Arquivo mensal: julho 2012

E fumava…

Fumava, fedia a cigarro o dia todo, coçava o saco o dia todo e ficava na janela o dia todo. Magro como um pau, branco como um pão tirado do forno antes da hora, com os cabelos já na altura dos ombros, pretos e sebosos, um bigode desgrenhado e cheio de falhas, uma tatuagem bem deformada no antebraço esquerdo. Um dia fora uma água, hoje era uma mancha, como um câncer de pele ou uma queimadura. Era um homem feio, pouco cheiroso e fumava.

Caminhava pela casa de quatro cômodos como quem não vence o tédio. No andar de baixo um boteco fantasiado de padaria e lanchonete, em cima, a casa, ele, um chão de tábuas de madeira clareadas quimicamente e só. Bebia café em copo americano, fumava um cigarro depois do outro, com calma, mas sem pausas, ficava de calças jeans e cinto, sem camisa e sem calçados, olhando para as janelas abertas e vendo os dias passarem. O dinheiro só vinha, ninguém sabe como, mas vinha. Todo fim de mês ele caia na conta, vindo de alguma fonte e ele gastava tudo com comida mínima, muito cigarro, pó de café e prostitutas. Adorava prostitutas, não era muito bonito e fumava.

Pelo bairro tinha fama de ser roludo. Teve até uma história sobre uma putinha novinha, talvez adolescente, que não aguentou e foi embora sem cobrar. Era um ritual com hora e dia marcado. Toda segunda, quarta e sexta-feira, por volta das duas da tarde, aparecia uma moça de aparência duvidosa tocando a campainha na porta lateral do boteco. Todo mundo já sabia o que era. Quando a moça subia as janelas se fechavam, para abrirem três horas depois, quando viam-na saindo. Não tinha preferências. Eram gordas, velhas, negras, brancas, magras, jovens, altas, sérias, coloridas, baixas. Contratava todas sem preconceitos. Era comedor de puta, sem preconceitos, branco e fumava.

De noite, se não estivesse muito frio ou chovendo, deixava a janela da sala aberta, apagava as luzes de dentro da casa e no silêncio da escuridão, depois do boteco já ter baixado as portas, tocava violino para as estrelas. Ficava lá, tocando muito bem, diga-se de passagem, olhando para o mundo adormecendo, fumando pelo canto da boca e dedilhando o instrumento por horas. Ninguém mandava parar porque era bom mesmo, mas mesmo que mandassem, ele não pararia. Era o tipo que namora a noite, que curte seu próprio momento e aquilo era importante. Era músico virtuoso, amante das estrelas e fumava.

Um dia decidiu tomar banho durante horas. Avisou o boteco que a água da caixa ia acabar, entrou no chuveiro com cinco sabonetes, muitos vidros de xampu e só saiu quando já tinha lua no céu. Ficou cheiroso, com cabelos levemente enrolados como se fosse um vocalista de banda indie, fez a barba e o bigode e de repente pareceu bem menos feio. Plantou flores nas jardineiras das janelas, que andavam cheias de terra e poeira. Ligou pra uma prostituta inédita, como sempre e transou de janelas abertas, deixando a vizinhança assustada com os gritos e urros da moça durante a tarde toda. Naquele dia a moça não foi embora e ele não tocou violino. Era limpo, cabeludo, bom de cama e fumava.

No dia seguinte a mesma moça gritou durante todo o dia. No fim da tarde ouvia-se apenas o ranger dos móveis, o som do chão, mas ela, já rouca, não emitia som algum. Durante a noite eles foram vistos na janela, nus, se beijando e olhando para o céu. Ela ficava olhando para as estrelas, ele apontava cada uma e explicava coisas sobre o céu, o espaço, os signos, o amor, a paixão e a morte. Ela sorria, colava seu corpo ao dele e se sentia protegida. Ele segurava o cigarro entre os dedos indicador e médio e apontava constelações, falava de poesia e música clássica, antes de tragar e contar mais. Era romântico, inteligente, atencioso e fumava.

Um dia ele morreu. Morreu feio, cabeludo, de bigode, sem camisa, com o pau comprido esticado sobre a barriga seca, mole, cinza, com as flores morrendo nas janelas, com a casa uma zona, com o telefone sem tocar, com a campainha sem ninguém para apertar, sem ninguém por perto. Passou a noite sem violino, passou a madrugada sem estrela, sem lua, sem horizonte e signo. Passou a semana sem dar as caras, morto no chão da sala, esticado e ninguém soube de nada, ninguém soube nem seu nome. Morreu sozinho, no escuro, tossindo igual um idiota, fodendo tudo ao redor, com dor e sem ar. Morreu feio, pouco cheiroso, adorando prostitutas, livre de preconceitos, branco, músico, amante de astrologia,  sendo bom de cama, tomando banho todo dia, com os cabelos já passando dos ombros, romântico, inteligente, cheio de atenção para dar e fumando. Na verdade morreu só porque fumava, o resto só servia para mantê-lo mantinha vivo, mesmo…

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O bom da vida!

Logo eu, que passei tanto tempo reclamando da falta de momentos livres, da falta de criatividade e da falta de novidade, me peguei afogado em pensamentos abstratos demais. No meio desse monte de relíquias modernas descobri que às vezes a gente sabe exatamente, mesmo que por um curto espaço de tempo, tudo o que precisamos para sermos felizes.

O bom da vida está por aí, jogado nas mesas de bar, nos pães com manteiga na chapa na padaria da esquina, nos carros que trafegam lentamente num congestionamento fora de hora no meio da semana. O bom da vida está em todo lugar: a gente só não vê porque o estado de espírito não nos deixa. Mas tudo bem, mais cedo ou mais tarde todo mundo se pega vivendo um momento de felicidade espontânea e cai na real de que é muito mais simples do que pensamentos. Ser feliz custa pouco, às vezes, quase nada!

O grande barato da vida está em resolver grandes problemas durante a madrugada só porque estava ocupado demais durante o dia fazendo o que dava mais prazer. A felicidade veio me pegar em uns momentos inexplicáveis, tipo quando estava carregando a caixa do meu novo violão pelo meio da rua em pleno horário de rush, ou quando estava batucando um tamborim desafinado num churrasco de gente pouco conhecida. São simplicidades que trazem tudo que é complexo consigo.

O bom da vida está em encontrar uma rádio de black music no som do motel e transar ouvindo Emicida, ou poder ficar pelado conversando sobre a vida sem se preocupar com o tempo, com o dinheiro, com o sentido ou com o conteúdo, só focar no momento. Descobri que é possível dar mais risadas em momentos sérios do que durante grandes shows de humor. É da maneira ridiculamente séria com que nós tratamos os cretinos que nascem as situações realmente hilárias. A gente valoriza cada coisa/gente sem valor…

A parte legal das coisas está escondida no momento da flexibilidade de opiniões e ações. Naqueles microsegundos em que decidimos nos sujeitar a alguma coisa que nos parecia negativa, ou a interagir com determinada realidade que não nos é familiar é que estão as grandes descobertas da vida. A felicidade é se sentir confortável saindo da zona de conforto. Ousar, permitir, intuir e aceitar são coisas que vêm junto com descobrir, apreciar, admirar e absorver.

Ouvir uma música que você não gosta pode ser a chance de descobrir novos gêneros. Conhecer pessoas das quais você nunca foi com a cara é uma ótima chance de fazer novos amigos. Admitir pontos fracos e defeitos que você passou a vida escondendo pode ser uma ótima maneira de aliviar tensões. Ser você, acima de tudo, ainda supera qualquer tipo de subterfúgio e fingimento de socorro. As pessoas gostam do que é real, o fake a gente já vê nos livros e cinemas.

O barato da vida está em olhar pro lado e sorrir, olhar para trás e sorrir, imaginar o futuro e sorrir e fechar os olhos sem precisar desmanchar o sorriso. O barato da vida é barato mesmo, às vezes custa o preço de uma passagem de ônibus, ou uma garrafa de cerveja, ou o ingresso do cinema. Não é fortuna, não é figurino, não é conteúdo de copo, nem de bolsa, nem de caixa. A felicidade é o tipo de coisa que preenche o ambiente de nada, só de sensações.

As partes mais legais da vida ainda são de graça, por mais que  estejamos cada vez mais mergulhados em objetivos que envolvem algum tipo de lucro monetário. As melhores coisas estão dentro das fotografias, das mensagens de texto, dos e-mails e das ligações telefônicas. Nada que é feliz está preso numa loja, ou exposto em uma vitrine, ou sendo oferecido na televisão. O importante é o que você vai fazer com aquilo! O que é feliz está sendo dividido o tempo todo com quem você gosta, com outras pessoas felizes e é isso o que importa, mas a gente só percebe isso quando consegue um pouco de liberdade.

Essa sim é coisa rara e difícil de ter, mas a gente se vira, não é? A gente se vira, pode apostar!

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Senso e silêncio

Os poros se abrem, a pele arrepia, as pupilas dilatam e, de repente, o mundo é todo sensível, tátil e moderno. É como se tudo que é velho fosse, novamente, novo, mesmo mantendo sua aparência judiada pelo tempo. Dura segundos, microsegundos, mas produz efeitos para a eternidade. Introspecção, elevação, energia e dom. Aqui onde eu estou, nesse lugar especial por ser normal, nesse canto do mapa que eu costumo chamar de “Cidade do Futuro”, o passado se instalou com força e nunca mais foi embora.

Ontem, literalmente perdido num labirinto de ruas iguais, mal iluminadas e residenciais, percebi que aqui o tempo corre mais lentamente, como se o resto da civilização, o lado mais moderno e evoluído, tivesse trocado tempo por dinheiro e agora ganhassem muito, em curtos prazos, para gastarem muito, em prazos mais curtos ainda. Aqui não, aqui é tudo muito lento, simples e familiar. Uma cidade enorme, cravada no canto oeste do mapa, cheia de vielas, ruas silenciosas, cachorros vagabundos e idosas insones.

Passei por galpões gigantescos que poderiam me servir de casa, escritório, estúdio, centro de lazer, academia e balada sem alterar quase nada na estrutura. Passei por um maluco mal intencionado olhando para uma cerca elétrica desligada. Passei por vielas ainda virgens, sem grafites, sem depredações, sem cheiro de urina ou entulho acumulado. Passei por uma praça onde quatro sujeitos bebiam Coca-Cola e fumavam maconha como se estivessem na mesa do jantar. Passei por muita coisa sem nome e sem descrição também.

Numa curva errada dei de cara com uma novena cheia de gente segurando velas com a chama para baixo. O rastro de cera ia desenhando o trajeto dos devotos e meu corpo ficou quase petrificado ao me deparar com a multidão caminhando em profundo transe, cantando algo como “tende piedade / derrama teu fogo sobre nós…” e segurando velas inclinadas para o chão, pingando o caminho todo de branco. Atrás deles, no pedaço de chão que já havia sido rezado, as gotas brancas cravadas e secas no asfalto desenhavam um imenso universo de pintinhas de estrela num fundo preto e imenso de rua. O chão virou céu e eles estavam rezando num caminho de cometa.

Passei por um homem muito gordo, vestido em um macacão jeans velho, com uma expressão cansada estampada na cara e um enorme machado na mão. Era como um lenhador voltando para casa depois de um estafante dia de trabalho, mas ele caminhou um tempo, olhou para mim e depois interrompeu a caminhada. Ficou me olhando de longe, me acompanhando fixamente enquanto eu apertava o passo e me perdia mais e mais dentro de um bairro. Não existem florestas desse lado da cidade. Aqui as ruas eram como pessoas, como sacerdotes, curandeiros, confidentes, padres e vilas mágicas, que ainda exibiam suas casas térreas, seus fuscas na garagem, suas propagandas políticas da eleição passada e seus cães bravos dormindo com os pelos pressionados contra grades de portão. Tinha muito cheiro de passado aquilo tudo, um passado próspero misturado com uma praga simples e letal.

Depois de tanto tempo no silêncio, ouvindo passos que eram só meus, pensamentos só dentro da minha cabeça e carregando um peso só do meu corpo, cheguei a um ponto conhecido. Uma avenida velha, largada para os espíritos, os vadios e os assassinos tomarem conta. Eu lembrei perfeitamente de como era aquilo na minha época de criança, quando tinha cor, sol e vida no lugar das fachadas abandonadas e sujas, das cadeiras quebradas para o lado de fora e das árvores crescendo para dentro das ruas. Era o lugar onde eu costumava andar com a minha avó, ou de bicicleta com as outras crianças da rua, dizendo “um dia eu vou morar aqui” projetando um futuro que nunca vai acontecer. Era próspero, ali.

Logo depois era minha rua, e dela eu achava que sabia tudo, mesmo sem saber nada. Um bar abandonado onde eu jogava fliperama, uma igreja no lugar de uma escola, uma manicure no lugar de um terreiro de macumba e uma imensa solidão e descaso jogados na fachada de todas as casas, inclusive na da minha. As paredes descascadas, velhas que chegam a dar dó, com pinturas da Copa de 98, um orelhão da Telefonìca, uns pedaços de tijolo e muita memória perdida e comida pelo bolor e as traças. Ninguém latiu pra mim, nenhum cachorro me pediu informação, nenhum carro me olhou, nenhuma bicicleta acelerou na minha direção. Não havia nada ali, só eu, meu passado, minha falsa “Cidade do Futuro”, meus sentidos e meu silêncio. Agora eu estava em paz, no meu lugar, no meu santuário, vestido de senso e sentido, num escuro tão sólido que poderia ser uma parede. É sempre bom voltar pra casa!

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Domingo

Era dezembro, um calor do caralho e eu me lembro de tudo, porque determinados momentos nunca somem. Sempre me incomodei com altas temperaturas e, por isso, no verão acordo cedo, que é o momento em que meu corpo já não aguenta mais cozinhar na cama. Nesse dia a cama não era minha, mas o horário era o mesmo de sempre. Acordei e tentei sair do quarto quase incógnito. Me movimentava bem lentamente, tentando fazer o mínimo de barulho, olhando para ela e torcendo para que não acordasse. Mulheres com sono leve são o pesadelo de amantes insones.

A casa faz silêncio durante as manhãs de sol, né? Já reparou? Quando você acorda primeiro e caminha pelos cômodos é como se tudo fosse mais silencioso do que em qualquer outra parte do dia. Nem de madrugada é tão agradável, porque é o horário que os móveis têm para conversar, então me sinto atrapalhando ou interrompendo alguma coisa importante. Mas de manhã é tudo branco, lindo, macio e calmo. E lá estava eu, de bermuda e camiseta, naquela casa cheia de ausência e carente de atenção.

O domingo começou com sol, pão francês do dia anterior, leite puro e um pedacinho de chocolate meio amargo que estava escondido na porta da geladeira. Suspeitei que fosse o “chocolate de emergência”, aquele que as mulheres precisam num momento de desespero antes de matarem alguém ou explodirem a própria cabeça. Voltei pro quarto pisando macio, ela permanecia na mesma posição, mergulhada em um milhão de sonhos por segundo.

Pelo meio do lençol embolado com o cobertor um pedaço de corpo aparecia para ver o amanhecer. Um pedacinho das costas, a parte do fim da coluna, onde o corpo faz uma curva negativa antes de subir de novo pra formar uma das bundas mais lindas que eu já vi. Mas isso eu não dizia para ela, era como se fosse uma opinião que eu precisasse guardar para que não perdesse o valor. Além da cama enfeitada com aquele corpo quente e adormecido, o quarto me reservava uma cadeira sem braços colocada no canto, ao lado da porta, com o meu violão apoiado na parede.

Sentei como quem está prestes a assinar um contrato importante, botei o violão no colo e me transportei para algum lugar no ar entre mim e a cama. Tocava Adriana Calcanhoto com uma devoção que não era minha, num estilo que não era meu, com um olhar que não cabia no meu rosto. Ela se mexeu, retorceu e, quase como quem ouve um chamado do além, abriu os olhos com segurança, sem fechá-los depois, em vigília, em atenção, até relaxar e perceber que a voz era minha, que o violão era meu e que ainda era domingo.

Virou-se com o rosto para cima, olhou para mim pelo meio das pálpebras inchadas e sorriu, me fazendo sorri de volta. “Você é foda…”, me lançou, com voz de quem se espreguiça por completo ao mesmo tempo em que boceja. Depois sentou-se na cama, arrumando os cabelos e deixando os peitos aparecendo sem nenhum pudor. Essa falta de vergonha da própria imagem sem roupas diante de um homem só tem um significado: total devoção.

Ficou me olhando, sorrindo, enquanto eu cantava que perdia as chaves de casa, que estava dividido em mil pedaços de cacos e me questionava onde “ela” estaria agora. Para minha calma e felicidade, estava bem diante de mim, nua, descabelada, sonolenta e apaixonada. De repente, no meio da música, entre a segunda estrofe e o refrão, saltou da cama e me tirou o violão. Arremessou o instrumento sobre o colchão, sentou-se no meu colo, de frente para mim e me beijou com uma boca com cheiro de morte e solidão.

Ficamos ali, agarrados, sentindo o sol subir, iluminar e esquentar tudo ao redor, enquanto a gente se gostava com calma, com atenção, sentindo a respiração do nariz do outro, tateando o corpo sem a menor pressa. Ela segurava a minha cabeça, me beijava com certeza, com determinação, com paixão inignorável. Na minha mente, além da textura perfeita daquela pele, da pressão daqueles peitos contra o meu peito, da força daquelas coxas ao redor da minha cintura, eu ouvia com todos os timbres e notas, a mesma música, a mesma que eu tocava antes, soando com a minha própria voz no meio do silêncio, pairando no inconsciente coletivo daquele quarto particular naquele domingo de um calor inexplicavelmente agradável.

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O amante

Ela não sabia de nada, absolutamente nada, mas eu a deixava me assustar com suas caras e bocas, como se fosse perigoso mentir. Meu nome não era o mesmo, minha família não existia do jeito que eu havia contado, meus amigos tinham outros nomes, empregos e objetivos, tudo era diferente do que ela pensava ser real. Mas eu gostava assim! Dava a ela um poder tão cru e controlador que nada podia deixá-la mais atraente. Não existe nada mais sexy do que uma mulher poderosa.

O ritual se repetia, como se eu fosse prisioneiro de algum tipo de cativeiro, uma cela, uma tocaia que me armaram e me botaram sobre constante vigilância. Eu acordava, ainda com o céu escuro e ao pé da cama estava ela. Na mesma posição das outras vezes, com o mesmo olhar das outras vezes, fazendo a mesma coisa que fazia nas outras vezes. Acordava pelada, vestia sempre, no máximo, a calcinha, sentava-se na cadeira que fica no canto do quarto, cruzava as pernas e me assistia dormir. Nesses momentos ela tinha certeza de que me tinha na palma da mão e sentia prazer com isso.

Horas depois eu abria os olhos e o quarto fedia a cigarro. Olhava para ela e recebia de volta um olhar desafiador e sarcástico, com um sorrisinho cínico no canto da boca e uma sobrancelha mais alta que a outra. Nua, sexy, fumando como quem beija a boca de um anjo e se insinuando para mim. Era uma mulher fantástica, dos cabelos loiros compridos, nem lisos nem enrolados, do tipo que as moças surfistas americanas têm, daqueles que fazem grossas vírgulas nas pontas e parecem ser mais pesados do que realmente são. Tinha a pele branca que beirava um tom azulado translúcido e gostava de ser assim. Ao menos é o que parecia, já que não me lembro de tê-la visto com vergonha de tirar a roupa nenhuma vez.

Fumava com calma, soltando a fumaça como se fossem nuvens de leite que saem da boca para lamberem o nariz, a testa e a franja. Me olhava quieta, com movimentos lentos e eu, sentado na cama, abraçado aos joelhos, olhava de volta, com os olhos inchados e a barba selvagem. Depois de algum tempo ela sorria, eu sorria de volta e ela decidia se levantar. Ajoelhava devagar sobre o colchão e vinha como um felino macio engatinhando para mim. Eu, propositalmente, me fazia surpreso e deixava que ela comandasse todo o teatro.

Amantes gostam de encenar, eu acho. Elas fogem da realidade de suas vidas para serem outras mulheres, com outros caras, que gostam de outras coisas e que estão com elas por outros motivos. Acredito que quando uma mulher aceita ser “a outra”, ou quando decide arranjar um “outro” para si, automaticamente adquire características diferentes das que costuma ter em sua rotina. Principalmente no que diz respeito ao sexo. São situações de fuga, de adrenalina, medo e tesão puro que fazem com que o segundo encontro aconteça e assim por diante. Para algumas pessoas a infidelidade é mais instigante que o amor.

Eu estava diante de uma manifestação desse tipo de pensamento. Já sabia que ela não fumava quando estava fora do meu quarto. Também sabia que tinha uma vida sexual conservadora, que seu marido não era criativo e que, por isso, ela também não se estimulava a ser. Sabia que aquela calcinha mínima era exclusividade dos meus olhos, que aquele corpo liso naquelas posições que eu via só se contorciam daquelas maneiras para mim e que, se tudo desse errado, a parte mais selvagem da vida daquela mulher desapareceria para sempre. Era o que ela dizia.

No fundo, mesmo que negando, eu sabia que tudo que eu sabia sobre aquela vida podia ser parte de uma ficção calculada, assim como a que eu oferecia para ela. O bom dessa mentira é que não importa. O teatro fazia mais sentido, a sinceridade estava nos sons, nos gestos e nas entregas, não nas palavras. Ela nunca falou em amor. Eu nunca achei que deveríamos falar um dia, estava bom do jeito como vivíamos. Sexo, violência, segurança, mentiras e periodicidade. Eu descontava todas as minhas escolhas erradas no campo afetivo em 12 horas de companhia. Ela aprendia e testava todas as teorias físicas e anatômicas em 12 horas de devoção. O tempo era o mesmo, os objetivos não.

No fim o ritual era sempre o mesmo. Ela vestia as roupas, me sorria com os dentes à mostra e dizia tchau, mandando um beijo no ar. Entrava no carro dolorida, com o abdome rígido, as pernas trêmulas, as coxas assadas e os peitos vermelhos, mordidos e inchados. Chegava em casa e cuidava da vida doméstica, estéril e branca que assumiu quando se casou, como quem dá sinal para um ônibus na rua: da forma mais natural e banal do mundo. Ia à padaria, pedia o pão e deixava mais cinco paus no Marlboro que, ali, era comprado para o marido – que nunca foi fumante.

No fim das contas, aceitava uma vidinha comum, meio feliz, meio colorida, meio interessante, contando quinzenas, administrando ciclos menstruais e sonhando com violências sexuais que aquela casa jamais presenciou. Sonhava mais com sexo do que com a minha companhia, com o meu disfarce de homem indefeso ou a minha voz. Não me amava, nunca me amou e talvez nunca me amará, mas ela sempre voltava. E fazia isso porque tinha amor. Amor próprio, amor pela vida e amor pelo tempo que não devemos perder nunca e amor pelos espásmos que o corpo tem de ter, pelas gostas de suor que o corpo tem que expelir, pelos gritos que a garganta tem que gritar e pelas peles que as unhas precisam arranhar. Ela voltava porque aqui, no meu quarto, na minha casa, dentro da minha falsa vida, ela era real.

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Totoro

Podia ser o sono, o cansaço da vida filha da puta que a gente leva quando trabalha além da capacidade, ou a preguiça matinal. Mil motivos diferentes para explicar a razão de, de repente, todas as distâncias parecerem difíceis demais, longas demais, duras demais. Caminhar da porta do quarto até o portão de casa foi uma batalha real, física e complexa, das minhas pernas contra a minha vontade. Eu me arrastava, puxava meu próprio corpo com a mente enquanto ele não queria responder. Não estava combinando nem um pouco com a leveza dos dias anteriores. Tinha um peso nas costas e era sólido, nada de mochila cheia ou mente cansada.

No ônibus, mesmo ligeiramente vazio, tudo pareceu piorar. Subir os três degraus foi como carregar um corpo morto sobre os ombros, passar a catraca exigiu a força das pernas de um obeso preso entre as ferragens giratórias e, ao me sentar, senti como se preenchesse os dois bancos. Olhava para a paisagem passando rápido na janela e sentia como se tivesse uns mil quilos ou mais. Era enorme, sentia a pressão do teto sobre mim, como se, por algum motivo impossível de descobrir, meu corpo tivesse ganhado proporções gigantescas e em nada combinasse com aquelas acomodações justas do transporte público.

Mesmo me sentindo uma massa enorme de alguma coisa invisível, o caminho de ônibus e na rua foram suportáveis, nada parecidos com o momento da tentativa de entrada na estação de trem. A aglomeração de pessoas ao meu redor parecia uma multidão de pés de cana, troncos de árvore e postes de luz me pressionando contra qualquer coisa ao meu redor. Eu continuava me sentindo cansado, fazendo uma força excessiva e incomum para as tarefas mais simples como, por exemplo, dar um paço mais largo da plataforma para dentro do vagão. Porém, ao entrar, o peso sumiu. Segundos depois todo o meu incômodo por carregar toneladas de alguma coisa que não era minha foi substituído por um susto tão sincero e sólido que deve ter separado meu corpo da alma.

Pela janela, lá do lado de fora, via uma coisa, uma criatura, não sei, como se fosse um rabo de gato, peludo e cheio, balançando ao vento pendendo de algo que aparentava ser bem maior e estar sobre o vagão. A sombra no chão, pela primeira vez, deixou evidente a presença de algo que não era normal. Na mente, eu que nunca fui religioso ao extremo, só conseguia pensar: “isso não é de Deus”, e não era mesmo. O rabo parecia um daqueles espanadores de filme, que parecem uma almofada de plumas acinzentadas. Ao meu redor ninguém parecia estar vendo aquele corpo estranho pendendo do céu e sibilando de encontro ao vento da manhã. Aquela porra era enorme!

Quando desembarquei na estação senti que só tinha sombra sobre mim. O peso todo havia sumido, mas a sensação de que algo de muito estranho estava acontecendo permanecia. Me afastei da multidão que se acotovelava na plataforma e me distanciei um pouco para olhar o vagão de fora e tentar entender de onde vinha aquele rabo rajado e felpudo tamanho gigante. Quando me virei, no meio da multidão cega, havia uma espécie de rato, gato, tigre, não sei ao certo. Era enorme, devia ter uns cinco metros de altura e sorria.

Imediatamente me lembrei do Totoro (se você não sabe o que é, procure no Google Images) e percebi que a situação era meio parecida. Foi como estar em um mundo diferente, onde as criaturas são diferentes, o tempo passa de um jeito estranho e, sem querer, comecei a achar normal. Ninguém via, ninguém sabia para onde eu estava olhando, mas diante de mim havia uma coisa, um bicho, um ser, sei lá, gigantesco, felpudo, sorridente e rígido. E tátil, porque fiz questão de tocá-lo para ter certeza de que era real. Agora tudo fazia sentido, ou quase tudo. O peso para caminhar, o cansaço dentro do ônibus, o estresse de pensar que o mundo havia sugado todas as minhas energias e a plácida constatação de que, na verdade, tudo isso era sólido e não psicológico.

Ele balançava o rabo lentamente como um gato que observa. A plataforma já estava vazia a essa altura e eu continuava atônito, olhando para cima e sentindo uma sombra que só protegia a mim e ninguém mais. Pensei, por um instante, em como aquela gigantesca massa de pelos se acomodou sobre os meus ombros e, igualmente intrigado, me perguntei de que maneira consegui carregá-la por tanto tempo. Não havia mais o que pensar, mas no momento em que ameacei uma retirada, meu “Totoro” particular se moveu atrás de mim, como quem avisa que vai comigo para onde for. Voltei a contemplar aquele gigante simpaticamente surreal e fiz a pergunta cuja resposta explicaria todo o resto sobre sua aparição na minha vida.

– Você é meu Totoro?! – perguntei instintivamente, crendo que aquela coisa me entendia, que me responderia em uma língua familiar e que sabia o significado da minha pergunta.

– Não. Eu sou o seu passado! – respondeu sem se desfazer do sorriso, utilizando a minha própria voz, e solucionando todo o enigma.

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