Arquivo mensal: outubro 2012

Casais drogados são utopia

Eu sempre achei casais de droga incríveis. A gente tem uma maneia fantasiosa de admirar muitas coisas que a gente não faz ideia de como são. Essa é uma delas, no meu caso. Sempre achei que o amor de um casal de drogados era infinitamente maior do que o amor careta. Eu via nos filmes, nas revistas, nos livros e era sempre muito lindo. Aquele sofrimento doentio da abstinência, o suor, as crises de loucura e o mundo inteiro perigoso protegido na figura de uma única pessoa: o par.

Sempre tive graus de admiração para casais viciados em coisas diferentes. Os casais maconheiros, por exemplo: eu sempre projetava naquelas utopias de sociedade hippie, com aqueles amores falando lentamente, com flores, plantas medicinais, gente coloria e sorrindo pra todo lado. Esses, eu, por algum motivo, imaginava que, quando envelhecessem, iam se tornar aquelas famílias de pai gordo, mãe calma, filhos na faculdade e gente da vizinhança admirando. Família de filme americano, sabe? Esses eu admirava menos.

Os casais de ácido e bala eu já curtia mais. Li um livro, uma vez, que os caras se matavam em casa, se odiavam, mas eram viciados em música eletrônica, LSD e anfetamina. Então eles se odiavam durante a semana, não conseguiam dividir o mesmo teto, mas na sexta-feira iam pra uma festa, enchiam o cu de droga e se amavam como se eles fossem as últimas pessoas do planeta. Uma espécie de Adão e Eva do mundo moderno, com suas drogas coloridas, com as músicas tecnológicas, com sorrisos rasgados, o rosto abatido de cansaço e tudo mais. Eles trepavam na lama, no mato, no backstage e viviam um amor doente e visceral. Eu os admirei muito nos meus 19 anos, quando li essa história.

Mas de uns tempos pra cá, nos últimos dois anos, percebi que o verdadeiro amor de droga, o que eu idealizei e criei sozinho na minha mente, é o da cocaína e o da heroína. Os casais criam uma dependência linda, têm uma hipersensibilidade cutânea e ficam se abraçando o tempo todo, se beijando pelados sem sentirem o menor pudor. Eles se amam de um jeito quase canibal, como se ter alguém e ter drogas fosse o único propósito da vida. Eles trocam juras de amor intensas do tipo “nunca vou me separar de você”, “nós vamos morrer juntos”, “nunca vi alguém tão linda quanto você”, “você é tudo que eu tenho na minha vida” e por aí vai.

As juras de heroína e cocaína são sempre com “você”, porque o que é realmente importante, na vida dessa gente, é o outro. É uma doação de corpo e alma, um amor regado a todo tipo de alucinação, a orgasmos históricos e histéricos. De repente a televisão já nem é mais tão importante, e os jornais não dizem nada útil, o mundo começa a ficar marrom, cinza, branco e preto e, dentro de casa, tudo é vermelho sangre, azul royal, verde limão e amarelo ovo. É uma profusão de cores intensas que se mistura com uma dependência e uma devoção que nem nos escritos antigos você acha igual. O amor desse tipo só nasce, verdadeiramente indelével, quando o exagero de consumo de droga já passou faz tempo. Exagerar, para esses, é usar pouco! O nível aqui é outro…

Logo eu, que sempre fui meio careta, achava que o amor da droga era mais forte, mais duradouro e mais real do que os que a gente alimenta com cinema, pizza, amigos e família. Eu achava que o amor da droga era o verdadeiro “dois contra o mundo” que a música diz. Sempre acreditei que dividir uma vida com alguém que alucina como você, que vê o mundo como você, que vê a morte subindo as escadas, caminhando pelo corredor, entrando pela sala e pegando tudo dentro de casa era o máximo da devoção de um casal. É como querer se esconder dentro do corpo do outro, vestir-se da pele do outro, tornar-se um só, invencível, sem medo, sem tristeza e sem fim.

Mas hoje, 24 de outubro de 2012, eu mudei completamente de opinião.

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Nosso cotidiano não é de Chico

“Todo dia ela faz tudo sempre igual…” é o que diz Chico Buarque. Mas o “Cotidiano” dele é bem diferente do meu. Do nosso! Hoje o Chico deve acordar bem tarde, lá pras 11h da manhã, dar uma lida no jornal, tomar um café, fumar um cigarro, dar uma caminhada na praia, tomar uma água de coco e, aí sim, o dia dele começa pra valer. Já o nosso é um pouco menos garboso, né? Pensando em como meus últimos 15 dias têm sido estranhos, atípicos e nada regulares, não dá nem pra pensar direito em traçar paralelo entre a música e a minha vida.

Eu, antes, acordava às 5h30. Depois minha rotina mudou um pouco e eu passei a acordar às 5h. Foda, mas eu me acostumo rápido com essa coisa de sono ou, sem sono ou, fodido de sono. Hoje em dia, um pouco por pirraça, um pouco por depressão, acordo às 7h. Glorioso acordar com o sol na cara, muitas vezes antes do relógio despertar. Só que a vida não é muito gloriosa estando na minha pele nos últimos tempos. De qualquer maneira, se eu quiser aplicar a música do Chico, lembro da Juliana, minha namorada, e canto dizendo que “ela faz tudo sempre igual” pensando que a Juh, essa sim, tem dias mais regulares que os meus. Mas não mais fáceis.

Depois de acordar eu tomo banho. Em toda a minha vida profissional foi assim. Acho que desde os 18 anos, quando comecei a trabalhar (tarde, eu sei, mas eu queria curtir a vida) só fui trabalhar sem tomar banho uma ou duas vezes. Não dá, não tem como. Durante o banho, se tem shampoo eu uso, se não, lavo com sabonete mesmo. O contrário também acontece. Fico ali, de bobeira, banhão pra acordar e fim. Todo dia é assim. “Todo dia ‘ele’ faz tudo sempre igual…” me ocorre.

Depois, contrariando a lógica da higiene e do bom senso, me reservo ao direito de ter alguns minutos de rei, como todo ser humano merece. Apanho um livro (só leio no trem, no metrô, ou cagando) e curto meus momentos de realeza. O livro titular, no momento, é um de crônicas publicadas no Estado de S. Paulo pelo do Caio F. Abreu. Comprei porque queria perder o preconceito que eu tenho contra o autor, e não é que tá dando certo? O cara é tristão e engraçado ao mesmo tempo, misturando alguma coisa de Cazuza, Ney Matogrosso e alguém amigo do João Gilberto que não ficou famoso. É uma boa leitura.

A maior parte das colunas dele falam sobre música, sobre ele, sobre São Paulo ser linda, sobre São Paulo ser uma merda e sobre hábitos e tristezas cotidianas. De certo modo, mesmo que hoje já morto, “todo dia ‘ele’ faz tudo sempre igual…”, ou fazia, e não conseguia fugir disso. Mesmo assim, cheio de amigos bons, importantes e bacanas, a vida não era bolinho pra ele não. Nem pra ele, nem pra nós!

Depois eu me visto. Boto qualquer roupa, qualquer calça, qualquer tênis, beijo minha guia, pego celular, cartão, cartão, cartão, cartões (a gente anda com muito cartão, né?) e vou pra rua. As mesmas músicas no mp3, o mesmo caminho de todo dia. A mesma padaria, o mesmo pedido, as mesmas pessoas, os mesmos policiais comendo nos mesmos horários e se revezando na mesma ordem, o mesmo preço, o mesmo “não precisa da minha via” todo dia. “Todo dia ‘ele’ faz tudo sempre igual…” continua sendo assim, mesmo que para o Chico, ou para o Seu Jorge, que relançou essa música há uns três anos, a rotina seja diferente.

Aí eu caminho, pego o ônibus, fico com calor, trabalho 12h, às vezes 13h direto, chega à noite, tudo que eu quero é me encontrar com a Juliana, ir pra casa, assistir TV do lado dela, falar amenidades, reclamar da vida, fazer planos pra ficar rico, pensar em futuros investimentos e depois dormir. Nem sempre a Juh pode me ver, nem sempre eu tenho tempo de ver TV, nem sempre tenho ânimo para fazer planos para ficar rico, mas a coisa segue nesse roteiro basicão. A emoção toda, de todo dia, não é um cotidiano poético, tediante, mas bonito, de Chico Buarque. Tá mais pra alguma coisa entre P.O. Box e Luka. Repetitivo, chato, sem muita emoção, que às vezes faz a gente rir, mas na maioria das vezes só nos dá saudade do Chico, do Seu Jorge ou de outras gentes que têm um cotidiano bem dançante!

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Você não quer ser solteiro(a)!

Vai saber o que é ficar sozinho quando o mundo começa a desabar. Você não vai gostar e, caso já tenha passado por essa situação, ou esteja passando por ela, vai concordar que é uma tortura sem fim. Você pode achar a vida de solteiro um máximo, ter todos os melhores argumentos sobre liberdade, disponibilidade e abertura para novas experiências. Tudo bem, eu sei, já fui solteiro, todo mundo já foi. Agora, tenta manter o mesmo discurso quando você estiver com um problema, infeliz, perdido ou em dúvida com alguma coisa importante. Estar solteiro é uma merda nessas horas!

Você quer estar solteiro para beber e fazer coisas que sóbrio você não teria coragem. Você quer ficar solteiro para poder correr o risco de ficar com aquela pessoa que é seu “sonho de consumo” desde sempre. Você quer ser solteiro para andar por aí sem dar satisfação, sem se preocupar com o celular tocando, sem ter que mentir para se divertir. Você quer ser solteiro porque a vida é ótima! Você não vai querer ser solteiro quando os bares não estiverem tão legais, nem quando o seu “sonho de consumo” te apresentar o novo namorado, nem quando você não tiver com quem sair. Aposto que não!

Desde que eu dei o meu primeiro beijo na boca, passei mais tempo namorando do que solteiro. Isso porque sei bem do tamanho dos meus problemas e da intensidade dos meus sentimentos. Eu gosto de dividir com alguém, gosto de ter uma pessoa única para contar uma notícia única. É bom pra caralho ter sempre pra onde correr. A gente vive numa euforia de só lembrar que a vida é linda, que está tudo bem, que todo mundo é sensacional. Sim, eu concordo, a vida é mesmo linda, mas a beleza dela vem, justamente, do contraste dos momentos bons com os momentos ruins.

Namorar é ter alguém. E isso pode parecer nada se você nunca precisou de ninguém, mas, como todos somos humanos, você sempre vai precisar de alguém, hoje ou no futuro. Ter alguém é intensificar a alegria das descobertas bestas, é esticar as risadas sem nenhum propósito, é poder fazer planos! Durante muito tempo da minha vida, mesmo namorando, seja lá com qual namorada fosse, eu não fazia planos. Sempre tive medo da frustração de fazer planos e, depois de um tempo, tudo dar errado e virar ilusão. Hoje em dia aprendi que não é assim.

Fazer planos com alguém é quase tão gratificante quanto imaginar as infinitas respostas para “o que você faria se ganhasse na loteria?”. A diferença é que ganhar na loteria depende de sorte, é quase impossível e não existe nada que você possa fazer para aumentar suas chances. Fazer planos com alguém é como jogar na loteria sabendo que, apertando aqui, planejando ali e, claro, contando com um pouquinho de sorte, o final vai ser o esperado, ou até melhor.

Ter alguém é ter benefícios todo dia. É ganhar presentes legais fora de datas comemorativas. É ter alguém pra comprar um remédio que você precisa, levar uma camisa na lavanderia quando você não tem tempo, te buscar no trabalho quando você não tem mais ânimo. Ter alguém é olhar as vitrines pensando o que a outra pessoa usaria ou não. É ver uma coisa legal e comprar só pra poder presentear e dizer “olha que legal!”, é poder planejar surpresas, viagens, jantares, almoços, cafés-da-manhã e mais uma infinidade de coisas.

Ter alguém é trepar toda hora, em qualquer lugar e sempre ser bom. Tem muito solteiro que transa com uma pessoa nova por dia, mas todo mundo sabe que a euforia dura pouco. É mais legal contar as histórias para alguém do que realmente estar dentro delas. Quem já leu “Malu de bicicleta”, do Marcelo Rubens Paiva, sabe bem como é isso. Criar sinergia, trocar energias, misturar interesses e transcender. É esse tipo de troca que rola no sexo de quem se encaixa, de casais que acham, entre si, que o outro trepa bem pra caralho. Metade de um relacionamento é baseado no que se faz na cama e, se você é solteiro, seu relacionamento é baseado em algum sexo, muito computador, muita comida e algumas masturbações esporádicas.

Você não vai querer estar solteiro quando estiver com alguém que realmente faça sentido. Mesmo com todos os problemas, com todas as dificuldades e todos os erros, não ser sozinho é sempre melhor! Acredita em mim…

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Raquel: a irmã negra

Eram todas mulheres pretas. Naquela época, ao menos. Escuras como a noite, com dentes brancos e afiados, queixos fortes e braços firmes. Rosângela, Roseli, Rafaela, Rosana e Renata: todas negras! E ainda tinha uma outra, mas essa era forasteira no ventre da própria mãe, tátil e real demais. Eram moças bonitas, ou nem tanto, mas com a beleza da vida dura estampada nas caras, nos ossos salientes no colo, nas pernas musculosas, nas bundas duras e redondas. Pretas, fortes e lindas, como era de se esperar. Seis filhas da mesma mãe, uma negra tão incrível quanto a própria mãe natureza. Pariu seis meninas no mesmo dia e depois morreu. Cinco viraram estrelas, uma virou planeta, mas isso é coisa pra depois.

Rosângela matava filhos alheios. Era a menor, mais baixa e magra de todas. Matava crianças, sim, eu sei! Saía de madrugada pela janela do quarto, pulava do peitoril para um galho, deslizava para o tronco, descida até o chão e caminhava amassando folhas secas na escuridão. Invadia casas de gente desconhecida e cortava as gargantas dos pequenos enquanto ainda dormiam. Nenhum som, nenhuma pista, nenhuma vítima viva. Não errava, mas acordava no dia seguinte sem saber. Dormia e era tomada por um sonambulismo assassino que não dava as caras à luz do dia. Foi a penúltima a sair do ventre da mãe Terra.

Renata era gorda. Tinha um rosto redondo e suado e exibia um sorriso alegre 24 horas por dia. Quem via a moça dormir podia jurar que ela sorria de olhos fechados. Cozinhava para quatrocentos. Era seu dom, sua missão, sua vocação e sua penitência. Foi a única que herdou os dotes culinários da mãe, mesmo sem tê-la por perto para ensinar nada. Quatrocentos pães com geleia, quatrocentas canequinhas de café com leite, quatrocentos pedaços de bolo de milho. Isso só para quem acordava. O almoço e o jantar eram mais caóticos, mas não fazia diferença: ela passava a vida cozinhando e rindo, sem reclamar ou se cansar. Fora a terceira a nascer.

Rafaela era lésbica, ninfomaníaca e mentirosa compulsiva. Chupava e dedava todas as amiguinhas quando ainda estava na escola. Agora, já com 20 e poucos anos, assim como as irmãs, se dá ao capricho de transar com uma moça por dia, sob a desculpa de ajudar as meninas a conhecerem o próprio corpo. Ela sim, conhecia o corpo de todas as mocinhas. Era uma preta criada com base no diamante escuro, na pérola escura, no carvão seco. Tinha peitos que não cabiam em decotes comuns, coxas que não se seguravam em vestidos comuns, mãos que não se contentavam em apenas tocar e dentes que não se cansavam de serem brancos. Existiam boatos de que um dia, no futuro, todo homem da aldeia teria chifres e todos, sem variação, seriam plantados em suas testas pelas mãos e línguas de Rafaela. Ela foi a última a chegar.

Roseli era albina. Uma preta que não podia com o sol, não podia com a luz, não podia com o próprio dia. Sabia tudo sobre estrelas, tempo, espaço e espíritos. Convocava reuniões na sala de casa e só chamava gente que já morreu. Sabia tudo sobre os dias de chuva, os tempos de seca, as grandes aparições e os nascimentos exóticos da aldeia. Tinha fama de feiticeira, de bruxa, de alquimista e de vidente. Mas, na verdade, astrolábio, livros, regras e cristais amarelados eram suas verdadeiras armas contra o mundo real. Roseli vivia em uma outra dimensão e era consultada como um oráculo que tudo sabe e tudo vê. Foi a quarta a nascer, mas alguns acreditam que, por ter vindo branca, estava sem alma, então, por consequência, natimorta.

Rosana queimava as coisas. Tinha de dormir na terra, deitada no chão e sem roupa. Tudo o que a moça tocava entrava em combustão. Acendia o fogo, cozinhava com a irmã Renata e olhava para o horizonte quando queria esticar os dias. Queimava o sol com os olhos e o fazia subir por mais alguns minutos. Soprava labaredas gigantescas e levava florestas, idosos e cães à loucura, enquanto se queimavam acidentalmente. Adultos, crianças e outros bichos não se prejudicavam no fogo de Rosana. Eram chamas esverdeadas, seletivas e inconstantes, quase como se fossem mágicas. Foi a segunda a nascer, mas mentia para qualquer um, dizendo ter sido a primeira a sair do ventre da mãe. “Acendi uma tocha na frente e minhas irmãs seguiram minha luz na hora de nascer”, era o que ela dizia.

A primeira a nascer foi uma outra. É uma que não é tão negra. Na verdade, é parda quase branca, de um tom de pão recém saído do forno quase impossível de acreditar. É o tipo de mulher diferente das que vivem na aldeia. Tem a bunda branca, branca de verdade, quase como se não tivesse a mesma pele. A frente dos peitos também é clareada, assim como a nuca, as canelas e as virilhas. A irmã mais velha tem outras cores e outros talentos. Ninguém diz seu nome. Ninguém olha diretamente para o seu rosto. Ninguém jamais ouviu sua voz.

A última irmã, conhecida como “R. Negra” não tinha jeito de gente. “Érre Negra não é dessa vida. Veio de outro tempo para nos mostrar alguma coisa que não sabemos hoje”, diziam os velhos. A moça organizava enormes encontros de estrelas e chamava, por gestos, a irmã guru para ouvir os astros falarem sobre música, amores e criações. R Negra chamava os espíritos para comer pizza, chamava os bichos para beber água e chamava os futuros para se misturarem com os presentes. Dimensões todas trocadas dentro de canequinhas de café. A menina chamava as outras vidas para morrerem aqui, junto conosco. Quanto mais fazia isso, mais branca ficava, mais diferente se vestia, mais estranhamente vivia.

A primeira é a mais preta de todas. Com a pele da cor da sua e da minha, com uns olhos verdes estranhos, escuros e acinzentados, com a bunda das negras, com a pele das brancas, com a força das negras, com o cabelo das brancas, com o olhar das negras, com o sorriso das brancas, ela escurecia tudo ao seu redor. Roubava a luz dos outros seres, como se bebesse almas e apagasse sonhos. R. Negra tem a alma escura e, por isso mesmo, sempre foi a verdadeira Mãe Preta. Uma dia ela matou as outras cinco irmãs, mas isso é história para outro horário, quando a vida real voltar a ser mais importante do que essas coisas todas que aconteceram por aqui.

Tem nome. Raquel. Mas ninguém sabe disso e, no fim, que diferença faz um nome, não é?

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Ah, essa é a sensação?

Este é o texto nº100 do meu blog. Nada melhor do que zero utopias, zero invenções e zero mentiras neste, em especial!

A investigação de um crime, para ter chance de chegar a um final sólido, precisa reunir todas as provas, ou a maioria delas, em até 24 h depois do acontecido. Depois disso as impressões digitais começam a sumir, as coisas vão evaporando, mudando de forma, cor e lugar. Tudo começa a sumir depois de 24 h. Na verdade, esse prazo da equipe de criminalística se aplica a quase tudo na vida. A relevância de uma música é medida nas primeiras 24 h após seu lançamento, um ferimento é monitorado e avaliado durante um dia, até que se possa estimar o tempo médio de cicatrização.

Em 24 h o mundo gira, tudo muda, fica escuro, fica claro e você pode morrer ou renascer. Eu sei como é isso, porque comigo começou às 7h da manhã e eu vou te contar como é. De cara o que posso dizer é que não é fácil. Sentir o peso, a pressão de ver o planeta girar não é agradável.

Primeiro veio o susto. As pupilas dilatas, a cabeça sonolenta, recém desperta, sem conseguir formar conceitos, sem entender quase nada, sem saber o que foi que aconteceu. Depois disso aparece um dos sintomas de defesa do organismo: a dúvida. Você começa a se perguntar se aquilo é mesmo o que você está pensando. Pode ser um engano, pode ser uma brincadeira, pode ser um teste, pode ser alguma coisa diferente do que realmente é. Por alguns segundos você para e presta atenção a tudo, tendo certeza de que não é um daqueles sonhos ruins. Não é.

Depois surge o desespero e, com ele, os dois sintomas mais fortes e persistentes em toda a jornada das 24 h. O perto no coração seguido de uma insuficiência respiratória insistente. Você não pensa direito, não respira direito, não fala direito, não tem fome, não tem sede e as pupilas não voltam ao normal. Você é tomado por um medo puro, daqueles que não têm fonte, nem motivo. Só vêm, se instalam em seus ombros, sobre você e nunca mais saem. Esse medo te abraça como uma camisa de força e por mais que você queira se libertar, nada funciona.

Depois vem o instinto de tentar fugir. Você pega o carro e dirige em alta velocidade, ou sai andando pela rua sem destino, ou procura algum lugar, fisicamente longe de onde você está, para onde você possa ir e se esconder. O problema é que o trajeto é torturante. Você está sozinho, assimilando uma porção de coisas, tendo uma porção de memórias e não consegue se salvar. Tenta respirar no meio desse turbilhão! Aí, quando você chega no seu destino, ou quando desiste de fugir, de correr, vem a certeza de um sentimento marrom, acompanhado de outro verde-oliva, e esses te botam no chão como se fosse um pedaço de asfalto. Diga olá à vergonha e ao arrependimento!

Quando esses dois chegam e se juntam você já está longe da sanidade mental. Cai na real de que está fugindo, indo pra longe, correndo, mas a vergonha que você sente é de si mesmo. E aí vem a pergunta cruel nº1: “tá fugindo de quem? tá fugindo pra onde?” Não tem resposta, porque não é possível fugir de nós mesmo, seja lá para onde nós fomos. Depois disso você quer conversar, contar pra alguém, esvaziar o tanque, tentar furar o balão e daí você se derrama em falar. Conta tudo, vai falando, vai misturando relatos históricos com memórias sentimentais e vai costurando uma história que, no fundo, é uma caricatura sua, feita por uma criança que não sabe desenhar, usando a mão esquerda.

Depois começa a acontecer o efeito público. As pessoas começam a comentar, começam a perguntas e começam a entender. A mente humana se vale da intuição o tempo todo. Ninguém precisa me perguntar para saber, ninguém precisa de todas as peças do quebra-cabeça para adivinhar a imagem que vai se formar. Nessa hora vem a pergunta cruel nº2: “o que eu faço agora?” Não tem o que fazer, não tem pra onde correr, não tem como fugir. Essa sensação de estar perdido começa a tomar conta de tudo. Aí você se desespera e começa a tentar falar com quem não devia ser incomodado.

Esses contatos com “personagens proibidos” geram coisas ainda piores. Não dá para prever o que uma pessoa com ódio pode dizer, fazer, desejar e, acredite, você nunca conseguirá imaginar o que se passa do outro lado. Diante desse cenário de labirinto sem saída, de um sentimento físico e psicológico tão forte de prisão e fraqueza, você chora. E o choro de desespero não tem nada a ver com qualquer outro tipo de choro. É um choro silencioso, agitado, que vem quando vocÊ ainda está andando, na frente de todo mundo, acompanhado de uma cara de atenção, um estado de alerta que não lembra em nada as caretas horríveis de gente chorando. O choro de desespero é como uma torneira aberta que não faz barulho algum.

Daí pra frente começa um ciclo de decadência psicológica que beira a loucura. Você percebe que está com fome, mas não consegue comer. Você sente dores de estômago, gastrites nervosas, diarreia e seu corpo vai pedindo para você morrer. Vem a pergunta cruel nº3: “o que foi que eu fiz?” e essa tem resposta. Você fodeu tudo! Você estragou tudo, você se jogou no abismo e tá tentando voar enquanto vai direto pro fundo, em queda livre. Logo depois vem a pergunta cruel nº4: “dá pra levar assim?” Bem, tem gente que vive sem pernas, sem braços, sem ver, sem falar. Você vai sobreviver, o problema é saber quanto tempo isso vai durar e se você vai aguentar esperar tudo isso. Geralmente, não.

Aí fica escuro, chega a noite, você conversa com outras pessoas, se estica no seu inferno particular, vai ocupando todos os espaços, cogita comprar uma bombinha para asmáticos, quer respirar de qualquer jeito, quer dar um jeito de viver de novo, tirar o peso do peito, arrancar a própria pele se for preciso. Você recebe o golpe de misericórdia quando as luzes se apagam, você é obrigado a ficar no escuro, sozinho, com todos os seus demônios rondando a cama e seus olhos não pregam. Você não dorme, nem se esforçando muito e, a cada segundo, uma nova memória vem poluir a mente. Uma pessoa dentro dessas 24 h do horror não consegue pensar em mais nada além da própria desgraça e da culpa por estar, sozinho, nessa situação.

Você dorme, finalmente, por uma hora, duas, no máximo e quando acorda vê um replay. O mesmo quarto, a mesma cama, a mesma sensação, só que muito mais pesada. Hoje é um dia novo, amanhã será outro dia novo, e depois virá outro. O aperto continua, a vergonha e o arrependimento são maiores que a própria casa, ficam sólidos, pairando sobre o quintal, fazendo sombra, fodendo tudo. É nesse momento que vem a última e mais cruel das perguntas cruéis: “É essa a sensação?” E quando se dá conta de que, sim, essa é a sensação de ter estragado tudo, perdido tudo, fodido tudo, você é tomado por um desespero simples e animal. É preciso fazer alguma coisa para mudar isso, mudar tudo, fazer tudo voltar para os trilhos, e aí você vai pra rua e tenta viver de novo. São mais 24 h para você!

A vida é um hotel decadente

Os prédios lá fora caindo, todos, um após o outro, como dominós. As ruas encharcadas de carros, congestionadas até os tubos, pedestres caminhando por cima dos carros, atravessando fora da faixa, fora da rua, fora da hora. O caos instalado do vidro da janela do quarto pra fora. Dentro não. Entre as paredes, o teto e o chão o silêncio estava instaurado sem espaços para concessões. Não era paz, não dá pra chamar um lugar como aquele de “pacífico”, mas era o melhor que se podia ter naquele momento, naquele mundo, com aquela quantidade de dinheiro.

Hotel do inferno é elogio, mas decadência não se mede, a gente constata. O nível, nessas condições, pouco importa. As paredes, avermelhadas, brilhando com o sol impossível do mundo do lado de fora, com a tinta descascando, com manchas de bolor, com marcas de cigarro, com letras escritas com batons alheios anos antes. As paredes eram tudo. Dentro do espaço fechado por elas tudo era diferente. A própria vida pediria para morrer num quarto como aquele.

No banheirinho anexo, mais decadente que a própria decadência, com um cheiro de urina misturado com cigarro quase insuportável, ele se lavava. Lavava-se na pia, com a água fria, molhando a cara magra, seca e cansada, jogando água sobre os ombros, no peito, lavando o pau, o saco, as coxas e, depois, voltava a lavar a cara. Ofegante, moribundo, cansado e fraco, parecia que renascia quando a água tocava a pele, como se bebesse pelos poros, como se a sede fosse da alma. Coisa de corpo doente e mente inapta.

Na cama, no centro do cubículo minúsculo e quente, um corpo feminino perfeito. Magro do jeito que as revistas mandam, branco do jeito que a segregação racial manda, com peitos que os cirurgiões plásticos recomendam, com uma bunda que os programas de auditório exigem, com cabelos da cor que a televisão vende, com olhos da cor que o cinema pede, com um instinto selvagem quase nulo do jeito que o mundo espera que mulheres perfeitas tenham. Era um diamante de carne deitado em lençóis sujos e baratos.

O rosto todo sujo de porra, já secando no vento do ventilador de teto. Ofegante igual a um asmático em pânico, era como se um orgasmo infinito tivesse se instalado ali, dando aquela sensação estranha de morte e euforia que nunca finda. Ele se lavava sem parar, ela gozava sem parar, o ventilador girava incansável e, entre o teto e o chão, uma porção de coisas voando. O cinzeiro pairava quase imóvel há um metro de altura da mesa. As roupas, todas, inclusive meias, relógios, cinto e pulseiras, giravam suavemente no ar em pontos diferentes ao redor da cama.

Ele, bebendo água de todo jeito, vestindo um corpo seco, magro muito além da conta, com um pau maior que o da maioria pendurado no meio das pernas, sentiu que tudo ia se acabar. Fechou a torneira, olhou para a moça perfeita deitada do outro lado da porta e sorriu. Ela sorriu de volta, ainda ofegante e, em segundos, os dois estavam gargalhando. Ele pingando água pelo queixo, nariz e pescoço, misturando saliva, suor e outros fluidos incolores, enquanto ela sentia a vida indo embora pelo meio do peito, rindo histérica, com o corpo pegando fogo.

Tudo foi se acabando lentamente e o som das coisas já não era audível. Depois sumiu o ventilador e os objetos que voavam, junto com o sol, a luz e as texturas. Foi sumindo tudo, uma camada depois da outra, até evaporarem os ossos e ficarem só as impressões, perdidas no escuro infinito de onde era um quarto de hotel, de onde dois adultos fizeram sexo despidos de qualquer preocupação ou preconceito. Sexo ao contrário, daquele que mata tudo ao redor ao invés de gerar vida e perpetuar espécies. Abriu-se um buraco imenso, do tamanho de uma estrela, dentro da boca de cada um e, sem perceber, se engoliram no mesmo momento, para virarem poeira, partículas e sujeira de um outro quarto, numa outra transa, em um outro dia, num hotel tão decadente quanto. Foi a vida se renovando, como acontece a cada segundo.

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Você também morre

A juventude tem uma mania cretina de achar que é imortal. Nada do que é ruim acontece com a gente. A gente não vai escorregar subindo nessa árvore, nem vai se machucar pulando dessa pedra, nem vai ser pego dirigindo bêbado, nem vai engravidar dando umazinha sem camisinha. A gente está acima dessas coisas todas, só que não.

Conheci gente que teve certeza de que não ia morrer, mas errou. Tem jovem que morre feio, de jeitos piores do que morreriam normalmente, só por se sentirem invencíveis. Carro é uma beleza. Tenho um ou dois amigos que me fazem ter noção do que é o verdadeiro “medo da morte” só de me darem uma carona do centro até em casa. Os caras não têm limites!

Tenho uma amiga que me disse uma vez o seguinte: “não sou controlada e forte o suficiente para não transar com o cara só porque não tem camisinha. Se eu já estou lá, sem roupa, pirando e o cara diz que não tem, desculpa, mas vai ter que me comer mesmo assim”, e eu, sentado do outro lado da mesa ouvindo isso, devia estar fazendo a maior cara de indignação do mundo. Mas ela não, porque ela não pega nenhuma doença, nem mesmo uma coceirinha de leve, que dirá engravidar.

A juventude tem uma mania estranha de negar que tem medo. Quem tem medo, tem, mas mesmo assim, vai e faz. É como se o fato de se cagar todo só de pensar em uma coisa não fosse motivo suficiente para ficar longe dela. A gente GOSTA de correr riscos e não precisa nem fingir. O futuro é que mostra que está tudo errado, mas como a vida é agora, como o importante é o momento presente, essa coisa de futuro não surte efeito algum.

Tem gente que bebe até cair, só para acordar no outro dia e pensar: “acho que eu exagerei”, e voltar a tudo na noite seguinte. Tem gente que arruma briga como se o mundo fosse feito só de gente que bate de mão fechada, que luta mano a mano e que tem honra de aceitar derrota. A gente bate nos outros sem lembrar que qualquer dúzia de notinhas compram um revólver sem registro. A gente se esquece que tem gente que nasceu pra matar e mata pra ser feliz. A gente se esquece de tudo quando é jovem.

Tem essa mania idiota de achar que não vai morrer, mas vai. Eu tenho sorte de nunca ter perdido gente muito próxima, amigos que não poderiam ser substituídos, mas sei que vou perder. Sei disso porque às vezes, bem de vez enquando, eu também lembro que não sou imortal, que também posso ser pego, que também sangro, que também posso me foder, mas é raro. É tão raro que até o dia que algo acontecer comigo, vou continuar acreditando que sou imortal, assim como você.

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