Arquivo mensal: maio 2012

Chora que chora

“Chora que chora, novinha chora!”

Tocava alto no carro ocupado pela lotação máxima permitida. Eu, já meio breaco, repetia a todo instante, quase gritando, na tentativa de superar o volume do rádio, que aquela música era MPB. Eu tinha certeza disso, mas parecia ser o único que pensava assim. Eu pensava nas praias do Rio de Janeiro, pensava em Caetano Veloso, Chico Buarque e Tom Jobim. Aquele funk, naquele momento, com aquelas pessoas, me pareceu extremamente sensível, forte, atual e delicado. Me emocionou. Mesmo!

“Chora que chora, novinha chora!”

Ele disse no ouvido dela “faz um filho comigo” e a gente riu. Uma frase dessas, num contexto diferente, é coisa que mata alguém do coração. Mas não, ali nada mataria ninguém. Tinha sol, tinha vento, tinha amigos, tinha música, tinha bebida e a gente nem se dava conta de que se alguém chamasse de “festa” não haveria como discordar. Mas não era festa. Era um dia comum, como se o que é comum não fosse especial. Era muito especial.

“Chora que chora, novinha chora!”

Não tinha ninguém triste, nem preocupado, nem incomodado com alguma coisa. Eu segurava minha garrafa de cerveja, olhava ao redor, a paisagem deteriorada na mistura de mato com concreto, asfalto e chapas de aço e sorria. Eu sorria largo e às vezes uma frase qualquer, uma brincadeira boba, me fazia gargalhar. Era um daqueles momentos sublimes e raros que a gente tem que parece que o mundo todo ficou mais leve, mais simples de entender e se viver. Eu estava vivendo plenamente ali.

“Chora que chora, novinha chora!”

Me sentia extremamente confortável. Ouvia os versos, a batida que nem existia, a não ser por uma voz em loop que simulava sons de tambor e pensava em violão, acordes sofisticados e vocais macios. Para mim era das melodias mais tranquilas e aceitáveis do mundo. Estava completamente tranquilo com aquela música, como se ouvisse mesmo a trilha sonora do calçadão de Copacabana ou como se dividisse o banco de trás de um carro com Gal Costa quase gorfando e Nara Leão tatuada com um piercing no nariz.

“Chora que chora, novinha chora!”

Eu me apaixonaria o tempo todo, por qualquer coisa ou pessoa, qualquer sorriso ou abraço, qualquer voz ou perfume. Existem estados de felicidade tão abstratos e intensos que acabam por alterar percepções importantes sobre preferências pessoais, princípios, conceitos firmados e opiniões perenes. Qualquer um muda de ideia sobre qualquer assunto quando está mergulhado em alegria, satisfação e calma. A calma transforma o homem.

“Chora que chora, novinha chora!”

Me sussurrava no ouvido os versos de um poema tão banal e bonito quanto a própria vida real. Eu respirava fundo, soltava o ar misturado com gás de cerveja e hálito de cevada enquanto o planeta girava mais lentinho só pro dia não acabar tão rápido. Eu conhecia pedaços de planetas que caiam na Terra e se transformavam em gotas de suor. Eu ria muito, olhava tudo com ares de turista, aproveitava cada sabor e momento e ouvida a música do céu. Vinha do céu de algum lugar que não era ali.

“Chora que chora, novinha chora!”

Sentado na sarjeta fazendo declarações de amor para olhos embriagados me enxergando duplamente, me sentindo animado e deixando explícito que eu queria mesmo estar ali. Abraçaria assassinos, beijaria crianças sujas, dançaria com mulheres gordas e fotografaria com indígenas, mas não tinha coragem de chegar perto de quem eu queria chegar. Eu olhava o corpo dos semelhantes, olhava o rebolado das meninas, as curvas que Deus lhes deu e pensava que ali ninguém chorava. Nem eu, nem as novinhas, nem as velhinhas, nem ninguém.

“Chora que chora, novinha chora!”

Era música popular brasileira! Tinha passinho, caras e bocas, ritmo e objetivo. Eu só queria estar lá: o lugar nenhum com todo mundo!

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Rolê secreto

Amores vem, amores vão, o tempo começa a esfriar e os caras continuam fumando os mesmos cigarros, bebendo as mesmas misturas, fazendo as mesmas coisas e, principalmente, cometendo os mesmos erros. Eu hoje sento mais de longe, na mesa ao lado, ou talvez duas ou três mesas pro fundo, e fico olhando. Eu dei uma mudada nas minhas bebidas, mas ainda bebo quase as mesmas coisas, assim como eles. Também vou sempre aos mesmos lugares, assim como eles. Só não fumo os mesmos cigarros porque não sou fumante.

Mas meus erros mudaram. Hoje erro em intensidades e temas bem diferentes dos que eu costumava errar antes, mas isso é outra história. Só que da minha mesinha, geralmente ocupada só por mim ou, no máximo, por mais um, vejo o circo da diversão piscando e atraindo quem quer que passe por ali. Eu ouço gargalhadas, vozes, músicas, sussurros e frases conclusivas e elas não estão dentro da minha cabeça. Elas estão ali, duas mesas pra frente, no meio daquele monte de gente conhecida. Eu conheço cada um deles!

Conheço a ponto de dizer que tem coisa errada ali. Conheço a ponto de entrar no bar, neste mesmo bar onde estou agora, e cumprimentar todos intimamente, com abraços e beijos no rosto, inclusive os homens. Mas me reservo o direito de sentar em outra mesa. Não quero contaminar a efusividade com o meu marasmo momentâneo e nem ser contaminado por euforias passageiras que vão de encontro à minha atual fase de reflexão. Eu tô pensando, ultimamente, muito mais do que pensava antes.

Sempre fui do impulso. Gosto da coisa roubada no meio da dúvida, do ato explosivo no meio da calmaria. Só que de tempos em tempos me reservo no meu canto, na minha mesa duas ou três mesas mais pro fundo, só para pensar. Mudo meus drinks, mudo meus horários e fico observando. Aprende-se muito assistindo aos próprios erros encarnados por outras pessoas. É como se fosse um ator assistindo ao dublê reproduzindo a cena a ser gravada em instantes.

Ou eu bebi demais, ou está todo mundo meio sem freio. Daqui do fundo, ao lado do balcão, já bem perto da porta do banheiro, consigo sentir cheiro de três coisas. Cheiro de urina misturado com esgoto, vindo da porta alguns metros atrás de mim; cheiro de fritura, da fritadeira de batatas um pouco mais à minha esquerda e cheiro de confusão, vindo da mesa dos meus efusivos conhecidos. Vai dar problema ali.

O chão de ladrilhos pretos e brancos de repente ficou bordô. Derrubaram vinho. Não, não é vinho. Alguém se cortou? Com um pouco de reflexão e observação a gente vê a camiseta de uns três já bem manchada de sangue, escorrendo pelo peito, descendo pela lateral, por cima das costelas, molhando a bunda, o tampo das cadeiras e escorrendo para o chão, formando poças gigantescas de sangue invisível. É invisível para eles, sentados ali, tão envolvidos nas negociações e relatos incríveis.

Um homem gordo e muito barbudo, aparentando seus já quase 50 anos, seca um copo americano do outro lado do balcão enquanto assiste o sangue escorrer lento e grosso pelo chão. Ele me olha, sorri e pisca para mim, como se estivesse ouvindo meus devaneios e concordando comigo. O sangue vinha escorregando, descendo pelo ladrilho e na mesa de onde eles surgiam já havia umas cinco pessoas, ambos os sexos, com a roupa toda manchada. Ninguém via. Eu não conseguia parar de olhar!

Aí a poça vermelha viscosa bateu no pé da minha mesa e ao invés de contornar e continuar escorrendo, subiu pela madeira surrada, se espalhou pelo tampo da mesa, abraçou minha garrafa de cerveja e foi entrando, misturando meu delicioso e geládo líquido amarelo em um espesso e quente suco marrom. Era hora de ir embora! Quando o sangue alheio vem pedir ajuda é sinal de que o problema já começou. Comecei a juntar minhas coisas, alcançar carteira, chaves do carro, blusa e no meio da catação de objetos que eu espalhei encontrei o celular aceso com uma mensagem não lida.

“Me liga, quero fazer alguma coisa!” dizia, assinada por um nome que eu conhecia, não muito, nem a muito tempo, mas conhecia. Era conhecida, mas que não estava na mesa animada logo em frente. Liguei de volta, marquei o lugar, a ideia e o horário. No final da ligação a voz feminina, ainda novidade nos meus ouvidos, me pergunta: “você não prefere que eu vá até aí onde você tá, já que você está com os seus amigos?” e prontamente eu respondi que não. “A gente pode ir pra qualquer lugar, fazer qualquer coisa, mas não aparece aqui” ao que ela riu e questionou: “O que é isso? Nós vamos fazer um rolê secreto?!”

Terminei a ligação, me levantei e fui em direção à mesa muito animada na ponta do corredor ao lado do balcão. O homem barbado usando um avental branco com os dizeres “BAR DA VIDA” já bem engordurados me sorriu e fez um sinal com a cabeça, que interpretei como um “até logo”. Cumprimentei todos, ensanguentados ou não, com a mesma intimidade da hora em que cheguei. Entre piadinhas de quem “não aguenta, bebe leite” e perguntas de “mas você já vai? tá cedo!” um amigo soltou uma que tive de responder com sinceridade.

“Pra onde você tá indo, mano?” me questionou, com a camisa lavada de sangue e o rosto sério, a testa franzida, os olhos cansados e o corpo alerta. Interpretei como um pedido desesperado de “me tira daqui” e notei outros quatro ensanguentados muito interessados na minha resposta. “Não vou pra lugar nenhum, man. Tô indo pra casa!” respondi, deixando claro que aquilo era mentira. Ele sorriu com algum esforço e me devolveu: “é um rolê secreto?” e eu sorri largamente como quem sente um misto de admiração e ironia. “Tá certo! Vai lá então… arrebenta!” disse para mim, já relaxando o corpo na cadeira e deixando o sangue correr macio.

Saio pela porta da frente e tanto na rua quanto nas outras mesas não tem ninguém sangrando. Está todo mundo maios ou menos feliz, mais ou menos com frio, mais ou menos satisfeito. É sábado. São 23h e eu estou fugindo da situação mais incômoda que se pode sentir. Teus conhecidos se magoando entre si, fazendo besteiras e concertando com remendos fracos demais. Chorar é pros fracos, brigar é pros derrotados, discutir é pros invejosos. Sangrar é particular, intenso e íntimo, com a vantagem de que só quem vê é quem está de fora. Quem tá dentro tá feliz demais e nem nota.

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Uma diferença bagual

“Eu vou até aí pra buscar um beijo”, era o que eu te dizia no sonho, quando tudo era meio preto e branco e as distâncias de quilômetros eram cerca de dez passos pra fora da porta da frente. Só que, na verdade, eu deveria dizer muito mais. Deveria dizer a verdade, que vou passar as duas horas dentro do avião com a boca seca esperando a tua pra me molhar, pra curar as rachaduras dos meus lábios, pra aliviar a minha secura.

Li uma vez que em Porto Alegre você chuta uma Araucária e caem vinte meninas mais lindas que a Larissa Riquelme. Eu to indo pra chutar a tua árvore e cair você, que não se parece nenhum pouco com a Larissa, nem com as outras referências de mulheres desejáveis. Eu vou pra chutar teu pé de manga e cair você, com essa cor de leite, esse teu cabelo sem formato e pra me misturar com tudo que tem por aí. Manga com leite só pra me matar!

Mas eu podia mentir e dizer que tô indo só pra dar uma volta, só pra conhecer o gauchês, pra dar um rolêzinho na capital do rock (a verdadeira, na minha opinião) do Brasil. Posso dizer que tô indo pra ter certeza de que chimarrão é horrível e passar o maior vexame fazendo careta e cuspindo tudo logo depois do primeiro gole. Posso até dizer que tô indo porque tem uma amiga minha que mora numa cidade vizinha e que vai ser fácil de ir visitá-la. Posso inventar a mentira que for, tanto faz, é mentira, não me importo com o conteúdo.

Só que a real é outra. Eu vou até aí pra buscar um beijo teu, pra sentir aquele friozinho na barriga de quando a gente tá de frente com alguém que até ontem era uma fotinho sorridente numa tela de computador. Eu vou aí pra buscar um perfume que eu não sei qual é, vou atrás de emoção, essa emoção combustível das minhas criações, dos meus textos novos, do meu novo estilo. Eu vou atrás de texturas, sons e planos inéditos. Eu vou atrás do que eu ainda não vi, nem aqui, nem aí, nem nos meus textos, nem nos seus.

Um avião enorme vai me levar pra terra onde as coisas são “baguais” e “petiços”, onde o “tipo” vira “bah” ou “tche” e onde a sílaba tônica muda de lugar, a entonação vira poesia e meus ouvidos viram bêbados jogados em uma piscina de cachaça. Teu som vai me matar, eu sei que vai. Mas eu tenho coisas pra você também. Tenho minha barba paulista, minhas ideias nordestinas, meu semblante aventureiro e a minha voz, que não parece música como a sua, mas tem um timbre diferente das coisas que costumam sussurrar no teu ouvido.

Eu vou pra lamber as tuas tatuagens, morder o lóbulo da tua orelha, beijar teu pescoço e emaranhar os teus cabelos no meio dos meus dedos. Eu vou pra tomar vinho sentado na rua, com frio, batendo os dentes, olhando pra tua cara de quem sabe das coisas. Eu vou pra escrever um livro dentro de um quarto onde a única luz é um abajour amarelado e trazido de herança, num chão liso e aconchegante, de frente pra você vestida com pijama, com umas mil ideias por segundo para o mesmo personagem.

Pensando bem, eu vou porque tive um sonho. Porque quero trazer um beijo pra casa. Porque quero ver que gosto tem o teu perfume. Porque quero saber que cheiro tem a tua boca. Que cor tem a sua pele. Que voz tem a sua língua. E que tipo de gente é você: se tem fibra, coragem e foge do medo, ou se é o que eu já vi aqui, encontrei aqui, cheirei aqui, senti aqui e não precisaria ir a lugar nenhum para encontrar igual. Eu vou porque acredito na sua diferença, uma diferença bagual!

 

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Nem tão fria, nem tão frio

Da janela nem parece tão frio. Lá fora é um mundo totalmente diferente desse que eu vivo aqui dentro. Faz parte do processo de tornar as coisas pessoais e particulares: den’da minha casa a temperatura é a que eu escolhi. Lá fora, com todo mundo, é a temperatura que ninguém escolheu. Tem meu telefone, aqui, que não toca. Tem a TV, que não me diz nada. Tem o rádio, que me entrega sempre as mesmas músicas. E tem você, que nem gostava muito de mim no começo. E fuma na minha cama lendo livros que não me despertam nenhum interesse. Eu odeio quando você fuma. Mas se fuma, paciência, eu deixo fumar sem reclamar muito, faz parte de você, desse teu pescoço fino que engole fumaças e sopra poemas. E sopra mesmo, quase cospe, porque fala daquele jeito de quem dá bronca, vociferando em voz baixa e ficando vermelha quando é contrariada. Você odeia quando eu falo mal de gente que não conheço e que você idolatra.

Aqui dentro da minha casa, no meu quarto, tudo parece ser o que realmente é. E você, com a sua postura indiferente me olhando silenciosa parece fria, como realmente é. E eu me jogo por debaixo das cobertas para deslizar pro teu lado como uma cobra, como um fantasma que vem trazer o medo. Teus pés são tão gelados que dá medo de perceber que você já morreu. A morte lhe cai bem, junto com esses olhos sem cor, pele sem cor, temperatura sempre amena. Mas você veio com o kit “corpo de gelo” misturado com aquele talento estranho das mulheres de se encaixarem em posições difíceis. Você se encasula no meio de mim e encolhe o corpo pro meu te esquentar. Me oferece o pescoço, me puxa o braço, sorri e comenta sobre o quão inusitada é a vida. Tem um livro do Bukowski no criado mudo.

A gente fica bêbado, dorme, você fuma igual uma porca velha e agente vai deixando o tempo passar. Eu nem sei mais qual é a temperatura lá fora, que só baixa, como se a qualquer momento fosse cair um floco de neve no meio da cidade e, assim que pousasse em segurança, mandaria sinal para que os outros viessem atrás. Eu te olho e penso as maiores atrocidades do mundo. Desejo te matar de umas quarenta formas diferentes só pra saber como seria, se teria muito sangue, se seu sangue também é cinza, mas não mato. E depois penso perversidades sexuais das mais sujas e impraticáveis. Coisa de gente doente mesmo, mas que eu colocaria em prática com você, uma a uma, calmamente destruindo o quarto. Eu violentaria a sua elegância européia com a minha voracidade nortista.

O bom desse nosso universo particular é que a noite e o dia não mudam de cor. São sempre a mesma cama enorme e bagunçada, os mesmos pelos roçando uns nos outros, as mesmas peles, as mesmas bocas e no final ninguém está muito preocupado em agradar ninguém. Tipo poema que não rima. A gente passa o tempo todo pelado, mesmo que não seja muito bonito. Eu já estou pançudo e cansado, você flácida e celulitosa, mas foda-se. A gente liga o foda-se e gosta disso, desses nossos defeitos, de poder perceber que a imperfeição faz parte, está ali, escancarada e não há nada que possamos fazer. Eu me acostumei a defeitos que foram me apresentados como qualidades, mas que deram no saco com o tempo. Você peluda e depilada tem o mesmo gosto, by the way.

Eu gosto quando você tem uns surtos de meiguice e alegria espontânea. Daí me lê poesias de um jeito que ninguém mais lê. Nunca gostei de poesia na boca de outras pessoas porque o povo lê daquele jeito piegas, chato de ouvir, dá vergonha alheia, como se fosse uma encenação. Você não. Você lê poesia do jeito que eu gosto, como se fosse uma novidade, como se me contasse uma história do seu jeito, com as suas palavras. Você é uma poesia que eu nunca vou escrever. Não vou porque você, poetisa filha da puta, sabe que eu sou romancista, novelista, cronista, jornalista, mas “poeta” não termina com “ista”, não faz meu tipo, não sei escrever você. Seu formato me lembra um poema curto, direto e preciso, tipo os que você escreve em porta de banheiro e valem mais do que os que estão em coletâneas literárias antiquadas.

No fundo, bem no fundo, é só aventura. Claro que tem uma cobertura de coisa séria, mas é só joguinho e diversão pro ego misturada com sexo bem feito. É um experimento social da vida a dois com gente que não sabe se relacionar muito bem em formações de casal. Você, toda arisca e violenta, bêbada assassina, sóbria suicida, me jogou todas as suas cascas e bagaços pra eu mastigar e tentar encontrar o seu melhor. Eu, ao contrário, te joguei todos os meus absurdos, loucuras e taras, meus problemas psicológicos e meus desvios de conduta, tudo para você tentar achar a calma no meio desse caos. Não é normal juntar gente assim, não se faz isso, e é por esse motivo que quando começar a esquentar lá fora, quando a imagem da janela for tão real quanto o nosso quarto, quando a gente puder sair da toca, vai cada um pro seu canto. Enquanto isso, me recita outro poema sujo e visceral, só para eu não me sentir tão pervertido.

Comprei chá!

Tomar café me dava azia. E além disso me deixava muito falante, mais do que eu já sou. Eu precisava derramar meio conteúdo do açucareiro (que não é pequeno) para suportar o gosto. Mas eu tomava, e não era pouco. Tomava poucas doses ao dia, em quantidades extremas. Já cheguei a beber 300 ml de café de uma vez, só para driblar o sono, para produzir mais, escrever mais, pensar mais, ter mais ideias e fazer o dia render. Conheci pouquíssimos alimentos naturais que tivessem um efeito tão prático e visível quanto o café.

Era uma fórmula simples. A cafeína batia, me acordava e me deixava mais bem disposto. Alguns minutos depois o pico de glicose me deixava eufórico, acelerado e falante. Aí eu escrevia. Já cheguei a resolver matéria de quatro páginas com apenas um copo de café. O efeito nunca falhava. Só que também não falhava o pós e a ressaca era foda. Eu terminava as coisas que tinha pra fazer e depois que a euforia química passava eu me sentia bem mal. Depois de um tempo descobri que era por causa do açúcar, que quando baixa no fim do pico deixa o sujeito meio deprê.

Café sem açúcar não rolava. Mesmo com açúcar o cheiro que ficava na boca era insuportável e com o tempo fui perdendo a vontade de tomar mais café. Eu sentia, honestamente, que minha boca fedia a banheiro público, um amargo tão fétido que parecia podre, como se tivesse comido merda. Péssimo! Depois eu pegava minhas coisas, botava a mochila nas costas e descia o elevador já numa puta nostalgia. Sentia falta de todo mundo, achava uma merda estar trabalhando, queria um monte de coisas e momentos que eram impossíveis de serem vividos nos dias de semana. Dava uma bela baixada no meu ânimo costumeiro.

Depois eu entrava no metrô e o mundo escuro iluminado pelas lâmpadas azuis que passam em alta velocidade pela janela me fazia parecer perdido. Eu olhava a janela e às vezes tinha a sensação de estar indo para trás, para o sentido contrário. Como se fosse um retrocesso de vida, e aí sentia saudades. Começava com uma vontadezinha de conversar, só ter alguém pra falar dessa sensação. Mas ficava pior, ia parecendo nostalgia, depois virava carência e no fim era uma puta fossa sem escrúpulos a ponto da mão coçar pra pegar o celular e ligar.

Começou a ficar difícil conviver com os efeitos colaterais que eu tinha. Além da azia mortal que às vezes me tirava até o sono, tinha a boca preta, os dentes gritando pra eu parar de pintá-los de amarelo e o resto todo dos efeitos que eu já disse. O coração começou a ficar apertado: eu lembrava de um monte de coisa, dormia pouco, me enfiava em alucinantes festas de arromba só porque queria me sentir cansado e conseguir dormir em paz. Começou a ficar difícil viver sozinho tomando café todo dia, acelerando todo dia, sem ninguém pra me frear, sem ninguém pra me dizer que eu estava correndo perigo.

Precisava afastar o aperto no peito, o nó na garganta e a saudade infinita que o café me fazia sentir. E claro que era tudo culpa do café, eu sei que era. Um monte de gente me dizia que não, que era coisa do coração, esse lance de sentimento e falta e tal. Mas não, eu sei: era o café SIM! Sentia uma falta de gente pra contar o dia, vontade de gente pra abraçar ou pra fazer piada. Claros sintomas de quem toma café. Não dava mais pra tomar tanto, nem por mais um dia. Insanidade autodestrutiva de ficar arrebentando meu estômago, cagando minha boca, pixando meus dentes, destruindo minha insulina e vivendo num ritmo que não era meu. Nunca foi. Sentir saudade o tempo todo, a todo instante, sem nunca mudar, não é coisa normal. Café não é normal.

Agora eu tomo chá e vivo sem sofrer por ninguém! (ou tento)

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É claro que eu te quero pra sempre

É claro que eu te quero pra sempre! Que tipo de gente diria isso com tanta certeza além de um jovem como eu. Recém formado, formando uma carreira, inseguro, perdido no mundo se agarrando em tudo que parece ser sólido e durável. Você me parece sólida e durável.  E logo eu, que estou acostumado a coisas efêmeras, noites que acabam do nada, gente que some sem nem deixar o nome, situações que começam e terminam sem contexto, sei que você não é do tipo que vai passar com o tempo.

Eu te quero porque é pra ser pra sempre, mesmo que seja tudo quebrado em pedacinhos de paz permeados por conflitos sérios e aparentemente eternos. Nem que a nossa vida seja uma novela, uma série vivida em episódios que não se conectam, ainda vai ser você. Eu viveria todos os episódios da série com você, veria a reprise e ainda curtiria os comentários do diretor. Tudo isso porque eu te amo, e amor é uma parada bem mais macia e límpida, transparente e leve, do que o povo todo pinta por aí.

O amor que eu sinto por você tem cara de sorriso, cara de gargalhada, noite bêbada, bagunça, brigas e confusão. Meu amor por você comporta ciumes exagerado, intensas desconfianças e todo tipo de defeito humano. “Quem ama não tem dúvidas” é o tipo de frase hipócrita de gente que está amando pela primeira vez e não aprendeu nada com o fracasso de amores anteriores. Quem ama se caga de medo de perder sim, de encontrar alguém novo sim, de perder o tesão sim, de engordar sim, de ficar chato sim, de não ser tudo aquilo que esperavam no começo sim! Dá medo amar alguém como eu amo você.

Te dou total liberdade para ir e vir, mas meu coração não vai te substituir. Tem a tua forma, teu tamanho, não cabe outra dentro dele. É aquele tipo de coisa que não adianta lutar, nem tentar forçar a barra só pra mudar de cor. Tem o teu perfume, o meu olfato. Tem a tua pele, o meu tato. Tem o teu olhar, o meu olhar. Tem a tua voz, os meus ouvidos. Tem a tua boca, o meu paladar. Não vai mudar, mesmo que um dia você mude e me perca no caminho da mudança. Eu te quero até sem ser querido. É sério.

E eu já me decepcionei tanto. Tanto com você e toda essa falta de encaixe que o nosso suposto molde perfeito tem. A gente não se encaixa direitinho e, mesmo que meu coração tenha teu formato, você tá sempre acima ou abaixo do peso e não preenche o espaço certinho. A gente às vezes simplesmente não se dá. Tem dias que eu tenho certeza que você gostaria de ter escolhido outro cara. Talvez porque eu to meio acima do peso, ou porque eu gosto de discutir assuntos que nem sempre têm importância pra você. Mas eu também sei que você sabe que isso passa.

Tem dia que você acorda e eu tenho vontade de transar com outra mulher, só de te olhar. E outros dias que eu te vejo me olhando e tenho a certeza de que está me comparando com amores antigos e casinhos que você teve e não viraram nada. A insegurança faz parte, é natural, a gente tem que chorar, se matar, arrepiar e se perder no mundo, mas aceitar que é assim, que o amor não vem todo dia, que tem dia que a conta no banco, o chuveiro queimado, o preço do leite, vêm primeiro à mente do que o nosso nome. Não é sempre que a gente lembra um do outro.

Mas você ainda faz o melhor sexo. E tem o melhor cheiro. O melhor gosto e isso não é falsidade ou elogio. É que isso é o tipo de coisa que a gente pode passar a vida sem, mas não esquece como é. Eu tenho o seu corpo numa memória tátil tão fiel que não preciso te abraçar pra saber a temperatura do seu corpo, ou te cheirar pra saber que cheiro vai ter. É o previsível que agrada. E é lógico que eu tenho medo de você engordar e ficar diferente disso que é hoje, mas paciência, se o humor continuar, se você ainda for sensual como é hoje, tudo é possível de se relevar. Na pior das hipóteses, você mora de frente com o parque: agente corre junto!

Hoje, mais do que nunca, eu sei que eu não sou o único. E que nem sou o melhor, nem o mais especial. Não sou o que te tira o sono, nem o que te da um tesão de arrepiar a espinha só de aparecer. Sei disso com um aperto no coração, mas sei. E sei porque aprendi que você também não é nada disso. Você não é a que tem o corpo mais bonito, nem a que me faz perder a cabeça, nem a que me arranca os maiores suspiros, mas tudo bem. Você é a que me ganha os pensamentos, a que me vem quando tá tudo uma merda, a que surge nos dias frios, a que aparece pra me lembrar que ainda tem gente no mundo que vale mais do que tudo isso.

E logo eu, que gosto de uma putaria como ninguém, me peguei pensando em casar, ter filho, tomar jeito na vida e construir uma família. Logo eu, novo até demais, irresponsável e descompromissado. Logo eu, que tomei a iniciativa de dar a chance de o mundo te mostrar que eu realmente não era a melhor opção. Essa coisa de amor é uma loteria que você pode ganhar ou perder na mesma proporção de chances, mas a diferença é que a gente aposta sempre no mesmo número. Você é meu número, do meu tamanho, do jeito que eu quero.

Paro com toda essa bagunça, devolvo paz pra minha mãe, paro de me machucar todo fim de semana e deixo minha chefe dormir em paz sabendo que eu vou chegar vivo até a segunda-feira. Paro com as mulheres feias e as bonitas. Paro com a bebedeira e as drogas esporádicas. Paro até com essa minha mania de querer conquistar os outros com algum talento. Paro com tudo pra receber você na minha casa, pra te dizer que é você que eu quero e pra te apresentar todos os meus defeitos e dizer tudo o que você vai ter que sofrer comigo, pra eu ter que sofrer com você e agente viver junto.

Não vai ser fácil, eu sei que não, mas se você me perguntar a resposta é uma só: É claro que eu te quero pra sempre!

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