Arquivo mensal: novembro 2013

Você tinha que ter vindo!

“Você tinha que ter vindo”, ela disse. Falou comigo ontem! Mas disse como quem diz que vai se atrasar dez minutos, ou como se fosse um recado de alguém desimportante que ligou. Fiquei pensativo quando ela me falou. A Ana é o tipo de garota que não fala coisas por educação ou para fazer social. Se ela disse que eu deveria ter ido, talvez daqui a pouco eu comece a me arrepender por não ter ido. Mas não, as coisas não são assim, a gente não tinha que ter ido. Eu não tinha que ter ido, você também não, o Zé também não. Concorda?

Mas ela disse uma porção de coisas depois. Disse que tava fazendo um calor do cacete, que vivia pelada o dia todo no meio dos pescadores, andando com a bunda branca fritando no sol quente e dando bom dia pras lavadeiras. Disse que tinha comido um peixe que tinha a carne azulada e o gosto era parecido com salmão, só que ao contrário. Me disse que conheceu um carinha chamado Sagu e eu dei risada, porque dá pra fazer um monte de piadas com esse nome. Ela disse que ele vive levando ela pra ver as coisas de cima das pedras, que fala do tempo, que diz se vai chover e se vai anoitecer, e quando, e como, e diz que vai ser melhor no dia seguinte. Doideira esses nativos que adotam gente de fora que chega sem saber nada.

“Tem uma cobra amarrada num galho dentro do meu quarto”, ela disse. Mas disse como quem diz que tem uma formiga andando sobre a mesa, ou que o cachorro tá dormindo no sofá da sala. Disse como se fosse qualquer coisa. Era um galho de goiabeira que cresceu pra dentro da casa e mandaram refazer a parede com o tronco dentro. O tronco entra no canto e sai no teto. E nesse pedaço de tronco que tem no quarto diz ela que tem uma cobra amarelada que fica enrolada o dia todo. Ela disse que não tem medo e, pensando bem, não me lembro da Ana ter tido medo de alguma coisa na vida. Mas agora acontece que Ana anda pelada, toma sol sem protetor e dorme com uma cobra amarrada no teto.

Ela disse que precisava ir. “A gente se fala daqui uns dias!” ela disse, mas disse como quem realmente ia falar depois de uns dias, depois de umas horas, que ia entrar no Face, mandar um e-mail, ligar pra cá. Disse que ia conhecer um lugar chamado Pedra do Pulo, que ficava na ponta da praia onde ela estava. Ela disse que o pico da pedra ficava acima das nuvens e que, pra chegar lá tinha que caminhar duas horas em uma trilha. Disse que tinha uns duzentos metros de altura e que as pessoas pulavam de lá, no mar, de cabeça, de braços abertos gritando “auêêêê” e a voz ia sumindo dos ouvidos de quem estava lá em cima e aparecendo nos ouvidos de quem estava lá na água. Eu temi pela Ana, mas ela sempre foi desses bichos livres, criados fora da gaiola longe do bando fazendo o que bem queria.

Mas eu fiquei pensando muito. “Você tinha que ter vindo”, ela disse, e eu fiquei confuso, meio com medo, tentando entender o motivo de ela ter dito isso. A gente tinha que ter ido? Você acha que a gente tinha que ter ido, cara? Eu, você e o Zé, a gente tinha que ter ido pra lá com a Ana, andar pelado com ela, dormir no quarto dela, pular da pedra que ela pula? Será, cara? Não sei não, acho que ela falou por falar, da boca pra fora, você não acha? Vou perguntar pra ela da próxima vez que a gente se falar.

– A Ana morreu, cara… a gente não tinha que ter ido!

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Escolhas, só escolhas!

Você pode escolher as coisas. É ótimo ter opções, ter liberdade de escolha, mas muitas vezes a gente se esquece disso e decide por impulso, pressionado por alguém ou simplesmente escolhe qualquer coisa porque não prestou atenção no potencial da situação. A gente pode escolher beber dois litros de água por dia, ou pode beber dois litros de cerveja. Uma escolha vai te hidratar e te deixar neutro. A outra vai te deixar animado e eufórico, mas desidratado e confuso. Escolhas, cara!

A gente pode escolher viver a vida toda juntando dinheiro, tentando ser rico e levando uma boa vida. Ou a gente pode gastar todo dinheiro que a gente ganha sendo feliz aos poucos, em pílulas, mas com gente boa e bonita, gente que nos faz bem. Uma escolha vai te tornar uma pessoa estressada com muito dinheiro para comprar uma cama gigante, dormir confortavelmente e usufruir de algum luxo enquanto não estiver trabalhando. A outra vai te tornar uma pessoa de condições financeiras instáveis, vai ter mês que a corda vai apertar legal, você talvez não tenha uma cama tão gigante, nem viva com luxo, mas vai ter histórias para contar, gente boa pra ouvir e uma sensação estranha de estar caminhando para alguma coisa melhor num futuro promissor. São escolhas!

A gente pode escolher chamar as moças de princesas e vadias, chamar os rapazes de gatinhos e galinhas, podemos tentar fazer sexo como os filmes pornôs, podemos viver tentando aparentar sermos sexualmente muito bem resolvidos, tentando mostrar pro mundo que a gente transa bem, e muito, e goza sempre, e muito, e que fio terra é coisa de viado, e que dar o cu é coisa de mulher vagabunda, e que ter pau grande é a única maneira de comer alguém e que ter peitos lindos é a única maneira de ser desejada. Ou então a gente pode escolher só transar, fazer o que dá vontade, conhecer gente nova, coisas novas, posições novas, sensações novas, outras maneiras de gozar, misturar as maneiras velhas com as novas, entender um pouco mais sobre Kama Sutra, sobre vibradores, sobre óleos, géis, massagens, beijos, carinhos, texturas e figuras e sermos felizes sexualmente sem dizer nada a ninguém, sem julgar nem ser julgado por ninguém, só relaxando e gozando em looping infinito. São escolhas!

A gente pode escolher fazer uma faculdade foda de entrar, foda de sair, mas que vai gerir um lindo, gorducho e fofuxo diploma que vai te garantir um emprego em uma empresa que pague bem, que tenha escritórios modernos pintados de branco com uma porção de gente sabida das coisas fazendo o dinheiro girar enquanto dorme pouco, enche o rabo de café, vive com dor nas costas, vive doente, mas tá ganhando bem, tá enchendo o pai de orgulho e tá fazendo valer os anos de árduas noites em claro estudando. Ou você pode descobrir o que te faz feliz, pensar um pouco mais sobre isso, vestir uma camiseta, uma roupa confortável, sentar no sofá e começar a bolar o plano sobre de que maneira ganhar dinheiro com isso. Você pode pensar em atividades que te interessem e talvez nem sejam tão rentáveis, mas que vão te permitir viver, respirar, namorar, ter amigos, construir uma carreira e, quem sabe, até ganhar alguma grana. São escolhas!

A gente pode escolher ir andando, ir de bike, ir de ônibus ou ir de carro. Ou então foda-se, a gente nem vai e decide fazer outras coisas. São escolhas. A gente pode decidir dar só uma lembrancinha, ou dar flores, ou dar flores e um urso, ou dar uma roupa bacana, ou dar todo o seu salário numa loja e realmente impressionar. Ou então foda-se, a gente pode fazer um jantar, comprar um vinho que alguém te jurou que não tem gosto de inferno e fazer um amorzinho gostoso no fim da noite. São escolhas! A gente pode viajar para o interior, ou pode ir pra praia, ou vai pro meio da Amazônia, ou se joga pra Buenos Aires, ou vai pra Disney, ou vai pro Rajastão. Ou então foda-se, a gente pega umas cervejas, umas comidinhas delícias feitas na casa dos amigos e vai pro parque jogar baralho, tocar violão e ver o sol abaixando atrás dos prédios. São escolhas!

Então, sabendo disso, sabendo que você tem escolha, que você pode realmente decidir sobre a sua vida, pelo amor de tudo que é mais sagrado para você: não culpe os outros pelo que não deu certo. Combinado? A gente é foda, brother… a gente vai conseguir e vai ser feliz em larga escala!

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Ela mora sozinha

A pia cheia, suja, uma porção de panelas amontoadas junto com canecas de café, o fundo seco, rançoso, fedido. A casa era quase um cenário de vídeo clipe de música moderna. Tudo meio cinza, nublado, colorido com um opaco quase cult. Na cozinha, ali onde eu estava, os objetos pareciam significar mais do que realmente eram. Uma xicrinha branca com a borda manchada de batom cor-de-rosa me dava mil ideias. Ao lado, meio amassado, um maço de Marlboro vermelho com três cigarros e um bic verde pequeno socados dentro. Um saco de polvilho vazio e amassado, cheio de farelos no fundo e ao redor. Que porra de pia, cacete!

A geladeira fedia, como era de se esperar naquele cenário. Mas não fedia a geladeira, ou a arroto, como de costume. Fedia a podre, como se alguma coisa animal estivesse morta ali dentro. Na porta, uma dúzia de ovos suspeitos me olhavam com descrédito e um deles, o da ponta, exibia uma generosa rachadura, de onde eu supus sair uma parte do cheiro horrível que emanava dali. Nas prateleiras uma caixa de leite que eu não quis nem encostar, um grupinho de potes de conservas bem feias e alguma coisa amarrada em uma sacola plástica. Nas prateleiras de baixo, mais ou menos a mesma coisa, e no fundo, no lugar onde as pessoas chamam de “gaveta das verduras”, diversas garrafas de bebida, todas meio bebidas, descansavam deitadas e felizes emanando um odor azedo característico.

O congelador não tinha muito para me oferecer. Era um refrigerador antigo, daqueles que nunca ouviram falar em “frostfree” e, ao puxar a porta superior, todo o refrigerador veio na minha direção. Congelado! Completamente congelado. Depois de insistir um pouco, consegui abrir e vi alguns pedaços de carne vermelha e frango completamente envoltos por uma fina camada de gelo, quase como neve, cercados por paredes de gelo que ultrapassavam os 10 cm de espessura. A lâmpada que iluminava o compartimento simplesmente não existia, o gelo tinha quebrado, congelado e apagado há muito tempo.

A mesa estava cheia de sacos de pão marrons. Uns 40, no mínimo, sem brincadeira. Era uma montanha de sacos, a maioria com um pão só dentro. Eram pães metamorfoseados, já tinham deixado de servir de alimento há muitos dias e agora poderiam incorporar algum tipo de tacape indígena, munição de estilingue e até, quem sabe, reforço para os dentes de diamante de uma perfuratriz de metrô. Eram duros como mármore, nocivos até mesmo para os dentes de um tubarão, imagina para um ser humano. Soterrada sob os sacos, uma fruteira vazia de frutas, com algumas contas, papéis, clipes, fósforos queimados, um durex, um anel, um elástico de dinheiro e uma pilha Rayovac vazando.

Eu, pelado, recém acordado, olhava ao meu redor, vendo cortinas e vidros podres, enferrujados e comidos pelo tempo, não entendia direito como as coisas chegavam naquele estado. Mais para frente o fogão exibia uma camada de molho de tomate seca tão bem encrustada que por alguns segundos pensei ser uma customização feita com tinta. Era um lixão em formato de casa. Tinha cheiro de coisa viva morando e morrendo debaixo de alguma outra coisa escura e úmida. Era nojento, triste, desencorajador e insalubre. Quando, de repente, ouvi o som de pés caminhando pelo chão duro, batendo calcanhares e quando olhei ela estava vindo na minha direção com o cabelo bagunçado mais lindo do mundo, um sorriso desconcertado e a minha camiseta, que no corpo dela parecia um vestido fora de moda.

Ela parou na entrada do cômodo, me olhou, eu abri os braços de leve, como quem pergunta o que está acontecendo e ela disse que a “moça que limpa” tinha faltado e aquela bagunça era de uns 5 dias. Percebi que ela realmente achava que iria me convencer com aquilo, mas a sujeira, o cheiro e o lixo estavam ali há, no mínimo, meses. Um par de meses. Meus pés parados no chão de piso branco, gelado, meu pau amolecido e envergonhado, meu umbigo apontando para o dela e ao redor o universo de uma casa degradada por uma garota que mora sozinha. “Eu achava que mulheres morando sozinhas eram sempre organizadas”, disparei, quase séria. Ela sorriu tímida e finalizou a conversa: “é, tá um pouco ruim… mas eu vou dar uma geral. Só não usa o banheiro, ok?” e eu ri, porque não consegui imaginar o que tinha dentro dele. No fim das contas a gente viveu mais 2 anos na mesma bagunça, sem lavar um copo sequer!

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Paciência

Dai ele me disse que tinha uma ideia foda. “Cara, tive uma ideia foda!” e eu fiz cara de quem estava pronto para ouvir, enquanto pensava “cara, você é um idiota”, e fingia ouvir alguma coisa sobre qualquer assunto totalmente desinteressante para mim. Eu estava completamente tomado por uma irritação agressiva, quase incontrolável, que me fazia odiar qualquer coisa. Acima de tudo, eu odiava gente que tinha “ideia foda” a cada cinco minutos. Esse tipo de grande ideia não aparece assim, igual mosca na carne do almoço. Isso demora. Eu tinha bebido um pouco, estava meio puto com o mundo, com o trabalho, com o calor, com a época do ano, com a porra toda.

Depois meu tempo acabou, levantei e saí andando, assim, do nada mesmo, como se tivesse sido chamado por alguém, ignorando qualquer assunto, fingindo que estava sentado sozinho. Ele ficou lá, falando sobre sua “ideia foda” para ninguém, perdido nas próprias grandes criações de merda. Eu já não aguentava mais. Se ficasse mais um segundo teria enfiado a mão dentro da cara dele, de frente, um murrão no dente da frente, certeiro e ridículo. Saí, foi melhor, mais civilizado e, mesmo tendo deixado ele falando sozinho, sem dar qualquer sinal de despedida ou educação, não me pareceu tão desrespeitoso.

Tinha umas quatro minas completamente chapadas na porta. Eu queria sair, elas queriam conversar, e uma delas tinha um pouquinho de pó branco ao redor de uma das narinas. Estávamos num café e a gente podia, com muita imaginação e ingenuidade, fingir que tinha voado açúcar na cara daquela doida. Mas não, ela estava doida de coca. Coca mesmo, sem mistura, sem nada além. Os olhos abertos, uma conversa de frases curtas e gestos duros, com risadas agudas e estridentes. Eu queria sair, elas queriam conversar na frente da porta, e minha paciência acabou. “Sai”, disse, honesto e justo, sem compaixão, mas sem grosseria em exagero. As minas abriram caminho com olhares de reprovação e caras de desgosto. A última bocejou falsamente e disse “aff, que preguiça de gente grossa” e eu senti, por um segundo, um suave cheiro de merda misturada com cigarro saindo da boca dela.

A rua estava cheia de gente, meu bolso vazio e eu bravo porque não importava quanto tempo passasse, o café no Fran’s Café continuava uma merda. Iniciei um diálogo nervoso e desconexo comigo mesmo, mentalmente, pensando sobre o motivo pelo qual eu voltava àquele lugar péssimo. “Não tem nada bom”, eu dizia. “Mas as pessoas sempre marcam encontros na porra do Fran’s”, ponderava. “Sem dúvida é o pior lugar da cidade!”, reclamava. “Sem dúvida, o pior e mais caro!”, completava. Seguia conversando comigo e concordando que não vale a pena tomar café no Fran’s Café. Não vale a pena ir lá sóbrio, nem bêbado, nem fumado, nem cheirado, nem injetado, nem de jeito nenhum. Era um dos piores lugares para se gastar tempo de vida.

Tinha gente que amava o Fran’s. O chocolate quente do Fran’s. Os salgados deliciosos do Fran’s. O ambiente aconchegante e sofisticado do Fran’s. O cheiro de café torrado do Fran’s. Mas tudo bem. Ninguém é obrigado a concordar com os gostos alheios. Eles amavam. Eu odiava. Para alguém o atendimento não é tão ruim. Para alguém os preços não são tão abusivos. Para alguém os pratos são realmente deliciosos. Já encontrei multidões que ama o Fran’s, amam de verdade, de querer voltar, de ir todo dia, de achar que ali as ideias fluem, que dá pra marcar reunião de trabalho, de faculdade, de gangue, de qualquer coisa no Fran’s. Eu não.

E a vida seguia seu curso natural, virando esquinas, fumando em lugares escuros e chegando tarde no trabalho. Depois passaram três dias. Conheci uma garota na livraria, ela queria o mesmo livro que eu e só tinha um exemplar no estoque. Aquelas coisas de filme que nunca acontecem na vida real. Aconteceu na vida real. A gente conversou um pouco, ela me deu um telefone, eu liguei no dia seguinte, a gente foi jantar e beber alguma coisa alcoólica na parte boêmia da cidade e demos beijos etílicos. Dois dias depois ela me disse que queria me ver, saímos de novo, bebemos bastante, ela me chamou pra dormir na casa dela e ficamos juntos. No dia seguinte, de manhã, ela disse que queria tomar um café e, sem perceber, fui conduzido ao lugar que eu menos gosto no planeta.

A gente continua se vendo quase todo dia, dormindo junto, bebendo bastante, fumando alguns cigarros, fumando alguns baseados, indo para festas estranhas, rindo das pessoas que se vestem como babacas da moda, pensando em ter um cachorro, indo ver filmes de gente desconhecida e peças de teatro com atores desconhecidos, lendo livros do mesmo autor, comendo comidas estranhas, fazendo novos amigos, ensinando coisas novas uns aos outros, tendo tempo para fazer planos, dando risadas, concordando que a vida é mais divertida a dois, concordando que a vida é mais leve a dois, concordando que a gente fica menos irritado a dois, sacando que a gente fica menos ranzinza quando estamos a dois e sendo felizes na medida do possível. Enquanto isso o Fran’s Café continuava servindo o pior capuccino da cidade. E ela amava ir lá. Paciência.

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