Arquivo mensal: outubro 2014

Boa noite, povo!

Batendo palmas e dançando dentro de um vestido de tecido simples, estampado de flores azuis e amarelas, ela entrou na sala e roubou a atenção de todos. Havia uma luz intensa e nítida ao seu redor, como se algum spot de luz houvesse iluminado a personagem principal de uma peça que acabava de começar. Era ela a personagem. Só que não havia teatro, nem spots, nem mágica. “Em algum lugar, em uma dobra do tempo muito longe daqui, existe uma estrela com o seu nome e ela brilha em contagem regressiva até o dia em que você tomará seu lugar”. Foi o que ela me disse.

Dançava como se estivéssemos em um grande baile, uma festa animadíssima, mas a música que tocava só ela ouvia, a energia da pista de dança só era sentida por suas pernas e os pés, que deslizavam com habilidade, exibiam uma lista de passos decorados que ninguém mais sabia executar. Era uma bronca, essa dança dela! Quem mais estava na sala comigo? Sem perceber, comecei a perder a noção do entorno, como se aos poucos, conforme evoluía no dançar, ela me separasse do resto para dar um recado particular.

Em dado momento passei a me questionar se ela era uma só ou se havia alguma chance de serem duas, doze, duzentas ou número maior. Sentia a presença de muita gente na sala, todos sabendo dançar um ritmo que nunca fora apresentado a mim. As cores do vestido e a leveza do tecido desenhavam cenários surreais, como se fossem mapas de destinos que eu deveria visitar em algum momento entre esse evento inusitado e o fim dos meus dias. Que tipo de medo é o sentimento de não querer saber uma novidade que estão prestes a nos contar? Eu não sabia se queria saber, mas tinha certeza de que aquelas mulheres, aquela mulher, queria ou queriam me dizer algo.

Veio ao meu encontro, me abraçou com braços fortes, me puxou de encontro ao seu peito quente e acolhedor e entrou para dentro dos meus olhos. Eu via o que ela queria me mostrar. Mesmo que fosse de fora, me sentia um observador participante de cenas que nunca ocorreram na minha vida conhecida. Mesas enormes com comidas que nunca provei estavam tomadas de pessoas enormes e importantes vestidas de forma exuberante. Por algum motivo eu sabia que eram importantes. Líderes de alguma coisa? Sábios? Gente que ainda não tinha involuído de alguma forma? Senti uma extrema vontade de sorrir.

“Boa noite, povo!”, eu disse em saudação, sem palavras, porque nesse banquete as conversas se davam de outro jeito. Alguém sem rosto tocou minha testa e então me separei do corpo. Me vi parado olhando para a enorme mesa, a dançarina do vestido florido logo atrás de mim, em uma postura muito semelhante à minha e a cena acontecia sem minha interferência. Ouvi uma música, como um grande coral muito bem ensaiado e senti meu corpo pesar uma tonelada. Desmanchei no chão e senti minha cabeça se chocar contra algo duro e frio. Quando recobrei a consciência ainda eram 10h da manhã e tinha um dia inteiro para viver. O tampo da mesa do trabalho tinha a marca da minha testa. Eu sabia que não tinha sido um sonho e senti vontade de perguntar a mim mesmo onde eu estive. “Você deu um pulo em casa, mas já voltou”, respondi a mim mesmo.

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O que a gente fez da nossa vida?

O que a gente fez da nossa vida? Porra, essa pergunta exige uma introdução breve. Eu morava num lugar onde a água só chegava três dias na semana e nunca eram os mesmos. Era uma agonia eterna de ter que abrir a torneira para ver se era dia de água ou não. Parecia que nunca era. A gente comia bolacha água e sal, ficava de cócoras equilibrado sobre os calcanhares e olhava o movimento da rua de cima do muro. Seis moleques, todos magros até o osso, agachados igual urubus, mastigando bolachas secas e murchas com a boca aberta e olhando o movimento da rua. Naquela época ninguém tinha direito de ter nome, então a gente era só a gente, estava bom assim.

Depois passou o tempo e eu virei eu mesmo, com esse nome que você me conhece. A vida foi generosa comigo, não posso negar. Estudei, enquadrei o diploma na parede do quarto, viajei para a praia, frequentei casas e apartamentos maiores que uma quadra de futebol de salão e as coisas meio que deram certo para mim. Engordei gradativamente, em ritmo constante, e hoje exibo uma senhora barriga, uma barba de gente de pouco asseio e um linguajar chulo o suficiente para me levarem a sério sem precisarem me levar a sério. Deu certo, essa coisa do futuro.

Outro se mudou para o Piauí e virou Maicon. A última vez que a gente teve notícia parece que estava preso. O Maicon era envolvido com roubo de carro, desmanche de carro, falsificação de documento de carro, clonagem de carro, corrida de carro. Coisa de carro, entende? Ele vivia falando do som dos motores dos ônibus que passavam na rua quando a gente ficava trepado sobre o muro do terreno baldio. Dizia que quando fosse “grande”, seja lá o que isso significava, já que era o maior de nós, ia ter um caminhão enorme e viajaria para o nordeste. A mãe dizia que o pai tinha fugido para o nordeste e ele tinha o sonho de pegar a estrada e ir atrás do pai. “Oi, pai. Eu sou o Maicon, seu filho”, ele queria dizer. Ele sonhava em matar o pai.

O outro morreu cedo, não teve tempo de ter nome nenhum. A gente ainda era adolescente quando explodiu um rojão na cara dele. Também, burro que só! Acendeu o rojão pra comemorar um jogo do Brasil na Copa de 98. Acendeu o pavio falhou e ele ficou fazendo papel de ridículo na nossa frente. Moleque de rua é uma raça que não perdoa, é uma forma de parecer estar numa situação menos pior, essa coisa de tirar sarro da desgraça alheia. Enfim, o rojão falhou, ele olhou por dentro do tubo e então a explosão aconteceu rápido demais para qualquer um de nós entender. A cabeça dele parecia uma melancia que caiu do caminhão e a gente ficou sem comer melancia por muitos anos.

Um sumiu, eu simplesmente não faço a menor ideia do que aconteceu com ele e ninguém com quem eu conversei sabe. Então sumiu.

O outro virou advogado. Deu mais certo na vida do que todos nós. A mãe trabalhava como faxineira em um escritório e o filho começou lá como mensageiro, depois ganhou uma bolsa de estudos para estudar Direito, fez a lição de casa, ficou longe do crime, das drogas, dos caras animados demais e hoje tem uma carreira sólida, casa grande, mulher bonita, filhos saudáveis e se chama Jardel. Esse é um cara que cresceu na vida, era pobre e ficou rico, era quase nada e conquistou o que, naquela época, a gente achava que era tudo. Parabéns pra ele. A gente nunca mais se falou.

O último decidiu que não estava feliz como estava e fez uma cirurgia. Se transformou em mulher, uma mulher muito gata por sinal. Luara! Ficou com voz fina, aproveitou as pernas longas, não exagerou no silicone e se jogou na carreira de modelo. Estava ganhando dinheiro, mas não gostava do cabelo cacheado. Durante um processo químico controverso acabou ficando cego dos dois olhos para ter um cabelo loiro, lambido e controlado. É uma das modelos cegas mais bem pagas da indústria e não se arrepende de nada. Estou casado com Luara há dois anos!

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Décimo sexto andar

“Fica comigo essa noite”, foi o que ela me disse quando eu já estava de frente com o elevador. Mais de três da manhã, mistura de sono com cansaço dentro de um copo de Eno e quando tenho coragem de partir ela me pede pra ficar. Agarrada ao batente da porta do apartamento, loira tingida, sorrindo sonolenta e eu tentando me manter racional. Recitei um livro que ela disse que estava lendo: “mais difícil que ficar, era partir”, e sorri. A porta dupla de metal se abriu e entrei no cubículo espelhado com destino ao térreo. “T”, é o que dizem os elevadores que levam visitas a caminho de suas casas.

O caminho de cima a baixo começou no décimo sexto andar. Odeio a sensação de descer de andares muito altos. Fico pensando no vazio do poço do elevador, a distância fatal de onde a cabine está em relação ao chão e não consigo me livrar daquelas cenas de filme quando o elevador despenca piscando as luzes e a cena acaba com um black total. Black total é a morte, pode crer. No décimo primeiro andar o elevador parou. A porta abriu e um senhor entrou com um cachorro no colo. Era um daqueles cachorros brancos, pequenos, parecia tão velho quanto o dono. Ele me deu boa noite e pensei em comentar que talvez o melhor seria dizer “bom dia”, mas economizei palavras.

Continuamos descendo e o cachorro dormia profundamente nos braços do idoso. Parecia querer acordar, mas falhava em todas as tentativas. Paramos no sétimo, mas não havia ninguém para entrar. Talvez tivesse tomado o outro elevador antes da nossa chegada. O senhor ao meu lado sugeriu essa hipótese e levantei as sobrancelhas em concordância. No terceiro andar o elevador diminuiu a velocidade e parou de novo. A porta abriu e não havia ninguém novamente. Nos olhamos e fizemos um movimento com a boca, inclinando a cabeça para o lado e erguendo os ombros, como quem diz “vai entender, né?!” e esperamos a porta se fechar.

Só então passei a me questionar o motivo de alguém tirar o cachorro de dentro do apartamento no meio da madrugada. Pensei que passear com um cachorro a essa hora era uma opção muito pouco provável, visto que o cachorro estava sem coleira e parecia imerso em um sono profundo. Profundo até demais para um cachorro. Talvez estivesse levando ao veterinário. Podia ser que o cachorro estivesse com a doença do sono, ou realmente morrendo, como me pareceu nos primeiros instantes em que a dupla entrou no elevador. Enquanto pensava sobre isso olhando fixamente os olhos fechados do animal, percebi que estávamos parados no segundo andar com as portas abertas. Ninguém, de novo.

O elevador, como já era esperado, parou no primeiro andar. Também já era esperado que não houvesse ninguém ali, então não havia. Pensei naquelas crianças filhas da puta que apertam os botões do elevador para atrapalhar quem está dentro. Não sei que tipo de prédio permite que crianças sozinhas corram pelos andares apertando botões sem que ninguém as veja. “Sinistro”, pensei. As portas se fecharam e a cabine desceu, finalmente, para o térreo. Pouco antes de o elevador parar, o homem dentro do elevador comigo olhou para o cachorro, que agora estava mole como uma bexiga d’água, dormindo profundamente e disse “tadinho, acho que agora morreu mesmo”, e olhou para mim com ar de tristeza.

No momento em que o desespero ia começar a me preencher de ideias absurdas para frases que pudesse comentar a morte do animal, as portas se abriram e ela estava lá. No hall, um tanto ofegante, metida dentro de uma camisola fina o suficiente para marcar todos os seus contornos, principalmente os mamilos rígidos por causa do frio, estava ela, loira, tingida, sorridente e um tanto surpresa por ter um homem dentro do elevador comigo. O velho e ela se olharam e falaram ao mesmo tempo: “ele é meu amigo”, disse ela, enquanto sua voz se misturava ao “ele era meu cachorro”, do homem. Ela pareceu não entender o que ele disse. Ambos se puseram a andar, o velho para fora, em direção à rua, e ela para dentro, em direção a mim. No meio do caminho ela alisou o cão morto e disse “que lindinho seu cachorrinho”, e sorriu na face desolada do homem. Subimos e eu passei mais três noites no décimo sexto andar.

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