Arquivo mensal: dezembro 2013

Um brinde à juventude eterna!

De repente ontem, dia 12 do 12, eu fiz 25 anos. E sentado na ponta de uma mesa com 15 cadeiras me permiti ficar em silêncio olhando alguns fiéis amigos bebendo boa bebida, comendo boa comida, mostrando dentes jovens, brancos, cabelos cheios de vida e olhos ainda brilhantes e vivos. A juventude é um orgasmo duradouro que a gente, insaciáveis ingratos, tenta esticar ainda mais. A mesa comprida, esticada à minha frente e eu, só eu, sentado na ponta olhando tudo, ouvindo os talheres batendo na porcelana dos pratos, os copos surrando o tampo de madeira. Era a vida acontecendo ali, naquele momento.

Dificilmente me permito olhar a vida acontecer sem interferir. Mas nesses dias mágicos, místicos, vale a pena. Existe um dia no ano, e no meu caso foi ontem, em que você recebe votos de gente que diz para o cosmos que você merece ser feliz. Gente que joga sentimentos no ar e deseja que você tenha sucesso, muitos amigos, amor, dinheiro, felicidades mil e muitas outras coisas boas. Metade são desejos vazios que não têm poder algum. A outra metade se divide entre gente que gosta de você e gente que realmente tem sentimentos relevantes por você. Juntando esses dois grupos dá pra angariar uma carga positiva considerável.

Foi o que eu fiz.

Mas numa mesa daquela, com gente daquele calibre, o que paira no ar vai além de boas energias e desejos honestos. Ao contrário da festa impessoal que fiz ano passado (90 pessoas bêbadas, eufóricas e entorpecidas dando trabalho), neste ano escolhi o melhor lugar para levar as melhores pessoas. Chamei só os que vibram comigo, como eu, e os que realmente se importam. Sentado na ponta da mesa levantando meu copo e agradecendo a presença de todos, desejando para mim e para eles o dobro do que desejaram para o meu aniversário, senti os fios que ligam o tempo à realidade se afrouxarem e naquele momento, mesmo que nenhum deles tenha percebido, eu vi o mundo parar.

Não existe nada que cause mais dobras temporais do que um brinde sincero, com sentimentos na ponta de taças, copos, garrafas, latas e gestos. Sons de vidro batendo, sorrisos, corações acelerados e felicidade verdadeira descendo pela garganta de todos com bolhas de gás carbônico e açúcar industrializado misturado com frutas, álcool e água congelada. A vida se estica quando você troca a euforia e a loucura por um ambiente aconchegante e intimista, onde as conversas são audíveis, onde os rostos se parecem com o que eles realmente são, sem maquiagens em demasia, sem penteados falsos, sem gente fora de controle. Sentado ao lado da minha mulher, dos meus sócios, de grandes faces e de grandes pessoas o mundo parece uma eterna festa da realeza.

Olhando todo mundo ali absorvi mais coisas positivas do que em qualquer outra situação. É nobre estar em um lugar onde pessoas se sentam à sua mesa simplesmente pelo prazer de atenderem a um convite seu. Faz bem para a alma, para o espírito e acalma tudo o que é ruim. Não há espaço para negatividade em uma mesa onde se come bem, onde se bebe bem, onde se ri, onde se está cercado de pessoas bem intencionadas e onde, ao fazer uma breve análise da alma de cada um, temos certeza de que estamos jovens ainda. Mais do que à idade, a juventude está ligada a estados de espírito e, sendo assim, quanto mais mesas de jantares de aniversário eu colecionar, mais jovem me tornarei.

Um brinde a todos nós!

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Noites, dias, bebidas, festas, bicicletas e sexo intenso

Ela abriu a porta e pediu para entrar sem fazer barulho. Caminhamos pela sala escura, desviando de uma mesa de 8 lugares, de um aparador, de algumas poltronas e de um campo de mini golf. Era um apartamento bem grande. Ela disse que estavam todos dormindo e eu imaginei que esse era o motivo pelo qual não podíamos fazer barulho. No fim da sala, porém, um elefante (seria cretino dizer que era enorme) bebia água de uma espécie de ofurô e respirava sonoramente. Qualquer um acordaria aterrorizado com um bicho daqueles no corredor, mas aparentemente todos estavam acostumados com aquele “pet” curtindo a madrugada na casa vazia.

Passamos pelo elefante, caminhamos um pouco e entramos por uma porta iluminada. Ali havia um corredor. “São duzentas e setenta e duas mil portas nesse corredor”, ela disse. Eu fiquei impressionado, mas não tanto quanto quando ela apareceu com duas bicicletas. Tínhamos de pedalar até seu quarto, que era há 20 minutos de onde estávamos. Naquele corredor era permitido conversar. O chão era acarpetado, vermelho com padrões de losango. As paredes pareciam as de corredores de hotel e nós conversamos um pouco sobre aquilo. Estávamos no décimo terceiro andar do prédio, mas aparentemente aquilo fazia parte de algum plano paralelo, outra dimensão, sei lá como se chama. Muitos quilômetros de apartamento!

Paramos na frente de uma porta cujo número não consegui ver e fomos entrando com as bikes. Era uma espécie de pequena sala com um sofá, como se fosse um hall. Deixamos as bicicletas ali e percebi uma vibração pelo outro lado da porta preta que estava diante de nós. “O que é aqui?”, perguntei e ela respondeu sorrindo: “é uma festa!” Abrimos a porta e uma profusão de luzes estroboscópicas verdes, roxas e azuis tomaram minha visão. Fiquei cego por alguns segundos enquanto ela me puxava pela mão pelo meio da multidão. Bebemos algumas cervejas, dançamos, conheci alguns amigos, bebemos algumas doses de tequila e depois disso ela disse que era a hora. “Agora é a hora!” ela me disse, olhando profundamente nos meus olhos como se fosse o momento de explodir uma bomba ou fugir para outro país.

Voltamos para as bikes, pedalamos cambaleantes, batendo os braços nas paredes, fazendo muito barulho, rindo muito e tentando nos manter vivos. Entramos em uma porta de número “000001” e guardamos as bikes num hall bem semelhante ao outro onde tínhamos entrado na festa. Dentro da porta preta havia um quarto. O quarto dela, com uma cama de casal normal, com uma decoração normal, com tudo ok. Uma escrivaninha com alguns livros e desenhos de flores feitos com caneta preta. Para a esquerda um guarda-roupa branco com cinco portas. Mais para a esquerda a cama, com uma imensa foto de Petra na parede. Mais para a esquerda uma janela com persianas horizontais fechadas. Mais para esquerda ela de pé, completamente nua, me esperando vê-la.

Ficou de dia e de noite oito vezes enquanto transávamos. Tive sérias dúvidas se não era uma luz que se pagava e acendia a cada dez minutos por trás da janela, mas não tive como comprovar. Depois de tanto tempo perdendo água, pendendo a voz, perdendo a noção, perdendo os sentidos e recobrando tudo novamente o mundo pareceu uma coisa simples. A vida parecia ser um ciclo de noites, dias, bebidas, festas, bicicletas e momentos de sexo intenso. Não me lembrava de nada mais que pudesse entrar nessa lista de evento sequenciais. Foi no meio desse pensamento lúdico e preciso que ela me disse que eu precisava ir para casa. “Você tem que voltar, meus pais estão chegando…” e foi o que eu fiz. Peguei minhas coisas, vesti minha roupa saí e de repente eu tinha uma infinidade de portas em um corredor de carpete azul e padrões de triângulos. Eu nunca mais ia sair dali.

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Minhas amigas são mais bonitas do que os outros “dizem” que elas deveriam ser!

Para encurtar a introdução, estou criando uma série fotográfica que vai mostrar mulheres de diferentes idades sem maquiagem ou adornos, exibindo sua aparência e beleza reais. Junto com a Juliana, minha namorada, estamos fotografando 30 idades, partindo dos 15 anos, e isso vai resultar em um material para reflexão e discussão sobre o que é a beleza real. O design vai ficar a cargo da maravilinda Marcella Sholl, e se você conhece o trabalho dela sabe bem do que eu tô falando. Inspirado por esse pensamento de gerar uma conversa sobre a aparência real, comecei a reparar de maneira diferente nas feições das mulheres que conheço e cheguei a uma conclusão quase inconsciente: minhas amigas mais bonitas, ativas e felizes são bem mais velhas do que eu imaginava!

No processo de chamar as mulheres para participarem do projeto e das fotografias, percebi que na maioria dos casos eu errava a idade para baixo. Com algumas eu errei feito. A mulher que vai representar a categoria de 40 anos foi convidada por mim para integrar uma idade entre 33 e 35. A que vai ficar com os 30 anos eu tinha certeza que tinha 27. A dos 34 eu jurava que tinha 33. A dos 35 eu pensei que tinha 32. A dos 29 eu tinha achava que tinha 28. Comecei a perceber que ou meus padrões de beleza mudaram, ou as mulheres de hoje estão cada vez mais jovens, mesmo quando não têm intenção de causar tal impressão.

Tenho amigas de 30 e poucos anos que estão pensando em arranjar o primeiro namorado sério na vida. Outras pensam em fazer uma nova tatuagem, ou pintar a parede do apartamento de amarelo ovo, ou cair no mundo para viajar com uma mochila nas costas no ano que vem. Coisas que eu estava acostumado a ouvir meus amigos de 22, 24 anos dizendo. Tem gente que tem as pernas mais firmes e lisas que minhas amigas mais adictas dos treinos da academia. Tenho amigas que são 7, 8 anos mais velhas que algumas moças que conheço e parecem incrivelmente mais jovens. Os “pós-25” estão, de alguma maneira, fazendo muito bem para a mulherada que eu conheço.

Talvez seja aceitação, ou foco nos pontos fortes, ou experiência, ou mesmo a realização da crença de que gente inteligente e simpática parece mais bonita aos olhos de quem as conhece. A aparência é uma coisa efêmera que a gente dá o maior valor do mundo, mas o que será que nós faríamos se todo mundo tivesse a mesma cara? Como escolheríamos nossos amigos, amores, afinidades? Talvez, ao menos a meu ver, a única maneira de diferenciar pessoas que iriamos querer ter por perto seja com base em suas personalidades, suas crenças, suas ideias e seus ideais. Será que foi isso que rejuvenesceu minhas amigas?

Tenho percebido que algumas coisas ajudaram. A maioria não fuma, bebe pouco, tem sonhos ambiciosos, vive uma rotina independente e consegue manter, cada uma do seu jeito, uma vida afetiva sempre quente e/ou feliz. Talvez sejam esses os remédios para ter sempre uma pele bonita, cabelos cheios de vida, sorrisos largos, corpos harmoniosos e olhos cheios de fogo. Acho que a fonte da juventude está em não se sentir velho. Acredito que essas mulheres, conscientemente ou não, descobriram e usam dessa máxima para permanecerem imunes aos efeitos do tempo.

Num mundo onde os corpos doentes são as considerados saudáveis, onde as propagandas de bem-estar causam mais mal estar do que os filmes de terror, onde as pessoas querem caber em roupas desenhadas para corpos que não existem, desejo muito estar certo. Desejo extremamente, do fundo do meu coração, estar certo sobre o motivo pelo qual minhas amigas de 40 parecem ter 30, minhas amigas de 30 parecem ter 20 e minhas amigas de 20 ainda têm de mostrar o RG para entrar em casas noturnas. Desejo que o verdadeiro caminho para a juventude eterna seja um coração sempre quente, sorrisos sempre largos, otimismo sempre em alta, planos sempre em andamento, mente sempre aberta, xícara sempre meio cheia, inteligência, alegria, felicidade e hábitos simplesmente prazerosos. Desejo, de verdade, que o segredo da beleza esteja escondido no simples fato de ser feliz!

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Eu sei o que o outro sabe

Daí eu boto a nova do Kings pra tocar porque tem que ter bom humor pra vida ficar boa. É tipo estar feliz em dia nublado. Não dura. Mas aí aparece o sol e de repente parece que já é férias, que tá tudo bem, que as coisas são bacanas e felizes, com copos pra cima, sorridentes e feliz 2014. Não, num chega a tanto, mas botar a nova do Kings pra tocar dá o clima, porque escrever de bom humor é sempre bom. Vou falar de intimidade, de troca de olhares, troca de percepção e cara feia! Só coisa da hora, ok?

Quando a gente vive junto de alguém muito tempo o nosso departamento de memórias automáticas fica lotadão de momentos chave. Não precisa ser uma relação amorosa. Pode ser com a sua mãe, seu amigo de quarto, seu motorista, sua manicure cativa e por aí vai. Qualquer pessoa que vive muito perto da gente por muito tempo abre uma gaveta nova nesse departamento da nossa cabeça. A gente saca quando a pessoa tá rindo falsamente só pra agradar, a gente sabe quando a pessoa quer falar alguma coisa e fica procurando oportunidade, a gente sabe quando a pessoa tá triste, ou quando chega já com coisa boa pra contar. A gente associa alguns comportamentos a memórias automáticas e saca de cara o que está acontecendo. Isso é intimidade!

Tem vezes, porém, que essas pessoas querem muito passar uma mensagem para nós, mas não podem escrever, desenhar, verbalizar, mostrar ou seja lá o que for. Geralmente são mensagens curtas. Uma olha para a outra e de uma maneira quase sobrenatural a mensagem é transmitida. É um levantar de sobrancelhas, é um movimento dos olhos, é uma expressão escondida atrás de um olhar petrificado. Como é que a gente conversa pelo olho? Coisa de doido isso. Mas quando você é íntimo de alguém, quando você consegue preencher a intimidade do departamento de memórias automáticas, sem querer desenvolve também a habilidade do olhar. São as trocas de olhares!

Às vezes, quando já estamos num nível de convivência bem avançado, conseguimos saber o que o outro está pensando, ou ao menos ter uma ideia. Na verdade, quase sempre temos uma vaga ideia e como somos ansiosos e apressados tomamos-na como verdade. Sabemos o que o outro quer só por ouvir alguns tons de palavras diferentes, ou por perceber a presença de determinadas expressões nas frases. Tem palavras que só são usadas em dias felizes. Outras, só em momentos de estresse ou desapontamento. De repente sentimos que sabemos mais sobre o que o outro pensa do que ele mesmo. Nessa hora começamos a agir de modo bizarro, como se fossemos portadores de informações sigilosas. A gente muda o jeito de perceber as coisas. Paramos de ver olhares e gestos e começamos a analisar palavras, sutis mudanças de humor. Isso é a troca de percepção.

Quando você, dotado de poderes quase sobrenaturais, consegue praticamente possuir a mente do outro, seu corpo rejeita esse excesso de poder, esse quadro onisciente e, sem perceber, começamos a exteriorizar o nosso estado com sintomas de descontentamento. Ficamos irritadiços, rudes, estúpidos e calados. No fundo queremos brigar! E quando a briga acontece bancamos os injustiçados, as vítimas, porque supostamente sabemos o que o outro pensava, mas não disse, jogamos coisas na cara dos outros sem necessidade, sem saber, sem acertar. Somos perfeitos babacas de rosto franzido, semblante agressivo e cara vermelha. Que vergonha! Essa é a fase da famosa cara feia.

Daí, depois disso, quando você para pra perceber que todo o seu conhecimento no outro se baseia em gestos, em olhares, em coisas imaginadas, em conhecimentos sobrenaturais que estão no ar e só você captou, passa a perceber o quanto isso é ridículo. Somos ridículos por acreditarmos que sabemos SEMPRE o que o outro sente, pensa, quer, faz, entende, vê, ouve. Não sabemos nada em 99% dos casos. E no 1% que sobra, o que sabemos está deturpado. Então, quando você percebe que é mais fácil falar tudo o que se quer e ignorar o sinais da intimidade, da cumplicidade, das trocas de olhares e da percepção mágica de um pensamento alheio que não foi exteriorizado, você simplesmente põe a nova do Kings, relaxa e curte. Afinal, você não sabe absolutamente nada que achava que sabia antes de dar o play e, mesmo assim, tá tudo bem!

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