Arquivo mensal: junho 2014

Apaga essa luz, mano!

Acendem a luz e eu não consigo escrever. Tem alguma coisa de vampiro de quinta categoria em mim porque tudo o que é no claro não funciona muito bem. Lembro quando tinha uns 15 anos que minha mãe viajou durante um feriado e me deixou em casa sozinho com liberdade para ir para onde eu quisesse. Passei cinco dias sem abrir as janelas nem as cortinas, só saí uma vez, de noite, para comprar comida. Não sei criar na claridade. É como se o dia fosse feito para executar coisas, lembrar, falar, comer, fazer e viver. Quando acaba a luz natural é hora de parar e criar, deixar as ideias saírem pra passar, como cachorros presos em coleiras muito longas.

Acabaram de acender a luz aqui. Olhei o relógio, são 18h46, hoje é terça-feira, o Brasil ganhou ontem, se classificou para as oitavas de final, eu bebi duas cervejas enquanto assistia ao jogo na casa de uma amiga que mora perto daqui e depois chegou hoje, o dia de trabalhar o dia todo. Entrei às 9h35. Meu horário é às 10h. Tem trabalho demais pra fazer quando a semana anterior é cheia de pausas e feriados e a que começa tem jogo da seleção brasileira. É foda trabalhar, às vezes. Penso em ganhar na mega-sena, ficar rico, morar num catamarã por uns 20 dias e depois gastar tudo. Penso nisso enquanto trabalho, porque tem coisa pra caralho pra fazer e a vida corre.

De dia não dá pra parar pra escrever. Note que a distância entre esse texto e o último é de muitos dias, porque meu momento criativo nunca está disponível para a escrita. Tenho bebido bem pouco. Quanto menos bebo, menos sinto aquela euforia absurda que nos faz pensar que tudo vai dar certo ou errado, sem meio termo. Era dessa euforia que eu costumava tirar textos. Agora não bebo mais e quando venho criar perco tempo pensando no que vou escrever. Escrever tem se tornado difícil ultimamente. Trabalhar também. Emagrecer, então, até perdi a vontade de tentar. Mas é que acenderam a luz no fim do dia e eu ainda não tinha pensado em nada bom pra falar.

18h51. Ainda estou pensando em alguma coisa pra escrever. Botei Arctic Monkeys pra tocar. Sabe aquela nova, “Why’d You Only Call Me When You’re High?”, então, é essa. Na música já são três da manhã e rola uma discussão sobre porque uma pessoa só liga pra outra quando está bêbada. Será que agora, sem beber, eu tenho que esperar até três da manha pra ter uma ideia do que escrever? Tem sido foda ser criativo. Fico pensando em coisas muito incríveis para escrever quando estou no metrô, ou tomando café na padaria, ou caminhando para pegar o ônibus. Mas quando tenho essas ideias não consigo anotar, é de dia, é luz solar, e nessa situação eu não crio nada. Fica difícil assim, né? Eu sei.

São 18h56, já não faço a menor ideia de qual era a ideia inicial. Arctic tocando no repeat, a mesma música, sempre a mesma e eu tentando escrever algo. A tela branca, o teclado brilhante e bonito, cheio de marcas de coisas que passaram aqui antes de mim. Vai dar a hora de ir embora e essa tela ainda está branca. Tem uma romantização escrota sobre o momento do branco, a tela branca, o cursor piscando. É puta babaquice isso aí. Quando eu estava na faculdade de jornalismo o povo teorizava milhares de vezes sobre como vencer o bloqueio, o branco, como finalmente ligar as mãos para fazê-las baterem as teclas em formarem o pão de cada dia, mas é tudo mentira. Tem que cumprir o currículo, preencher o espaço das aulas, dar motivo pro povo pagar quatro anos de uma coisa que poderia ser aprendida em dois. Enfim, não tem drama em relação ao branco. É só apagar a porra da luz que sai, pode apostar!

Tô indo embora, valeu, obrigado mesmo viu. Beijo, amanhã eu tento escrever alguma coisa, hoje não saiu.

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Pós-festa

As paredes com marcas de mãos sujas, o chão grudento e encardido, mesmo nas partes onde havia carpete no lugar de piso. Os copos de plástico jogados pelo jardim e pela sacada, garrafas boiando na piscina e pedaços de papel impossíveis jogados por todos os cantos. Tinham rasgado a cortininha da janela da cozinha e uma das cadeiras estava só com três pernas. A quarta, pelo estado pontiagudo da madeira, tinha sido arrancada com violência. Na árvore, quase como uma cena de filme adolescente americano, uns dez rolos de papel higiênico se cruzavam e enrolavam nas folhas. Eu não fazia a menor ideia de como faria para limpar aquilo, nem de onde tinha saído tanto papel. Será que as pessoas levam rolos de papel nas bolsas e mochilas quando vão para alguma festa, só para o caso de ter uma árvore dando sopa por perto?

A sala estava fedendo a vinho azedo. O tapete estava manchado de amarelo na ponta e, pelo cheiro, estava mais para vômito do que para bebida. O sofá estava ligeiramente deslocado do eixo e uma porção de copos e garrafinhas de vidro ocupavam os móveis, a estante, o entorno da televisão e uma parte do chão. O lavabo de baixo tinha vômito pra todo lado. Alguém passou bastante dos limites e conseguiu vomitar próximo ao teto ao redor do batente da porta, pelo lado de dentro. Se não fosse minha casa eu daria parabéns pela façanha. A pia estava tomada por uma pasta cor de salmão, seca, fosca e fedorenta. A privada não estava muito diferente e o chão de piso branco parecia ter sido frequentado por alguém carregando um pincel de tinta preta pingando sem parar. Como as pessoas conseguem sujar tanto os sapatos em uma festa?

Subindo as escadas os pés disputavam espaços nos degraus com copos e garrafas. No topo havia um frasco de perfume vazio, aquilo me perturbou um pouco, mesmo sem saber o motivo. O corredor repetia o roteiro de garrafas, frascos, copos, latas, coisas que sujam, mãos pretas nas paredes e líquidos sem identidade absorvidos e espalhados por todos os lados. O quarto dos meus pais não abriu quando forcei a maçaneta: bom sinal. Achei que nem estando trancado ele seria poupado. O banheiro do corredor de cima estava um pouco melhor que o de baixo. Estava sujo, bagunçado e a porta de plástico duro do box estava com uma rachadura enorme, mas não fedia a vômito. A tampa da privada estava torta e o cesto de lixo estava povoado por uma montanha de papéis, além de umas três ou quatro camisinhas. Sexo no banheiro da festa, que original. Uma das camisinhas no lixo era vermelha, estava amarrada na boca e eu fiquei pensando: quem, hoje em dia, ainda se preocupa em dar o nó para a camisinha não vazar no lixo? E quem é que comprava camisinha com sabor? Afinal, ainda tinha gente que chupava os outros com camisinha?

No final do corredor meu quarto estava do jeito que eu deixei quando acordei. A cama meio bagunçada, as persianas fechadas desenhando listras perfeitas no chão e os objetos mais ou menos no lugar. Meu quarto se salvou da destruição em massa que o resto da casa enfrentou na noite anterior. Saiu quase ileso, na verdade. O jardim, com um pouco de música, um bom café da manhã e disposição eu conseguiria limpar em umas três horas. A cozinha, em um pouco menos de tempo. A sala e o banheiro, com dedicação, não levariam nem sequer uma hora. Recolher os copos e garrafas levaria uns trinta minutos, no máximo, e as tapeçarias e coisas quebradas eram facilmente laváveis na lavandeira da esquina ou trocáveis, sem grandes gastos. Eu conseguiria arrumar a casa inteira com uma dose extra de força de vontade, mas não fazia a menor ideia de onde eu ia tirar coragem de lavar o cheiro do seu perfume que ficou impregnado no meu travesseiro. Essa questão eu ainda não resolvi.

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Isso os filmes não contam

Ficava com os pés juntos, os dedos contraídos, sentada no canto da sala enquanto a televisão muda passava as cenas sem parar. Passava horas assim, separada do mundo, fazendo parte de alguma outra realidade, longe daqueles sofás, do tapete e dos ácaros que o tapete adotou como seus. Vivia no além mar das ideias abstratas sobre coisas sem nome. Gostava de pensar que ficar ali, agarrada a si mesma, lhe dava poderes de passar a história do filme da própria vida para frente e para trás. Fechava os olhos e se imaginava formada na faculdade, logo depois com a barriga enorme e tendo filhos e mais filhos como uma coelha muito fértil. Imaginava que mulheres, para serem felizes, deveriam parir aos montes, um filho atrás do outro, e pensava que as mães que botavam gêmeos no mundo eram pessoas de sorte. Achava que ter filhos era a realização do que se conhecia por felicidade, ou algo bem próximo disso.

Imaginava que, no passado, tinha sido mais esperta, aprendido as coisas mais rápido, perdido menos tempo fazendo lições de casa inúteis e tinha conseguido convencer os pais a comprarem um cachorro. Se hoje não tinha um cachorro era óbvio que o motivo estava ligado a algum fracasso no passado. Na curta vida de apenas dez anos ela já conseguia encontrar muitos pontos a serem mudados, mas passava a maior parte do tempo desenhando e montando o que seria o melhor futuro que uma pessoa poderia ter. Um belo marido, uma casa grande, os filhos aos montes e muitos cachorros, um de cada raça e tamanho. Teria também um avião, porque já tinha aprendido que aeroportos são muito chatos e seria necessário ter uma maneira mais prática de visitar a Disney quando chegassem as férias. Um avião cor-de-rosa resolveria tudo.

Seus desejos eram simples, pareciam inevitáveis que se realizassem e tudo o que era necessário era crescer. Esperar o tempo levar o tempo que precisa para que as coisas cresçam, tomem forma e se configurem em um conjunto de realizações de vida que nós mesmos planejamos. Nossa vida, para ela, era como um bolo que simplesmente precisava crescer e mais nada. Só ser bolo já bastava. Queria coisas de criança fantasiando vida de adulto. Sem limites de custos, dinheiro, distâncias, dificuldades e riscos. Queria o avião, o carro, o marido, as crianças, os cachorros, a grama verde, a casa enorme, a piscina em forma de coração, a cozinha com um armário só para doces, uma cama elástica no meio da sala, um esconderijo secreto por detrás de uma estante de livros e uma porção de dias felizes e ensolarados para poder curtir tudo isso. Bastava uma vida perfeita. Já estava bom se fosse assim, perfeita.

Era com esse tipo de fantasia que ela sonhava nas horas que passava agarrada às próprias pernas no canto da sala. Mas o mundo real sempre cobrava sua parcela de atenção. Então se levantava e se sentia incomodada com a falta de amigos, com a estranheza do mundo e com a sensação de não pertencimento que sentia ao confrontar a vida da qual fazia parte. Uma garota de dez anos que entorta colheres com o olhar nos momentos de medo, quebra vidros quando chora, abre chama com as mãos quando se zanga e ouve o pensamento alheio em situações de vergonha tem muito mais sonhos e desejos que uma criança comum. Os filmes, os quadrinhos e os desenhos sempre mostram gente assim vivendo uma vida de heroísmo, saindo na rua como intocáveis, esbanjando seus poderes contra a polícia, contra monstros, contra o mal. Quanta besteira. Só mostravam coisas absurdas, totalmente desconexas com a realidade de quem tinha aquelas habilidades. Os filmes não mostravam, acima de tudo, o quão frustrante era para uma garota assim tentar dar o primeiro beijo em um colega da escola. Essa parte os filmes não contam.

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