Arquivo mensal: setembro 2014

Hoje eu não vou voltar para casa, amor

Essa é minha última transmissão. Depois dessa, nada mais será dito, escrito ou pensado por mim. Estou acabando, findando minha participação, recitando as últimas linhas do meu monólogo e as cortinas já estão prestes a fechar. Serei novamente pó de estrela, essa matéria mágica que forma e deforma todos nós. Sei que parece clichê, mas daqui de cima tudo que eu penso em dizer é que a Terra é incrivelmente azul, mesmo com toda a poluição e a porção de decisões erradas que a gente tem tomado com as florestas. É incrivelmente azul, tão próxima, tão segura, mas eu não volto mais. Hoje eu não vou voltar para casa, amor. A seguir está todo o conjunto de coisas que eu consegui pensar em contar, mas como o ar está acabando e o frio é alucinante, pode ser que algo me escape à memória e fique perdido no espaço eternamente… assim como eu.

Número 1! Você tem bafo. Eu sei, deveria ter começado com alguma coisa mais romântica ou importante, mas você vai seguir em frente e seu novo namorado pode merecer uma namorada que não tem cheiro de repolho na boca. Vá ao médico, veja isso e seja feliz, esse cheiro não combina com a sua aparência.

Número 2! Eu nunca quis ficar com a sua amiga Ana. Eu sei que você sempre teve ciumes dela e sempre tentou me fazer ficar longe, mas a verdade é que a Ana nunca me interessou. Claro, ela me interessou como uma pessoa legal, assim como todo mundo que te paga cerveja, fala das suas bandas favoritas e te faz rir, mas foi só.

Número 3! Suas pintinhas no rosto são sexy. Não faça tratamentos, não use ácidos, não vá ao dermatologista com ar de preocupada, porque elas são perfeitas. Não acredite nas pessoas que dizem que é um problema ter pintas escuras e claras juntas. Problema, no seu caso, seria não tê-las assim exatamente como são.

Número 4! Sua mãe dá em cima de mim. Eu sei que você não vai acreditar, mas isso não me importa na atual situação. Quando você ler isso eu já vou estar vazio, mas sua mãe sempre me lançou olhares estranhos. Uma vez, naquele churrasco na casa do seu tio em Limeira, ela passou a mão na minha bunda e me chamou para subir as escadas, mas eu fugi assustado. Cuidado com ela e seus novos parceiros.

Número 5! Você é linda. Eu sei que você sabe que é bonita, não é difícil perceber isso, mas eu precisava dizer do meu jeito. Você é linda quando não tenta ser bonita. Você fica sensual e sexy quando está com os olhos pretos, a boca pintada e o cabelo arrumado, mas linda, daquele jeito simples e perfeito, você só fica quando está normal. Tente permanecer comum e você será bonita para sempre.

Número 6! Acredite no seu trabalho e invista nele. Pode parecer papo de fã só porque sou seu namorado, ou era, mas você precisa saber que é muito boa. Às vezes nem todo mundo vai acreditar em nós, nem todos vão nos dizer que estamos no caminho certo, mas temos de fazer o que nos dá a sensação de trabalho bem feito. Você é boa e isso basta. Eu não gastaria meus últimos momentos de vida dizendo isso se não fosse verdade.

Número 7! A Vanessa, aquela sua amiga, não é boa gente. Não sei como dizer em palavras o que eu sinto, mas tenho certeza de que você não vai perder muito se afastando dela. Eu sei que ela é sua melhor amiga, que você provavelmente vai correr para ela e chorar dias e dias quando souber do que me aconteceu, mas ela não é boa. Quando ela passa a energia das coisas acaba, o cachorro fica triste, as flores ficam meio velhas e eu me sinto mal. Sentia mal.

Número 8! Eu te amei todos os dias, mas meu amor sempre foi mais forte enquanto você estava longe. Nem sempre eu percebi o quanto minha vida dependia da sua, mas toda vez que você sumia ou a gente ficava afastado parecia muito óbvio que você era a mulher da minha vida. Vou morrer sabendo que você é a mulher da minha vida e tenho sorte por isso. Pouca gente tem certeza de que encontrou o verdadeiro amor.

Número 9! Um segredo: quando se está perto da morte é possível ver um pouquinho do lado de lá. Quando é claro e garantido que a morte é inevitável a gente vê, como se fosse uma imagem borrada num filme antigo, o que vem pela frente. Por isso não fique preocupada com o futuro. Faça as coisas agora e esqueça o resto, não vai adiantar nada. Meu próximo turno, ou o lugar para onde eu vou, não tem nada a ver com o que eu achei que aconteceria com a minha vida. Pensar no futuro é perda de tempo.

Número 10! Pra ser clichê vou acabar aqui. Não tinha nada para escrever depois do nono item, então só queria dizer que, nesse momento, tenho mais dois minutos de ar e vou gastá-los cantando aquela música que você gosta e olhando a sua foto. Seu rosto vai ficar indelével, assim como a minha maneira desafinada e infantil de cantar “Eu preciso dizer que te amo”. O espaço vai guardar a gente pra sempre. Te amo.

“Quando a gente conversa, contando casos, besteiras…”

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A casa

Eu queria um sofá de três lugares com assentos largos e encostos macios e confortáveis, com aquela coisa de puxar para frente e poder esticar as pernas. Queria uma mesa amarela para ficar colada na parede da copa, pelo lado da sala, para colocar um vaso de flores ou uma besteirinha qualquer para alegrar a cena. Quero decorar a casa com cenas. Na parede oposta à cozinha gostaria de ter muitos quadros, de tamanhos, molduras e temas diferentes. Arte, essa droga tão perfumada que eu sempre respirei, vai ter lugar na casa. Talvez uma mini estante para lembranças, coisas importantes de serem lembradas, fotos nossas, fotos de todos nós e de nós dois. Não sei nada sobre a televisão, sobre a estante, sobre o rack ou qualquer coisa que simule móveis assim. Estou preocupado com outras coisas. Cadeiras confortáveis, uma luminária no canto para fazer o cômodo ficar aconchegante em dias de luz apagada. Coisas assim. Cenas assim.

Quero poder cozinhar as receitas que aprendi de outras vidas, sentir cheiros de pratos que eu nunca executei e partir em busca de habilidades ainda inexploradas. Vou deixar o violão pendurado ali por perto da sala, para o caso de ter uma ideia de música enquanto tô esperando o bolo crescer, ou acompanhando o cozimento dos legumes. Quem sabe eu não escrevo um livro novo sentado de frente para a varanda, vendo o sol abaixar no fim do sábado enquanto ainda não é hora de sair pra encontrar os amigos, ou enquanto eles ainda não chegaram. E quero beber e fazer brindes, fazer planos e fazer festas, fazer graça e fazer juras de amor. Quero rir, beber, comer, dormir e acordar rindo de novo. Quero coisas simples, sem formalidades, sem protocolos, sem cenas armadas, sem obrigações, só a verdade. Uma casa de verdade, com pessoas de verdade, sentimentos e emoções de verdade.

Quero um cômodo para iluminar com luzinhas pisca-pisca mesmo quando não for Natal. Quero colocar meu narguilé no centro e sentar em roda com meus amigos para falar de nada, fazer nuvens de fumaça e planos pro futuro. Quero poder ver no teto um universo inteiro nas minhas tarde de devaneios, quando não me dá vontade de falar. Quero jogar baralho, fazer barulho, dar um mergulho e dormir em paz. Uma casa é um lar ou um lar é uma casa? E quem trazemos para nossa casa é nossa família ou família é quem já estava dentro? Quem se importa? Quero dormir passando frio e acordar morrendo de calor. Quero desejar bom dia com bafo de noite longa e cara de pugilista em sexto round. Quero fazer café da manhã e derramar tudo a caminho do quarto. Quero fazer café da manhã e conseguir chegar até o quarto. Quero sentir o cheiro que nossas coisas têm quando estão juntas. Quero acender minhas velas para os orixás e fazer minhas mandingas pra quando as coisas balançarem demais. Quero ser eu nesse espaço de nós dois.

E quando chegar sexta-feira, quero que seja pela porta da sala que os melhores amigos estejam entrando. Que fumem na sacada. Que peguem a cerveja na geladeira. Que troquem de canal furiosamente e indecisos. Que soltem gargalhadas descontroladas. Que briguem pelo resultado da partida de buraco. Que assistam ao jogo enquanto nós ficamos entediados. Que estejam ao redor. Se existe uma função dos amigos, acima de qualquer outra que possa existir, é a de nos proteger. São eles que fazem com que a vida se estique um pouco mais e é por isso que nossa casa será deles também. No fim, quando todo mundo for embora, quero deitar e sentir minha companhia de todo dia ao meu lado e sorrir para a grande sorte que a vida me deu. É uma grande sorte ter um lugar para chamar de meu lugar. É uma sorte maior ainda poder chamá-lo de nosso.

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Sem nome para um texto assim!

(texto ainda não revisado, pode conter erros e frases sem nexo algum)

Ela me dizia que estava tentando. “Tô tentando ser melhor, eu tô tentando!” e eu acreditava. Quando alguém treme e grita, deixa o catarro escorrer do nariz pra dentro da boca e os cabelos parecem flashes estáticos você tem que acreditar. Eu queria que a gente vivesse em paz, pudesse fazer planos, ter um filho, talvez. Ela não participava muito das minhas ideias, nem dos meus sonhos, era como se estivesse só ocupando o espaço da mulher que eu gostaria de ter, mas não tinha. Tive, mas ela virou uma maluca. Eu pedia “por favor, relaxa” e ela arremessava facas na porta. Caralho, facas na porta! Só que ela não era atiradora de facas nem tinha nenhuma outra habilidade circense, então as lâminas fodiam a madeira e voavam em direções aleatórias, marcando móveis, estragando o assoalho, quebrando espelhos e tudo mais. Facas, cara…

No dia seguinte ela acordava assustada, tomava banho e eu fingia dormir porque era o melhor que eu podia fazer por mim mesmo. Depois que saia era outra mulher, calma e arrependida, pedindo desculpas pela bagunça, prometendo pagar uma porta nova, mas isso nunca durava. Logo depois vinham os ataques incendiários com desodorante e isqueiro. Queimava o carpete, minhas roupas, a cortina, gritava descontrolada e queimava coisas com seu lança chamas caseiro da Nivea. Minha namorada queimava as cortinas com um desodorante, cara. Imagina isso! Tinha também o negócio dos copos. Ela se acalmava e dizia que precisava se ocupar, aí pegava um monte de copos de vidro (ela nunca fez com os de plástico, óbvio) e tentava fazer pirâmides. Ela era jovem na época, tinha menos de 30, mas quando tentava construir a pilha parecia ser acometida por um súbito Mal de Parkinson e derrubava tudo. Tinha vidro quebrado na casa toda. Vidros!

De noite ela aparecia mansa e macia, beijava meu pescoço e jurava que não era louca. “Foi só um estresse momentâneo” e me pedia perdão. Se não era no modo autodestrutivo, se mijando toda e arranhando os próprios braços com a cara melada de catarro, era assim, sensual e lasciva que tentava fazer as pazes. Esfregava as pernas nas minhas e vinha deslizando o corpo no meu, me beijando, me amando e dizendo que agora estava tudo bem. A gente transava com uma intensidade única que eu nunca mais experimentei com mulher nenhuma, mas depois de tudo eu não conseguia dormir. Ficava em dúvida sobre o que fazer do nosso relacionamento, que tipo de profissional contratar para curar aquela loucura diária e custava a pegar no sono. De repente acordava com barulho de água correndo e saia pela casa procurando qual era o ralo que ela tinha entupido. Sempre tudo nessa exata ordem. Na última vez enfiou uma porção de meias dentro do box e ligou o chuveiro. Deixou um recado no bafo do espelho: “fui comprar mais copos, os antigos quebraram sem querer”, e eu fiquei com medo de ela voltar a tempo de me encontrar ali.

Espalhei as facas pela sala, tirei as meias do ralo, fechei o registro da água, abri o gás no fogão, botei uma roupa, peguei a carteira o telefone e a chave de casa, verifiquei o gás que continuava aberto nas quatro bocas e no forno, acionei a torradeira com timer de cinco minutos e saí correndo. Desci pela escada, corri pelo hall do prédio, gritei pro Seu Francisco ligar pra polícia e fui embora, tipo Forrest Gump, até não aguentar mais correr. Às vezes tudo o que a vida precisa para entrar nos eixos são cinco minutos de insanidade indomável e um pouco de coragem para tomar decisões radicais. Hoje eu sou muito feliz!

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