Arquivo do autor:Memórias Utópicas

PESSOAL, O BLOG MUDOU DE ENDEREÇO

Gente, não sabia que os cadastros de mailing que haviam sido feitos no meu blog não poderiam ser transportados para o novo site. Caso você tenha assinado o e-mail para receber meus textos e não esteja mais recebendo, por favor, acesse http://www.memoriasutopicas.com.br para ler as coisas novas que eu tenho escrito.

Espero de verdade contar com a leitura de vocês na minha nova página, que é feita com a mesma dedicação e paixão que essa aqui foi feita.

Abraços a todos, nos vemos no novo site!!!

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Boa noite, povo!

Batendo palmas e dançando dentro de um vestido de tecido simples, estampado de flores azuis e amarelas, ela entrou na sala e roubou a atenção de todos. Havia uma luz intensa e nítida ao seu redor, como se algum spot de luz houvesse iluminado a personagem principal de uma peça que acabava de começar. Era ela a personagem. Só que não havia teatro, nem spots, nem mágica. “Em algum lugar, em uma dobra do tempo muito longe daqui, existe uma estrela com o seu nome e ela brilha em contagem regressiva até o dia em que você tomará seu lugar”. Foi o que ela me disse.

Dançava como se estivéssemos em um grande baile, uma festa animadíssima, mas a música que tocava só ela ouvia, a energia da pista de dança só era sentida por suas pernas e os pés, que deslizavam com habilidade, exibiam uma lista de passos decorados que ninguém mais sabia executar. Era uma bronca, essa dança dela! Quem mais estava na sala comigo? Sem perceber, comecei a perder a noção do entorno, como se aos poucos, conforme evoluía no dançar, ela me separasse do resto para dar um recado particular.

Em dado momento passei a me questionar se ela era uma só ou se havia alguma chance de serem duas, doze, duzentas ou número maior. Sentia a presença de muita gente na sala, todos sabendo dançar um ritmo que nunca fora apresentado a mim. As cores do vestido e a leveza do tecido desenhavam cenários surreais, como se fossem mapas de destinos que eu deveria visitar em algum momento entre esse evento inusitado e o fim dos meus dias. Que tipo de medo é o sentimento de não querer saber uma novidade que estão prestes a nos contar? Eu não sabia se queria saber, mas tinha certeza de que aquelas mulheres, aquela mulher, queria ou queriam me dizer algo.

Veio ao meu encontro, me abraçou com braços fortes, me puxou de encontro ao seu peito quente e acolhedor e entrou para dentro dos meus olhos. Eu via o que ela queria me mostrar. Mesmo que fosse de fora, me sentia um observador participante de cenas que nunca ocorreram na minha vida conhecida. Mesas enormes com comidas que nunca provei estavam tomadas de pessoas enormes e importantes vestidas de forma exuberante. Por algum motivo eu sabia que eram importantes. Líderes de alguma coisa? Sábios? Gente que ainda não tinha involuído de alguma forma? Senti uma extrema vontade de sorrir.

“Boa noite, povo!”, eu disse em saudação, sem palavras, porque nesse banquete as conversas se davam de outro jeito. Alguém sem rosto tocou minha testa e então me separei do corpo. Me vi parado olhando para a enorme mesa, a dançarina do vestido florido logo atrás de mim, em uma postura muito semelhante à minha e a cena acontecia sem minha interferência. Ouvi uma música, como um grande coral muito bem ensaiado e senti meu corpo pesar uma tonelada. Desmanchei no chão e senti minha cabeça se chocar contra algo duro e frio. Quando recobrei a consciência ainda eram 10h da manhã e tinha um dia inteiro para viver. O tampo da mesa do trabalho tinha a marca da minha testa. Eu sabia que não tinha sido um sonho e senti vontade de perguntar a mim mesmo onde eu estive. “Você deu um pulo em casa, mas já voltou”, respondi a mim mesmo.

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O que a gente fez da nossa vida?

O que a gente fez da nossa vida? Porra, essa pergunta exige uma introdução breve. Eu morava num lugar onde a água só chegava três dias na semana e nunca eram os mesmos. Era uma agonia eterna de ter que abrir a torneira para ver se era dia de água ou não. Parecia que nunca era. A gente comia bolacha água e sal, ficava de cócoras equilibrado sobre os calcanhares e olhava o movimento da rua de cima do muro. Seis moleques, todos magros até o osso, agachados igual urubus, mastigando bolachas secas e murchas com a boca aberta e olhando o movimento da rua. Naquela época ninguém tinha direito de ter nome, então a gente era só a gente, estava bom assim.

Depois passou o tempo e eu virei eu mesmo, com esse nome que você me conhece. A vida foi generosa comigo, não posso negar. Estudei, enquadrei o diploma na parede do quarto, viajei para a praia, frequentei casas e apartamentos maiores que uma quadra de futebol de salão e as coisas meio que deram certo para mim. Engordei gradativamente, em ritmo constante, e hoje exibo uma senhora barriga, uma barba de gente de pouco asseio e um linguajar chulo o suficiente para me levarem a sério sem precisarem me levar a sério. Deu certo, essa coisa do futuro.

Outro se mudou para o Piauí e virou Maicon. A última vez que a gente teve notícia parece que estava preso. O Maicon era envolvido com roubo de carro, desmanche de carro, falsificação de documento de carro, clonagem de carro, corrida de carro. Coisa de carro, entende? Ele vivia falando do som dos motores dos ônibus que passavam na rua quando a gente ficava trepado sobre o muro do terreno baldio. Dizia que quando fosse “grande”, seja lá o que isso significava, já que era o maior de nós, ia ter um caminhão enorme e viajaria para o nordeste. A mãe dizia que o pai tinha fugido para o nordeste e ele tinha o sonho de pegar a estrada e ir atrás do pai. “Oi, pai. Eu sou o Maicon, seu filho”, ele queria dizer. Ele sonhava em matar o pai.

O outro morreu cedo, não teve tempo de ter nome nenhum. A gente ainda era adolescente quando explodiu um rojão na cara dele. Também, burro que só! Acendeu o rojão pra comemorar um jogo do Brasil na Copa de 98. Acendeu o pavio falhou e ele ficou fazendo papel de ridículo na nossa frente. Moleque de rua é uma raça que não perdoa, é uma forma de parecer estar numa situação menos pior, essa coisa de tirar sarro da desgraça alheia. Enfim, o rojão falhou, ele olhou por dentro do tubo e então a explosão aconteceu rápido demais para qualquer um de nós entender. A cabeça dele parecia uma melancia que caiu do caminhão e a gente ficou sem comer melancia por muitos anos.

Um sumiu, eu simplesmente não faço a menor ideia do que aconteceu com ele e ninguém com quem eu conversei sabe. Então sumiu.

O outro virou advogado. Deu mais certo na vida do que todos nós. A mãe trabalhava como faxineira em um escritório e o filho começou lá como mensageiro, depois ganhou uma bolsa de estudos para estudar Direito, fez a lição de casa, ficou longe do crime, das drogas, dos caras animados demais e hoje tem uma carreira sólida, casa grande, mulher bonita, filhos saudáveis e se chama Jardel. Esse é um cara que cresceu na vida, era pobre e ficou rico, era quase nada e conquistou o que, naquela época, a gente achava que era tudo. Parabéns pra ele. A gente nunca mais se falou.

O último decidiu que não estava feliz como estava e fez uma cirurgia. Se transformou em mulher, uma mulher muito gata por sinal. Luara! Ficou com voz fina, aproveitou as pernas longas, não exagerou no silicone e se jogou na carreira de modelo. Estava ganhando dinheiro, mas não gostava do cabelo cacheado. Durante um processo químico controverso acabou ficando cego dos dois olhos para ter um cabelo loiro, lambido e controlado. É uma das modelos cegas mais bem pagas da indústria e não se arrepende de nada. Estou casado com Luara há dois anos!

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Décimo sexto andar

“Fica comigo essa noite”, foi o que ela me disse quando eu já estava de frente com o elevador. Mais de três da manhã, mistura de sono com cansaço dentro de um copo de Eno e quando tenho coragem de partir ela me pede pra ficar. Agarrada ao batente da porta do apartamento, loira tingida, sorrindo sonolenta e eu tentando me manter racional. Recitei um livro que ela disse que estava lendo: “mais difícil que ficar, era partir”, e sorri. A porta dupla de metal se abriu e entrei no cubículo espelhado com destino ao térreo. “T”, é o que dizem os elevadores que levam visitas a caminho de suas casas.

O caminho de cima a baixo começou no décimo sexto andar. Odeio a sensação de descer de andares muito altos. Fico pensando no vazio do poço do elevador, a distância fatal de onde a cabine está em relação ao chão e não consigo me livrar daquelas cenas de filme quando o elevador despenca piscando as luzes e a cena acaba com um black total. Black total é a morte, pode crer. No décimo primeiro andar o elevador parou. A porta abriu e um senhor entrou com um cachorro no colo. Era um daqueles cachorros brancos, pequenos, parecia tão velho quanto o dono. Ele me deu boa noite e pensei em comentar que talvez o melhor seria dizer “bom dia”, mas economizei palavras.

Continuamos descendo e o cachorro dormia profundamente nos braços do idoso. Parecia querer acordar, mas falhava em todas as tentativas. Paramos no sétimo, mas não havia ninguém para entrar. Talvez tivesse tomado o outro elevador antes da nossa chegada. O senhor ao meu lado sugeriu essa hipótese e levantei as sobrancelhas em concordância. No terceiro andar o elevador diminuiu a velocidade e parou de novo. A porta abriu e não havia ninguém novamente. Nos olhamos e fizemos um movimento com a boca, inclinando a cabeça para o lado e erguendo os ombros, como quem diz “vai entender, né?!” e esperamos a porta se fechar.

Só então passei a me questionar o motivo de alguém tirar o cachorro de dentro do apartamento no meio da madrugada. Pensei que passear com um cachorro a essa hora era uma opção muito pouco provável, visto que o cachorro estava sem coleira e parecia imerso em um sono profundo. Profundo até demais para um cachorro. Talvez estivesse levando ao veterinário. Podia ser que o cachorro estivesse com a doença do sono, ou realmente morrendo, como me pareceu nos primeiros instantes em que a dupla entrou no elevador. Enquanto pensava sobre isso olhando fixamente os olhos fechados do animal, percebi que estávamos parados no segundo andar com as portas abertas. Ninguém, de novo.

O elevador, como já era esperado, parou no primeiro andar. Também já era esperado que não houvesse ninguém ali, então não havia. Pensei naquelas crianças filhas da puta que apertam os botões do elevador para atrapalhar quem está dentro. Não sei que tipo de prédio permite que crianças sozinhas corram pelos andares apertando botões sem que ninguém as veja. “Sinistro”, pensei. As portas se fecharam e a cabine desceu, finalmente, para o térreo. Pouco antes de o elevador parar, o homem dentro do elevador comigo olhou para o cachorro, que agora estava mole como uma bexiga d’água, dormindo profundamente e disse “tadinho, acho que agora morreu mesmo”, e olhou para mim com ar de tristeza.

No momento em que o desespero ia começar a me preencher de ideias absurdas para frases que pudesse comentar a morte do animal, as portas se abriram e ela estava lá. No hall, um tanto ofegante, metida dentro de uma camisola fina o suficiente para marcar todos os seus contornos, principalmente os mamilos rígidos por causa do frio, estava ela, loira, tingida, sorridente e um tanto surpresa por ter um homem dentro do elevador comigo. O velho e ela se olharam e falaram ao mesmo tempo: “ele é meu amigo”, disse ela, enquanto sua voz se misturava ao “ele era meu cachorro”, do homem. Ela pareceu não entender o que ele disse. Ambos se puseram a andar, o velho para fora, em direção à rua, e ela para dentro, em direção a mim. No meio do caminho ela alisou o cão morto e disse “que lindinho seu cachorrinho”, e sorriu na face desolada do homem. Subimos e eu passei mais três noites no décimo sexto andar.

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Hoje eu não vou voltar para casa, amor

Essa é minha última transmissão. Depois dessa, nada mais será dito, escrito ou pensado por mim. Estou acabando, findando minha participação, recitando as últimas linhas do meu monólogo e as cortinas já estão prestes a fechar. Serei novamente pó de estrela, essa matéria mágica que forma e deforma todos nós. Sei que parece clichê, mas daqui de cima tudo que eu penso em dizer é que a Terra é incrivelmente azul, mesmo com toda a poluição e a porção de decisões erradas que a gente tem tomado com as florestas. É incrivelmente azul, tão próxima, tão segura, mas eu não volto mais. Hoje eu não vou voltar para casa, amor. A seguir está todo o conjunto de coisas que eu consegui pensar em contar, mas como o ar está acabando e o frio é alucinante, pode ser que algo me escape à memória e fique perdido no espaço eternamente… assim como eu.

Número 1! Você tem bafo. Eu sei, deveria ter começado com alguma coisa mais romântica ou importante, mas você vai seguir em frente e seu novo namorado pode merecer uma namorada que não tem cheiro de repolho na boca. Vá ao médico, veja isso e seja feliz, esse cheiro não combina com a sua aparência.

Número 2! Eu nunca quis ficar com a sua amiga Ana. Eu sei que você sempre teve ciumes dela e sempre tentou me fazer ficar longe, mas a verdade é que a Ana nunca me interessou. Claro, ela me interessou como uma pessoa legal, assim como todo mundo que te paga cerveja, fala das suas bandas favoritas e te faz rir, mas foi só.

Número 3! Suas pintinhas no rosto são sexy. Não faça tratamentos, não use ácidos, não vá ao dermatologista com ar de preocupada, porque elas são perfeitas. Não acredite nas pessoas que dizem que é um problema ter pintas escuras e claras juntas. Problema, no seu caso, seria não tê-las assim exatamente como são.

Número 4! Sua mãe dá em cima de mim. Eu sei que você não vai acreditar, mas isso não me importa na atual situação. Quando você ler isso eu já vou estar vazio, mas sua mãe sempre me lançou olhares estranhos. Uma vez, naquele churrasco na casa do seu tio em Limeira, ela passou a mão na minha bunda e me chamou para subir as escadas, mas eu fugi assustado. Cuidado com ela e seus novos parceiros.

Número 5! Você é linda. Eu sei que você sabe que é bonita, não é difícil perceber isso, mas eu precisava dizer do meu jeito. Você é linda quando não tenta ser bonita. Você fica sensual e sexy quando está com os olhos pretos, a boca pintada e o cabelo arrumado, mas linda, daquele jeito simples e perfeito, você só fica quando está normal. Tente permanecer comum e você será bonita para sempre.

Número 6! Acredite no seu trabalho e invista nele. Pode parecer papo de fã só porque sou seu namorado, ou era, mas você precisa saber que é muito boa. Às vezes nem todo mundo vai acreditar em nós, nem todos vão nos dizer que estamos no caminho certo, mas temos de fazer o que nos dá a sensação de trabalho bem feito. Você é boa e isso basta. Eu não gastaria meus últimos momentos de vida dizendo isso se não fosse verdade.

Número 7! A Vanessa, aquela sua amiga, não é boa gente. Não sei como dizer em palavras o que eu sinto, mas tenho certeza de que você não vai perder muito se afastando dela. Eu sei que ela é sua melhor amiga, que você provavelmente vai correr para ela e chorar dias e dias quando souber do que me aconteceu, mas ela não é boa. Quando ela passa a energia das coisas acaba, o cachorro fica triste, as flores ficam meio velhas e eu me sinto mal. Sentia mal.

Número 8! Eu te amei todos os dias, mas meu amor sempre foi mais forte enquanto você estava longe. Nem sempre eu percebi o quanto minha vida dependia da sua, mas toda vez que você sumia ou a gente ficava afastado parecia muito óbvio que você era a mulher da minha vida. Vou morrer sabendo que você é a mulher da minha vida e tenho sorte por isso. Pouca gente tem certeza de que encontrou o verdadeiro amor.

Número 9! Um segredo: quando se está perto da morte é possível ver um pouquinho do lado de lá. Quando é claro e garantido que a morte é inevitável a gente vê, como se fosse uma imagem borrada num filme antigo, o que vem pela frente. Por isso não fique preocupada com o futuro. Faça as coisas agora e esqueça o resto, não vai adiantar nada. Meu próximo turno, ou o lugar para onde eu vou, não tem nada a ver com o que eu achei que aconteceria com a minha vida. Pensar no futuro é perda de tempo.

Número 10! Pra ser clichê vou acabar aqui. Não tinha nada para escrever depois do nono item, então só queria dizer que, nesse momento, tenho mais dois minutos de ar e vou gastá-los cantando aquela música que você gosta e olhando a sua foto. Seu rosto vai ficar indelével, assim como a minha maneira desafinada e infantil de cantar “Eu preciso dizer que te amo”. O espaço vai guardar a gente pra sempre. Te amo.

“Quando a gente conversa, contando casos, besteiras…”

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A casa

Eu queria um sofá de três lugares com assentos largos e encostos macios e confortáveis, com aquela coisa de puxar para frente e poder esticar as pernas. Queria uma mesa amarela para ficar colada na parede da copa, pelo lado da sala, para colocar um vaso de flores ou uma besteirinha qualquer para alegrar a cena. Quero decorar a casa com cenas. Na parede oposta à cozinha gostaria de ter muitos quadros, de tamanhos, molduras e temas diferentes. Arte, essa droga tão perfumada que eu sempre respirei, vai ter lugar na casa. Talvez uma mini estante para lembranças, coisas importantes de serem lembradas, fotos nossas, fotos de todos nós e de nós dois. Não sei nada sobre a televisão, sobre a estante, sobre o rack ou qualquer coisa que simule móveis assim. Estou preocupado com outras coisas. Cadeiras confortáveis, uma luminária no canto para fazer o cômodo ficar aconchegante em dias de luz apagada. Coisas assim. Cenas assim.

Quero poder cozinhar as receitas que aprendi de outras vidas, sentir cheiros de pratos que eu nunca executei e partir em busca de habilidades ainda inexploradas. Vou deixar o violão pendurado ali por perto da sala, para o caso de ter uma ideia de música enquanto tô esperando o bolo crescer, ou acompanhando o cozimento dos legumes. Quem sabe eu não escrevo um livro novo sentado de frente para a varanda, vendo o sol abaixar no fim do sábado enquanto ainda não é hora de sair pra encontrar os amigos, ou enquanto eles ainda não chegaram. E quero beber e fazer brindes, fazer planos e fazer festas, fazer graça e fazer juras de amor. Quero rir, beber, comer, dormir e acordar rindo de novo. Quero coisas simples, sem formalidades, sem protocolos, sem cenas armadas, sem obrigações, só a verdade. Uma casa de verdade, com pessoas de verdade, sentimentos e emoções de verdade.

Quero um cômodo para iluminar com luzinhas pisca-pisca mesmo quando não for Natal. Quero colocar meu narguilé no centro e sentar em roda com meus amigos para falar de nada, fazer nuvens de fumaça e planos pro futuro. Quero poder ver no teto um universo inteiro nas minhas tarde de devaneios, quando não me dá vontade de falar. Quero jogar baralho, fazer barulho, dar um mergulho e dormir em paz. Uma casa é um lar ou um lar é uma casa? E quem trazemos para nossa casa é nossa família ou família é quem já estava dentro? Quem se importa? Quero dormir passando frio e acordar morrendo de calor. Quero desejar bom dia com bafo de noite longa e cara de pugilista em sexto round. Quero fazer café da manhã e derramar tudo a caminho do quarto. Quero fazer café da manhã e conseguir chegar até o quarto. Quero sentir o cheiro que nossas coisas têm quando estão juntas. Quero acender minhas velas para os orixás e fazer minhas mandingas pra quando as coisas balançarem demais. Quero ser eu nesse espaço de nós dois.

E quando chegar sexta-feira, quero que seja pela porta da sala que os melhores amigos estejam entrando. Que fumem na sacada. Que peguem a cerveja na geladeira. Que troquem de canal furiosamente e indecisos. Que soltem gargalhadas descontroladas. Que briguem pelo resultado da partida de buraco. Que assistam ao jogo enquanto nós ficamos entediados. Que estejam ao redor. Se existe uma função dos amigos, acima de qualquer outra que possa existir, é a de nos proteger. São eles que fazem com que a vida se estique um pouco mais e é por isso que nossa casa será deles também. No fim, quando todo mundo for embora, quero deitar e sentir minha companhia de todo dia ao meu lado e sorrir para a grande sorte que a vida me deu. É uma grande sorte ter um lugar para chamar de meu lugar. É uma sorte maior ainda poder chamá-lo de nosso.

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Sem nome para um texto assim!

(texto ainda não revisado, pode conter erros e frases sem nexo algum)

Ela me dizia que estava tentando. “Tô tentando ser melhor, eu tô tentando!” e eu acreditava. Quando alguém treme e grita, deixa o catarro escorrer do nariz pra dentro da boca e os cabelos parecem flashes estáticos você tem que acreditar. Eu queria que a gente vivesse em paz, pudesse fazer planos, ter um filho, talvez. Ela não participava muito das minhas ideias, nem dos meus sonhos, era como se estivesse só ocupando o espaço da mulher que eu gostaria de ter, mas não tinha. Tive, mas ela virou uma maluca. Eu pedia “por favor, relaxa” e ela arremessava facas na porta. Caralho, facas na porta! Só que ela não era atiradora de facas nem tinha nenhuma outra habilidade circense, então as lâminas fodiam a madeira e voavam em direções aleatórias, marcando móveis, estragando o assoalho, quebrando espelhos e tudo mais. Facas, cara…

No dia seguinte ela acordava assustada, tomava banho e eu fingia dormir porque era o melhor que eu podia fazer por mim mesmo. Depois que saia era outra mulher, calma e arrependida, pedindo desculpas pela bagunça, prometendo pagar uma porta nova, mas isso nunca durava. Logo depois vinham os ataques incendiários com desodorante e isqueiro. Queimava o carpete, minhas roupas, a cortina, gritava descontrolada e queimava coisas com seu lança chamas caseiro da Nivea. Minha namorada queimava as cortinas com um desodorante, cara. Imagina isso! Tinha também o negócio dos copos. Ela se acalmava e dizia que precisava se ocupar, aí pegava um monte de copos de vidro (ela nunca fez com os de plástico, óbvio) e tentava fazer pirâmides. Ela era jovem na época, tinha menos de 30, mas quando tentava construir a pilha parecia ser acometida por um súbito Mal de Parkinson e derrubava tudo. Tinha vidro quebrado na casa toda. Vidros!

De noite ela aparecia mansa e macia, beijava meu pescoço e jurava que não era louca. “Foi só um estresse momentâneo” e me pedia perdão. Se não era no modo autodestrutivo, se mijando toda e arranhando os próprios braços com a cara melada de catarro, era assim, sensual e lasciva que tentava fazer as pazes. Esfregava as pernas nas minhas e vinha deslizando o corpo no meu, me beijando, me amando e dizendo que agora estava tudo bem. A gente transava com uma intensidade única que eu nunca mais experimentei com mulher nenhuma, mas depois de tudo eu não conseguia dormir. Ficava em dúvida sobre o que fazer do nosso relacionamento, que tipo de profissional contratar para curar aquela loucura diária e custava a pegar no sono. De repente acordava com barulho de água correndo e saia pela casa procurando qual era o ralo que ela tinha entupido. Sempre tudo nessa exata ordem. Na última vez enfiou uma porção de meias dentro do box e ligou o chuveiro. Deixou um recado no bafo do espelho: “fui comprar mais copos, os antigos quebraram sem querer”, e eu fiquei com medo de ela voltar a tempo de me encontrar ali.

Espalhei as facas pela sala, tirei as meias do ralo, fechei o registro da água, abri o gás no fogão, botei uma roupa, peguei a carteira o telefone e a chave de casa, verifiquei o gás que continuava aberto nas quatro bocas e no forno, acionei a torradeira com timer de cinco minutos e saí correndo. Desci pela escada, corri pelo hall do prédio, gritei pro Seu Francisco ligar pra polícia e fui embora, tipo Forrest Gump, até não aguentar mais correr. Às vezes tudo o que a vida precisa para entrar nos eixos são cinco minutos de insanidade indomável e um pouco de coragem para tomar decisões radicais. Hoje eu sou muito feliz!

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Suzana

O Túlio acelera o carro e liga o rádio. Estamos um pouco bêbados depois de seis garrafas de cerveja, ele está com a camiseta suja porque babou uma boa parte de uma dose de uísque que pedimos para começar e eu estou com os olhos inertes. A gente não tem o que conversar, é de noite e está chovendo fraco. As luzes se multiplicam nas gostas espalhadas pelo vidro e ele insiste em não ligar o limpador. Odeio a sensação de não conseguir ver o caminho. Abaixo o volume de uma música qualquer que esta tocando e digo a primeira coisa que me vem.

A Suzana não gosta de mim, cara.

Quem falou?

Eu tô dizendo.

Viagem sua…

Não é. E ela não gosta de você também.

O farol fecha e ele segura o volante com a duas mãos olhando longe. Suzana é namorada do Túlio. Uma filha da puta. Loira, peituda, imbecil e filha da puta. E não gosta de mim. Nem eu dela. Não temos assunto, então o ambiente permanece aéreo. Ele conheceu Suzana numa festa do trabalho. Na época ela tinha ido buscar bebida no bar e eles cruzaram o olhar. No dia seguinte já era namoro. A Suzana veio para a nossa turma de amigos pouco tempo depois, quando ele assumiu que gostava dela de verdade. Ela chupou metade dos nossos conhecidos em menos de um mês saindo com a gente. Era deprimente. A Suzana era filha da puta demais.

A Suzana é filha da puta demais, cara.

Não fala isso.

A Suzana é filha da puta e puta demais, cara.

Ele não diz nada. O farol abre e ele sai com calma, dirigindo como se não houvesse destino algum. Aumenta o volume do rádio e está tocando a música nova dos Titãs. Uma merda. A chuva aumenta e a noite parece ainda mais escura. Eu quero fumar um cigarro, mas não dá para abrir a janela e o Túlio não fuma. Um raio acerta o topo de um prédio e, por uma fração de segundo, vemos o edifício todo se iluminar de azul. É “dia dos homens” e, por isso, estamos rodando sozinhos. Não tenho namorada. Suzana não está com Túlio porque está bebendo com umas amigas. Ele disse isso.

Cadê ela?

Disse que ia beber com umas amigas.

Tá.

Tenho certeza de que não é a verdade. Meu amigo deprimido não tem a menor ideia de onde a namorada está. Ele faz uma curva e entra em uma rua congestionada. Há bares e casas noturnas nas duas calçadas e o mundo parece melhor do lado de fora do carro. Penso que Suzana é, provavelmente, a pior coisa que já aconteceu na vida do Túlio e digo isso a ele. Não há qualquer reação. Dez minutos depois estamos completamente travados no meio da rua congestionada com pessoas se divertindo, apesar da chuva, em bares diversos.

A Suzana trai você, cara.

Quem falou?

Eu tô dizendo.

Viagem sua…

Não é. Ela trai você desde sempre.

Por que você tá falando isso?

Porque eu sei.

Ele me olha com uma expressão indecifrável. Um minuto se passa e o trânsito não anda. Quero quebrar o silêncio, mas não consigo pensar em nenhum assunto melhor. Retomo.

Sou seu amigo. Você deveria arranjar alguém melhor que ela.

Não tem ninguém melhor.

Você acha, cara. A Suzana é filha da puta demais.

Como você sabe que ela me trai? Você tem provas?

Olha ali.

Aponto, pela janela do lado dele, um casal sentado em uma mesa na varanda coberta de um bar. Um cara forte está beijando uma garota loira com peitos imensos. É Suzana. Túlio desvia o olhar e volta a fitar o casal no segundo seguinte. O cara aperta os peito direito da moça sem nenhum pudor e sua mão não consegue agarrar tudo. Não existe mão no mundo que consiga pegar o peito inteiro da Suzana de uma vez.

Larga ela, cara. Ela é filha da puta demais.

Não é a Suzana. É parecida.

Caralho, cara… você precisa de alguma coisa melhor na vida. Olha lá.

Ele congela o olhar no carro da frente e as luzes de freio tingem a cena de vermelho. Penso que ele quer explodir, mas nada acontece. O trânsito anda um pouco, ele não reage. Quando penso em dizer algo ele vira o rosto para mim e abre a boca, mas nenhuma palavra sai de dentro dela. Seus olhos estão molhados e seus lábios formam uma figura estranha. Meu amigo chora. Não sei o que fazer e fico olhando para ele. Na cena ao fundo vejo Suzana beijando o pescoço do cara e ele com a mão deslizando por sua coxa até o contorno da bunda. Até um semi-cego conseguiria identificar Suzana ali. Ela é o ser humano mais filho da puta que eu conheço na Terra, nesse momento. Provavelmente não terei chance de conhecer alguém pior durante minha vida. Túlio está me olhando há algum tempo e então fala.

Ela é a mulher que eu amo, cara. Amo de verdade.

Penso que o amor é uma coisa horrível e não deve acontecer para ninguém. Sinto pena. O amor é uma coisa filha da puta e cruel, faz pessoas boas se comportarem como idiotas e elimina qualquer traço de auto-respeito que um ser humano pode ter. Odeio Suzana com todas as minhas forças como se ela fosse alguém que tivesse dado um soco na cara do Túlio em um bar. Eu entraria em uma briga pelo meu amigo. Mas não é uma briga. Não há nada a fazer com mulheres assim, o mundo as ama e as protege, concluo. Mulheres como Suzana. Naquele instante, para mim o amor parece feito só de coisas ruins. Me senti com sorte por não amar ninguém.

A Suzana não gosta de você, cara.

É – ele responde, e no mesmo instante tenho certeza de que mesmo assim ele a pedirá em casamento e será um homem infeliz enquanto for possível.

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Eu vou mudar a sua vida!

A porta abre e ele vem na minha direção com o olhar voraz de uma serpente. Se esgueira pelos cantos, atravessa o corredor ladeando os batentes de porta e a moldura da janela e não para mais. Quando chega ao quarto eu já estou no chão, mole, entregue, com as meias pinicando e o cabelo sem formato. Nunca conheci um homem que me fizesse sentir dessa maneira, uma intensidade absurda, a vontade de gritar antes do primeiro beijo, a tremedeira sem controle, os arrepios que duram meses. Troquei meu medo da morte pelo medo que sinto quando ele chega. É uma sensação tão animal, tão primitiva e tão clara que nunca fui capaz de saber o que me amedronta. O medo que sinto dele já nasceu comigo, ou talvez antes de mim.

Às vezes, quando eu desperto durante a madrugada enquanto ele dorme, abro a porta do quarto e vou para fora ver o céu. Sempre que a gente transa eu fico com vontade de ver o céu, olhar as estrelas, a lua, respirar o vento frio da noite. Até hoje, com ele, tenho orgasmos em forma de galáxias e sinto como se minha alma estivesse mordendo alguém. Almas são capazes disso? A vida parece pequena perto de toda a intensidade que ele me traz. Meus poros se abrem a ponto de fazer minha pele arder e eu suo ofegante do começo ao fim, me sentindo esgotada e vazia durante horas. Ele leva embora algo de dentro mim. Algo profundo, sem nome e insubstituível. Sinto a existência se dobrando quando acaba.

Quanto tempo dura um sonho acordado? Me espanta a força física, a resistência, a determinação, não há cansaço capaz de fazê-lo parar, súplica suficiente que o detenha. Eu bebo água, olho para o relógio no criado mudo e volto, porque quando ele está aqui minha vida não pertence mais a mim. Eu não sou minha caso ele esteja por perto. Eu mudaria de nome para tê-lo todos os dias. Derrubaria minha árvore genealógica e usaria sua madeira para construir um castelo para nossos sonhos. No fim, quando ele coloca a roupa e anuncia a partida, tenho vontade de morrer. Meus antepassados se grudam a mim e me seguram nesse mundo numa tentativa de não me perder dentro dos meus próprios desejos. Na última vez ele deixou o dinheiro no mesmo cinzeiro de sempre, me beijou e, segurando meu rosto muito próximo do seu, penetrando meu olhar com seus olhos de morte, me disse que mudaria minha vida.

“Eu vou mudar a sua vida!”, ele disse. É o sonho de todas as meninas aqui da boate, mas eu tirei a sorte grande. Eu acho…

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De onde vem a calma?

Não posso generalizar – apesar de cometer esse erro em dezenas de textos que já escrevi -, então, para não dizer que todas são assim, posso garantir que conheci muitas mulheres sem senso de perigo na hora do desespero. Meu desespero. Ao longo da minha vida, da infância até agora, posso garantir que a maioria esmagadora de mulheres que eu conheci são do tipo que não se desesperavam nas situações que eu considerava perigosas ou assustadoras. Não estou falando de cair de um prédio ou de bater o carro, esses perigos não interessam a ninguém. Estou falando de medos subjetivos, medo de não ter resposta, de não saber o que fazer depois do beijo, de não saber para onde olhar, de não saber o que fazer ao acordar num quarto novo. Sempre tive medos assim.

No último fim de semana assisti a um filme que me fez pensar muito sobre isso, sobre esse medo ausente que muitas mulheres têm. É como se fosse um medo negativo, um instinto de ação nas situações em que um homem se sentiria indefeso ou encurralado. Me lembro de passar alguns apuros durante a adolescência quando ficava com meninas que não tinham medo das coisas. Eu era um cagão de primeira classe. Tinha medo de me apaixonar, medo de ser traído, medo de me apaixonar por outra pessoa no meio do caminho, medo de me flagrar infeliz e mergulhava nessas dúvidas sem resposta enquanto sentia minha mão sendo colocada em cinturas, seios, pescoços e rostos. Esse hábito que algumas mulheres têm de pegar a nossa mão e guiar o nosso tato sempre me apavorou.

A maioria das mulheres que eu conheci se jogavam de cabeça em incertezas vorazes. Que tipo de gente maluca se alimenta de situações assim? Existe uma calma perturbadora nas mulheres decididas. O mundo força a barra para que elas se desestabilizem, para que percam o controle, mas elas só sorriem e executam seja lá o que pretendem executar. Me apavorava o primeiro momento sozinho com uma garota nova. Me sentia em êxtase, com o coração acelerado e a adrenalina a mil, enquanto elas amoleciam, sempre sorrindo, perfumadas e macias, se mostrando calmas e decididas. A maior parte das meninas com quem eu fiquei quando era mais novo me metiam medo do começo ao fim, mas nunca pareciam sentir o mesmo.

Me fascina e impressiona essa calma sólida das mulheres diante da atenção de um homem. Ou de outra mulher, vai saber. Mesmo nos anos em que passei namorando – primeiro antes, e agora novamente – percebia e percebo essa mesma tranquilidade avassaladora nas meninas que ficam com meus amigos. Garotas que não enrijecem, não tremem, não vacilam, só vão, de vez, sem titubear. É coisa do impulso feminino? É saudável não sentir medo? De onde vem essa calma? Ela vem ou já está lá desde sempre? Acho que ninguém sabe…

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