Arquivo mensal: abril 2014

Isa, na Europa tem macumba?

É que me bateu uma curiosidade sobre como é que o povo faz quando vai pra outro país. Tem aquele livro do Neil Gaiman, “Deuses Americanos”, que fala sobre os deuses de tudo quanto é lugar do mundo que foram para os Estados Unidos na cabeça das pessoas e agora não conseguiam se manter porque não tinham muitos devotos locais. É foda ser um deus, eu acho. Você precisa de uma galera rezando, cultuando, lembrando e hoje em dia, em tempos de iPhone e internet 4G, a memória das pessoas se restringe aos nomes que piscam na tela. O novo deus do momento se chama WhatsApp, e até nisso o premonitório Neil Gaiman acertou, quando no livro, há 11 anos, ele falava sobre o deus televisão, o deus celular, o deus vídeo-game.

Pensando nesses novos deuses, me pergunto onde seria a igreja deles. Teriam uma igreja, uma casa, um templo, algum lugar de culto específico? Os novos deuses, eu acho, moram dentro da nossa casa, no carro, na nossa bolsa, no bolso de dentro do meu blazer fedendo a naftalina e bolor. São esses deuses que causam as batidas de trânsito, que fazem você não absorver nada na aula, que fazem o miojo ferver e queimar em cima do fogão. Os caras têm a nossa total devoção em tempo quase integral. Ninjas, esses caras novos. É que de uns tempos pra cá tenho pensado cada vez mais sobre a importância de ir de vez em quando no terreiro, sentir coisas, ver coisas, saber coisas e viver coisas que não são desse plano, desse “mundo”, que não estão à vista de todo mundo a qualquer momento.

A Isa, essa do título, é da macumba. E eu não vou perder tempo explicando o emprego da expressão “macumba” num texto como esse. Ela é mais da macumba que eu, talvez por ter estudado mais, lido muito mais, vivido muito mais e começado bem mais cedo. Mesmo assim, esse povo da macumba cria laços e conexões super rápido e, portanto, tanto faz quem chegou primeiro ou depois, o que vale mesmo é fazer parte. Assim como eu, quando não vai ao terreiro por algum tempo, ela sente falta. É igual gente que sente falta de ir à praia, porque lá se sente bem. Ou gente que sente falta de ver uma pessoa específica, porque essa pessoa a faz sentir-se bem. Enfim, a gente sente falta, uma falta quase física, uma coisa de peso nas costas, complicado explicar, mas fácil sentir.

Então, no começo, ao ler o meu título que te trouxe até aqui, pode ser que você tenha me sentindo mergulhado num poço de inocência. Talvez você, ao ler meu título, pensou que encontraria alguma outra coisa, um texto engraçado, alucinógeno, lisérgico ou algo assim, a julgar pelo título. Mas não foi isso, né? Eu perguntei porque é importante saber, porque me preocupa o futuro dos Orixás que a Isa tá levando pra Dublin, cultivando em Dublin, desenvolvendo em Dublin. E mais que isso. Me preocupa saber como é que se curam os que sentem falta das almas que estão no país de origem, como é o caso dela. Como se sente o guia desse cara? Como se sente esse cara sem seu guia? Como se sentem as pessoas que se consultavam com aqueles guias? É, talvez eu seja inocente em me preocupar com isso. Os caras tão na estrada há muito tempo e já devem ter resolvido essas questões. Então vou me dedicar à outra dúvida, uma diferente dessas. Pensa só: como será que se sente um gringo quando dá de frente com uma macumba de verdade?

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Você marcava minha vida!

A pasta de dente aberta no armário do banheiro; a escova enfiada no copo com as cerdas para baixo; o chão todo molhado fora do tapete, a tampa da privada abaixada; o chuveiro pingando com o registro mal fechado; uma calcinha encharcada pendurada nele; a toalha embolada sobre o trilho do box; uns bolos de cabelo enrolados na tampa do ralo; a porta entreaberta; e o cheio de creme hidratante. O quarto revirado; umas roupas jogadas no pé da cama; o carpete com marcas de pés molhados; a toalha molhada umedecendo o lençol; um sutiã pendurado no puxador da porta do armário; cheiro de desodorante de bambu; perfume de gente que viajou pra fora; meias de algodão encardidas na sola e um cinto de estrelas prateadas de metal. Você marcava minha casa inteira.

Uns fios de cabelo compridos presos no braço do sofá e nas almofadas; o controle da TV jogado no chão com as teclas para baixo e a tampa do compartimento de pilhas sumida sabe-sela onde; a tela mostrando algum programa idiota com o volume no mudo; a janela aberta com as cortinas balançando; umas folhas de árvore vindo de lá de fora; a cadeira fora do alcance da mesa; uns livros jogados pelo chão; uma revista de mulher pelada virando páginas descontrolada ao vento e um bolinho de papéis de bala 7 Belo no pé da poltrona. Uma bolsa vomitando coisinhas de mulher e cosméticos no corredor; uma calcinha preta mínima jogada no chão; um pé de chinelo na porta da cozinha e uma mancha de esmalte azul no carpete. Você marcava minha casa inteira.

A pia cheia de louça até a tampa; pratos sujos de chocolate derretido; copos de requeijão com cheiro de champanhe; garrafas e mais garrafas de bebidas sobre a bancada; suco de laranja esparramado pelo chão, cascas de frutas entupindo a tampa do lixo; a janela aberta, escancarada pra caralho; a geladeira zoneada; coisas abertas e apodrecendo no compartimento dos frios; farelo de bolacha e pão francês sobre a borda da pia e um pote de margarina cheio jogado dentro do saco de lixo reciclável. Uma garrafa de amaciante aberta derramando no tanque; a máquina de lavar com a tampa para cima; meia dúzia de roupas emboladas e sujas no fundo; o varal todo arrebentado; a escada de alumínio e a caixa de ferramentas jogadas no chão e um martelo jogado sobre a tábua de passar roupa. Você marcava minha casa inteira.

Mas o que ficou mesmo gravado, para mim, foi o dia que abri a porta do apartamento e encontrei você jogada no chão, toda vomitada no hall, na frente da porta do elevador, vestindo pantufas, calça de couro, jaqueta e sutiã. Seu cabelo fedia a leite azedo, suas mãos todas sujas de terra ou carvão, não sei, e seu rosto sujo de alguma coisa marrom difícil de definir. Eu lembro de ficar alguns segundos petrificado, te olhando, mas quando percebi que seu peito se mexia no ritmo de uma respiração percebi que não tinha sido dessa vez. Passei a chave na porta, pulei seu corpo largado e entrei no elevador pra ir trabalhar. A vida segue, você sabe, e tava foda arrumar a bagunça que você fazia. Mas as suas calcinhas eu guardei.

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