Arquivo mensal: março 2013

Fuga: sucesso!

Fugiu porque era a hora, o momento estava ali, a oportunidade se tornou lei e então foi. E diz-se que fugiu porque é mais fácil entender, mas na verdade, só foi, porque não estava sendo procurado por ninguém, se não pela própria vida. Largou a rotina no meio, na quebra do tempo e foi, porque tinha pra onde ir, porque já sabia o destino e então seguiu na direção. Fugiu de si mesmo, talvez, mas diria para todo mundo que estava “indo ali” e voltava logo. Se voltasse, seria logo. Se voltasse. Mas não disse nada porque não precisou.

A pia ainda com louça do dia anterior, a tv ligada e a janela do banheiro aberta. Ficou tudo ali, como estava. A porta trancada por fora, os paços sumindo ao longe e tudo bem. Deixa pra lá, ninguém liga, ninguém paga as contas, não tem que explicar merda alguma. Um metrô, uma mochila, um livro e uma passagem pro ônibus que sai jajá. Ainda é quarta-feira. Uma quarta-feira em fuga, diriam, mas para ele não. Era só uma quarta-feira, daquelas que o coração não acelera, das que ninguém gargalha nem chora. Um dia de nada, pra ir pro nada sem falar nada pra ninguém.

As luzes na rodoviária, as luzes na cidade, as luzes dos cabelos das moças do guichê e as luzes do mundo que mudavam o rumo da história que lia. No livro estava escrito assim: “Eram azuis, eu acho, mas sob o efeito da luz foram escurecendo, verdes, castanhos, pretos. Quando ficaram bem pretos, saí à rua” e interrompeu a leitura para embarcar. As horas estavam ali, no relógio do teto e o tempo não mente para viajantes, um depende do outro o tempo todo. Se não fossem as viagens, para que haveríamos de contar o tempo, não é mesmo?

Poltrona da janela, 40 lugares, 13 passageiros, umas 6 horas de viagem. Depois de sair da cidade a estrada escurece o interior do coletivo ao ponto de apenas os carros no sentido contrário conseguirem iluminar os contornos das várias poltronas vazias. O livro já não era tão necessário, ouviu música para fermentar ideias e, só porque podia, repetiu inúmeras vezes apenas uma única faixa. Ouvia Dd Stewart no sugestivo título de Silly Boy,  com distorção na voz cantando sensualidades e desenhando linhas neon na escuridão da estrada roubando estrelas a cada curva. Viagens.

Três da manhã, desperto de um sono torto e dolorido, os primeiros passos no horizonte, no “B”, depois da linha que saia do ponto “A”. Um endereço num pedaço de papel, um táxi, “R$ 28,50, moço”, um telefonema, “Juro, não é mentira nem piada, avisa que você me conhece e me deixa entrar, eu viajei pra caralho, rs” e o portão moveu-se. Era quinta-feira, mas a madrugada não tem dia. Toda madrugada é o mesmo dia. Todo dia, durante a madrugada, é o ontem e o amanhã, porque o hoje, entre meia-noite e cinco da manhã, não existe. Era alguma coisa entre 3h e 4h da manhã, uma quinta-feira estava vindo, o frio já estava lá e a porta se abriu. Ele nitidamente calmo e contente, ela confusa e sonolenta: “Oi… o que você tá fazendo aqui?”, ela perguntou, com bom humor duvidoso.

A resposta não veio. Mas veio o braço dele ao redor da cintura dela, um beijo inesperado que não encontrou nenhuma resistência e ela, já mole do recém interrompido sono, se deixou acalmar no corpo frio de quem vinha de fora. Era a primeira vez que se beijavam, a primeira vez que falavam assim, na mesma língua. A porta algum espírito fechou, a mochila ficou no chão, o quarto se descolou da casa e a sala tornou-se o mundo. A luz apagou porque tinha que apagar, o telefone ligou, sozinho, para o trabalho e avisou, fingindo voz de doente, que não iria hoje. No escuro bem escuro, deitados no sofá, beijando tão lentamente que pareciam ler um braile alheio, na língua do outro, numa história sem pressa de acabar, evoluindo pra sexo, sono, beijos, sexo, sono, beijos, num ciclo lento, erótico e sensual. Fuga bem sucedida!

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Mulher é outra coisa

É que mulher é outra coisa. Ao menos as que eu conheço de perto. Às vezes dá para entender o que acontece, prever ações, pensamentos e reações. Mas mulher é diferente, toma atitudes inesperadas, pega de surpresa e não corresponde ao protocolo. É fato que mulher não gosta de ser chamada de “complicada”, e sempre se defende dizendo que os homens também são. Mas é claro que são, as gentes são complicadas, o ser humano que é simples não tem nada para atrair os outros e morre sozinho. Mas o homem segue o protocolo, se encaixa no padrão, é previsível e não falha na previsão. A mulher não.

A mulher que me rodeia geralmente não gosta de explicar as coisas. Não sei das tuas mulheres, das que você conhece, das que almoçam com você, das que servem teus ouvidos com as últimas notícias do escritório, ou as que te servem de ouvidos para receber tuas inseguranças, mas as que eu tenho por aqui, na minha vida, não aceitam a falta de senso em adivinhar. A mulher quer ser adivinhada! Ela diz uma coisa e você, homem esperto, tem que entender outra porque “é obvio”, por que “tá na cara”, porque “só você não percebeu” e vai ver foi só você mesmo. Deixou passar, a esmo.

Às vezes você faz um comentário besta, coisa de janela de carro, que passou lá na calçada, já foi, outdoor, panfletagem, coisa besta. O comentário é só um comentário, é coisa que se diz e fim, acaba. Mas nos ouvidos da mulher, ou melhor, nos ouvidos das mulheres daqui, das amigas daqui, das moças daqui, você comentou uma coisa querendo dizer outra. “Você deu a entender”, porque ela entendeu. “Você foi irônico”, porque ela não estava num dia de muito senso de humor. “Você está insinuando”, porque insinuar é coisa que homem faz com maestria e frequentemente. Francamente!

E quando eu ouço uma música percebo a minha vida enroscada ali, naqueles versos, desenhando meus dias, minhas ideias ou experiências. Mas eu tenho de guardar para mim. Tenho todo direito de dividir a minha vida com o mundo, mas dividir uma música que fala sobre coisas que descrevem a minha vida, isso não pode. Não pode porque, das mulheres que tenho por aqui, se for música de amor é porque estou amando. E se já estiver com meu amor, estou traindo. E se não for de amor, estou na deprê, na pior. E se estou na pior, é porque não tenho amor. Ou, se tenho amor, não sou correspondido. Ou, se sou correspondido, é porque fui pego traindo. Sem fone, sem música na mochila, de fininho pra não causar confusão, eu vou saindo.

Caminhei pra outra dimensão esses dias atrás. Fui atrás de voltar no tempo e tentar entender quando foi que as mulheres que eu conheci se tornaram videntes do erro. Porque sejamos francos: a intuição feminina tem errado feio, e muito, e frequentemente. Que tipo de vidência é essa que projeta no cliente o que o adivinho quer ver? Mas isso, é claro, não são todas as mulheres, só as que eu conheço aqui, de pertinho, que sentaram na mesma mesa, que dividiram do mesmo ar. Está difícil olhar pro mundo sozinho, porque antes de abrir os olhos alguém já disse que vai estar nublado, a outra diz que vai estar sem graça, a outra comenta que antigamente era bem melhor, a outra diz que tá melhor ficar de olhos fechados. Essas ideias são cadeados

Então decidi que agora vou reconhecer o que disse a gatíssima M. Aydar, sabida de sempre. “Mulher é outra coisa, tão diferente de você. E tanta coisa que ela insiste, pergunta, decide, que é pro seu bem. Mas sempre não vai dar! O que vale é o amor que insiste, sem dengo, nêgo, ela é assim. Ela é assim!” Cabe ao homem, esses que também me rodeiam, entender que não vai dar pra ganhar, vai ter que encaixotar os grandes pensamentos e os grandes comentários pra mesa do poker masculino no domingo, ou pra qualquer sonho besta, quando a gente estiver dormindo, ou pra qualquer tarde chuvosa, que não deu pra sair, nem pra se encontrar. Aí a gente deixa rolar e pensa tudo que quiser, porque aqui, no universo masculino, a gente não “insinua” nada, não “dá a entender” nada, não “ironiza” nada, não “simula” nada, não se “contradiz”. A gente só pensa, pensa e lembra, que mulher é outra coisa. E que coisa…

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Quem não atira, não dança

Na minha terra sempre foi assim. Tem que saber das coisas da vida, do girar do mundo e tem que saber atirar. A felicidade vem da segurança e isso a gente só consegue na base da bala. Matando um leão por dia, um vizinho por hora, derrubando e sambando de felicidade. Lá sempre foi assim e acredito que se hoje, meio que por acaso, eu tropeçar e cair lá, vou perceber que nada mudou. Não muda porque funciona e em time que ganha a gente não mexe.

Aposta-se uma vida em troca de outra e perde-se duas por não saber jogar. Tinha gente que ficava órfão antes mesmo de nascer, pois chegava ao mundo para dançar com a aposta já feita. Era assim todo dia, até morrer quase todo mundo e o jogo começar a se tornar familiar, simples e as vitórias começarem a vir. A vida é como o quintal da minha antiga casa, que crescia todo dia, engolindo a casa dos outros, derrubando as cercas e os murados pra se esticar até onde os olhos enxergavam. A gente sentava na varanda, todos o Braz, e assistíamos ao final do dia o quintal “enlarguecer”, como dizia a minha avó.

A gente ria, deixava tomar conta de tudo, arriscando causar briga com os vizinhos, com os outros moradores, com os outros sobrenomes, mas ninguém sentia medo. A gente dançava, se é que você me entende. Lá em casa todo mundo sempre viveu na beira da saia, de passinho em passinho, sem coreografia, sem ensaio, só dançando em paz. A paz, essa coisa branca e bonita que todo mundo quer, mas ninguém reconhece quando já a tem, só vinha porque a gente sabia dançar bem, muito bem.

Sendo assim, era de se esperar que todos fossemos bons de bala. E eramos ótimos! Matávamos um problema por dia, uma saudade por hora, um desejo por minuto e vivíamos rindo e deitando cartuchos vazios pelas varandas e terrenos da casa. Nossa família, indivisível como os dois lados de uma moeda, atirava a esmo, acabando com os outros existentes, com os nomes que a gente ouvia só ao longe e íamos crescendo nosso espaço, nosso mundinho “Brazeano” até o quintal virar o próprio mundo e a propriedade perder autoridade.

É o mal de crescer-se demais. Perde-se o controle dos pedaços menores, mas importantes. E aí a gente dançava, para rir a falta de controle, a bagunça, a anarquia e a desordem. Qual é o Braz que não admira a desordem? A gente seguia atirando no horizonte, m,atando o Sol pra trazer a Lua e continuava a festa ao redor da fogueira, num lugar onde as estrelas iluminam os caminhos que a pessoa deve seguir na vida, para no fim, virar estrela guia também.

A moral da história da casa que não se contentava em estar no centro era a de que, para sorrir, era preciso se arriscar e que, para correr riscos, era preciso saber morrer, como quem perde no jogo hoje paga ganhar amanhã. Meus parentes nasciam todos os dias e ninguém duvidava de ninguém. O sangue vale mais que a palavra e a conversa era feita no solado das sandálias. Eu ficava na porta, esperando o mundo se esticar e dar a volta no planeta até chegar pelos fundos, nos varais da casa e se acalmar para todos dormirem. A gente atirava pra todo lado, perdendo e ganhando tudo, mas crescendo todos os dias.

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Driver – O retorno (do inferno)

– levei seis anos para voltar a escrever sobre essa personagem –

Fazia alguns anos que a gente não se via. E digo “alguns” porque não consegui contar exatamente, mas posso sugerir uns sete, oito, mais ou menos. Da última vez que eu a vi ela estava beijando uma garota negra careca no canto da parede de uma festa em um apartamento na Augusta enquanto eu tentava me livrar daquele labirinto de gente bêbada e estranha, daquela música perturbadora e daquela luz roxa incansável. Fomos parar lá depois de uma semana cheia de problemas, pra ser discreto, com a polícia, com gente pior que a polícia, com amigos de infância e com gente que não tinha rosto. Eu jurei que nunca mais a procuraria e guardei apenas a imagem daqueles cabelos loiros platinados, quase brancos, curtos além da conta, lésbicos declarados, se agarrando com aquela moça que nem cabelos tinha. Nunca mais a gente se falou.

Mas como a vida não se contenta em surpreender, ela gosta de agir, meu celular acendeu numa noite de quinta-feira, agitado, como se fosse uma mensagem mais importante que as outras. Já na cama, já descansando, já calmo, já morto, li o seguinte, sem rodeio e cerimônias: “Voltei, me encontra amanhã às onze da noite naquela lanchonete dos chineses, descendo a Augusta – Centro, onde a gente costumava ficar. Beijo na bunda, gato!” Não quis acreditar, jurei ser engano e o número desconhecido me parecia mais piada do que realidade. Digitei uma mensagem despretensiosa perguntando quem tinha sido o remetente daquilo e antes de poder voltar a relaxar a tela se iluminou novamente, parando meu coração: “DRIVER!”, assim, preto, no fundo cinza claro do telefone, brilhando no LCD flutuando na escuridão. Seis letras e um ponto de exclamação. Sete símbolos, sete vidas, um problema só. Em forma de mulher.

Não consegui dormir direito. Fiquei lembrando das aventuras que a gente viveu, amizade incontestável, das vezes incontáveis que eu pensei, com ar de conformismo, que iria morrer, e quando apagava, vinha no sonho, como cenas de cortes de trailers de filmes de ação, o som dos pneus do carro, a lataria cinza escura reluzente, a boca de um batom muito vermelho e a sensação incômoda e intimidadora do vento frio cortando a pele entrando pela janela escancarada. Era como droga a companhia daquela menina. Quer dizer, na época era uma menina, fazendo tudo errado, retorcendo o mundo à sua maneira e me carregando junto, me matando de medo e me enchendo de orgulho. Eu amava continuar vivo depois de tudo e poder olhar pro lado e vê-la sorrindo para mim, segurando o volante excitada, eufórica, feliz por ter com quem dividir o momento.

A noite passou, a sexta-feira se arrastou tensa e no horário combinado eu estava lá. A luz branca fraca deixa aquele bar com cara de açougue mal higienizado e o fato de os chineses continuarem não manjando nada de português dá um toque de submundo àquela merda. Eu sempre odiei, mas ela gostava de ir lá porque “ninguém enche o saco e não tem fila pra entrar”. Deu quase meia-noite e eu estava sozinho, já na segunda garrafa grande de Brahma, quando ela entrou. Na minha cabeça tudo parou, foi como tomar um choque e ir bater na porta do céu, ver a vida acontecendo fora do corpo e depois voltar, ressuscitado por um milagre. Agora era uma mulher maravilhosa, com peitos que não estavam lá anos atrás, com cabelo suficiente para encher um coque no alto da cabeça e a mesma boca vermelha.

Entrou sorrindo com muitos dentes e me abraçou com força, sem dizer nada, num impacto fulminante de chocar de gentes. Ficamos algum tempo enrolados, sem falar, de olhos fechados fazendo força com os braços e sentindo o corpo falar todas as palavras que a gente não disse. Foi um momento tão feliz que sinto alegria em lembrar como se ainda estivesse ali, abraçando. Depois que nos soltamos ela sorriu para mim linda, nitidamente contente em me ver, passou a mão no meu rosto sentindo a minha barba, que também não estava na minha cara quando a gente se vivia. Sim, “se vivia”, porque estar com ela era como viver outra vida, ou como estar na minha vida e na dela ao mesmo tempo. “Vamos embora daqui, a gente precisa muito conversar!” e foi me puxando pela mão, só a tempo de eu jogar uma nota de R$20 no balcão e deixar o troco pra China.

O motivo pelo qual seu apelido era Driver vinha, obviamente, de seu notável talento ao volante e, para conversar com ela, conversar de verdade, ouvir seus segredos mais profundos e suas verdades incontestáveis, era preciso estar sentado dentro do carro, aquele cinza, caro, de pneus barulhentos e gastos do meu sonho. Eu lembrava tudo. Ele ficava guardado na garagem do Maksoud Plaza, ali do lado, onde ela morava. Como é que uma garota de 24 anos fazia pra morar em um dos hotéis mais caros de São Paulo é assunto pra outro dia, mas o fato era esse: carro no hotel, a gente caminhava até lá e depois nada mais era garantido, nem a própria vida. Mas logo que começamos a andar percebi que o caminho estava diferente. Não conversamos durante um bom tempo, subindo a Augusta de mãos dadas, como se fossemos um casal, indo em direção à Paulista.

Estávamos longe do hotel, longe do carro, longe do caminho de sempre e eu sabia que não teríamos uma conversa certa até estarmos os dois setados atrás de um motor. Quando paramos na calçada esperando para atravessar a principal avenida da cidade, me remoendo em dúvidas, perguntei: “a gente não vai pro Maksoud pegar o carro?” e ela sorriu agradecida por perceber que eu lembrava dos velhos tempos, antes de me surpreender: “mudei pro Hotel Tivoli… é mais discreto”, me disse, puxando meu braço para atravessarmos a faixa. Muitos anos mudam muitas coisas, o endereço e o preço das coisas, por exemplo. Foi aí que um estalo me ocorreu. Só então percebi que era ingenuidade minha continuar pensando no carro que ela dirigia quando tinha 17 anos. Com certeza,  na garagem nos guardava outra coisa.

Entramos pela recepção e um rapaz de roupa cinza e chapéu cumprimentou-a pelo nome, que eu já havia esquecido. “Boa noite, Dona Sabrina”, e ela retribuiu. Passamos pelo saguão largo do hotel, ao fundo, no bar, um jazz ao piano embalava a noite de gente velha e endinheirada. O elevador bilíngue nos levou até o subsolo e quando a porta se abriu ela voltou a sorrir. “Duvido que você adivinha qual é o meu carro!”, disparou, confirmando minha suspeita de que o modelo antigo já tinha virado história. No estacionamento não havia muito carros, dez, para ser exato. Os com cara de família eu descartei primeiro e fui narrando meus palpites em voz alta, enquanto caminhávamos pela garagem. “Não é o nem o XC 90 nem o V60, porque você odeia Volvo. Não é a Cayenne porque você gosta de esportivos. Também não é o Range Rover, pelo mesmo motivo”, e segui narrando.

Dos outros seis carros, dois eram comuns, um Omega e um Accord, que não combinavam com a cara dela, em cores muito idosas e sem personalidade. Outros dois eram do próprio hotel, adesivados com símbolos da Haganá. No fundo, nas últimas vagas, um Mustang Cobra Jet branco e um Lancer Evo X vermelho sangue. Poderia ser qualquer um dos dois, ambos eram perfeitos para ela. “Puts, não sei, pode ser qualquer um dos dois. Qual é o seu?” e ela, com a mesma boca vermelha cheia de dentes respondeu com desdém: “eu dirijo os dois!” e eu ri, porque soava quase surreal. As luzes do Mustang se acenderam, ele era o escolhido da noite. Entramos no carro e o cheiro de couro invadiu meu olfato. O ronco do motor na partida ecoou por toda a garagem e antes de sair da vaga ela confirmou que hábitos não mudam: o rádio tinha que estar ligado.

O telefone cravado em um dispositivo no console exibia a lista de músicas da noite e eu já sabia que as eletrônicas dominavam em larga maioria. Mas quando o primeiro som surgiu, a primeira nota musical era um baixo, com um chocalho e assobios seguidos de uma guitarra tímida e um bumbo calmo. “Isso é Black Keys? Cadê os ‘psy-trance’ que você ouvia?” e ela acelerou fazendo minha cabeça bater contra o encosto do banco. “Agora eu ouço rock também, e até canto!”, e gargalhou, avançando na direção da saída. Quando os pneus tocaram o asfalto da rua ela gritou o primeiro verso da música misturando a voz ao tradicional som dos pneus queimando borracha. “I wanted loooove” e saiu a toda, ignorando os carros que vinham, o farol amarelo, as pessoas que atravessavam e o mundo ao redor.

“Tighten Up” tocando no carro, o vento gelado ressecando a pele do rosto, uma loira platinada sentada no banco do motorista e uma vida inteira pra morrer. Ela tinha voltado e eu saberia muito em breve o motivo. “Depois dessa música a gente conversa”, ela disse. E eu esperei…

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Na vontade

Tem coisa que a gente sente antes mesmo de acordar. Vem uma sensação estranha durante o sonho e quando os olhos abrem o sentimento já está lá. Pode ser uma coisa simples e comum, como vontade de ir ao banheiro, ou sede, ou fome. Outras vezes são vontades mais complicadas, como saudades de alguém, de algum lugar, de alguma coisa, e hoje ela acordou assim. Com uma vontade que não finda, que não se engana, que cresce dentro e vai saindo pra fora, pelos poros, arrombando os buracos e se desfazendo no colchão, molhando tudo, escorrendo pelo chão do quarto, deslizando pra sala, pra cozinha, pro elevador, pra dentro do carro, pra todo lugar.

Acordou pensando, mas não quis aceitar. Levantou da cama com a cabeça amarrada nos cabelos, foi ao banheiro, sentou-se no vaso e sentiu, tensa e concentrada, a vontade sólida que se abatia. “Nossa, acordei na vontade…” solta, com a voz ainda rouca e falhada, olhando o azulejo colorido da parede oposta no banheiro. Se levanta, escova os dentes, caminha sem rumo pela casa, volta ao banheiro, tira a roupa, entra no chuveiro e, no instante em que a água quente toca os ombros, sente que talvez ali, naquele momento, a vontade passe. Mas não passa. Não há dedo, nem chuveiro, nem escova que faça acabar.

Depois das roupas, da comida e do relógio vai caminhando para a porta e, por descuido, deixa as chaves caírem no chão. “Ahh, que merdaaa”, briga, como se tivesse alguém ouvindo, como se fosse o fim do mundo, como se fosse para tanto. Mas não era. É que acordou “na vontade” e continuava na mesma. O dia se arrasta, o calor aumenta, os problemas não se resolvem e ela não produz nada. Se incomoda com a obsessão e se repreende, bloqueia pensamentos, cansa músicas, fala com as pessoas sem ter assunto nenhum, só para ocupar o espaço da “vontade”, sem sucesso. “Quem foi que disse que mulher não pensa em sexo?”, se pergunta retoricamente. Ela, hoje, pensa o tempo todo.

Na hora do almoço, quase como uma piadinha, ou coisa sem valor, diz pras amigas de trabalho que está “na vontade” e ri, pra quebrar o gelo. Elas também riem, contam suas técnicas, algumas até dizem que já recorreram a uns dez minutos de paz no banheiro da empresa, mas ninguém leva muito a sério, ninguém tem uma solução confiável. Acaba o suco, acaba a comida, acaba o tempo, acaba a paciência e tudo vai ficando pior. As horas se arrastam, o calor aumenta, o cabelo é enorme, a nuca começa a suar, o meio dos peitos começa a suar, as mãos começam a suas e depois tá tudo molhado, tá tudo quente, tá tudo fora de controle.

De volta pra casa o mundo parece pegar fogo. As luzes apagas para não esquentar mais a casa, um chuveiro gelado que até complica a respiração, muitos dedos, muito tempo, muitas imagens e nada, nenhum remédio para o sintoma que não se mostra, se esconde lá no fundo, lá dentro, bem guardado esperando a maneira certa de abandonar o posto. Baixinho, quase que só com os lábios, repete uma mesma frase sentada no chão do box, tomando um banho gelado de causar hipotermia, pelada e largada, sem chance de mais nada. Vai repetindo a frase no meio do silêncio, apertando os dentes, com raiva, confusa, e se levanta, pelada e molhada, lavando a casa toda, deslizando no chão liso, passando pela porta, pelo corredor, entrando no quarto, escancarando a janela de uma vez, tomando uma rajada de vento frio no peito, arrepiando cada pelinho do corpo, pra botar a cabeça pra fora e gritar do 9º andar: “EU QUERO DAAAAAAARRR!!!”, até acabar o ar.

Depois disso, sem forças nem esperanças, foi só o eco no horizonte que respondeu.

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Suor

Ela dava voltas na pista, uma porção delas, incontáveis para mim. Meio dia, calor, muito calor e eu na sombra, acompanhando só com o movimento dos olhos, as voltas que ela dava pra lá e pra cá. Foi assim que tudo começou. Eu olhava porque era curioso, porque corria sozinha, no pior horário e sem fazer manha. Primeiro comecei a pensar no motivo daquilo, se realmente era necessário, porque ela já tinha o corpo que as mulheres estavam buscando, já tinha o formato que as revistas queriam vender. Sofria de graça, na minha cabeça.

Mas eu gostava de ver. Chegava perto das onze horas, com um shortinho grudado que, no fim da corrida, parecia mais uma calcinha grande, um cabelão preto preso liso e as vezes camiseta, às vezes não, e eu não entendia o critério, mas torcia sempre pelo mínimo de pano possível. Depois comecei a ficar na grade, vendo ela passar bem perto, concentrada, forte, linda e morena. O cabelo preto tinha tudo a ver com a cor quase jambo da pele, e eu comecei a me preocupar muito mais em observar os movimentos, os balanços, do que a corrida em si. Até que um dia ela me viu.

Bem na minha frente, como se fosse predestinado, caiu o iPod no chão. Ela teve intensão de parar, mas ao invés disso, continuou, talvez para pegar na próxima volta, já que naquela pista ela era solitária todo dia. Mas eu fui antes. Pulei a grade, apanhei o aparelho no chão e fiquei esperando ela chegar, com o braço esticado, como quem entrega a garrafa d’água para o primeiro colocado da corrida. “Vem, vem, vem comigo…” veio gritando, de longe, sorrindo e eu já entorpecido com a vista daquela mulher vindo na minha direção, fui.

Passou voando e eu fui atrás, correndo rápido, enquanto ela diminuía o ritmo lentamente até ficar ao meu lado. Entreguei o aparelho, ela agradeceu, tocou as minhas costas e quando menos esperei já estava completando uma volta. Abandonei-a na corrida, cansado, ofegante e feliz. Daquele dia em diante eu sempre ficava na grade, e ela sorria para mim, eu sorria para ela. Aí comecei a levar uma garrafa d’água. Quando ela começava a fazer caretas eu estendia o braço, ela pegava a garrafa e devolvia na outra volta, quase vazia. Gritava “você é um anjooo…” e passava voando, suando em bicas, firme, rígida, seca e marrom.

Eu, moleque de tudo, tinha sonhos eróticos com aquela mulher. Por isso nunca ficava até o fim das voltas. Quando percebia que estava se preparando para encerrar o treino eu ia embora, caminhando por portas e entranhas do clube e ela só me via no outro treino. Às vezes, raramente, ela não ia. E eu ficava na grade olhando a pista vazia, lembrando do subir e descer de suas curvas, do pendular do cabelo e do sorriso largo. Ela sofria com prazer e eu sentia prazer em vê-la sofrer. Eramos um par sadomasoquista diferente.

Um dia, de surpresa, ela parou de correr na minha frente. Fiquei petrificado, não tive como fugir e meu coração acelerou a um ritmo alucinante. Ela veio com todos os seus trinta e poucos anos na minha direção e se apoiou na grade à minha frente. Com o tronco abaixado, apenas as mãos apoiadas, ela pingava o suor do rosto no chão e ofegava barulhenta. Nesse dia saiu da pista, veio até mim e me abraçou. Eu, com meus dezesseis ou dezessete, já era mais alto, e só pude abraçá-la de volta.

Enquanto estávamos ali, grudados, senti seu suor me encharcar a camisa, o ombro e uma parte do pescoço. Sentia, inevitavelmente, um cheiro azedo misturado com perfume doce que suspeitei ter surgido do movimento dos braços levantados colocados ao redor do meu pescoço. Eu respirava fundo absorvendo o máximo daquele cheiro. Quando ela me soltou, sorrindo, disse que eu era a melhor platéia que ela podia ter, e depois me deu um beijo no rosto, na ponta dos pés segurando a minha cabeça, antes de ir embora.

Ela, se acabando em suor, molhou a lateral do meu rosto na hora do beijo. Instintivamente passei a mão e provei do gosto. Um sal tão amargo e forte que me fez querer lambê-la toda, num absurdo imaginário de dar-lhe banho com a língua, seca-la com a boca dos pés à cabeça, morrendo de desidratação e sentindo os cheiros que desodorantes e perfumes jamais conseguiriam disfarçar. Depois daquele dia eu não queria mais saber dos sorrisos, dos peitos firmes, da bunda redonda e dura, do abdome seco ou dos cabelos muito pretos. Dali em diante meu desejo era um só: sonhava em lamber suas axilas suadas para descobrir o gosto salgado, azedo e sensual daquela pele colorida.

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Até o decadente me atrai

Até o decadente me atrai. Eu sou decadente, se comparado ao que fui há algum tempo. É como uma coisa linda e moderna dos anos 1970, que hoje é, no máximo retrô ou cult. Colecionável, é o nome que se diz. Somos todos colecionáveis, cult ou retrô, como preferir, à partir de um dado momento. Talento de quem consegue continuar se interessando pelo velho, pelo que já não inova, pelo que não muda. É quase como ter compaixão, ser legal, gente fina mesmo, sabe?

O decadente me atrai, no centro, vendo os prédios comerciais cheios de salas vazias, os mendigos dormindo por baixo das marquises, as calçadas esburacadas, as raízes das árvores tomando conta de tudo, saindo para o céu, dando à rua, às calçadas, o ar da graça. Isso muito me interessa. A mancha preta, quase um ranço, um sebo, um visco, que fica na fachada dos prédios, pintando os vidros das janelas de marrom opaco, tudo tem história, consequência e reação. Isso sempre me atrai.

Me atrai o morto, o legado, a herança e o sobrenome. A história está sempre lá, seja no corpo, nos escombros, nas ferragens, nas fundações, onde quer ou quem quer que seja. O que já foi sempre me interessa. O passado, o “ah como era bom”, o comecinho doce de todas as coisas bonitas da vida. O começo sempre me atrai. Depois vai ficando igual o entorno, depois vai ficando igual o mundo todo, depois vai ficando velho, depois vai ficando escuro, depois vai ficando ruim e aí eu já não me importo tanto. Aí fica na boca do lixo, destruído, sem valor nenhum, sem nada para dar, aí entra na decadência: daí eu volto a me interessar muito.

Gosto dos extremos e desde pequeno foi assim, sempre foi, sempre será, espero. Uma amiga, uma grande amiga, uma vez me perguntou uma coisa que eu demorei a conseguir responder e nunca respondi. Talvez eu nunca a responda. “Por que, na sua vida, tem que ser tudo intenso? Por que nunca tem nada comum, leve e simples?” Quem quer responder pra mim? Eu não sei. Só sei que não me acomodo com o morno, o simples e o estéril. Sempre gostei de paz e tranquilidade, mas isso nada tem a ver com coisas rasas e comuns. O “leve pesado” existe, você sabe que existe.

Às vezes eu penso que é difícil viver assim, nessa busca infinita e incansável pelo que é novo, sem aceitar ou me conformar com o que existe em momento algum. Já tive muitos problemas por não aceitar a situação eterna, por não me acomodar confortavelmente no estável e seguro. “É difícil ser você” eu dizia quando tinha uns 17 anos, achando que não ia dar pra segurar a onda de viver querendo engolir o mundo. “É difícil ser sua amiga”, ouvia, de vez em quando, de ano em ano, de gentes diferentes, e ainda ouço. Sofria cobranças por nunca querer as mesmas coisas, por ser inconstante e imprevisível. “É difícil ser sua namorada”, ouvi, não uma vez, nem de uma única pessoa, porque deve ser difícil mesmo, não sei, nunca namorei comigo.

É difícil viver entre os outros. Todo mundo sabe que não dá para se acostumar, a gente não pode, não deve se acostumar. Podemos, sim, acalmar em uma situação confortável, em um momento de baixa, de tranquilidade, mas nunca devemos parar os desejos, as ambições e as curiosidades. O saber dá poder. Deve ser difícil viver sem nunca evoluir, sem nunca querer nada, sempre pensando em comprar novas coisas, em ter mais coisas, sem nunca querer saber, querer ser, querer proporcionar. A vida material é vazia, comparada ao volume de conhecimento que a gente pode absorver, mas não posso negar que seja divertida. Na verdade, tudo me diverte. Até o decadente e sem valor.

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O circo no quarto

Por cima dos móveis da sala só copos, latas, garrafas e lixo. Lixo de festa, papéis estranhos, coisas amassadas, embalagens, e sujeira esparsa, acumulada, enfeiando a decoração. Cervejas, vodcas, combinados, vinhos, espumantes, frizantes, algumas solitárias garrafas d’água e uma ou duas latas de Coca-Cola. Da vermelha, com açúcar, pra misturar a vida, a noite, tudo num copo só e mandar para dentro. O tapete meio jogado no canto, o chão de madeira riscado de salto, de vidro quebrado, de pista de dança improvisada em festa sem controle.

No corredor pro quarto o aparador estava cheio de nada. Tudo que tinha em cima foi embora. Ou tiraram, ou caiu e se misturou com o resto da bagunça, não se sabe. Dois pés de ferro ligados a um tampo de vidro fixado na parede, manchas arredondadas de líquidos secos e sujeira. Na porta da frente, o lavabo, uma marca de mão suja no meio do batente. Suja de alguma coisa marrom, ou vermelha. Vinho, sangue, terra, tanto faz. Passou ali e deixou a marca. Passando pela porta uma montanha de papéis empilhados no cento de lixo, uma pia um pouco vomitadinha, assim, no canto, de leve, de bêbado que tentou lavar a merda mas não teve muito empenho.

Mais pra frente, na segunda porta, o quarto de hospedes. Acabado. A cama de solteiro está só o estrado, com o lençol todo embolado num canto, o colchão meio em baixo, meio em cima da armação e uma porção de objetos aleatórios no chão. O controle da TV, um cinzeiro virado, alguns porta retratos com fotos de viagens minhas, um monte de flores de plástico, uma furadeira sem broca, alguns copos, latas e uma bolsa de mulher que não me animei a investigar. Na parede, inusitadatamente bem escrito, numa caligrafia feminina, delicada, feita a batom cor de rosa, um recado. “Fui chupada aqui” e uma seta apontando para a cama sem colchão. Bom pra ela, acho.

Lá no fundo do corredor a porta do quarto, do meu quarto. Dentro, um cômodo nitidamente mais organizado que o resto da casa. A cama, de casal, está pelada, com o colchão sem lençol, cobertor ou coisa que a cubra. No chão um par de sutiãs de cores diferentes, um vestido, um pedaço de pano retorcido que adivinhei ser uma calcinha minúscula e o resto até que estava inteiro. O telefone do criado mudo foi para o chão, o abajour estava milagrosamente inteiro, nada escrito na parede, umas três ou quatro garrafas perto da parede, copos e um par de pernas jogadas do outro lado, depois da cama. Fui até lá e um corpo de mulher jovem dormia jogado entre o edredom que deveria estar sobre a cama.

“Bom dia”, desejei a ela, que estava acordando com a minha presença. A voz saiu rouca, grave, seca e o copo d’água na minha mão era um sinal de que o corpo precisava descansar. Ela se virou para mim, com os cabelos escuros grudados na cara, bagunçados e sem formato e percebeu que estava sem roupa nenhuma. Se cobriu assustada, me olhou de novo, olhou para o quarto, ao redor, para si mesma e perguntou da outra. “Foi embora, deixou um sutiã e você…”, e sorri, porque não tinha outra cara para fazer diante de alguém que foi deixado para trás. Durante alguns segundos ela ficou parada, em silêncio, como se recuperasse memórias de muito longe, até me olhar com um rosto muito sério e temeroso perguntando o que a gente tinha feito ali. “Pra resumir, foi como ter um circo dentro do quarto!” e saí pra ela poder assimilar.

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Calípso [3/3]

Durante a noite sonhei com ela. Sonhei que vinha voando, com asas enormes e me pegava pelos ombros, como uma águia e me levava para voar. Aí me jogava de lá de cima e eu, depois de me assustar com a queda livre também voava, batendo asas e vendo o mundo junto dela. Dizem que quando a gente sonha que voa quer dizer que o corpo está tendo um orgasmo químico. Não duvido. Acordei bem cedo, lá do outro lado do quarto podia ver o contorno de alguém debaixo do cobertor. Era Calípso, aproveitando do benefício de não ter sonhado comigo, provavelmente. A todo momento eu pensava no que ela tinha me dito: “eu sou duas”, e tentava decifrar a brincadeira.

Saí atrás de comida e voltei mais rápido do que pretendia. Quando cheguei ao quarto ela ainda dormia, mas me ouviu entrar. Virou-se dura e seca na cama para ficar de frente para mim, me olhou sem sorrir e eu nunca a tinha visto tão morena. “Oi…” me disse, lá de longe, como se tivesse brigado comigo, ou como se ainda estivéssemos na fase das apresentações formais. Levantei e fui até ela, mas por medo ou desconfiança, não sentei em sua cama. Fiquei no colchão ao lado, sentado, com os cotovelos apoiados no joelho e olhando para ela. “Bom dia, dormiu b…” e antes que eu terminasse a minha pergunta ela me interrompeu. Me perguntou se eu já sabia “delas” e fiquei confuso por um segundo, até responder que sim, sem saber ao certo se estávamos falando da mesma coisa.

“Pela sua cara você me comeu ontem, não foi? Olha, nada pessoal, mas isso não vai acontecer comigo, quer dizer, com ESSA versão de mim. Desculpa” e eu fiquei imóvel, como se não tivesse me abalado, quando por dentro eu desmanchava como um sorvete no forno. Ela se levantou e passou por mim fria e desinteressada, sincera, na verdade. Ao olhar sua figura caminhando para a porta percebi que era mais corpuda, tinha mais curvas, uma bunda maior, e comecei a acreditar que, talvez, só na minha imaginação, Calípso fosse duas mulheres dentro de uma só. Rapidamente me lembrei do dia em que chegou, que conversamos por horas e, no dia seguinte mal me conhecia. E no dia seguinte a este, acordou me amando, me convidando para passarmos o dia junto e transou comigo. E no meio da noite o cabelo foi escurecendo e sem motivo não quis dormir comigo. E hoje acordara como se fosse outra. “Meu Deus!” disse, arregalando os olhos ao máximo com o corpo arrepiado.

Saí para a rua para respirar alguma coisa que parecesse normal. As bicicletas de Berlim pareciam normais, o frio parecia normal, as pessoas pareciam normais e o Sol era bem normal, esquentando pouco, iluminando absurdos. Instintivamente caminhei pelos mesmos lugares onde passamos no dia anterior, lembrando dos comentários que ela fazia, das brincadeiras e de como eu gostava de ouvi-la falar, ouvir português numa terra distante, na voz mais linda, com o cheiro mais interessante e exótico do mundo. Eu a queria de volta e sabia, mesmo que com algumas dúvidas, que no dia seguinte ela estaria lá. Esse era o plano!

Forcei para que o tempo passasse. Li livros e revistas, tomei incontáveis cafés, almocei comendo lentamente, esticando a duração de coisas rápidas para o dia sumir. De tanto caminhar, cansei, e de tanto cansar, voltei para o albergue e decidi que dormiria logo para acordar logo e encontrá-la novamente. Não passava das seis da tarde quando cheguei ao quarto vazio. Sobre o meu travesseiro, um bilhete: “Não fica bravo, você é gato! Bjs Cali.” Não consegui definir meu sentimento ao ler aquilo, mas mantive o plano de dormir cedo. Enquanto o sono não vinha fiquei planejando como seria quando eu acordasse, o que eu diria a ela e o que faríamos juntos. Estaria disposto a viver assim, dia triste, dia feliz, pro resto da vida se fosse preciso. No meio das ideias, apaguei.

De repente acordei ouvindo passos de salto alto caminhando no quarto. A outra tinha chegado sabe-se lá de onde. Não acendeu a luz e no escuro permaneceu. Pela pouca iluminação que vinha da janela pude vê-la repetir o mesmo ritual do outro dia. Tirava as peças de roupa, uma a uma, até ficar só de calcinha e depois vinha o pijama. Mas dessa vez não. Manteve o sutiã, a calcinha e não pegou pijama, não se deitou, não guardou as roupas no chão nem arrumou a cama. Ela veio até mim. Fingi que não estava vendo mas era impossível não reparar que o corpo era muito diferente, o formato e até o comprimento do cabelo eram diferentes. Era outra mulher.

“Não precisa fingir que não está me vendo”, disparou, antes de se sentar semi nua na cama ao lado. Eu olhei para ela ainda sustentando o teatro e me esforçando para não olhar para o seios que, com certeza, estavam muito maiores, sem nenhuma dúvida. “Preciso perguntar uma coisa”, disse olhando diretamente para mim e nesse momento foi impossível não sentir o cheiro de álcool de dentro de sua boca. Eu fiz um movimento com a cabeça pedindo que continuasse falando e ela, sem dizer nenhuma palavra, subiu na minha cama e se ajoelhou sobre mim, assim com  a “minha” Calípso fez quando transamos na noite anterior. Acho que era a posição preferida de ambas, não sei.

Tirou o sutiã e a minha certeza se confirmou. Seios novos, corpo novo, cabelo mais cumprido, tudo diferente. Enquanto eu admirava aquele corpo perfeito ela se deitou sobre mim, assim como fez a outra quando me contou que era duas. Veio com a boca alcoólatra bem perto do meu ouvido e disse: “Tem marcas de dente no meu seio esquerdo…”, e apontou para uma porção de marcas vermelhas no próprio corpo, ainda quase colado em mim. “Foi você, ontem?” completou a pergunta, me olhando feroz, com a testa franzida e a respiração acelerada. “Foi…” respondi, e sorri, porque já não dava para levar aquilo tudo muito a sério. Então ela saiu de cima de mim, ficou ao lado da cama e abaixou a calcinha, sem pensar, sem pudor, sem crise. Voltou para a cama, agora completamente nua e bêbada, e impôs: “Então me mostra como é que foi”, e me beijou o beijo mais intenso de toda a minha vida. Eu amava Calípso, fosse ela quem fosse.

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