidade de ele já ter traído você, nem pensaria que “agora fodeu” enquanto imagina meninas loiras, altas, peitudas e com sorrisos simpáticos, depois diga que não vai sentir ciumes quando ele sair com os amigos, ou quando simplesmente não estiver com você. Difícil, né?

Então relaxa. Anunciar a sua fila de pretendentes só vai piorar tudo. Mas, infelizmente, no Facebook, na mesa do bar, no banco da frente no ônibus, a história que mais se propaga é essa: a de mocinhas que tentaram salvar o namoro destruindo tudo. Atenção, vocês não são Shiva! Não é necessário foder a porra toda pra começar do zero de novo. Agora parem de foder tudo e vão ser felizes, eles gostam de vocês, caralho!

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Saramandaia da vida

No cheio de pó, no cheiro de coisa frita em óleo velho, no cheiro de morte certa, no cheio de perfume de flores, tudo estava feito para a lembrança de que o tempo passa. A certeza do fim estava nestes cheiros, nas paredes escurecidas com o tempo, nos televisores de tubo e na disposição irregular das mesas e cadeiras. O Saramandaia é um mini mapa do futuro de todos nós, mesmo que o futuro seja agora. Eu quis ver como eu ia ser, quis ver lá na frente, adivinhar os próximos 20 anos durante quatro minutos.

O salão devia ter espaço para umas cem pessoas, mas se tinha cinquenta era exagero. Acho que uns quinze casais, uniformemente distribuídos pelo espaço, todos, sem exceção, aparentando mais de 60 anos. Sei que aos finais de semana a idade cai drasticamente, com casais quarentões e cinquentões muito bem conservados, mas não era o caso. Quarta-feira, noite, calor e eu ali, o único que não tinha um par.

Eu, quase fazendo 24 anos, era novidade no lugar. Os garçons me olhavam, o cara do som me olhava, o cara do balcão me olhava, o segurança da porta me olhava e eu, perene e sólido, olhava para todos eles com o máximo do brilho da juventude estampado na minha cara. Esse brilho se apagará, em breve, assim como o deles já se foi. Sentei no fundo, meio incógnito, pedi uma cerveja da grande, me acomodei e desliguei o celular. Eu não existia pra mais ninguém no mundo, estando ali.

Sendo Saramandaia, obviamente era karaokê. E depois de constatar isso com uma senhorinha de uns 80 anos cantando uma música da Alcione como se fosse a própria, comecei a ficar nervoso. Cantar é uma questão de se adaptar ao público e ao gosto dele. Não tem show do Iron Maiden no Castelo das Pedras. Não tem show do Mr. Catra no Fazano. É uma questão de adequação e, naquele momento, percebi que eu precisava me superar para ganhar respeito.

Ouvi Reginaldo Rossi, Chico Buarque, Roberto Carlos umas quatro vezes, MPB4, Milton Nascimento, um inesperado e atual Lulu Santos, um João Gilberto, um Toquinho e, de repente, senti que era minha hora de aparecer. Peguei o livro de músicas e, inesperadamente, era maior do que o dos karaokês “modernos” que eu frequentei. O cara do som chamava as pessoas por nomes, esperava-os subir ao palco e depois soltava a música, com uma educação rara nesse tipo de lugar.

“Carmem e Miguel, Lucinda, Oswaldo, Vicente e Anastácio, Hugo, Laura e Esmeralda, Francisca e Maria Isabel, Ernesto e Dalva” dizia ele, no microfone, e as duplas ou os cantores solos iam se levantando e indo em direção ao pedestal com microfone. Eram bonitos, bem vestidos, com toda a graça e a experiência que o tempo lhes deu. Cantavam sem olhar para a televisão, às vezes olhando uns para os outros, ou para o salão, e sorriam, e gesticulavam e se divertiam da maneira mais pura que se conhece: em grupo.

Eu comecei a ficar com o cu na mão. Ninguém me conhecia, ninguém me veria novamente, mas por algum motivo eu achava que tinha que fazer alguma coisa certa. Eu tinha que mandar bem. Todo mundo ali parecia saber cantar, como se cantassem sempre as mesmas músicas, ou como se fossem cantores profissionais, algo assim. Não tinham vergonha, nem insegurança, enquanto eu suava frio no cantinho, bebendo cerveja como se fosse água, já terminando a segunda garrafa. Quando, sem querer, ouvi meu nome nos falantes.

“O próximo a cantar é o senhor Daniel!” e todos, reconhecendo o nome incomum, olharam para mim. Era como um intruso que ninguém pode agredir, uma visita indesejada, um espécime raro de um vírus ruim. Eu tinha um plano, só um, sem direito a plano B, C, D, E. Eu tinha um plano, com uma música, com um olhar, com uma única apresentação. De repente cantar num palco de karaokê de gente mais velha me pareceu a coisa mais importante da minha vida naquele momento. Eu escolhi Clube da Esquina nº2, uma música que nem em sonho eu ousaria cantar, de tão difícil que é.

Ao subir no palco senti que as luzes se intensificaram, como se fosse importante mostrar exatamente quem eu era, mostrar que eu aparentava mesmo uns 20 e poucos anos, que eu usava camiseta, calça jeans e tênis, que eu não estava com a barba feita, que tinha a cabeça raspada, que tinham medo pra caralho de estar diante daquelas pessoas. Aí, como se fosse mágica, ouvi a minha própria voz ecoar no salão explicando que “se chamava moço, também se chamava estrada” e que aquilo tudo era pura “viagem de ventania”, mas era só o começo.

Algum santo baixou em mim, alguma coisa aconteceu e uma coragem inédita me tomou de uma vez. Quase como se tivesse bancando o Carlos Marighella cercado por policiais, fechei os olhos e levantei um ponho fechado em direção ao teto. E para quem viu, minha figura parecia uma imagem iluminista, brilhando no meio da escuridão, suando pelo canto da testa cantando uma das maiores fábulas de todos os tempos da música brasileira. Era a música perfeita para aquele momento.

No fim, ao cantar “e lá se vai mais um dia”, senti meus joelhos falsearem, como se estivesse em pé há muitas horas. No fim da canção eu fui aplaudido, com vigor, do jeito que se aplaude quando se gosta muito de alguma coisa. Eu vi sorrisos, recebi sinais de cabeça, gostaram de mim, eu passei, passei no termômetro do respeito da vida. Ganhar o respeito de um velho vale mais do que ter o respeito de cem jovens. Eu consegui, no fim do meio da semana, num clube da esquina que Milton Nascimento construiu para ninguém nunca mais destruir.

Paguei, saí, respirei e percebi que estava de camisa bege, calças com vinco, cinto, meias pretas, sapato lustrado e um blazer enrolado no braço. Envelheci 40 anos em 4 minutos de êxtase e devoção. Minha juventude foi dividida igualitariamente entre todos os presentes no salão e, já longe, caminhando para casa, ouvi alguém cantar Kid Abelha, só para garantir que tudo, naquele momento, já não fazia mais sentido algum.

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